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NEOLIBERAL

Esse país não é meu. Nem vosso ainda, poeta. Mas ele será um dia O país de todo homem.

(C. D. Andrade. América.)

Considerando o objeto de estudo como uma unidade e uma mediação da formação e do trabalho profissional (educação/trabalho), - ou seja, a supervisão de estágio em Serviço Social - de um lado, envolve o ensino, a pesquisa e a extensão na formação profissional durante a graduação, e de outro intrinsecamente, constitui intersecção com os espaços sócio ocupacionais e o mundo do trabalho do assistente social.

A supervisão de estágio contempla, na formação, a construção de conhecimentos acerca do trabalho profissional.

O estágio consiste neste momento do estudante perceber no cotidiano de trabalho do assistente social como é que essa relação trabalho e formação se dão. (LIBERDADE33, 2014).

Assim, compreender nosso objeto de pesquisa requer inseri-lo e entendê-lo nos mundos da educação/formação e do trabalho/exercício profissional, concomitantemente. Na perspectiva marxiana, deixando claro para o estagiário, supervisor de campo e supervisor acadêmico que

[...] há uma relação, um conceito de trabalho que é transversal na profissão, e que é nesta perspectiva que o projeto de formação crítico [...], pós-reconceituação construiu historicamente [...] o projeto ético-político. (LIBERDADE, 2014).

Então, quer dizer que

[...] é essa concepção de trabalho, [...] de transformação da natureza, do homem se tornar sujeito a partir do trabalho que está permeada na formação profissional, e o estágio e supervisão têm que fazer essa reflexão do trabalho, das mediações no sistema capitalista. As mediações do trabalho assalariado do assistente social. (LIBERDADE, 2014).

Sendo o Serviço Social uma profissão inserida na divisão social e técnica do trabalho, pensá-la enquanto formação e exercício profissional demandam refletir sobre educação e

trabalho numa totalidade social. Ambos, como expressão de unidade, sofrem os impactos da crise do capital, da reforma do Estado, da reestruturação produtiva, da exploração do trabalhador, da perda ou ressignificação dos direitos, da reforma universitária, da mercantilização da educação, da expansão desenfreada das universidades, da proliferação do Ensino à Distância (EAD) e da retomada do pensamento conservador nas universidades.

O estágio supervisionado e a supervisão em Serviço Social (como unidade intrínseca e indissociável) sofrem implicações e rebatimentos da precarização da educação e do trabalho profissional.

A relação educação e trabalho são apreendidos nesta tese como unidade da dimensão da formação e exercício profissional, da supervisão e estágio, a qual diz Liberdade (2014),

[...] dão suporte à concepção de estágio e supervisão.

No contexto da sociedade capitalista contemporânea, no tecido social da realidade brasileira, esta relação se move e é promovida na associação política, econômica e de mercado.

As reflexões aqui articuladas explicitam a educação superior34 e o trabalho profissional do assistente social na sociedade contemporânea, no bojo do Estado neoliberal - que traz implicações na desqualificação e precarização da educação e do trabalho - mediações pertinentes e atuais, que se fazem presente no arcabouço da produção de conhecimento35 da categoria, no que tange nosso objeto de estudo.

A educação tem sido tratada como mercadoria, velada num discurso de expansão do direito e democratização no acesso para todos.

O trabalho tem sido reconfigurado para garantir maior produtividade e consumo.

O processo de precarização e desqualificação tem se apresentado de forma que o homem simples pode não entender ou compreender bem, mas sente no seu cotidiano a perversa lógica que está caminhando a educação e o trabalho no país.

Temos, na Política Nacional de Educação, uma concepção neoliberal de educação. Assistimos à educação voltada para o mercado e não para a vida social, numa:

[...] concepção de educação que transforme o sujeito enquanto ser social. Num avanço qualitativo na vida individual e coletiva. (LIBERDADE, 2014).

34 Não desconsideramos que a precarização da educação tem seus rebatimentos na totalidade da política

educacional, entretanto, nos debruçamos, nos limites desta tese, especificamente sobre a educação superior, considerando a formação profissional em Serviço Social, e nosso objeto de estudo se dá neste espaço e tempo da educação.

A educação atualmente é o potencial mercado de fortalecimento do capital, o atual nicho de mercado. Tanto que Frigotto (2011, p. 3) coloca que a educação não tem sido tratada como direito social, mas um ‘serviço mercantil’.

Versamos a indignação frente à política educacional na sociedade brasileira ou, por que não dizer, da lógica perpetrada na educação na sociedade capitalista contemporânea, que, no âmago do capital financeiro, de mercadorização dos direitos sociais36 e coisificação dos sujeitos, tem sido tratada como mais uma mercadoria geradora de mais-valia, que, via imposição da ética neoliberal e do capital globalizado, está estruturada, não raras vezes, como mera transferência de conhecimentos, de alienação dos sujeitos sociais, numa perspectiva de (re)produção social e de atenção ao mercado de trabalho, ao produtivismo, em detrimento da educação para a vida, para a formação profissional, social e crítica desses sujeitos sociais, políticos e históricos.

Nesse contexto contraditório, debruçamos nossas reflexões, na educação como construção de conhecimentos que cultiva razão crítica e compromisso com valores universais, sua relação com o trabalho, com possibilidades criativas e emancipatórias versus a realidade da educação estruturada na sociedade capitalista que demarca um mercado, um negócio funcional, a lógica do consumo e do lucro, e que traz repercussão e preocupações para o mundo do trabalho como um todo.

Afirmamos consonância com os debates acadêmicos de mobilização e fortalecimento da luta pela educação de qualidade, pública, laica e gratuita, direcionada aos interesses da coletividade e arraigada na realidade regional e nacional. De uma contrarreforma da educação, visando à superação de obstáculos da realidade e a construção de estratégias de transformações políticas, econômicas, culturais e sociais necessárias para o alcance de uma sociedade mais justa, igualitária e marcada pelo acesso universal dos direitos sociais, coletivos e historicamente construídos.

Acreditamos na educação como instrumento de transformação da vida social, e que mediada por lutas e resistências aos ditames do capital, pode possibilitar uma educação libertadora, permanente, emancipadora e não perpetrada na lógica do ideário neoliberal que atravessa este momento histórico da sociedade brasileira, de expansão desenfreada e desmesurada da educação superior com fins lucrativos e à distância (ainda que não exclusivamente), a educação como mercadoria.

Nesse interregno marcado pela precarização da educação, especificamente a superior e, concomitantemente e/ou consequentemente, pela deterioração do mundo do trabalho, elencamos as preocupações no âmbito de nossa profissão - Serviço Social - olhando para as mediações que envolvem a supervisão de estágio, considerando, no todo, que a história da sociedade é, até nos dias atuais (e por que não dizer, de modo até mais acirrado nos dias atuais), história da luta de classes (MARX; ENGELS, 1986).

Serviço Social, formação e trabalho profissional, estão aqui expressos, como síntese articulada com as teses das transformações do mundo do trabalho e os desafios postos no cotidiano profissional, na luta e construção de estratégias, amparadas em um método de análise crítico-dialética, frente à precarização da formação e exercício profissional, construída no cenário nacional a partir da década de 1990, com o ideário neoliberal e seu acirramento nos últimos anos. Uma ofensiva que consolida na contrarreforma do Estado e da Universidade.

CAPÍTULO 1 EDUCACÃO E TRABALHO EM TEMPOS DE CRISE DO CAPITAL