Além das festas, os trabalhos coletivos eram também espaços de sociabilidade que envolviam outras dimensões além da produção.
Em uma entrevista realizada por Komarcheski (2019) com Benedito Florindo de Freitas Junior – residente nas terras de seu ancestral Pedro de Freitas no núcleo Poço Grande – mencionou cinco formas de trabalho coletivo praticadas na comunidade de João Surá: o mutirão, a reunida, a reunida comunitária, o ajuntório e a troca de dias, cada um tendo o seu sentido específico.
Dentre as formas de trabalho coletivo praticadas no Vale do Ribeira, o mutirão é a que recebe mais destaque na produção acadêmica72. Geralmente
72 No RTID de João Surá (FERNANDES, 2007) é identificado o mutirão e da troca de dias como formas
o mutirão envolve um número maior de pessoas do que as outras formas coletivas de trabalho que geralmente se limitam a uma média de 15 a 20 participantes convidados a partir de critérios de parentesco, compadrio e vizinhança. Andrade & Tatto (2013) verificaram em 16 comunidades do Vale do Ribeira no Estado de São Paulo uma estimativa de participantes que variavam em geral de 25 a 100 pessoas, dentre homens, mulheres e crianças. Diferencia- se também das demais formas de trabalho coletivo pelo seu tempo de duração, iniciando pela manhã e finalizando ao cair da tarde, se estendendo com o baile que, em muitos casos, vai até a manhã do dia seguinte. A existência do baile que acompanha esta forma de trabalho é comumente a mais apontada nas pesquisas para distingui-la de outras formas de trabalho, principalmente da reunida. Entretanto nessa também pode haver um baile de menores proporções. Os convites são feitos a todas as famílias e se estendem para as comunidades vizinhas. A família inteira participa do mutirão, geralmente as mulheres trabalhando na cozinha, preparando a alimentação que é servida durante o serviço e durante o baile. O mutirão é também um espaço de transmissão de conhecimentos aos meninos adolescentes que são inseridos no trabalho na roça, junto dos pais. As crianças menores, por sua vez, contribuem levando a comida até a roça durante a realização do trabalho.
Esta forma de trabalho se constitui como mecanismos de integração comunitária presentes em muitas comunidades quilombolas até os dias atuais, se configurando como importantes espaços de sociabilidade dos grupos, onde se fortalecem os laços comunitários por meio do encontro entre parentes, compadres e amigos (ANDRADE & TATTO, 2013; CAMBUY, 2011). Fernandes (2007) conclui que aqueles que participam do mutirão partilham de uma mesma identidade comunitária, neste caso, uma identidade quilombola.
De acordo com Andrade & Tatto (2013, p. 245), estas formas de trabalho coletivo "possuem uma finalidade econômica ao mesmo tempo que
identificou também em João Surá a reunida como uma prática realizada coletivamente. No RTC de Praia Grande, Scalli (2002) identificou a realização do mutirão, da reunida e da troca de dias naquela comunidade. No RTC de Cangume, Arruti (2003) verificou a existência do mutirão e da troca de dias. No Inventário cultural dos quilombos do Vale do Ribeira, Andrade & Tatto (2013) identificaram em diversas das 16 comunidades pesquisadas formas de trabalho coletivo expressas no puxirão/mutirão, na reunida, no ajutório/pujuva e na troca de dias.
alimentam as relações sociais, evidenciando um princípio importante da sociabilidade quilombola: a solidariedade".
Gostaria de ponderar aqui, entretanto, sobre o conteúdo dessa solidariedade. Durante o ano de 2018, enquanto estava na direção do Colégio Estadual Quilombola Diogo Ramos, fui chamado por um grupo de quilombolas que são educandos do curso de Licenciatura em Educação do Campo e se reuniam para estudar coletivamente, para auxilia-los em um de seus trabalhos. O trabalho sugerido por uma de suas educadoras era o de relacionar os textos sobre economia solidária com a práticas de troca na comunidade. A questão que me colocaram era a seguinte: refletindo sobre as formas de trabalho coletivo da comunidade eles haviam chego na conclusão que na origem das práticas de mutirão geralmente quem fazia a convocação eram as famílias que tinham mais recursos para arcar com alimentação e bebida, e que, antigamente o resultado do trabalho eram frequentemente revertido em dinheiro que era acumulado pelo solicitante e jamais socializado, estando aí a origem das histórias de “enterro de moedas” na região. Essas questões podem indicar que, considerando os aspectos econômicos, a solidariedade e a sociabilidade relacionadas com as formas de trabalho coletivo podem ser nuançadas por desigualdades e diferenciações internas.
Entretanto, as relações de parentesco, amizade, compadrio e vizinhança que se explicitam na realização destas formas de trabalho coletivo nas comunidades quilombolas do Vale do Ribeira instituem redes de solidariedade e espaços de sociabilidade propícios para “acertar” trocas matrimoniais entre as famílias.
Seu Paulico e Dona Cida nos falam por exemplo que naqueles tempos tinham pessoas que vinham com “sete léguas nos pés e sapato na sacola” ou então “vinham com a roupa do trabalho no corpo e roupa de baile na sacola”. Era assim, segundo eles que as pessoas vinham da Barra do Turvo para João Surá pelo rio ou pelo sertão, para participar do trabalho coletivo, mas também, em determinadas situações, para encontrar um par. Como foram os casos dos irmãos Gonçalo e Aparecido que travessaram o sertão de São João para participar de um mutirão e se casaram com as irmãs Genoveva e Ana.
Referindo-se ao caso de sua sogra Seu Paulico comenta: “daqui saia mais mulher para casar, mas o casamento era fraco, não é como é hoje que para
se separar .... naquela época casa em um dia e separava no outro. Teve uma vez que casaram vinte casais aqui e depois de dois meses já estava quase tudo separado de novo”
Mas também se acertaram nesses eventos alianças mais duradoras, como a de Seu Benedito Pereira e Joana de Andrade, que se casaram na festa de Santo Antônio no ano de 1956. Ela descendente das alianças entre as famílias Freitas, Ramos e Andrade, e ele das relações entre Freitas e Corimbas. Nascida em 1935, Dona Joana morou na casa de seu pai até casar com Benedito Pereira (Baitaca), que morava nas áreas do outro lado do Córrego Guaracuí. Segundo Dona Joana, seu casamento teria sido acertado entre Benedito e Joaquim durante um mutirão realizado pela família Moura. Antes de fazer esse acerto Benedito já havia noivado anteriormente com Emídia, outra jovem da comunidade, entretanto, não consumou seu casamento, pois o curador João Luiz Cardoso havia lhe alertado que “essa mulher é um caixão de doença”73
Benedito Pereira, nascido em 1936, era filho de Avelino Rodrigues e de Maria Pereira Freitas também chamada de Maria Corimba. Segundo Dona Joana, Avelino Rodrigues era de “Iporanga abaixo”, ou seja, de fora da comunidade e Maria era “daqui mesmo” de João Surá. Maria era filha de Cirina de Freitas e Benedito Pereira, irmão de Mané Corimba.
Em entrevista realizadas por mim e por Lene com Antônio Carlos e com Dona Joana74 obtivemos mais informações sobre a vida de Benedito Pereira.
Na narrativa de Dona Joana, o trabalho foi um tema central para abordar os demais elementos que compõe a trajetória de Seu Benedito. Segundo ela, ele teria nascido na comunidade de Praia Grande, município de Iporanga, onde vivia a família de Maria Corimba. Benedito perdeu a mãe quando tinha apenas 5 anos de idade, enquanto o pai, que não era de Praia Grande, casou novamente com uma mulher também dessa comunidade. Ainda criança Benedito foi morar com uma família vizinha com quem residiu e trabalhou na
73 Esse fato me foi mencionado pela própria Dona Joana em 2017 e, posteriormente por seu filho Antônio
Carlos.
74 Esta última prestada exclusivamente a Lene quem também realizava sua pesquisa de doutorado enquanto
produção de "pinga" até seus cerca de 12 anos de idade75. Depois disso, foi morar com seu tio materno, Benedito Cira, em João Surá, quem o "pegou" e acabou de "criá-lo", até o momento em que se casou com Dona Joana, com cerca de 22 anos de idade.
O pai falava assim que eu era de 1935. E ele era mais criança que eu 1 ano, mas eu não tinha certeza, a gente era criança, quase de um toque só aquela criançada. Ele se criou com o Benedito Cira, se criou e se formou ali, trabalhando na roça com eles. Eles moravam aqui pra baixo também, no ribeirão, ali pr'aquela poça de lá pra baixo. Ali que eu me casei, ali que o tio deles criou eles também, morava tudo ali, nós morávamos tudo perto um de outro. Nós casamos, ficamos trabalhando na roça junto com eles.
(...) o meu véio, ele era trabalhador! Ele trabalhava desde quando ele morava com o tio dele, que é o compadre Benedito Cira. Ele era trabalhador, na roça plantava arroz, plantava cana, plantava rama, plantava de tudo quanto fosse de comida que a gente tem vinha da roça pra nós. Criava porco também.
Aí eles eram trabalhador que Deus o livre, só guardava dia de domingo, uma hora dessa ele tava procurando camarada mandado do tio dele,
Benedito Cira. Ele dizia: Oh, Benditinho – tratavam por ele –, vá
Benditinho campear camarada pra nós! Já tinha um homem aqui, morava aqui pra cima, já sondava pra tratar com ele. De meio dia pra parte da tarde era só tratar com o homem pra trabalhar a semana inteira. Ele já vinha pra cá, buscar camarada pra cá, quando era o outro dia só a turmarada indo. Ia ele, ia... Seu Vitor ia, sempre trabalhava de camarada também, ia mais... tudo eles trabalhava pra nós lá. Outro dia cedo tudo eles varava com a enxada, pra destocar a terra. Só fazia a roça, queimava, depois pegava destoqueava bem destoqueadinho, tirar tudo aquelas cordinhas, aqueles pauzinho tudo, pra deixar livre a terra só pra covear, pra fazer a cova da cana, desse tamanho assim, coveava aí umas 5 tarefas de terra... era tudo bem coveadinho. Daí era só ponhar as varinhas da cana atravessadinho... e plantava feijão né, daí o feijão nascia, e aí a gente já limpava o feijão e limpava a cana tudo. Plantava cana e feijão junto.
E ele era trabalhador, sabia?! Ali onde que o João [filho] mora, dali pra cima, ele plantou umas mudas de café, ele com o tio dele, o Benedito Cira, que criou ele. Foram em Iporanga e compraram essas mudas desses cafés que tem por aí, compraram muda dessa altura assim ó, aquela muda bem formadinha assim, que venderam pra eles. Aí eles pegaram ali onde tinha aquele lote ali que era deles né, daí plantou ali da casa de João tudo até lá pro meio da subida, só muda de café. Faziam cova no fundo do chão dessa altura assim...
Eles plantaram bem no dia santo de agosto, mês de agosto tem os dias santo né... eles trabalhavam tudo esses dias santo!
(Joana de Andrade Pereira, 81, dezembro de 2016).
Seu Benedito Cira teria levado o sobrinho Benditinho para morar com ele para incrementar a força de trabalho familiar em suas terras. De acordo com Seu Benedito Pereira de Freitas Jr. (72), entrevistado em dezembro de 2018,
75 Não foi possível verificar a idade precisa que Seu Benedito tinha quando saiu da casa daquela família.
Dona Joana nos informou "uns 16 anos, mais ou menos", enquanto que Antônio Carlos afirma que ele teria cerca de 12 anos de idade, e Doca, seu primo, nos disse que ele tinha uns 10 anos de idade. Utilizaremos então a idade mencionada por Antônio Carlos, por situar-se em um meio termo.
que é filho de Seu Benedito Cira e primo de Seu Benedito Pereira, seu pai "pegou ele pra trabalhar", pois ele já teria à época "tamanho pra trabalhar" e “terminou de criar”.
Sob esse prisma tal como destacam Mello e Salaini (2010), a condição de filho de criação poderia levar a criança a vivenciar um regime de trabalho semelhante a escravidão. Essa é uma situação que pode envolver uma série de ambiguidades, tal como destacou por exemplo Marques (2008)76 referindo-se a esse tipo de relação estabelecida entre crianças quilombolas e fazendeiros da região de Palmas. Por serem ambíguas, entretanto, podiam abrir espaços para a construção de seus projetos de vida (CRUZ, 2014).
No caso de seu Benedito e seus dois irmãos, entretanto, devemos considerar que a circulação das crianças ocorreu dentro da família, mais precisamente dentro da família materna. Enquanto seu Dito Baitaca foi morar na casa de seu tio Benedito Cira, seu irmão Leonilde foi morar na casa de Leotério Cira, irmão de Benedito Cira. Esse dado é ainda mais significativo se considerarmos que o pai biológico de Dito e Leonilde Baitaca havia se casado novamente e vivia na Praia Grande, na outra margem do Rio Pardo. Nesse caso os irmãos da mãe ocuparam o papel de pai na formação dos dois órfãos. Todavia, Maria, irmã de Dito e Leonilde, terminou de ser criada pelo tio paterno da mãe: Mané Corimba.
Na sequência, Dona Joana relata como se deu o preparo de seu casamento com Seu Benedito:
E nós se aprontando pra casar. Você vê, o pai ia fazer nós casar mês de maio, e ele já pegou, já ia fazendo as plantas adiantado junto com o tio dele. E plantou também duas tarefas de terra daquela casa de
76 A “criança ou adolescente era reconhecida como filho ou filha de criação do fazendeiro tal. Esse
reconhecimento se fazia tanto na cidade quanto no bairro. No exterior da fazenda se admitia o filho de criação como alguém que mantinha laço afetivo com os fazendeiros (na época a criação de gado era fonte de riqueza na região e ser filho de criação dos poderosos conferia certa familiaridade com o poder que estes dispunham). No interior das fazendas, essas relações eram tomadas de imprecisão. Primeiro, em relação à afetividade. Não há, nos relatos, momentos em que os meninos tivessem sentido por parte dos pais - patrões atos que denotassem um afeto relativo aos sentimentos paternos ou maternos. Geralmente essas crianças se apegavam a outros funcionários da fazenda. As refeições eram feitas na cozinha ou galpão, junto com outros empregados. Poucos relataram ter tempo de ir à escola, os que fizeram diziam que ‘iam à aula’ na própria fazenda. Dessa forma, muitas vezes, no período de aula, eram solicitados a executar suas atividades, o que acabava por afastá-los da frequência na escola, até que, com o passar do tempo, a abandonavam. Nos momentos de festa familiar, eles tinham como função desenvolver alguma atividade necessária para o andamento do evento. À medida que as crianças cresciam, sua posição de exterior à casa também avançava. Quando adultos, casavam e, muitas vezes, os pais de criação eram padrinhos do casamento e depois dos primeiros filhos. Muitos relataram situações em que seus filhos foram filhos de criação da mesma família (por muitas gerações)” (Marques, 2008: 72).
Irani [nora] pra cima ali, ele encheu tudo de cana, quando nós casamos a cana tava tudo dessa altura assim. Ele tirou feijão e maiô o feijão (...), quando nós casamos o feijão tava tudo maiadinho.
(Joana de Andrade Pereira, 81, dezembro de 2016).
Ela passa então a narrar como foi a vida do casal durante os primeiros anos depois do casamento:
(...) nós moramos na casa de telha junto com eles uns 2 meses, aí eles fizeram, pegaram uns dias lá, bem feitinho assim, uma casa regulando com aquela casa da memória lá [de barro], bem feitinho, tudo cobertinho com esse capim mesmo que eu tava contando [sapé]. A deles era feita de telha, essa telha do nhô Silvestre lá, aquela telhona goiva [de barro] (...). E a casinha nossa era coberta de sapé. Aí passamos na nossa casa. Criava galinha, criava porco... ele tinha porco quando nós casamos... e eu, quando eu me casei, eu tinha 1.500 de dinheiro, que papai deu pra mim. Papai deu 20 galinhas pra mim, botadeiras, também, que o pai com a mãe deram pra mim. Disseram: Ô Benedito, o que que você vai fazer com esse dinheiro da sua mulher agora? No que que você vai gastar o dinheiro dela? Daí ele falou: Eu não sei, ela que sabe. Aí eu falei: Ah, dá pra você comprar um porco pra nós. Aí ele foi lá na Praia do Peixe (...), comprou um baita de um porcão assim pra 200... aquela vez era no mil réis, não era nem no cruzeiro. Muié de Deus! Foi no ano que deu a peste suína sabe, aquela peste que matou tudo!
(Joana de Andrade Pereira, 81, dezembro de 2016).
E, nesse contexto de recém-casados, ela narra como se dava a sua participação no trabalho em conjunto com o esposo e a família do tio dele:
Daí, nesse alto pra cá assim fizeram uma roça. Ele com o tio dele. Aí plantaram milho lá, Senhor amado! Mas colheram! E abóbora... e foi lá no mês que nós casamos. E agora? (...) Daí falei pra eles: Vocês podem ir, que é lugar de homarada sozinhos. Daí teve um dia que eu resolvi de ir também. (...) Peguei minha roupinha, ponhei na sacola, e bati pra lá. Quando eu cheguei lá o tio dele falou: Oh Benditinho, agora você não leve a sua mulher pra roça, deixe ela pra fazer comida pra nós! Fiquei lá. Eles fizeram um chiqueirão assim, pra ponhar os porcos. Eles iam pra roça bem cedinho, só vinham meio-dia pra almoçar. Aí eu fiquei lá. (...). Cheguei lá e fui fazer almoço. E agora, como é que eu tiro essa banha do vidro? Peguei a garrafa e preguei lá no pé do fogo e sabia que arrebentou a garrafa?! (...) Mas passei a tal da vergonha dele, de eu tá começando a vida! (...) daquele dia em diante eu comecei a ir pra roça. Ah! Eu não vou ficar aqui só pra mim fazer comida nada. (...) Aí subi aquele altão e fui lá pra roça. Aquela madeirada que roçaram, e o milho tudo assim pelo meio. Ah, de eu ir pra roça com eles, dei graças a Deus! Vencemos quebrar o milho. Aí na hora de carregar o milho eles carregaram sozinhos, aquelas cestadão de milho...
(...) quando eles tocavam o porco, quando eles vendiam pras bandas da Barra, eles tocavam e era dois ou três dias pra varar o porco lá na travessia lá nas Andorinhas. E pra varar lá no Porto Novo, pra tocar pra lá o porco eles levavam dois dias pra varar no Tatupeva. E meu véio acompanhou tudo essas coisas. Ele com o tio dele. E eu ficava junto com a mulher dele. Ele falava pra mim: Agora você torre café pra nós levar pra lá pro Tatupeva. Aí eu pegava café, ponhava no sol, uma latinha dessa de tinta, (...) eu torrava café e enchia aquela lata de café. Quando era segunda-feira tava pronto o café pra levar pra lá. Eu
plantava café, torrava e socava tudo no pilão, moía bem moidinho no pilão a quantia certinha da semana.
(Joana de Andrade Pereira, 81, dezembro de 2016).
Na sequência, Dona Joana explica como se deram as mudanças de residência do casal até fixarem-se nas suas próprias terras, onde criaram os 6 filhos e uma filha.
Daí fomos morar com o pai e com a mãe. Lá tem uma lagoona assim, daí nós fizemos nossa casa perto da lagoa. Abandonamos lá com eles e viemos morar ali, daí ficamos trabalhando lá. Daí viemos trabalhar nessa terra nossa. Foi até que meu véio virou e fez casinha lá, na chegada lá, onde que tem a mudarada dele ali, ali que era nossa casinha sabe. Quando meu véio era vivo, a primeira casinha que ele fez foi ali. Aquela casinha bem arrumadinha, tudo bem ajeitadinho assim, tudo bem barreadinho... E ali naquele peito da estrada era cana, era mamão, era mandioca, tudo plantado naquele trecho ali. Ali que eu criei tudo os meus filhos na roça.
(Joana de Andrade Pereira, 81, dezembro de 2016).
Na narrativa de Dona Joana é possível perceber a presença destas duas esferas de sociabilidade, uma que envolve o trabalho familiar e outra que agrega nesta a figura do camarada. De um lado, ela se refere ao trabalho do esposo, realizado desde a infância junto de seu tio, quem lhe ordenava "campear camaradas" para ajudar no trabalho. De outro, ela nos informa sobre o empenho de seu esposo na produção de alimentos para o sustenta da família, onde "na roça plantava arroz, plantava cana, plantava rama, plantava de tudo quanto fosse