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Pesquisadores têm utilizado o termo subjetividade para indicar “construções singulares à dimensão social, sem desconsiderar os sujeitos como construtores de suas circunstâncias e, portanto, de algumas de suas contingências” (NOVAES, 2016, p. 23). O entendimento da subjetividade como construções singulares amplia as possibilidades de compreensão tanto da sociedade como dos indivíduos que nela vivem, o que interfere positivamente para que as circunstâncias possam ser analisadas e entendidas com maior detalhamento.

Em seus estudos sobre políticas educacionais, Tedesco (2004) usa a expressão “Políticas de Subjetividade” para dar um novo sentido às políticas que levem em consideração os agentes sociais para quem são destinadas. O autor indica que na atualidade é fundamental instituir um sistema de ensino com um olhar mais apurado para as condições impostas pelo novo capitalismo, principalmente no que diz respeito à participação dos agentes sociais e suas particularidades. O referido autor destaca, ainda, que “reconhecer a importância da dimensão subjetiva dos fenômenos sociais coloca novos problemas para a teoria e a ação política3” (TEDESCO, 2004, p. 568, tradução nossa).

Esse posicionamento de Tedesco (2004) contribui para que a compreensão dos agentes do processo educativo impulsione a implementação das políticas de subjetividade propostas em seus estudos, principalmente pelo fato de que é urgente uma mudança no cenário educacional que propicie o atendimento à diversidade de alunos e professores, levando-se em conta os aspectos subjetivos e socialmente produzidos presentes no processo educativo. Torna-se, assim, imprescindível um trabalho permanente da gestão pública, no sentido de possibilitar a elaboração e a implementação de políticas para uma educação essencialmente democrática.

Novaes (2020) traz contribuições acerca dessa concepção ao afirmar que mesmo que seja óbvio que a educação é vivenciada por pessoas, faz-se necessário reiterar com frequência que:

as subjetividades não podem ser obliteradas pelas volumosas estatísticas que inspiram as políticas educacionais. É também amplamente sabido que

3 Redação original: “reconocer la importancia de la dimensión subjetiva de los fenómenos sociales plantea nuevos problemas a la teoría y a la acción política” (TEDESCO, 2004, p. 568).

as políticas só se comprovam eficazes quando são significadas pelos sujeitos afetados por elas (NOVAES, 2020, pág. 59).

Tratando-se de docência e de seus processos formativos, essa discussão corrobora com a ideia de que se torna fundamental valorizar os aspectos subjetivos para se repensar as políticas de formação de professores, que vão além da realidade objetiva. É necessário, em concordância com Tenti Fanfani (2005), conceber os docentes não apenas como detentores de características que o identificam como gênero, idade, estado civil, bens que possuem, etc., mas, além de contarem com esses atributos, os docentes devem ser considerados sujeitos aptos a ressignificarem suas vidas e suas ações.

Assim, no âmbito da docência, constata-se que existe uma significativa relação entre a vida pessoal e profissional do docente, nos caminhos que ele percorre para construir sua subjetividade e nos fatores que contribuem na sua trajetória profissional. Por isso, nas políticas de formação docente, deve-se levar em consideração, também, a subjetividade, suas experiências, percepções, representações, opiniões, expectativas, etc. Faz-se necessário, assim, compreender os docentes como sujeitos produtores de conhecimento e possuidores de saberes específicos ao seu ofício, considerando a sua subjetividade e validando esses saberes. Deve-se, portanto, possibilitar a constituição de bases para a efetivação de políticas de formação de professores que visem a superação do modelo de formação pautado na racionalidade técnica, viabilizando uma formação que permita uma trajetória de emancipação norteadora na preparação dos futuros profissionais da docência para o ofício que a profissão exige no contexto real, a escola.

As peculiaridades da profissão docente, como aborda Tenti Fanfani (2007), certificam o exercício da docência na esfera da sua formação, no entanto, as políticas públicas quase não são levadas em consideração. Em seus estudos sobre a condição docente na América Latina, publicado em 2005, o autor destacou que a heterogeneidade presente entre os docentes é fato que não se tem como evitar, sobretudo porque nossas sociedades se caracterizam como complexas e com tendência ao pluralismo. Compreende ser inaceitável que existam docentes em condições de pobreza e faz uma crítica ao novo cenário que se apresentava há uma década, que é de grande desigualdade entre os docentes, além da dificuldade de acesso a bens materiais e simbólicos, que influenciam as constituições subjetivas (TENTI FANFANI, 2005). Destacou ainda que “A diversidade é uma riqueza, a

desigualdade é uma injustiça e deve não apenas ser mostrada, denunciada, mas também combatida4” (TENTI FANFANI, 2005, p. 262, tradução nossa).

Diante dessa diversidade que envolve o trabalho docente, e considerando que ao se tratar da heterogeneidade e da diversidade em um contexto em que docentes, discentes e instituição fazem parte, é pertinente o que Gonçalves e Sousa (2015, p.

261) destacam ao afirmar que “a subjetividade dos professores é uma dimensão fundamental para a compreensão das relações existentes entre configurações subjetivas e organização dos processos de trabalho docente”.

No âmbito dessa questão, é bastante conveniente destacar o que traz Tenti Fanfani (2005, p. 280, tradução nossa), ao considerar que "É por isso que é importante conhecer a subjetividade dos agentes sociais para entender o que eles fazem e por que eles fazem. Esse entendimento é uma condição necessária para o sucesso das políticas públicas5”. Nessa direção, para compreender os desafios que envolvem a formação docente e as peculiaridades características da profissão, faz-se necessário buscar contribuições nas dimensões subjetivas, que evidentemente influenciam essa atuação.

O que se percebe é que existe um aspecto social que pode influenciar a atuação profissional docente, sobretudo nas interações que se estabelecem no contexto educacional que envolvem a gestão, os professores, os alunos e toda comunidade escolar. Isso vem confirmar que o papel social da escola vai além da troca de conhecimento sistemático, se consolidando como um significativo ambiente de convívio, onde os sujeitos se socializam, interagem e fazem descobertas. E é nesse meio que a subjetividade do professor vai se constituindo, pois ele se constrói na interação com o outro. Assim, destacam Tunes, Tacca e Bartholo Júnior (2005, p.

690):

No convívio social, a experiência interpessoal possibilita o processo de elaboração e reelaboração de sentidos que organizam e integram a atividade psíquica dos participantes da relação. O movimento relacional cria múltiplas possibilidades de significação, construídas no momento próprio da relação, com caráter intersubjetivo (TUNES; TACCA; BARTHOLO JÚNIOR, 2005, p. 690).

4 Redação original: “La diversidad es una riqueza, la desigualdad es una injusticia, y no sólo debe ser mostrada, denunciada, sino también combatida” (FANFANI, 2005, p. 262).

5 Redação original: “Por eso es importante conocer la subjetividad de los agentes sociales para comprender lo que hacen y por qué lo hacen. Esta comprensión es una condición necesaria del éxito de las políticas públicas” (FANFANI, 2005, p. 280).

Frente a essas considerações, concebe-se a escola como um espaço de aprendizagem da profissão docente, contexto no qual o professor atua e estabelece troca de saberes e experiências com os seus pares, fatores essenciais para o processo de construção da profissionalização docente e da constituição da sua subjetividade.

Fica assim evidenciado que o espaço escolar tem função extremamente importante no transcurso de constituição da subjetividade docente, já que é nesse contexto que o professor tem oportunidade de vivenciar a profissão docente de forma mais intensa por meio de um processo constante de estudo, reflexão, discussão e experimentação coletiva que o exercício da profissão lhe proporciona.

Na contemporaneidade, pode-se afirmar que são inúmeros os desafios presentes no exercício da profissão docente mediante as conjunturas que envolvem a formação e o trabalho, e que são a causa de um amplo campo de investigação que produz conhecimentos e que ajuda os profissionais repensarem suas práticas, assim como trazem influências na constituição das suas subjetividades. Diante desse fato, é ainda possível afirmar que existem diversas tensões que envolvem a profissão docente que interferem nas mais variadas dimensões subjetivas presentes nas relações que se estabelecem nas ações características da atuação profissional, o que de fato influencia na formação do professor, seja ela inicial ou continuada.

Nesta perspectiva, espera-se que a escola, e todo o seu contexto, tenha em sua organização uma dinâmica que permita aos professores experientes e àqueles em processo de formação inicial um constante trabalho de trocas entre si. Isso permite enriquecer as inúmeras experiências, individuais e coletivas, que vão contribuindo para a constituição da subjetividade docente.

Com esse entendimento, pode-se dizer que é impossível a constituição da subjetividade se realizar em uma atmosfera neutra de sentido e de valor, já que a presença do outro é imprescindível para que isso ocorra (SOUSA; NOVAES, 2013).

Ancorando-se nessa ideia, é importante ressaltar que os processos que envolvem o ensino e a aprendizagem são complexos e se estabelecem em um espaço de relação, onde alunos e professores estão imersos em uma diversidade de possibilidades de interação. Existe, assim, a presença de múltiplas histórias de vida com experiências e vivências únicas e inerentes a cada sujeito, o que vai atribuir, a essas relações, sentidos subjetivos. Nessa perspectiva, “compreender a subjetividade enquanto possibilidade de análise da contribuição do outro na

constituição de si mesmo, não é apenas uma tarefa de pesquisa, é um ato político”

(SOUSA; NOVAES, 2013, p. 33).

Nessa linha de pensamento, e tomando por base as contribuições de Freire (2006), para que se possa compreender como a subjetividade docente vai sendo constituída ao longo dos processos formativos dessa profissão, ressalta-se que:

Especificamente humana a educação é gnosiológica, é diretiva, por isso política, é artística e moral, serve-se de meios, de técnicas, envolve frustrações, medos, desejos. Exige de mim, como professor, uma competência geral, um saber de sua natureza e saberes especiais, ligados à minha atividade docente (FREIRE, 2006, p. 69-70).

Mesmo que o foco dos estudos de Freire não tenha sido questões que abordem a constituição da subjetividade docente, seu posicionamento em defesa de uma educação que é política, envolve também questões subjetivas (frustrações, medos, desejos). Sendo assim, em estudos como o de Sousa e Novaes (2013), percebe-se que para se chegar a considerações de que o outro é importante para a constituição de si a partir da compreensão e análise das subjetividades envolvidas nesse processo, afirma-se que esse ato é político. Se levarmos essas considerações para o campo da educação, é possível inferir que o ser professor se constitui na relação com o outro, sendo considerado, portanto o ato educativo um ato político, conceito que tem por base explicativa os estudos de Freire (2006). Em decorrência dessa reflexão, é possível afirmar que:

No atual contexto da formação inicial de professores pode-se dizer que esta importante etapa da formação caracteriza-se como episódica entremeando o processo de formação que se inicia antes dos cursos de licenciatura e continua durante o exercício da profissão (PERDIGÃO, 2002, p. 288).

Em concordância com essa afirmação, é pertinente afirmar que a subjetividade está relacionada às vivências do sujeito no mundo e no trabalho, e buscar um entendimento das questões específicas que envolvem a constituição do ser professor, levou muitos pesquisadores a terem como base de estudos a subjetividade para, assim, analisarem e compreenderem diversos fenômenos que envolvem a formação docente. No caso específico do professor em formação inicial, suas expectativas com relação a sua formação e a seu futuro enquanto professor, durante sua atuação profissional, envolvem muitas questões subjetivas que precisam ser estudadas.

O professor, como sujeito pertencente a um grupo social, constrói significados e teoriza a realidade social, constituindo-se individual e socialmente de forma dinâmica e conjunta, assim como constitui o contexto em que vive (GONÇALVES; SOUSA, 2015, p. 261).

Assim, compreender a constituição da subjetividade docente dos estagiários, em processo de formação inicial, permite analisar como estes constroem o ambiente social em que vivem, na medida em que se constituem na mediação com o outro.

Sendo assim, essa pesquisa se apoia nessa concepção para entender como as subjetividades são constituídas a partir da tríade sujeito-outro-objeto, analisando os vários fenômenos que venham a interferir nessa constituição.

Nessa perspectiva, o que se espera é que a formação inicial docente esteja sempre permeada por reflexões que envolvam os processos de ensino-aprendizagem, tendo por base tanto os conhecimentos e saberes científicos da educação, quanto as situações concretas de relações onde essas práticas acontecem.

3 PERCURSO METODOLÓGICO DA PESQUISA

Toda pesquisa científica requer um método que fundamente a sua construção, aplicação e interpretação dos dados produzidos. É o momento de fazer escolhas, no sentido de orientar a trajetória investigativa para um resultado consistente e satisfatório.

Portanto, no presente capítulo, faz-se uma breve descrição do contexto da pesquisa. Logo em seguida, discorre-se sobre os pressupostos metodológicos que orientaram a investigação, iniciando com uma breve reflexão sobre a opção epistemológica. Na sequência, indica-se o locus da pesquisa e apresentam-se os participantes que colaboraram com este estudo. Em seguida, tem-se os caminhos percorridos na escolha dos instrumentos de coleta e produção de dados. Adiante é feita uma breve descrição dos primeiros passos da pesquisa e, por fim, são apresentadas as abordagens e os instrumentos utilizados na análise das informações coletadas.