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O TRABALHO DO PSICÓLOGO DENTRO DA MEDIDA DE SEMILIBERDADE

A medida de semiliberdade, segundo o art. 120 da Lei nº 8.069 de 13 de julho de 1990, constitui um meio entre a liberdade e a internação. Conforme o parágrafo 2°, o que determina o prazo para o cumprimento desta responsabilização é a resposta dada pelo próprio adolescente à medida. No entanto, a medida deverá ser avaliada a cada seis meses e não poderá exceder o prazo de três anos de internação.

5.4 O trabalho do Psicólogo Dentro da Medida de Semiliberdade

A atuação do profissional de psicologia nas medidas socioeducativas de semiliberdade se dá mediante o acompanhamento do jovem durante o cumprimento da medida. Como distinção, em relação à função dos demais profissionais que atuam nesse campo, o psicólogo possui uma especificidade no que se refere à sua capacidade de escuta do sujeito. A escuta se baseia em entender não apenas as circunstâncias que levaram o jovem a cometer o ato infracional, mas como essa experiência se dá diante do seu ponto de vista, a forma subjetiva que ele entende a situação em que se encontra e os impactos dos fatores sociais, familiares e individuais que tais atos irão gerar em sua vida.

Complementando a escuta do adolescente, é necessário também que o psicólogo trabalhe em paralelo com a família, pois somente por meio desse contato é possível entender de forma mais completa a demanda do jovem e identificar saídas eficazes à questão referente ao conflito com a lei:

Trata-se de também acolher as angústias apresentadas pelos familiares, avaliar as relações afetivas do adolescente, o modo com que essas relações se estabelecem e marcam a subjetividade do adolescente, aprofundando o conhecimento sobre sua história de vida e suas relações comunitárias (COSTA e PINHEIRO, 2020, p. 16).

Por isso, segundo Gallo (2008), o primeiro momento do trabalho do psicólogo dentro das unidades de semiliberdade ocorre com base em uma avaliação psicossocial. Nessa entrevista, costuma-se perguntar sobre o consumo de álcool e drogas, histórico familiar, doenças, histórico de infrações de leis e grau de escolaridade. Essas perguntas são realizadas tanto com o adolescente quanto com seus responsáveis, a fim de obter dados confiáveis sobre o jovem.

O trabalho do profissional da psicologia é realizado em conjunto com uma equipe multidisciplinar e, segundo Felippe e Martins (2019): “É um momento em que o adolescente tem para expor o que o levou a cometer o ato infracional e assim tomar consciência e se responsabilizar pelo ato”.

Dentro do contexto referente ao trabalho multidisciplinar, existe também a participação do psicólogo na criação do PIA (plano individual de atendimento), importante mecanismo de registro e planejamento de atividades desenvolvidas em parceria com o adolescente e a família, como consta no art. 52 e 53 do SINASE. O PIA possui uma função considerável, com o intuito de manter a individualidade dos jovens em cumprimento da medida. Sobre sua função:

Podem-se considerar duas funções primordiais para ele: assegurar o acesso aos direitos fundamentais preconizados no ECA e promover, para cada adolescente, a individualização da medida. [...] Como individualizador da medida socioeducativa, o PIA abre espaço para o adolescente se posicionar frente a sua própria história, traçando conjuntamente suas perspectivas para o futuro (ALBUQUERQUE et. al, 2015, p.344).

Ainda sobre a atuação multidisciplinar, Santos e Menandro (2017) comentam sobre a falta de diferenciação entre o trabalho do psicólogo e do assistente social, sendo ambos considerados pelos adolescentes como um só, fazendo com que se perca a individualidade da atuação de cada profissional neste campo.

Visto que a medida de semiliberdade disponibiliza essa possibilidade de atuação, outro fator de muita importância da psicologia é a realização de atividades em grupo e de contato com a comunidade, que faz com que o adolescente renove seu repertório de vivências com a sociedade.

Há uma valorização do investimento em medidas de meio aberto já que estas mantêm o cotidiano das relações do adolescente com a família, a comunidade, os grupos juvenis, a escola, enfim, as relações da vida em curso e as condições peculiares de desenvolvimento do adolescente (CFP, 2012, p.34).

Diante do exposto, é entendido a importância da atuação do profissional da psicologia junto às medidas socioeducativas de semiliberdade, trabalhando de forma prática com atividades individuais, em grupo e familiares na tentativa de garantir a manutenção dos direitos do adolescente em conflito com a lei. A atuação pode ser resumida da seguinte forma:

Se dá através da elaboração em equipe multidisciplinar de estratégias que visem à reinserção social e conscientização das responsabilidades do adolescente através do plano individual de atendimento (PIA), para com que propiciem a possibilidade de desenvolvimento estudantil e profissional, assegurando acesso a uma rede de suporte que conte com atendimentos médicos, de assistência social, serviço de psicologia, terapia ocupacional, dentre outros (PEREIRA e REIS, 2019, p.9).

No entanto, são observados na prática alguns aspectos controversos e desafiadores para a realização do trabalho do psicólogo, uma vez que não há total conhecimento sobre a atuação psicoterápica em medidas de semiliberdade, e não são disponibilizados meios eficazes para a realização de seu trabalho.

É possível citar também a inclusão dos adolescentes em cursos profissionalizantes, descritos como opção para os jovens em cumprimento de medidas de semiliberdade. Tal ação pode ter um impacto positivo para a mudança do comportamento transgressor, favorecendo também a diminuição da reincidência do ato infracional, mas como citado por Souza (2019), não há oferta suficiente que possa abranger a temática de interesse de todos os jovens, sendo oferecidos cursos que foquem na entrada do mercado de trabalho.

Aqui, também, encontramos uma outra incompatibilidade entre a ideia de socioeducação e sua interpretação: preparar para o trabalho é mais importante do que para a cidadania. Por isso, priorizam os cursos técnicos à escola, e os jovens respondem a isso, pois entendem que a reinserção social só se dá pela inserção no mercado de trabalho e autonomia financeira (SOUZA, 2019, p. 122).

Conforme citado anteriormente, é necessário que o psicólogo entenda a história de vida do adolescente e considere sua perspectiva subjetiva em prol de gerar uma visão do jovem infrator como sujeito de direitos. Esse processo envolve também a importância de se manter o sigilo profissional, como é dever do psicólogo, segundo o código de ética. Em contrapartida, o espaço físico cedido para a atuação dos profissionais não possibilita que isso seja cumprido, pois:

Ainda com relação à questão da segurança, foi apontado pelos psicólogos que o problema está no fato da mesma ser priorizada em detrimento das demais atividades, sendo, por exemplo, o profissional questionado quando pede para que se retire a algema do adolescente ou quando tem que ficar monitores por perto, de forma que acabam ouvindo o que se passa no atendimento (SANTOS e MENANDRO, 2017, p.113).

Faz parte do trabalho do psicólogo nesse contexto a elaboração de laudos e pareceres, função de suma importância, pois este documento comunicará ao judiciário o andamento da passagem do jovem dentro da medida. Porém, essa atribuição pode ser prejudicial em momentos onde há poucos profissionais e uma grande quantidade de adolescentes para serem atendidos, fazendo com que essa atividade demande muito tempo e sobrecarregue os psicólogos. Conforme explica Santos e Menandro (2017): “Os psicólogos apontam que devido ao grande número de adolescentes internos e ao pouco número de profissionais para atendê-los, a confecção dos relatórios é realizada muitas vezes em detrimento de outras atividades que são deixadas em segundo plano”.

Os mesmos autores falam sobre a ideia social do profissional de psicologia como alguém que deve resolver o problema do jovem e fazer com que ele não volte a cometer crimes, e ainda exigem que essa atuação seja realizada de forma súbita e imediata, desconsiderando todos os fatores complexos que já foram tratados anteriormente. Com base nisso, Silva e Felippe (2019) retratam a utilização do termo “ressocialização” e a falta de identificação social dos adolescentes antes do ato infracional. Desta forma, reafirmam a influência de fatores externos na ocorrência desses atos, explicando que a circunstância de exclusão social incentiva e alimenta os adolescentes a buscarem lugares de participação na sociedade, o que se dá muitas vezes através de manifestações de violência. Sendo assim, é visto que foge do controle da atuação psicológica.

Por último, além da ausência de ofertas a cursos que podem ser estimulantes para os jovens, existe a precariedade de políticas públicas que possam agir como prevenção da criminalidade e a manutenção do adolescente fora da prática de atos infracionais. É de extrema importância que haja dedicação por parte dos órgãos públicos para criar parcerias e projetos sociais que incentivem outras práticas e mostrem caminhos alternativos à criminalidade, incluindo assim o indivíduo em programas que ele ache atrativo e que se veja pertencente a ele no futuro.

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