3. A AGENDA DO TRABALHO DECENTE DA OIT
3.2. Trabalho Decente
Segundo Proni (2013) a década de 1990 foi marcada por uma instabilidade econômica no país devido à adoção de uma política neoliberal que ocasionou o aumento do desemprego, da informalidade e na queda considerável dos rendimentos médios. À época, era de entendimento da OIT que países em desenvolvimento deveriam reduzir seus níveis de informalidade e garantir os direitos trabalhistas para assim, gerar um nível elevado de emprego.
O autor explica ainda que a incorporação da globalização na economia brasileira foi necessária, porém, com consequências negativas. Segundo afirma foi preciso a OIT adaptar-se ao novo modelo econômico implantado e estruturar de forma mais significativa suas intervenções, de modo a participar com mais relevância nas mudanças no trabalho. Desta forma, lançou a promoção do “trabalho decente” por entender que o trabalho é a via fundamental para a superação da pobreza, da inclusão social e do desenvolvimento social mais consistente em relação à economia como a brasileira. (PRONI, 2013)
O compromisso oficial entre o Governo brasileiro e a OIT com a promoção do trabalho decente ocorreu no ano de 2003, com a assinatura do memorando entre o então presidente da república Luís Inácio Lula da Silva e o Diretor-Geral da OIT Juan Somavia. (OIT BRASIL, 2018)
Segundo a ANTD (2006, p.10), as prioridades definidas da Agenda Nacional de Trabalho Decente em 2006 foram:
i)
A geração de mais e melhores empregos, com igualdade de oportunidade e de tratamento;ii)
A erradicação do trabalho escravo e do trabalho infantil, em especial, em suas piores formas;iii)
O fortalecimento dos atores tripartites e do diálogo social como instrumento de governabilidade democrática.Como definição, a OIT estabelece que o Trabalho Decente é o ponto de convergência dos quatro principais objetivos da Organização:
i) Liberdade sindical e reconhecimento efetivo do direito de negociação coletiva; ii) Eliminação de todas as formas de trabalho forçado;
iv) Eliminação de todas as formas de discriminações em matéria de emprego e ocupação, a promoção do emprego produtivo e de qualidade, a extensão da proteção social e o fortalecimento do diálogo social. (OIT BRASIL, 2018).
É de entendimento que a erradicação da pobreza e a igualdade de gênero, bem como a erradicação de toda a forma de trabalho forçado que vitimiza em especial as mulheres e as crianças em todo o mundo, são essenciais para o trabalho digno.
3.2.1. A Agenda Nacional de Trabalho Decente
A Agenda Nacional de Trabalho Decente estabelecida em acordo no ano de 2006 prevê a promoção da geração de trabalho decente para o combate à pobreza e as desigualdades sociais, mediante três prioridades, que são:
i) Gerar Mais e Melhores Empregos, com Igualdade de Oportunidades e de Tratamento;
ii) Erradicar o Trabalho Escravo e Eliminar o Trabalho Infantil, em especial em suas piores formas. iii) Fortalecer os Atores Tripartites e o Diálogo Social como um instrumento de governabilidade
democrática.
Espera-se como resultados da prioridade 1 uma Política Nacional de Emprego elaborada e implementada em um processo de diálogo com os interlocutores sociais; Metas de criação de emprego produtivo e de qualidade incorporadas nas estratégias nacionais de desenvolvimento econômico e social (incluídas as estratégias de redução da pobreza e da desigualdade social) e nas políticas setoriais (industrial, agrícola, agrária, de promoção do turismo e de promoção da economia criativa). (ILO, 2006)
Na prioridade 2 espera-se a erradicação do Trabalho Infantil e Erradicação do Trabalho Escravo implementados e monitorados, com ênfase em estratégias de reinserção social e de prevenção, em consonância com o previsto nas seguintes convenções da OIT: Convenção nº 138, de 1973, sobre idade mínima para admissão ao emprego; Convenção nº 182, de 1999, sobre proibição das piores formas de trabalho infantil e ação imediata para sua eliminação; Convenção nº 29, de 1930, sobre trabalho forçado ou obrigatório; Convenção nº 105, de 1957, sobre abolição do trabalho forçado. (ILO, 2006)
E, na prioridade 3, espera-se a consolidação de mecanismos de diálogo social e institucionalizados; constituintes tripartites capacitados para participar ativamente e incidir na definição de políticas nacionais de fomento ao emprego e trabalho decente e, a cultura do diálogo social fortalecida. (ILO, 2006)
Para monitorar a aplicação das políticas e avaliar os resultados dos indicadores, serão realizadas reuniões periódicas do Comitê Executivo que irão revisar a Agenda Nacional de Trabalho Decente, em consulta sistemática às organizações de empregadores e de trabalhadores. (ILO, 2006)
3.2.2 A noção de ‘Trabalho Decente’ e a mulher
No Relatório publicado pela OIT em 2016 intitulado “Mulheres no Trabalho – Tendências 2016”, foi abordado as dificuldades enfrentadas pelas mulheres no mercado de trabalho em todo o mundo, citando a Agenda Universal 2030, elaborada como um plano de ação para as pessoas, para o planeta e para a prosperidade, sendo a pobreza extrema o maior desafio. Na Agenda 2030 há dezessete Objetivos de Desenvolvimento Sustentado, no qual os países membros devem adotar para, em quinze anos, alcançar o objetivo proposto.
A Agenda 2030 é reconhecida como uma oportunidade para abordar as persistentes desigualdades de gênero no trabalho e um dos dezessete objetivos apontados é alcançar a Igualdade de Gênero e empoderar toda a população feminina.
Segundo o relatório Mulheres no Trabalho – Tendências 2016, em vinte anos, em todo o mundo, houve um progresso satisfatório das mulheres na educação, contudo isso não foi capaz de melhorar a situação feminina no mercado de trabalho. As mulheres ainda são mais propensas a ficar desempregadas, se comparadas aos homens e, muitas vezes, as ofertas de empregos são de baixa qualidade. A divisão de trabalho não remunerado é uma preocupação em todo mundo por dificultar a entrada e a permanência delas no mercado de trabalho.
Ainda, segundo o relatório, as disparidades de gênero na população ativa e nas taxas de emprego diminuíram apenas marginalmente entre 1995 e 2015, a taxa de atividade global da população feminina diminuiu de 52,4 por cento para 49,6 por cento. Os números correspondentes para os homens são respetivamente de 79,9 e 76,1 por cento. As oportunidades de participação das mulheres no mercado de trabalho no mundo permanecem quase 27 pontos percentuais abaixo das oportunidades dos homens. (MULHERES NO TRABALHO – TENDÊNCIAS 2016, 2016).
Em relação ao desemprego, o relatório concluiu que em todas as regiões do mundo, com exceção do Leste Asiático, Leste da Europa e América do Norte, as taxas de desemprego das mulheres são maiores do que a dos homens. Entre os jovens, em quase todas as regiões do mundo, as mulheres são mais afetadas com o desemprego do que os homens. (MULHERES NO TRABALHO – TENDÊNCIAS 2016, 2016).
O relatório destacou também a dupla jornada de trabalho e o trabalho com o cuidado com outros membros da família, prejudicando majoritariamente o gênero feminino, ocasionando uma maior probabilidade de as mulheres dedicarem menos tempo ao trabalho remunerado. Análises feitas em 100 países concluíram que mais de um terço das mulheres empregadas (34%) trabalham menos de 35 horas por semana, em comparação com 23% dos homens empregados.
No Gráfico 2.1 percebe-se que as disparidades de gênero são mais elevadas na maioria dos países da Europa, Ásia Central e Ocidental, Ásia Meridional, América Latina e Caraíbas.
Gráfico 2.1- Pessoas que trabalham menos de 35 horas por semana e diferença
Fonte: Mulheres no Trabalho – Tendências 2016 Cálculos da OIT com base em dados dos inquéritos nacionais aos agregados familiares.
As estimativas globais baseiam-se em 100 países representando mais de 87 por cento do emprego total. Os Estados Árabes não estão representados na Figura devido a uma representação inferior a 25 por cento. Foram usados os últimos dados disponíveis (dados de 2010 e posteriores para 80 por cento dos países). As regiões estão ordenadas por aumentos nas disparidades de gênero no emprego a tempo parcial em percentagem do emprego total. (MULHERES NO TRABALHO – TENDÊNCIAS 2016, 2016).
Em relação à equidade salarial, segundo o relatório se não houver mudanças estruturais e a tendência continuar, será necessário ainda setenta anos para conseguir uma distribuição salarial igualitária entre homens e mulheres. A diferença salarial, percebida em todas as economias, se dá, além do nível educacional e da idade, também pela discriminação,
subvalorizarão do trabalho feminino e, das responsabilidades extras atribuídas às mulheres. (MULHERES NO TRABALHO – TENDÊNCIAS 2016, 2016).
O relatório enfoca a necessidade de um enquadramento político integrado, com medidas transformadoras, capaz de proporcionar às mulheres o acesso a empregos com maior qualidade e sem discriminação de gênero, entendendo que, apesar de em todo o mundo as mulheres serem a maioria nos cursos de ensino superior, ainda convivem com obstáculos de acesso ao emprego.
O relatório também propugna desconstruir a segregação setorial e profissional e eliminar a diferença salarial com base na discriminação e alerta para a necessidade de incorporar princípios de igualdade, seja de oportunidade, seja de tratamento, nas leis e instituições.
Também ressalta a importância do trabalho não remunerado nos cuidados domésticos e dos familiares. Cabe ao Governo tomar medidas que igualem a responsabilidade entre homens e mulheres nos cuidados dos familiares; promover empregos dignos na área dos cuidados e promover serviços de cuidado com boa qualidade para as crianças, permitindo que as mulheres se dediquem mais ao lado profissional. É entendido no relatório que proteção à maternidade a todas as mulheres e aumentar a oferta de licença remunerada para os pais aumentaria o apoio entre os homens nos cuidados dos filhos. E, em relação aos cuidados remunerados, estes devem ser valorizados.
Alcançar a igualdade entre homens e mulheres, em conformidade com a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, é um requisito prévio indispensável para a realização de um desenvolvimento sustentável que não deixe ninguém para trás e garanta que o futuro do trabalho é o trabalho digno. (MULHERES NO TRABALHO – TENDÊNCIAS 2016, 2016).
A Organização Internacional do Trabalho – OIT, bem como a Agenda Nacional de Trabalho Decente é um importante passo para identificar os principais problemas existentes no mundo do trabalho e no âmbito social em geral e, consequentemente, na busca da implementação do ideário de justiça social proposto por esta entidade.