5 DISCUSSÃO
5.2 Fragilidades da Cultura de Segurança do Paciente nos Hospitais
5.2.2 Fragilidades no Hospital Brasileiro
5.2.2.1 Trabalho em equipe entre as unidades (23%)
Essa dimensão versa sobre o trabalho em equipe entre as diversas unidades do hospital. O resultado encontrado expressa a segunda pior dimensão no hospital brasileiro, juntamente com a dimensão “Resposta não punitiva ao erro” discutida no tópico anterior.
Os itens da dimensão se referem à existência de cooperação entre as unidades do hospital que precisam trabalhar em conjunto para prestar o melhor cuidado aos pacientes, além de ter que trabalhar com profissionais de outras unidades, independente do vínculo empregatício.
Em estudos brasileiros, os resultados oscilam de 27% a 86% (CLINCO, 2007; MELLO; BARBOSA, 2013; REIS, 2013). Em Portugal de 35% a 61% (SOUSA, 2013; FERNANDES; QUEIRÓS, 2011; PIMENTA, 2013).
Um estudo envolvendo 140 enfermeiros obstétricos avaliou a cultura de segurança e trabalho em equipe, evidenciando que o trabalho em equipe entre enfermeiros mais jovens precisa de mais suporte e habilidade do que esse mesmo trabalho comparado com os enfermeiros mais experientes (RAFTOPOULOS; SAVVA; PAPADOPOULOU, 2011).
Talvez os resultados da dimensão no hospital português tenham sido melhores por se tratar de enfermeiros mais experientes na unidade e na instituição, corroborando com a ideia de que os mais experientes possuem maiores competências e habilidades para efetivar o trabalho em equipe, ao contrário do resultado encontrado a partir da percepção dos enfermeiros no hospital brasileiro.
Quanto ao item que se refere à cooperação dos profissionais, observa-se que a dimensão que se relaciona com o trabalho em equipe “dentro da unidade” obteve resultado mais elevado quando comparado à cooperação da dimensão do trabalho em equipe “entre unidades”. Com isso, evidencia-se que a cooperação dos enfermeiros se dá mais dentro do que entre as unidades, esse fato ocorre nos dois hospitais estudados, no entanto, com escores menos altos para os enfermeiros no hospital brasileiro.
Os enfermeiros no hospital brasileiro revelaram que há pouca cooperação para o efetivo trabalho em conjunto para prestar o melhor cuidado ao paciente. Para Barcellos (2014) há um ponto crítico na relação da intersetorialidade no ambiente de trabalho hospitalar. As unidades de um hospital devem permitir, idealmente, o trabalho entre os integrantes da equipe para discussão dos casos, das ocorrências, das metas, em um formato colaborativo e pactuando decisões coletivas. Acredita-se que essa iniciativa poderá aumentar a cooperação do trabalho entre as unidades do hospital.
No que diz respeito ao item sobre se as unidades do hospital não estão bem coordenadas entre si, os enfermeiros no hospital brasileiro discordam da questão. Destaca-se que nesse hospital a coordenação entre as unidades foi a quarta pior avaliação, revelando aspectos problemáticos para os gestores.
O trabalho em conjunto e a coordenação entre os diversos serviços do hospital são de fundamental importância para a segurança do paciente, sobretudo, para o envolvimento de todos os profissionais para o efetivo trabalho em equipe.
Num ambiente hospitalar com um mau trabalho em equipe no que diz respeito à cooperação, à coordenação e ao trabalho em conjunto para prestar o melhor cuidado entre as unidades do hospital, a complexidade da tarefa pode agravar-se, refletindo em uma má cultura organizacional de segurança.
Teoricamente equipes com melhores competências e habilidades, e cooperação tendem a ser pequenas. Esse achado foi percebido na investigação realizada por Raftopoulos, Savva e Papadopoulou (2011) envolvendo 67 maternidades no Chipre com instalações pequenas.
Para o último item, a partir da percepção dos enfermeiros no hospital brasileiro, no que se refere a sentir-se desagradável em ter que trabalhar com profissionais de outras unidades do hospital foi percebido baixo escore para o item, trazendo a ideia de que não se sente confortável em trabalhar com profissional de outra unidade. Esse item expressa que em caso de remanejamento de profissional entre as unidades os que acolhem não se sentem confortáveis em fazê-lo, ocasionando privação de sinergia na interação entre os membros.
Para melhorar a comunicação no trabalho em equipe sugere-se o emprego da palavra, Concerned (estou preocupado com), Unconfortable (estou desconfortável) e, por fim, Safety (segurança) – CUS. Essa técnica possibilita uma preocupação em ordem escalonada, em que o profissional do nível hierárquico mais abaixo exija a atenção do profissional acima. Em geral, inicia-se a conversa com a seguinte palavra “estou preocupado com”, seguida “estou desconfortável”, e por último, “este é um assunto de segurança” (KOHN; CORRIGAN; DONALDSON, 2000).
Observa-se que o trabalho em equipe entre as unidades não obteve resultado significativo comparado com o trabalho em equipe dentro da unidade. Sabe-se que o processo de trabalho em equipe em saúde é complexo e apresenta um nó crítico, podendo dificultar a relação entre os profissionais dos diversos setores, implicando na potencialidade dos saberes e na acumulação de forças com objetivo do melhor cuidado para o paciente (FRAGATA; SOUSA; SANTOS, 2014).
No geral essa dimensão mostrou-se frágil em todos os itens para o hospital brasileiro que não possui acreditação, expressando que a dimensão necessita de maiores intervenções pelos gestores, diferente do que foi referido pelos enfermeiros no hospital português acreditado, que revelaram melhores escores para os itens.
Sabe-se que o trabalho em equipe é uma competência relevante por facilitar e permitir a participação de membros nas decisões, mas para isso é importante que o líder de equipe estimule e realize treinamento contínuo com a equipe, de modo a possibilitar o desenvolvimento e aprimoramento de habilidade e competências para o efetivo trabalho em equipe entre as unidades.
Apesar disso, alguns autores defendem a ideia que o treinamento aos membros da equipe não deve ser realizado com equipes fixas, partindo do principio que é estritamente preciso haver rodízio entre os membros, pelo fato de se acostumarem com as características profissionais e individuais um dos outros.
De fato essa ideia foi apresentada nos estudos de Blegen et al. (2010) e Jones, Podila e Powers, (2013) em que houve melhorias nas dimensões da cultura de segurança por meio do treinamento e implementação de uma abordagem multidisciplinar com trabalho em equipe e intervenção em comunicação.
Outro investigador defende a ideia que para ser membro de equipe de alto desempenho, os membros necessitam de formação e treinamento inicial de desenvolvimento de trabalho em equipe (FRAGATA, 2011), pois o que se percebe muita vezes na prática é a ausência de integração suficiente ao novo membro na equipe, levando continuamente ao desconhecimento da política da instituição, assim como os protocolos, normas e regras, dificultando a inserção do membro na equipe, interferindo no desenvolvimento de habilidades e competências do trabalho em equipe.
A gestão moderna tenderá a focar na sinergia do trabalho em equipe que permitirá que as instituições melhorem o seu desempenho e reputação, focada na segurança do paciente, criando o potencial para as instituições obterem melhores resultados sem o aumento do trabalho individual. Para se efetivar o trabalho em equipe os profissionais têm de conjugar competências técnicas e interpessoais.
O desempenho do trabalho em equipe depende obviamente da performance do trabalho individual dos membros que a compõem, portanto, para se ter uma boa equipe, deve-se escolher e ter bons profissionais. Mas, se sabe também que os melhores profissionais, nem sempre fazem a melhor equipe.
FRAGATA (2011) menciona que as equipes possuem necessidades diferentes, por isso, os profissionais deveriam ser selecionados para fazerem
parte de uma equipe com base na sua personalidade, porém, as equipes de alto desempenho combinam profissionais e vários papéis, com propósito de atingirem metas mútuas.
Em síntese, os enfermeiros que atuam na instituição não acreditada nesse estudo revelaram uma avaliação para cooperação e coordenação, para efetivar em conjunto o melhor cuidado ao paciente, frágil para cultura de segurança do paciente. Além de revelar que não se sentem confortáveis em ter que trabalhar com profissional de outra unidade do hospital. Ao trabalhar de modo interdependente e não de maneira independente, e ter atitude cooperativa e não competitiva, é possível ter progressos signitivativos de segurança do paciente.