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TRABALHO DE GRUPO COM AS CRIANÇAS DESAJUSTADAS

O estudo de formações grupais compostas por adultos, adolescentes ou crianças sadias lança luz sobre o problema do cuida do de grupos formados por crianças doentes (no sentido de serem desajustadas).

Esta palavra horrível — desajustamento — significa que, nu ma data recuada, o ambiente deixou de ajustar-se às necessidades da criança, que foi competida assim a assumir para si o trabalho de cobertura, perdendo a identidade pessoal, ou senão a fazer-se incômoda para a sociedade a fim de forçar alguém a dar- lhe cobertura, exigindo uma nova oportunidade de lançar-se à tarefa da integração pessoal.

A criança anti-social tem duas alternativas — aniquilar o self verdadeiro ou cutucar a sociedade até que esta lhe ofereça cobertura. A existência dessa segunda opção pode ocasionar o reaparecimento do self verdadeiro; é melhor existir verdadeiramente, mesmo na prisão, do que aniquilar-se numa complacência sem sentido.

Em termos dos dois extremos que descrevi, é evidente que nenhum grupo de crianças desajustadas irá aglutinar- se devido à integração pessoal dos meninos e meninas. Isso se deve em par te ao fato de o grupo ser composto de adolescentes ou crianças, que são seres humanos imaturos; mas a principal razão é o fato dos membros serem todos não-integrados, em diferentes graus. Cada menino ou menina, portanto, tendo sido sustado em sua integração em algum momento da primeira infância, apresenta uma necessidade anormal de cobertura.

Qual a maneira, pois, de cuidarmos dessas crianças, de mo do que estejamos certos de que nosso cuidado adaptar- se-á a suas necessidades mutáveis à medida que progridem para um estado de saúde? Há dois métodos alternativos:

(í) Pelo primeiro, um abrigo cuida de um mesmo grupo de crianças até que atinjam a idade-limite, proporcionando-lhes aqui lo de que necessitam nas várias etapas de seu desenvolvimento. No início, os funcionários dão-lhes cobertura, constituindo nessa base o grupo. Nesse grupo-cobertura, depois do período de “lua-de-mel”, as crianças pioram muito, e com sorte atingem um máximo de não-integração. Não o fazem, felizmente, todas ao mesmo momento, e aproveitam-se umas às outras de modo a, nu ma dada situação, haver geralmente uma criança que está muito pior que todas as outras. (Qual não é a tentação de livrar-se dessa criança, fracassando assim no ponto mais crítico do processo!)

Gradualmente, uma por uma, as crianças começam a atingir sua integração pessoal; no decorrer de cinco ou dez anos, aquele mesmo conjunto de crianças transformou-se numa outra espécie de grupo. As técnicas de cobertura

podem ser abrandadas, e o grupo começa a integrar-se a partir das forças que promovem a integração no interior de cada indivíduo.

Os funcionários devem estar sempre prontos a restabelecerem a cobertura no momento, por exemplo, em que uma criança é pega roubando em seu primeiro emprego, ou quando demonstra outros sintomas do medo inerente ao estado do EU SOU, ou independência relativa.

(ii) Pelo segundo método, um grupo de abrigos trabalha em conjunto. Cada abrigo é classificado de acordo com o tipo de trabalho que realiza, e permanece sempre trabalhando nessa mesma área. Por exemplo:

O abrigo A dá 100% de cobertura. O abrigo B dá 90% de cobertura. O abrigo C dá 65% de cobertura. O abrigo D dá 50% de cobertura. O abrigo E dá 40% de cobertura.

As crianças, através de visitas planejadas, conhecem todos os abrigos do grupo, e os assistentes também são transferidos de um para outro. Quando uma criança do abrigo A atinge algum grau de integração pessoal, ela sobe um degrau na escala. Desse modo, as crianças que melhoram chegam por fim ao abrigo E, que se especializa em dar cobertura à investida adolescente em direção ao mundo.

O próprio grupo de abrigos recebe a cobertura, neste caso, de alguma autoridade e de um comitê de abrigos. A principal dificuldade desse segundo método é a possibilidade de os funcionários dos diferentes abrigos não conseguirem entender-se, o que só não ocorrerá se realizarem reuniões periódicas e mantiverem-se informados dos métodos que cada abrigo está usando e do êxito ou fracasso obtido. O abrigo B, que dá 90% de cobertura e faz todo o trabalho sujo, será mal visto; receberá notificações e visitas de verificação, O abrigo A será melhor visto, pois lá não haverá lugar para a liberdade individual; todas as crianças parecerão felizes e bem alimentadas, e os visitantes o apreciarão sobre todos os outros, O diretor precisará ser um ditador, e sem dúvida atribuirá os fracassos dos demais abrigos à falta de disciplina. Mas as crianças do abrigo A nem sequer deram início a seu processo. Estão preparando-se para isso.

Nos abrigos B e C, onde as crianças permanecem caídas sobre o chão, recusam-se a levantar, não comem, sujam as calças, roubam algo toda vez que sentem um impulso amoroso, torturam gatos, matam ratos e enterram-nos para terem um cemitério aonde possam ir e chorar, nestes abrigos, digo, deveria haver uma placa: não são permitidas visitas. Os diretores de tais abrigos têm o perpétuo dever de dar cobertura a almas nuas, e convivem com tanto sofrimento quanto o que se pode ver nos hospitais psiquiátricos para adultos. Como é difícil conservar um bom corpo de pessoal sob tais condições!

De tudo o que se pode afirmar acerca dos abrigos enquanto grupos, escolhi tratar da relação do trabalho de grupo com a maior ou menor quantidade de integração pessoal de cada uma das crianças. Creio ser básica esta relação: quando há um sinal positivo, as crianças trazem consigo suas próprias forças integrativas; quando há um sinal negativo, o abrigo proporciona cobertura semelhante à vestimenta de uma criança nua e aos braços maternos segurando um bebê recém-nascido.

Face a uma confusão de classificação quanto ao fator de integração pessoal, o abrigo não pode encontrar seu lugar. A per turbação das crianças doentes predomina, e as crianças mais normais, que poderiam estar já contribuindo para o grupo, não têm essa oportunidade, uma vez que a cobertura tem de estar presente a todo momento e em todo lugar.

Creio que minha super simplificação do problema pode justificar-se na medida em que proporciona uma linguagem simples para a classificação de crianças e abrigos. Os funcionários de tais abrigos estão a todo momento recebendo o troco por inúmeros colapsos ambientais prematuros sobre os quais não tiveram nenhuma responsabilidade. Para que suportem essa terrível tensão e para que, em alguns casos, cheguem até a corrigir os males passados através de sua tolerância, é necessário que eles saibam o que estão fazendo e o porquê de nem sempre serem capazes de obter êxito.