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6.2 Para acontecer o trabalho interdisciplinar

6.2.2 Trabalho em equipe

A existência de um trabalho em equipe que seja integrado é considerada uma questão básica para o exercício da interdisciplinaridade. Segundo os sujeitos da pesquisa, depende fundamentalmente de atitude dos sujeitos e de um espaço / tempo compartilhados, que permita o estabelecimento de objetivo comum e a criação de vínculo entre os participantes.

E acho que esse é o melhor jeito de trabalhar em equipe, [equipe de residentes] bastante tempo para trocar idéia, para se organizar, para planejar, para voltar aos problemas que passam e a gente, as vezes, por excesso de trabalho varre para baixo do tapete, não, a gente ia fundo em muitas coisas, que talvez não teria ido, se não tivesse tempo e espaço definido para discussão. (E3M)

O vínculo facilita muito o trabalho interdisciplinar na equipe. Eu acho que uma equipe, quanto mais entrosada ela é, mais fácil fica a troca de saberes, tu evidenciares o que tu sabes ou mostrar as tuas dúvidas, as tuas fragilidades também. Por que as pessoas se escondem muito [...]. (GF)

O vínculo também é considerado necessário para o trabalho interdisciplinar e inclui não só os membros de uma equipe, mas também os usuários dos serviços.

Para trabalhar interdisciplinaridade em uma equipe de saúde da família, você tem que ter vínculo entre a equipe. A ação com a comunidade não pode ser esporádica, tem que ser uma atuação que tem de ter um tempo decorrido. O vínculo não se estabelece só porque você chegou lá para trabalhar, vai acontecendo na medida em que as pessoas vão se conhecendo. Isso é fundamental para desenvolver qualquer trabalho interdisciplinar. Senão, acho que se pode desenvolver trabalho em equipe, com cada um fazendo sua parte. (E6S)

O vínculo, segundo Ribeiro (2005, p.54), “é uma relação especial que se estabelece e se mantém entre o(s) profissional (is) da saúde e o usuário (individual e coletivo) em função de adotarem uma forma intencionalmente diferenciada de se

relacionarem. Esta relação é produzida pela adoção de atitudes/comportamentos dos

profissionais de saúde frente aos usuários (individual e coletivo) e pelos usuários”. Os sujeitos da pesquisa consideram que as pessoas precisam ter liberdade para expor o que pensam e para discordar do outro. Além disso, o usuário precisa ser ouvido e a equipe, quando propõe intervenções, deve considerar se é o que a comunidade deseja, aceita ou compreende.

Para lidar com as dificuldades, o profissional precisa ter claro qual é o seu papel na equipe e valorizar a sua especificidade, criando estratégias para ocupar espaços de atuação.

Tem que melhorar a organização do posto. Enquanto a enfermagem não assumir seu papel pra poder a partir disso ter uma relação interdisciplinar com outros profissionais, não dá. Isso tem que estar instituído dentro do próprio posto de saúde, porque daí tu tens mais claro os papéis de cada um, aí sim tu podes ter uma relação interdisciplinar. (E8E)

O discurso anterior não aparece entre os médicos, mas está presente nos discursos das demais profissões que manifestam os próprios limites de atuação

profissional no contexto do modelo médico hegemônico. Modelo médico hegemônico pode ser definido como

o conjunto de práticas, saberes e teorias gerados pelo desenvolvimento do que se conhece como medicina científica, o qual, desde fins do século XVIII, tem conseguido estabelecer como subalternas o conjunto de práticas, saberes e ideologias teóricas até então dominantes nos conjuntos sociais, até conseguir identificar-se como a única forma de atender à doença, legitimada tanto por critérios científicos como pelo Estado. (MENÉNDEZ, 1992, p.108 apud TARRIDE, 1998, p. 28).

É importante não simplificar a problemática do modelo médico hegemônico atribuindo ao médico ou aos médicos, isoladamente, a grande responsabilidade pela sua manutenção. A hegemonia do modelo biomédico resulta de uma construção histórica, envolvendo um conjunto de relações, bem como a participação e o consentimento de muitas outras categorias profissionais.

A existência de médicos generalistas e especialistas, tais como pediatra e ginecologista, na Unidade de Saúde, é criticada, sob a alegação de que a sua presença dificulta a articulação da equipe do PSF com a comunidade e a definição das atribuições no serviço. Os especialistas deveriam ser atenção secundária, acionados pela equipe do PSF quando necessário.

Essa é uma discussão polêmica e que vai exigir combinar interesses dos usuários, decisões técnico-gerenciais, capacidade de resolução dos problemas pelas equipes de saúde da família, entre outros. Pediatria e ginecologia são consideradas especialidades básicas pelo Ministério da Saúde.

No processo de trabalho em saúde são diversos os atores, cada qual com seus interesses e profissões com recortes diferenciados do objeto, que vão conformar maneiras diferenciadas de prestar o cuidado em saúde e de perceber as múltiplas dimensões do ser humano. Nesse jogo se constrói e reconstrói o campo e os núcleos de saberes específicos de cada profissão, se modifica os fazeres no cotidiano, mesmo de uma maneira ínfima e imperceptível, como diria Yves Schwartz.

Nesse sentido, a definição do papel de cada profissional na equipe, de maneira a “fazer funcionar” o núcleo profissional específico de cada um, é considerado fundamental para que a interdisciplinaridade aconteça.

[...] na enfermagem mesmo teria que instituir, organizar a atenção, organizar a puericultura e a consulta pré-natal para depois poder ter uma relação interdisciplinar com outros profissionais. Aí a gente sabe até onde um vai, até onde a gente vai e a aí a gente pode trabalhar junto. (E8E)

A idéia de que é fundamental a equipe conhecer o núcleo de competência de cada profissão para poder articular o trabalho e também ampliar a aprendizagem de cada um, é reforçada da seguinte forma:

O campo de trabalho é o mesmo. [...] a família, a comunidade é a mesma para todas as [profissões]. Só que tem que dizer qual é o teu objeto [...], de que lugar tu estás falando para dar a tua contribuição. Por que senão parece que o objeto é o mesmo, [que] todo mundo sabe. [...] É um aprendizado pessoal também. Tu aprenderes a te colocar, porque tu tens que saber muito bem qual é a tua especificidade. E, às vezes, a gente não sabe.

(GF)

Outras questões importantes para haver interdisciplinaridade no trabalho em equipe são apontadas pelos sujeitos da pesquisa: o compartilhamento do modo de trabalhar e as regras estarem bem claras, de maneira igual, para todos os profissionais, como exemplifica a fala a seguir.

Se tu tiveres ali dentro pessoas que não concordam com a forma como tu vais trabalhar, eles, às vezes até inconscientemente, vão estar minando o teu trabalho. Por que eles não vão estar compartilhando do teu jeito, dos teus ideais. Então, só o fato da pessoa que está trabalhando contigo não compartilhar do teu trabalho, atender os usuários com uma cara mal humorada, isso já vai atrapalhar o teu trabalho. (E14M)

Afinidades entre os profissionais na forma de pensar a saúde, a sociedade e as possibilidades de mudança, para entenderem como isso influencia as dificuldades e facilidades para o trabalho, também foi apontado como importante pelos sujeitos da pesquisa. E para isso é fundamental ter espaços instituídos para o diálogo.

As afinidades mencionadas acima, bem como espaços favoráveis a atuação interdisciplinar podem desenvolver o quarto ingrediente da competência, que está relacionado à capacidade do sujeito de questionar a qualidade das dramáticas do uso de si por si e pelos outros e dessa forma potencializar a sua atuação.