3. O QUE REVELAM OS DOCUMENTOS NORTEADORES DO PROFMAT?
3.4 Trabalho de Conclusão de Curso do PROFMAT
O Trabalho de Conclusão de Curso do PROFMAT se apresenta como regra para toda a rede nacional, sendo norteado por meio das linhas de pesquisa que o programa possui. Este trabalho é realizado no último período do curso (período de verão), conforme a orientação de um professor da determinada instituição associada, seguindo uma linha de pesquisa e sua devida área de concentração.
Segundo documentos norteadores do programa, as linhas e as áreas de pesquisa do PROFMAT estão expressas no quadro a seguir:
Quadro 8 – Linhas de Pesquisa do PROFMAT
Linhas de Pesquisa Área de Concentração
Teoria de Singularidades Geometria e Topologia
Equações Diferenciais Parciais Análise Matemática
Análise Funcional Análise Matemática
Teoria dos Números Álgebra
Otimização Matemática Aplicada
Análise Numérica Matemática Aplicada
Sistemas Dinâmicos Geometria e Topologia
Geometria Diferencial Geometria e Topologia
Geometria Algébrica Álgebra
Ensino Universitário de Matemática Ensino de Matemática
Ensino Básico de Matemática Ensino de Matemática
Fonte: SBM (2017, p. 8).
Analisando essas linhas de pesquisa e suas respectivas áreas de concentração, é evidente o quanto elas se aproximam da área pura da Matemática, também corroborando com os objetivos do programa. Portanto, se faz necessário refletir o porquê tais linhas e áreas são voltados para uma Matemática de nível médio e/ou superior, quando o programa se propõe a formação e qualificação do professor da rede básica de ensino.
Caldatto (2015) já evidenciou que, exceto a linha de pesquisa Ensino de Matemática, as demais são objetos de estudos somente nos cursos de bacharelado e/ou pós-graduação em Matemática. Portanto, reafirma-se que consistem em uma Matemática de nível médio e/ou
superior, gerando produtos que nem sempre condiz com a realidade na educação básica. No parecer da SBEM (2010), problematiza-se a seguinte questão:
As Linhas de pesquisa são outro problema sério na proposta que não está equacionado. A entrada do aluno no Mestrado implica na inserção do mestrando na linha de pesquisa do orientador. Mas as linhas de pesquisas dos possíveis orientadores que figuram na proposta apresentada são de Matemática pura, tais como Análise, Topologia, Geometria Diferencial, Álgebra, etc. Como se dará a inserção dos alunos nos Programas? Os alunos formados receberão o título em Mestrado Profissional em Matemática em qual linha? (SBEM, 2010, online). Analisando as linhas de pesquisa em outros quesitos, frisamos que ao denominar a linha de pesquisa como “Ensino de Matemática” espera-se que seja uma linha voltada a formação do professor de Matemática em questões didáticos-pedagógicas. Porém, Caldatto (2015) questiona o fato da disciplina ser voltada para o ensino universitário, uma vez que, objetivamente o PROFMAT se propõe a contribuir para a formação do professor de Matemática do ensino básico, havendo então um “imenso distanciamento entre esses conhecimentos e os contemplados na prática do professor da educação básica ao ensinar a Matemática nesse nível de ensino e a teorização referente à dimensão Matemática da formação do professor de Matemática” (CALDATTO, 2015, p. 155).
Adiante, segundo o regimento da SBM (2016), tanto os temas dos Trabalhos de Conclusão de Curso, quanto os critérios de avaliação são definidos pela Comissão Acadêmica Institucional. A banca examinadora é composta por três membros, sendo um avaliador externo do IMPA. Quanto ao trabalho em si, este tem que ser caracterizado como inovador para o programa e que tenha um impacto direto na prática docente. Podendo ser realizado individualmente ou em grupo, com orientação de um professor formador do PROFMAT na instituição associada.
Nos aspectos gerais, o regimento ainda propõe que:
RegInt – 2: Os Trabalhos de Conclusão de Curso devem versar sobre temas específicos pertinentes ao currículo de Matemática do Ensino Básico e que tenham impacto na prática didática em sala de aula. Cada Trabalho de conclusão de curso é apresentado na forma expositiva sobre o tema do projeto e de um trabalho escrito, com a opção de apresentação de produção técnica relativa ao tema (grifo nosso).
A partir dessas orientações fica entendido que as dissertações realizadas no programa possuem viés conteudista, mesmo que se objetiva um impacto e abordagem na realidade escolar. No caso, é apresentado determinado conteúdo específico da Matemática com uma abordagem de aplicabilidade em sala de aula. “É desse modo que o PROFMAT continua
repetindo o tradicional conteudismo que ocorre desde as licenciaturas em Matemática” (VELOSO, 2017, p. 38).
Toda essa perspectiva de aplicar determinado conteúdo em sala de aula se apresenta como uma dubiedade, pois também indica melhoria nas condições da prática educacional com temas relevantes para dinâmica de aprendizagem na sala de aula, como é reforçada nos seguintes trechos:
RR – 1: Os produtos gerados pelo Programa devem guardar uma estreita relação com as atividades realizadas nas salas de aula, de forma a possibilitar que os discentes do curso possam melhorar suas práticas educacionais.
Reg – 4: Art. 21 O trabalho de conclusão final do PROFMAT poderá ser apresentado em diferentes formatos, tais como dissertação, revisão sistemática e aprofundada da literatura, artigo, patente, registros de propriedade intelectual, projetos técnicos, publicações tecnológicas; desenvolvimento de aplicativos, de materiais didáticos e instrucionais e de produtos, processos e técnicas; produção de programas de mídia, editoria, relatórios finais de pesquisa, softwares, projeto de aplicação ou adequação tecnológica, protótipos para desenvolvimento ou produção de instrumentos, equipamentos e kits, projetos de inovação tecnológica, sem prejuízo de outros formatos, de acordo com temas específicos pertinentes ao currículo de Matemática da Educação Básica e impacto na prática didática em sala de aula (grifo nosso).
Portanto, corrobora com os objetivos supracitados do PROFMAT, evidenciando-se tendências que legitimam as finalidades educacionais do programa, validando-o em todas suas especificidades. E por fim, certificando que o egresso cumpriu com as metas, e possui uma formação técnica com habilidades e competências, voltada para formação de alunos nessa mesma perspectiva.
Ostermann e Rezende (2009) tecem reflexões sobre esses trabalhos de conclusão de curso na área de física, no sentido que vigora como regra em quase todos os mestrados profissionais a obrigatoriedade de um produto educacional que se relacione com a prática docente como forma de visar uma melhoria na qualidade do ensino, utilizando o conteúdo que possa ser futuramente usado por outros professores, carregando então, uma visão tecnicista de ensino. Pois, “ao se elaborar um produto final, está-se dando prioridade ao como ensinar, e não ao por quê ou ao o quê, além de estar implícito que a introdução de um produto trará qualidade ou solucionará os problemas educacionais” (REZENDE e OSTERMANN, 2015, p. 555).
Na busca de superar essa concepção tecnicista enraizada nos trabalhos de conclusão de curso, é interessante que se invista em “produtos que não apenas contemplam a eficiência de um método de ensinar dado conteúdo, mas que envolvam uma reflexão sobre um problema educacional vivido pelo professor em uma dada realidade escolar e que levaria ao desenvolvimento de atividades curriculares” (OSTERMANN e REZENDE, 2009, p. 71).
Um ponto que merece destaque sobre o trabalho de conclusão do curso é que na atualidade, suas propostas vão ao encontro com as propostas da BNCC, no quesito de criar um produto educacional voltado para o ensino da Matemática por meio de tecnologias com temas pertinentes do currículo a serem abordados de forma didática.
Dessa forma, a proposta didática do professor diante a BNCC favorece o desenvolvimento do raciocínio lógico e estimula os alunos à investigação, contemplando o letramento matemático em seus objetivos, de estabelecer conjecturas, formulações e resoluções de problemas. Além disso, ainda auxilia o professor na busca de formar os alunos protagonistas, desenvolvendo a competência de aprender a aprender por meio da investigação que se propõe nesse trabalho, mas atrelado ao quadro de valores da BNCC.
De todo modo, é válido concluir que alguns produtos educacionais oriundos do PROFMAT realmente têm relação com a educação escolar e com a prática educativa, porém não necessariamente são voltados para a educação básica, mesmo que possua como objeto principal a relação pedagógica pareada com algum conteúdo em específico da Matemática. Dessa forma há uma incongruência com os objetivos propostos pelo programa, no que se refere a elaboração do Trabalho de Conclusão de Curso e suas respectivas linhas de pesquisa.
Adiante, analisaremos como se constitui os Exames Nacionais – ENA e ENQ, relacionando com o perfil dos professores que buscam a Formação Continuada por meio do PROFMAT, e a visão que se tem de tais exames avaliativos.