• Nenhum resultado encontrado

Em 29 de novembro de 1994 foi instalado em Brasília, o Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil, com sede na Organização Internacional do Trabalho (OIT). O Fórum é composto por organizações governamentais (dentre elas destacam-se a presença do Poder Legislativo e do Judiciário) e não-governamentais (estas ligadas aos trabalhadores93 e empresários; entidades não confessionais de defesa dos direitos da infância e da adolescência; e, notadamente, a Igreja Católica, no horizonte confessional), contando ainda com o apoio do UNICEF e da OIT.

É grave observar-se que em pleno século XXI o Brasil possui um significativo contingente de adolescentes trabalhando em olarias, salinas, canaviais, casas de farinha, carvoarias, bem como em atividades industriais e comerciais noturnas, perigosas e insalubres, em descompasso com a Carta Magna94; e que, segundo a UNESCO (Fundo das Nações Unidas para a Educação e Cultura), 80% dos

brasileiros de 15 a 24 anos trabalham95. Ao lado disso há ainda aqueles que carregam cestos de frutas nas feiras, compras nos supermercados (inclusive em determinado momento com o apoio governamental), “trabalham” como “flanelinhas” nos semáforos, exercem a atividade de gazeteiros, são prostituídas (verdadeira forma de exploração sexual), catam objetos nos lixões etc.

93 Ao referir-me a trabalhadores, numa perspectiva de fonte marxista estou designando todos aqueles

que garantem a própria mantença pela venda de cotas de mão-de-obra ou por meio de atividades artesanais ou agropastoris.

94 Art. 7o , inc. XXXIII, da Constituição Federal.

Sobre a atividade de catadores vale a pena ter diante dos olhos o texto que se segue:

Criança sonha com reis e rainhas, princesas e fadas e tem medo de bruxas e bicho-papões.

Criança sonha ser acalentada e protegida. Espera que alguém, fada ou não, a defenda das garras de terríveis monstros que habitam as noites escuras e frias.

Criança quer brincar. Precisa brincar, jogar, fantasiar mundos para construir as trilhas de conhecimento sobre a realidade. Nos jogos de faz-de-conta é a realidade que pouco a pouco será construída. É triste ver crianças sem condições de sonhar.

E isso tem acontecido sob os olhos da sociedade brasileira: várias crianças não têm tempo para sonhar, pois trabalham. Algumas trabalham em condições indignas nos lixões [...]96.

É difícil manter os olhos fechados a realidades tão aviltantes como às que são submetidas as crianças fruto de famílias de baixa renda, sem considerar que lhes é negado o direito de serem prioridade absoluta, nos termos da nossa Constituição.

Como bem afirma Lopes (1999, p. 178):

A utilização de mão-de-obra infantil e juvenil conduz a um círculo vicioso, pois, os jovens são obrigados a trabalhar prematuramente, afastando-se dos estudos, porque os pais encontram-se desempregados ou não ganham o suficiente, e, por outro lado, o desemprego dos pais e sua baixa remuneração têm por causa, além da recessão da economia, a concorrência com a mão-de-obra dos menores, cujos salários mais baixos contribuem para o achatamento da média salarial nacional e o desemprego dos pais de família. Frise-se bem que, nos países do Terceiro mundo, a utilização da mão-de-obra infantil tem por escopo, normalmente, baratear o custo da produção.

O extrato acima pode nos conduzir à seguinte interpretação:

96 Carta da infância recicladora. 1o Congresso Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis.

a) a utilização da mão-de-obra de crianças e adolescentes geralmente é parte de um ciclo vicioso do qual seus pais já participavam;

b) esse modo de garantir a mantença pessoal e/ou familiar pode impedir o acesso de crianças e adolescentes à educação, reduzir sua freqüência regular à escola e não necessariamente lhes garante a profissionalização por meios formais;

c) o pequeno trabalhador, ao receber salário aviltante e não gozar de benefícios previdenciários previsto em Lei, funciona como instrumento para que se advogue em favor da flexibilização97 do direitos trabalhistas e previdenciários para os adultos;

Por outro lado, segundo pesquisadores da Escola Nacional de Saúde Pública (FIOCRUZ), o trabalho de adolescentes pode comprometer-lhes a saúde (MINAYO-GOMES, 1997), o que reforça:

a) por um lado, a tese de que a adolescência não é um tempo hermético, e que a intenção do legislador ao definir esse espaço temporal como compreendido entre os 12 e os 18 anos (art. 2o, do ECA) tem o interesse protetivo e não exaustivo do tema;

b) por outro, as estatísticas de evasão escolar e/ou acidentes de trabalho entre adolescentes trabalhadores.

Nesse sentido, afirma a educadora carioca Tânia Zagury que a

Organização Mundial de Saúde considera adolescência o período de 10 a 20 anos,

acrescentando que isso precisa ser mudado. Pois segundo a educadora, atualmente,

com 20 anos poucos jovens podem ser considerados adultos. Ainda tem muito jovem com 23, 24, 25 anos que é adolescente (ZAGURY, 2004, p. 32). Isso traz-nos

97 Termo que enfatiza o anseio de parte do empresariado em ver reduzidos os direitos trabalhistas

reflexões que se estendem ao Direito à Educação, passando por parâmetros de saúde pública, o que sem dúvida tende a intervir na edição das políticas voltadas para a infância, adolescência e juventude.

Tudo isso conduz à reflexão acerca de políticas públicas voltadas para a:

a) precocidade da gravidez na adolescência98;

b) necessidade de senso de oportunidade nas políticas voltadas para o “primeiro emprego” (bem como para o empreendedorismo);

c) exigência de extensão do acesso à educação para os jovens como direito à educação.

Sobre a discussão presente na alínea “b” estão fundados os capítulos 4 e 5 desse estudo, embora se inicie o discurso sobre o tema ainda nesse capitulo, no item seguinte. Por outro lado, cabe a advertência, acerca da relação adolescência- compreensão: se a revolução tecnológica não alterou apenas os hábitos de convivência, mas diversos campos do desenvolvimento humano, faz-se mister ter em mente que, embora o conhecimento hoje seja difundido de forma mais extensiva que no passado, não há garantia da assimilação desse conhecimento com a mesma velocidade em todas as esferas do saber, nem a aceleração proporcional da capacidade interpretativa (CORETH, 1973, p. 48) de todos os sujeitos acerca dessa mudança social.