2 OS GÊNEROS CARTA E CONTO E SUA APLICABILIDADE EM SALA DE
2.4 O TRABALHO COM CARTA E CONTO NA SALA DE AULA
O trabalho com gêneros, em especial “Carta” e “Conto” em uma turma de EJA de nível IV – 8º e 9º anos – forneceu a base para uma leitura crítica de algumas correspondências entre dois escritores, além da verificação de como essas correspondências caracterizam situações que aparecerão também em Os Contos de Belazarte, do escritor paulista Mário de Andrade. Nas cartas encontram-se: temas da literatura local, aspectos da literatura brasileira, modernização da cidade, observações sobre a cultura popular, questões relacionadas ao regionalismo e modernismo, traços de uma afetuosidade muito presente entre os dois escritores. Os alunos foram levados a encontrar no conto esses e outros elementos mais descritos na sequência didática. As questões relativas ao Regionalismo e principalmente ao Modernismo, relevantes para o projeto, não foram muito aprofundadas, pois a intervenção foi feita numa turma de EJA de Ensino Fundamental, mas não puderam ser relegadas, logo foram apresentadas de maneira simples, apenas para que os alunos se situassem em qual tempo e contexto as cartas e contos foram escritos, afinal como dizem Araújo et Sá (2012, p. 134):
O texto das correspondências analisadas permite concluir parcialmente que o ‘novo’, ao longo dos anos 1920 e, sobretudo na região Nordeste, abrange não só os registros do que se considerava ‘modernismo’, mas também a questão do regionalismo que se reapresentava de forma multifacetada e em diálogo com as questões originadas no centro intelectual regional da época, o estado de Pernambuco.
Os componentes curriculares da EJA visam a formação integral do aluno, principalmente nos traços definidores da sua cultura, mostrando a face do Brasil, que é esse país uno em sua multiplicidade, moderno e democrático. Na nossa cultura, temos traços de herança cultural europeia e de latinidade, mas etnicamente somos um povo mestiço, formado do entrecruzamento de várias raças. Numa perspectiva romântica, esses traços passaram a ser “suavizados”: o índio aparecia europeizado, a mestiçagem era ignorada e a paisagem amaneirada, tudo isso num processo de escrita idealizada. A Semana de Arte Moderna em 1922 foi o fomentador da nova literatura, pois o seu dinamismo somado à ousadia de alguns protagonistas do evento produziu uma renovação não só no âmbito literário, mas nas artes plásticas e na
música. O modernismo chega com o propósito relevante de ruptura dessa situação. Aspectos que denotavam obscuridade e entrave à elaboração da cultura, passam a ser geradores de beleza, atribuindo características significantes às raças e culturas localizadas nessa natureza rude, mas nem por isso, menos bela. Neste sentido, Antonio Candido (1980. p. 128) postula:
Um certo número de escritores se aplica a mostrar como somos diferentes da Europa e como, por isso, devemos ver e exprimir diversamente as coisas. Em todos eles encontramos latente o sentimento de que a expressão livre, principalmente na poesia, é a grande possibilidade que tem para manifestar-se com autenticidade um país de contrastes, onde tudo se mistura e as formas regulares não correspondem à realidade.
Mário de Andrade é um desses escritores e, nas suas obras, traduz esse sentimento de beleza que os ares modernos vêm trazer às terras tupiniquins, procurando tratar de redefinir a nossa cultura à luz de uma avaliação nova dos seus fatores. Há um comprometimento do escritor modernista com a identidade da cultura nacional a partir de uma descrição de como ele viu e desenvolveu o conceito de nacionalidade, representando um momento avançado nessa linhagem do pensamento brasileiro.
No livro Os Contos de Belazarte, Mário de Andrade traz o subúrbio, mostrando o jeito peculiar do brasileiro fazer as mesmas coisas que todos fazem: ganhar dinheiro, comer e dormir, fatos simples do cotidiano que se traduzem também nas cartas trocadas com Luís da Câmara Cascudo.
A publicidade das correspondências de grandes escritores é algo que tem que ser feita, haja vista a sua enunciação se dar no terreno da teoria literária, pois tem algo, ao mesmo tempo, de foro íntimo e da prosa de ficção, gerando um mesmo movimento em que o sujeito se abre ao outro para que este o conheça, e também se dando a conhecer por si mesmo. Delineados os dois sujeitos na arena da correspondência, há uma autenticação da paisagem de ambos, de como eles estão situados no contexto da época, de como se posicionam frente aos problemas, às ideologias e movimentos literários da época.
A leitura de algumas cartas da correspondência de Câmara Cascudo e Mário de Andrade forneceram elementos que mostraram essas questões referentes à brasilidade, ao “novo”, à pluralidade cultural, juntamente com o conto que veio mostrar a face do brasileiro naquela época e a sua importância para a formação do que hoje chamamos de homem pós-moderno.
No tocante ao ensino de literatura, o velho modelo pautado pela historicidade desvinculada dos textos não funciona, e faz-se necessário priorizar a leitura do próprio texto literário, sendo ele de todos os tipos e todos os níveis, pois satisfazem necessidades básicas do ser humano, enriquecendo a percepção e a visão de mundo, promovendo questionamentos sobre o universo, as relações humanas e sociais, os aspectos filosóficos, entre outros. No conto “Piá não sofre? Sofre.”, essas questões foram bem trabalhadas, embora o contexto histórico em que ele foi produzido não pôde deixar de ser visto. A análise das cartas trabalhadas permitiu ao aluno vislumbrar a década de 20, o vocabulário da época, a imagem das cidades – São Paulo e Natal, a vida dos escritores envolvidos no processo de correspondência e como essas vivências do período influenciaram a escritura do conto. Essa relação texto-situação é de extrema importância para a delimitação de significados possíveis num plano original de construção, ficando bem claro que, em outro momento histórico, diferente do original, esses textos poderiam adquirir novas significações adequadas a um outro mundo, a um outro contexto.