CAPÍTULO 2: PENSAMENTO E PRÁXIS CONSERVADORA NO SERVIÇO SOCIAL
2.1 O trabalho como dimensão central nas formas de (des)sociabilidade
Apresentamos a apreensão da centralidade do trabalho no processo de constituição do ser social, elemento fundamental para localizarmos a profissão de assistentes sociais nos domínios da sociedade capitalista a partir da relação contratual de compra e venda da força de trabalho assalariado, alienado e estranhado, e que
cumprem uma função no processo de reprodução social.
Com relação ao tema desta pesquisa, em seu cotidiano, assistentes sociais se veem compelidos a alienar o valor de uso do seu trabalho, suas atribuições e competências com indivíduos e famílias os quais vivenciam as refrações da questão social, para receberem uma remuneração em forma de salário e garantirem os meios necessários à sua subsistência e reprodução e de seus dependentes e familiares, quando necessário.
O trabalho tem sido vital na história da atividade humana. O homem, ser eminentemente histórico e social, realiza o emprego de sua força de trabalho não de forma isolada: realiza-o em um lugar determinado e integrado na totalidade do processo produtivo. Mediante sua ação, ocorre a mútua transformação do homem e da natureza e, por meio dessa atividade, desenvolve determinadas capacidades que contribuem para mediação de sua relação com os outros homens e para o processo de reprodução social.
A forma de realização e valoração do trabalho na sociedade capitalista aparece como expressão privilegiada do homem. Da desqualificação do trabalho à sua valoração, há um percurso histórico de surgimento e desenvolvimento de uma nova formação social, na qual a valorização não ocorre mais pela sua linhagem (como fora o senhor feudal ou o aristocrata, por exemplo), mas pelo poder econômico adquirido.
Das históricas formas de desenvolvimento do trabalho nas sociedades primitivas, seria, portanto, somente a partir da Revolução Industrial, essencialmente, no século XVIII, na Inglaterra, que o trabalho assumiria a forma assalariada. No entanto, longe de ter sido um processo pacífico de transição, lembra-nos Marx (1983, p. 150-153):
[...] o movimento histórico que transforma os produtores em trabalhadores assalariados, aparece, por um lado, como sua libertação da servidão e da coação corporativa; e esse aspecto é o único que existe para nossos escribas burgueses da História. Por outro lado, porém, esses recém-libertados só se tornaram vendedores de si mesmos depois que todos os seus meios de produção e todas as garantias de sua existência, oferecidas pelas velhas instituições feudais, lhes foram roubados. E a história dessa expropriação está inscrita nos anais da humanidade com traços de sangue e fogo.
O regime de produção e reprodução específico do modo de produção capitalista pressupõe a separação entre o trabalhador e a propriedade para realização do trabalho. Esboça-se, assim, o processo que engendra esse modo de produção: a separação entre o indivíduo e as condições necessárias à realização de seu trabalho.
Não há dúvidas de que o trabalho tem centralidade na produção e na reprodução da vida humana. Na análise dos economistas clássicos, as formulações se atêm ao homem como produtor de sua existência por meio da atividade sensível, ou seja, o trabalho. Para Costa (2006, p. 168),
Atividade que envolve objetividade e subjetividade, entrelaçadas na produção material, que faz da vida do homem uma forma radicalmente nova de existência, distinta e mais complexa do que todo movimento da natureza.
Como criador de valor, o trabalho é condição de existência do homem, eterna necessidade de mediação, portanto, entre homem e natureza. Nos dizeres de Marx (2013, p. 124):
Todo trabalho é, por um lado, dispêndio de força humana de trabalho em sentido fisiológico, e graças a essa propriedade de trabalho humano igual ou abstrato ele gera o valor das mercadorias. Por outro lado, todo trabalho é dispêndio de força humana de trabalho numa forma específica, determinada à realização de um fim, e, nessa qualidade de trabalho concreto e útil, ele produz valores de uso.
Portanto, por intermédio da atividade vital consciente, o homem distingue-se dos animais. Marx (2013) realiza uma célebre distinção entre o pior arquiteto e a melhor abelha: o primeiro projeta previamente o trabalho a ser realizado enquanto a segunda labora instintivamente. Para Marx, somente a partir dessa relação entre homens e natureza, se pode pensar o ser genérico.
O trabalho é em sua essência ontológico ao homem. Antes de transformar a natureza, o homem projeta idealmente o resultado, isso em razão do caráter teleológico expresso na ação. Por meio dele, o homem afirma-se como ser pensante, com agir consciente e racional. Portanto, o labor opera mudanças não apenas na matéria, mas no próprio homem (MARX, 2013).
Para Iasi (2010, p. 63)
O trabalho não é mera atividade que tira da natureza elementos que satisfazem as necessidades de existência (tenho sede, bebo água;
tenho fome, como um fruto), mas ele transforma a natureza para que os objetos produzidos possam satisfazer necessidades propriamente humanas. Não colhemos apenas o trigo tal como se apresenta na natureza para saciar nossa fome. O plantamos, colhemos, moemos seus grãos, fazemos a massa e a assamos em formato de pães que nos alimentam. Assim, a atividade do trabalho consiste em transformar a natureza, e não apenas na apropriação de seus elementos tal como se encontram.
Em sua forma simples, são elementos os quais compõem o processo de trabalho: a atividade orientada a determinada finalidade, a matéria ou o objeto, os meios e os instrumentos laborais. No processo de produção, os seres humanos produzem mais que os bens necessários à sua existência: “produzem suas próprias relações sociais; dito de outra maneira, produzem a si mesmos como seres sociais”
(IASI, 2010, p. 65).
Por meio do trabalho humano, são produzidas as mercadorias. Esta vem ao mundo como corpos de ferro ou trigo, por exemplo, como natural originária. Porém, apenas são mercadorias por constituírem-se em objetos úteis e conterem forma de valor. Marx (2013, p. 124) afirmou que “elas só aparecem como mercadorias ou só possuem a forma de mercadorias na medida em que possuem esta dupla forma: a forma natural e a forma de valor”. É, pois, em meio a tal contexto que a relação entre trabalho e salário encobre, por vezes, o fato de aquele ser uma mercadoria.
Segundo Marx (2004, p. 80),
O trabalhador torna-se tanto mais pobre quanto mais riqueza produz, quanto mais a sua produção aumenta em poder e extensão. O trabalhador torna-se uma mercadoria tanto mais barata, quanto mais mercadorias cria. Com a valorização do mundo das coisas aumenta em proporção direta a desvalorização do mundo dos homens. O trabalho não produz apenas mercadorias; produz também a si mesmo e ao trabalhador como mercadoria, e isto na medida em que, de fato, produz mercadorias em geral.
Marx foi o primeiro autor na história a colocar o indivíduo como produto de outros indivíduos em relação. Este, cria sua vida genérica no cotidiano; vida produzida e reproduzida nessa relação. Não poderia, pois, ser diferente: o homem é um ato histórico e são os indivíduos históricos e concretos que fazem a história em suas relações.
Segundo Matos (2015), no cotidiano, os sujeitos vivem a partir de seu
“eu”. Ao superar essa singularidade, poderá acessar a consciência humano-genérica.
Para tanto, é necessária a suspensão da heterogeneidade da vida cotidiana, sendo suas formas privilegiadas: a arte, o trabalho criador, a ética e a ciência. Para o autor
“não tem como o indivíduo ficar permanentemente “suspenso”, mas, ao voltar ao cotidiano, ele o percebe de forma diferente” (id., ibid., p. 684).
Por dar ação à subjetividade, o trabalho não produz apenas objetos, mas também o próprio homem. E isso sempre em relação com a realidade social na qual se relacionam, com outros homens, com a produção e o produto, ainda que este não lhe pertença ao final do processo.
Para Marx, o trabalho é o fundamento ontológico da sociabilidade humana e pode ser também, em determinadas condições, a causa de seu estranhamento. Dessa forma, “um objeto, criado pela exteriorização do trabalho, assume a forma de algo que se volta para seu criador como algo estranho que ele não controla” (IASI, 2010, p. 69).
A dominação daquele que nada produz sobre aquele responsável pela produção tem intrínseco um fato econômico, estudado por Marx como o estranhamento e a alienação do trabalhador para com sua produção. Ou, nas palavras do autor: “Se o produto do trabalho me é estranho e [se ele] defronta-se comigo como poder estranho, a quem pertence então? Se minha própria atividade não me pertence, é uma atividade estranha, forçada, a quem ela pertence, então?” (MARX, 2004, p.86).
Em seguida, apresenta: “o ser estranho a quem pertence o trabalho e o produto do trabalho, para o qual está a serviço e para a fruição do qual [está] o produto do trabalho, só pode ser o homem mesmo”.
Marx e Engels identificaram que a produção de riqueza gerada pelo capitalismo é proveniente da força de trabalho vendida ao capitalista e por ele explorada. E, ainda, que esse é um trabalho alienado, pois não é realizado para responder às necessidades do trabalhador.
Além dos homens não trabalharem mais como resposta às suas necessidades e venderem sua força de trabalho como mercadoria, passam a não dominarem e até a não conhecerem mais todas as etapas do trabalho. O capitalista se apropria de todo o processo de trabalho e o subordina aos seus interesses.
Segundo Iasi (2010, p. 78), “o trabalhador só encontra o meio de garantir os elementos
essenciais à sua existência ao vender-se para o capital, portanto, a sorte do capital determina sua sorte”.
A tradição intelectual e política de Karl Marx permanece após sua morte.
Seus estudos e análises nos subsidiam na contemporaneidade, uma vez que o capitalismo não foi superado, mas se complexificou. Exemplo disso é o resultado buscado para a crise do capital de 1970 no qual se procurava introduzir novos paradigmas na produção e “reforma” do Estado, leia-se contrarreforma. Com o declínio das estratégias de produção baseadas no modelo taylorista/fordista, hegemônico até meados de 1970, entra em declínio a partir das influências do modo Toyotista de produção e são compostas pelas diretrizes da “reestruturação produtiva”
e da “acumulação flexível”.
Para Iasi (2010, p. 69):
Os seres humanos se relacionam entre si e criam formas de reprodução não apenas física, mas de um modo de vida determinado, formas de família que se apresentam como objetivações que determinam o ser social não apenas em suas personalidades pessoais como em formas de conduta socialmente aceitas, papéis sociais, padrões de comportamento, relações de gênero e outras. Da mesma forma, o conjunto das relações sociais de produção que define certa sociabilidade, produto da ação histórica dos seres humanos, se apresenta a estes como um produto incontrolável que os subjuga e determina sua existência ou mesmo a impede.
Matos (2017) faz referência ao debate realizado nos anos de 1980 acerca do fim da centralidade da categoria trabalho. Segundo o autor, os argumentos na tradição marxista indicaram:
[...] que como nunca o capital tem utilizado o trabalho como forma de alavancar a sua busca por superlucros. Apontou-se também para a centralidade do trabalho como constituinte do homem e percebeu-se que, no atual estágio do capitalismo, esse continua se apropriando do trabalho como forma de enriquecimento. Ou seja, nunca se trabalhou tanto e de forma tão alienada (id., ibid., p. 38, grifos nossos).
Portanto, na atual sociedade capitalista, o homem continua potencialmente alienado, pois não vê o resultado de seu trabalho, isto é, o produto final. O trabalho alienado está intrinsicamente imbricado na reprodução do capital e
se expressa nas dimensões das relações sociais, assim como nas diversas expressões da questão social, agravadas sob a égide da barbárie neoliberal.
Nesse contexto, compreendemos o Serviço Social como expressão do trabalho coletivo, mediação privilegiada do exercício profissional diante das configurações da questão social na sociedade capitalista. As mais diversas profissões, como a de assistentes sociais, são resultado de requisições do mercado de trabalho e ocupam lugares específicos na divisão social e técnica do trabalho.
No que se refere à atividade profissional desta categoria profissional, esta foi apreendida como um tipo de especialização do trabalho coletivo, inserida na relação de assalariamento e submetida ao processo de alienação, próprio do sistema capitalista de produção. Conforme Iamamoto e Carvalho (2014, p.83)
[...] ao ser expressão de necessidades sociais derivadas da prática histórica das classes sociais no ato de produzir e reproduzir os meios de vida e de trabalho de forma socialmente determinada. O desenvolvimento das forças produtivas e as relações sociais engendradas nesse processo determinam novas necessidades sociais e novos impasses que passam a exigir profissionais especialmente qualificados para seu atendimento, segundo os parâmetros de “racionalidade” e “eficiência” inerentes à sociedade capitalista.
Portanto, assistentes sociais, componentes da classe trabalhadora e inseridos/as em processos de trabalho, participam do processo de produção e reprodução das relações sociais ao intervirem nas manifestações da questão social presentes na vida social.
Trata-se de uma profissão que atua no campo dos serviços, especialmente na operacionalização de políticas sociais estatais. Essa afirmativa,
[...] coloca em discussão o caráter dos serviços prestados pelos Estado, que em tese não têm o objetivo de produzir mercadorias e/ou extrair valor nem mais-valia, a não ser quando esses serviços são organizados sob a lógica da produção capitalista, como no caso das empresas estatais. [...] Sendo o trabalho assalariado nesse âmbito [do Estado] improdutivo (RAICHELIS, 2018, p. 41, adição nossa).
No campo dos serviços, há polêmicas em torno da compreensão do trabalho produtivo e improdutivo. Marx (1978) analisou o caráter produtivo do trabalho a partir da relação estabelecida com o capital, produzindo ou não mais-valia. Suas
contribuições nos subsidiam diante das contemporâneas condições postas pelo capitalismo mundializado, financeirizado e sob a hegemonia neoliberal.
Para subsidiar as análises desta investigação, é importante considerar as especificidades em torno das relações de trabalho no setor público, pois “são relações entre não proprietários de meios de produção entre si (funcionários e governos ou governantes e dirigentes), em vez de relações diretamente capitalistas”
(NOGUEIRA, 2005a, p. 04).
Analisando o sindicalismo e as relações de trabalho no setor público, Nogueira (2005a/2005b) discute que mesmo não produzindo valor diretamente para acumulação de capital, a exploração do trabalho pelo Estado não é suprimida.
Para o autor,
A exploração ocorre na esfera da reprodução do capital, ou seja, nos processos de serviços e administração voltados à esfera da reprodução social e política do conjunto da sociedade de classes. A taxa de exploração do trabalho no Estado envolve a quantidade de salário em relação à jornada de trabalho e às condições necessárias de vida em sociedade, mas, não é realizada para produzir, e sim reproduzir o capital (NOGUEIRA, 2005a, p. 04).
Sendo de matéria do Serviço Social as políticas sociais destinadas à reprodução social, a compreensão da condição de subsunção da classe trabalhadora ao capital nos parece imprescindível. Assistentes sociais, inseridos/as em instituições públicas ou privadas, dispõem de relativa autonomia na realização de seu trabalho – na esfera privada, compõe parte do lucro, e na esfera pública, submetido aos interesses neoliberais.
Sem esse entendimento, corre-se o risco de se interpretar de forma idealista o trabalho profissional, seja da ideação messiânica de que tudo pode, seja do pessimismo fatalista que apenas incorpora os impeditivos de realização de um trabalho crítico com qualidade.
Segundo Antunes (2018, p. 64):
As formas de intensificação do trabalho, a burla dos direitos, a superexploração, a vivência entre a formalidade e a informalidade, a exigência de metas, a rotinização do trabalho, o despotismo dos chefes, coordenadores e supervisores, os salários degradantes, os trabalhos intermitentes, os assédios, os adoecimentos, padecimentos e mortes decorrentes das condições de trabalho indicam claro processo de proletarização dos assalariados de serviços que se encontra em expansão no Brasil e em várias partes do mundo [...].
Toda essa precarização se reflete nas condições de vida da classe trabalhadora, estimula discriminações em suas dimensões de raça e etnia, gênero e geração que, dentre outros, repercutem no barateamento do custo da força de trabalho. Uma análise aprofundada desses processos vai demonstrar que suas raízes remontam à escravidão, ao patriarcado e ao patrimonialismo.
Estes fazem parte da formação sócio-histórica do Brasil que carrega, segundo Ianni (2004, p. 14) “[...] continuidade colonial de base escravocrata e um conservadorismo por sua estrutura social”. Tais bases sociais assentam as expressões da desigualdade estrutural na sociedade brasileira.
Além disso, a contrarreforma trabalhista instrumentalizada pela Lei nº 13.467, de 2017, já manifesta seus devastadores efeitos para o conjunto dos/as trabalhadores/as: jornadas de trabalho intermitentes, subcontratações, demissões em massa, intensificação das terceirizações, precariedade generalizada e superpopulação relativa. Enfim, há um processo de desmantelamento social, e à burguesia interessa a lucratividade, mesmo que o preço seja a desumanização e a barbárie. Nessa relação, ao Estado cabe acelerar os “ajustes fiscais”.
Em termos da gestão do trabalho especificamente nas políticas sociais, dentre elas na assistência social, a relação de exploração deste tem implicado a tendência à implantação de um modelo de gestão de natureza gerencialista e funcionalista, de perspectiva normativa. Sua dinâmica pode provocar a segmentação da classe trabalhadora, aprimorar o controle sobre sua subjetividade e enfraquecer sua representatividade (RAICHELIS et al., 2019a).
Trabalhar com as mais diversas expressões da questão social vivenciadas pelos sujeitos tem sido um desafio cada vez mais complexo. Destacamos a luta dos/as desempregados pela subsistência, os trabalhos eventuais que não garantem segurança de renda e direitos trabalhistas, a ausência de moradia digna e a insegurança nas ocupações, a atração dos jovens ao tráfico de drogas, a violência contra idosos, mulheres e crianças, além da violência policial.
Com relação ao tema da pesquisa, o trabalho social com famílias está inserido em processos de trabalho, especificamente, naquele em serviços no contexto das políticas sociais. Nesses termos, seguimos com análises referentes ao processamento do trabalho com famílias e suas formas de organização que requerem intencionalidade, racionalidade e planejamento visando a atingir determinada finalidade.