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sustentação da economia capitalista. Quem não dispõe dos meios de produção tem como única opção de sobrevivência oferecer sua força de trabalho em troca de recursos para suas necessidades básicas.

As constantes mudanças no mundo do trabalho, provocadas de um lado pela conquista de direitos por parte do proletariado e de outro pela transformação provocada pelo avanço técnico-científico resultaram como principal bônus, por assim dizer, a redução da carga horária de trabalho e, consequentemente, a ampliação do tempo livre.

O impacto do desenvolvimento e da ampliação do acesso às novas tecnologias de informação e de comunicação nas relações sociais e na criação, produção, distribuição e no marketing das empresas, somado à utilização dos custos das empresas e dos governos, vêm levando a uma demanda por trabalhadores cada vez mais específica: com maior escolaridade e conectividade, em uma ponta, e com menor custo possível, em outra. O que vem causando uma série de mudanças nos processos culturais, econômicos e sociais (PONCE, 2009, p.271).

A substituição gradativa das atividades manuais pelas atividades mecanizadas é uma realidade cada vez mais visível. Em busca de redução de custos com a atividade humana, a utilização das máquinas não apenas diminui o custo com salários, mas também, os erros na produção e o tempo de fabricação. As grandes empresas, portanto, tem investido consideravelmente em maquinário e na contratação de profissionais qualificados para utilizá-los.

A juventude é diretamente afetada por essa nova configuração do mercado de trabalho. Se por um lado, as empresas optam por funcionários jovens com índice de escolaridade superior ao ensino médio e/ou de perfil técnico, a realidade dessa camada social não é a mesma. Ou seja, ser jovem no Brasil não é garantia de que esse dispõe de qualificação e mais, não é garantia que esse tenha sequer terminado o segundo grau.

Cabe ressaltar, ainda, que no Brasil, além de diferenças relativas à localização geográfica, o fenômeno do desemprego não atinge de maneira homogênea a totalidade da força de trabalho. Quando se analisa a composição dos mais atingidos pelo desemprego, segundo atributos individuais, nota-se claramente a presença de setores mais frágeis no interior da força de trabalho, entre eles expressivos setores da juventude, que vêm sendo efetivamente atingidos por diferentes fatores em seu processo de inserção e permanência no mercado, como: a progressão da idade; o seu rendimento e de sua família; a escolaridade de seus pais; a classe social; e a falta de escolaridade adequada da maioria dos jovens (PONCE, 2009, p. 273).

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Além disso, Ponce menciona Madeira mostrando as dificuldades de acesso ao trabalho produtivo, indicando que os indicadores de desemprego juvenil são mais elevados não somente no Brasil, como também em todo o mundo. Ademais, após as políticas de acesso ao ensino superior iniciadas no ano de 2004 , uma grande massa de jovens que obtiveram o acesso ao nível superior, adquirindo diplomas tanto de graduação quanto em cursos técnicos, oferecidas por instituições públicas e privadas, também está inseridas nas taxas onde o desemprego mais afetada.

Atribuída, principalmente à crise econômica que se agravou em 2014, a taxa de desemprego, ainda maior entre os jovens, e recentemente, entre os jovens graduados é alarmante. Eles compõem basicamente um exército de qualificados sem vagas de empregos condizentes. Em razão disso, muitos aceitam subempregos, em outras áreas e com salário bem abaixo do que esperavam depois de formados, como meio de sobrevivência. Isso tem gerado um constante mal-estar e inquietação, por vezes, até problemas com álcool e drogas

Abaixo temos um gráfico produzido a partir da aplicação dos questionários com os jovens frequentadores do estacionamento do Carrefour, onde podemos aferir que se trata de uma parcela que dispõe de escolaridade bem avançada, se levarmos em consideração outros espaços da cidade.

Uma possível explicação para o fato é que o estacionamento se localiza numa área bem próxima de universidades e escolas, o que favorece o fluxo desse contingente ao local.

Quando perguntados sobre: Qual o seu grau de escolaridade? Obtivemos os seguintes resultados:

2 Ano de lançamento do PROUNI – Programa Universidade para Todos – O programa concede bolsas parciais ou integrais para estudantes em universidade privadas no Brasil, através da isenção fiscal das instituições que aderirem ao programa. O FIES – Programa de Financiamento Estudantil – criado em 1999 no governo Fernando Henrique Cardoso e expandido no governo Luís Inácio Lula da Silva – o programa concede financiamento estudantil para alunos matriculados em instituições de ensino superior no Brasil.

Gráfico 1 - Escolaridade dos jovens pesquisados

Fonte: Dados coletados pelo pesquisador, 2017.

Entretanto, quando questionados sobre: Qual a sua renda mensal

individual? Os resultados foram:

Gráfico 2 - Renda individual mensal dos jovens pesquisados

Fonte: Dados coletados pelo pesquisador, 2017.

Ou seja, se somarmos as três principais porcentagens do gráfico, podemos concluir que 94% dos entrevistados não estão no mercado de trabalho ou que, apesar de estarem trabalhando, suas rendas individuais não ultrapassam um salário

mínimo3.

Os dados mostram que a juventude pesquisada no estacionamento, faz parte dos índices de jovens com grau de escolaridade alto, mas, em relação à renda, estão entre os que vivem com dois ou três salários mínimos, isso quando consideradas as rendas dos membros familiares. Não fizemos, entretanto, perguntas relacionadas a quais áreas de trabalho se inserem, nem, consequentemente, em qual área gostariam de estar, mas podemos constatar, por hora, que se as funções exercidas não originam remuneração condizente com o grau de escolaridade previamente intencionado pós-formação.

Quando perguntamos: Qual a renda do seu grupo familiar? Obtivemos o gráfico abaixo

Gráfico 3 - Renda familiar mensal dos jovens pesquisados

Fonte: Dados coletados pelo pesquisador, 2017.

A renda, seja familiar ou individual, influi diretamente nas possibilidades de lazer dos indivíduos em sociedade. Considera-se que, na fase atual do consumo de mercadorias e os altos índices de preços provocados pela inflação e descontrole econômico no Brasil, as opções de lazer escolhidas pelos indivíduos pesquisados estão em consonância direta com a margem de gastos mensal de que dispõem.

Em relação ao lazer, suas práticas e sua configuração enquanto base de estudos sociais na sociedade contemporânea cabe destacar que, podemos atribuir o surgimento do lazer como viés de análise social ao trabalho do sociólogo francês Joffre Dumazedier, várias vezes convidado, entre os anos 1961 e 1963, para palestras em que o autor traz o assunto à tona.

Até a década de 1960, os estudos sobre o lazer no Brasil representavam 3 Na ocasião dessa pesquisa, o salário mínimo custava R$ 937,00, valor referente ao mês de Janeiro de 2017.

poucos trabalhos e de caráter pouco expressivos, muitas vezes ligados às áreas de recreação e saúde.

Entretanto, Cristina Marques Gomes, citando José Acácio Ferreira (1959) mostra por que a produção sobre o lazer era escassa no Brasil. Ferreira realizou uma pesquisa com 597 trabalhadores no município de Salvador na Bahia, posteriormente, publicada em livro com o título O lazer operário , comenta que Apesar do número crescente dos habitantes e do desenvolvimento estrutural e econômico das grandes cidades, a questão do lazer e da ocupação do tempo livre de seus habitantes ainda não se configura como preocupação evidente dos estudiosos de áreas como sociologia, psicologia, entre outros.

Para, além disso, o tema do lazer sempre, e até hoje, é popularmente pejorativo. Muitos atribuem o lazer à preguiça e à perda de tempo que poderia ser utilizado em algo mais “produtivo”. Entretanto, paradoxalmente, o lazer se encaminha como um direito essencial e necessário na sociedade.

Em relação à excitação através do lazer, relembramos Norbert Elias e Erich Dunning (1992), os autores desvendaram a função social do tempo livre nas sociedades complexas e afirmaram que o lazer faz parte do processo civilizador da sociedade moderna.

Tendo como referência as atividades físicas, o espetáculo e as artes utilizadas como estratégia de fuga do ambiente enfadonho e nocivo do trabalho, os autores identificam o lazer como processo fundamental na formação moral dos indivíduos. Utilizando o tempo livre para realizar ações espontâneas, festas, encontros e manifestações artísticas que não são possíveis no ambiente de trabalho, esses indivíduos conseguem se livrar, mesmo que por um momento, das garras dos subempregos e do rígido controle social.

A permissibilidade da utilização de um comportamento menos formal como o uso de bebidas alcoólicas, certos tipos de roupas, liberdade sexual, entre outros, é a forma de expressar os desejos reprimidos por uma moral incorporada nas normas coletivas e civilizatórias (ELIAS e DUNNING, 1992).

O lazer ou desporto sempre foi desconsiderado pela ciência tradicional, pois não era reconhecido como ferramenta eficaz de análise sociológica, também por ser visto como algo negativo, sinônimo de uma preguiça não aceita pelo mundo do trabalho. Entretanto, cabe salientar, que o desporto como ferramenta de interpretação da vida coletiva, oferece importantes sinais da saturação do modelo de produção vigente. Elias e Dunning (1992) nos dizem:

O desporto parece ter sido ignorado como um objeto de reflexão sociológica e de investigação, em especial, porque é considerado como algo que se encontra situado no lado que se avalia de modo negativo no complexo dicotômico de sobreposição convencionalmente aceite, como, por exemplo,

entre os fenômenos de «trabalho» e «lazer», «espirito» e «corpo», «seriedade» e «prazer», «econômico» e «não econômico». Isto é, no quadro da tendência que orienta o pensamento reducionista e dualista ocidental, o desporto é entendido como uma coisa vulgar, uma atividade de lazer orientada para o prazer, que envolve o corpo mais do que a mente, e sem valor econômico. Em consequência disso, o desporto não é considerado como um fenômeno que levante problemas sociológicos de significado equivalente aos que habitualmente estão associados com os negócios «sérios» da vida econômica e política. (ELIAS & DUNNING, 1992, p. 17).

O lazer só pode ser analisado se levarmos em consideração não somente sua relação com o mundo do trabalho, mas também, quando o entendemos como ferramenta de fuga das rotinas engessadas da vida produtiva e das demandas produzidas a partir do tempo livre. Além disso,

Dado que a sua principal função parece ser a de ativar formas de excitação agradáveis, estas não podem ser devidamente compreendidas por meio de uma abordagem sociológica que ignore as suas dimensões psicológicas e fisiológicas [...] Contribuem, também, para a teoria do processo de civilização através da apresentação de algumas das vias através das quais as sociedades enfrentam com êxito a rotina que o processo de civilização desencadeia. (ELIAS & DUNNING, 1992, p. 17).

A crescente industrialização e urbanização das cidades, atrelado à precarização do trabalho que dificulta ainda mais as relações de trabalho, corrobora para a necessidade de atividades de lazer na sociedade. Conectado a essa exigência, o lazer corrobora para práticas de sociabilidades distintas nos centros urbanos. Ávidos por se libertarem do controle dos pais e da enfadonha responsabilidade adulta, esses jovens buscam atividades que, para além do lazer, possam garantir uma convivência mais duradoura com seus pares, grupos ou tribos.