5. CARACTERIZAÇÃO DO TRABALHO INFANTIL NO BRASIL: 1995 A 2004
5.1. Trabalho infantil em um contexto internacional
O trabalho da criança, principalmente na última década, tem sido amplamente combatido em diversas frentes. Tamanha é a mobilização acerca deste problema que as estatísticas têm demonstrado que efetivamente vem ocorrendo uma redução do trabalho infantil em todo o mundo. Informações do relatório da OIT (2006a) colaboram para demonstrar esta afirmação, como se pode visualizar na Tabela 5 abaixo.
Tabela 5 – Estimativas de diferentes categorias de trabalho de crianças de 5 a 14 anos 2000 e 2004 (milhões) 2000 2004 2000 2004 2000 2004 2000 2004 Número absoluto - 5 a 14 anos 1.199,40 1.206,50 211,0 190,7 186,3 165,8 111,3 74,4 Variação % de 2000 para 20004 - 0,6% - -9,6% - -11,0% - -33,2% Categoria / Anos
População Infantil Crianças Econ. Ativas
Crianças Trabalhadoras
Crianças em Trabalho Perigoso
Fonte: OIT, 2006a, p. 13
Antes de se analisar os dados desta tabela tornam-se importante esclarecer os conceitos utilizados. Segunda a OIT (2006a, pp. 12-13), o conceito de crianças economicamente ativas é o mais amplo e engloba a maioria das atividades produtivas que uma determinada criança pode exercer, sejam elas remuneradas ou não, ou exercidas por algumas horas ou em tempo integral. É considerada economicamente ativa toda criança que trabalhar pelo menos uma hora diária no período de referência de sete dias. Apesar de ser um conceito amplo, exclui-se dele todas as atividades realizadas pelas crianças em casa, ou seja, não leva em consideração o trabalho infantil doméstico.
Outro conceito utilizado, porém mais restrito, é a noção de trabalho infantil utilizado pela OIT. É um conceito que se excluem todas as “crianças com 12 ou mais anos que trabalham apenas algumas horas por semana em trabalhos leves autorizados e aquelas com 15 ou mais anos cujo trabalho não é classificado como ‘perigoso’” (OIT, 2006a, p. 12). Um terceiro conceito, ainda mais restrito é o de trabalho perigoso, que vem sendo o principal foco
de combate dentre todas as formas de trabalho infantil. De acordo com a OIT (2006a, p. 13), o trabalho perigoso é toda “atividade ou ocupação que, pela sua natureza ou tipo, tenha ou resulte em efeitos adversos para a segurança, saúde (física ou mental) e desenvolvimento moral das crianças”.
Com estes conceitos gerais em mente é possível verificar na Tabela 5 que em 2004 havia aproximadamente 191 milhões de crianças economicamente ativas o que equivale a uma redução de 9,6% se comparado com o ano de 2000. O que se torna importante notar também é a efetiva redução de 33,2% que ocorreu na categoria de trabalho perigoso desenvolvido por crianças, uma redução de, em média, 8,3% ao ano. Como aponta a OIT (2006a, p. 14) o trabalho infantil está em declínio, e quanto mais prejudiciais e mais vulneráveis as crianças envolvidas, mais rápido esta redução ocorre. O fato de este grupo em particular ter se reduzido tão rapidamente de 2000 a 2004 reflete claramente a intensa mobilização e combate às piores formas de trabalho infantil em todo o mundo.
Apesar de uma importante redução no trabalho precoce das crianças no mundo, algumas características gerais ainda prevalecem, como se pode notar nas informações das tabelas a seguir.
Tabela 6 – Trabalho infantil e crianças em trabalho perigoso por faixa etária e sexo 2004 (em %)
Meninos Meninas Meninos Meninas
5-11 anos 49,3 50,7 50,5 49,5
12-14 anos 54,8 45,2 60,6 39,4
Faixa Etária Trabalho Infantil Trabalho Perigoso
Fonte: OIT, 2006a, p. 14
Como é possível observar na tabela anterior, uma primeira característica prevalecente é a maior incidência do trabalho dos meninos em comparação com o trabalho desenvolvidos pelas meninas. Ou seja, os meninos ainda continuam sendo os mais expostos ao trabalho precoce do que as meninas. Importante notar também que esta diferença entre o número de
meninos e meninas desenvolvendo algum tipo de atividade aumenta conforme mais velhas estas crianças ficam, em outras palavras, quanto mais velhas as crianças ficam maior é a propensão a se inserir no mercado de trabalho precocemente.
Gráfico 1 – Crianças de 5 a 14 anos economicamente ativas distribuídas por setor 2004 (em %)
69% 22%
9%
Agricultura Serviços Indústria
Fonte: OIT, 2006a, p. 14
Outra característica geral do trabalho das crianças é que existe uma maior incidência deste problema justamente na agricultura, onde aproximadamente 69% das crianças trabalhavam em 2004 (Gráfico 1). Isto devido essencialmente ao fato deste setor apresentar uma maior dificuldade de fiscalização e controle. A agricultura é seguida pelo setor de serviços, com uma participação de 22% de crianças trabalhando e por último o setor industrial, com uma participação de 9% no total de crianças de 5 a 14 anos que trabalham.
Além do trabalho infantil não ser um fenômeno tão recente como se imaginava (como se verificou no capítulo 3), também não é um problema exclusivo dos países em desenvolvimento, sendo, por razões diversas, sejam elas sócio-econômicas, culturais ou
religiosas, significativamente superior se comparado à incidência de crianças trabalhando em países desenvolvidos.
Tabela 7 – Tendências globais de atividade econômica das crianças de 5 a 14 anos por grandes regiões mundiais - 2004
2000 2004 2000 2004 2000 2004
Ásia e Pacífico 655,1 650 127,3 122,3 19,4% 18,8%
América Latina e Caribe 108,1 111 17,4 5,7 16,1% 5,1%
África Subsariana 166,8 186,8 48 49,3 28,8% 26,4%
Outras Regiões 269,3 258,8 18,3 13,4 6,8% 5,2%
Mundo 1199,3 1206,6 211 190,7 17,6% 15,8%
População Infantil (milhões)
Crianças Econ. Ativas (milhões)
Taxa de Atividade (%)
Região do Mundo
Fonte: OIT, 2006a, p. 16
Conforme as informações da Tabela 7 pode-se notar claramente que o trabalho das crianças de 5 a 14 anos se reduziu em praticamente todas as regiões do mundo, com exceção da região da África Subsariana. O número de crianças economicamente ativas se reduziu significativamente mais forte na região da América Latina e Caribe (redução de 67,2%), Outras Regiões (com redução de aproximadamente 28%), seguidas pela Ásia e Pacífico com uma queda aproximada de 4% no número de crianças economicamente ativas. De outro lado, na região da África Subsariana, ocorreu um pequeno crescimento de 2,7% no número de crianças economicamente ativas, porém a taxa de atividade teve uma leve redução, devido essencialmente ao grande crescimento da população da mesma faixa etária.
Analisando-se estas informações em termos relativos parece haver indícios de que a situação na região da África Subsariana é pior que as demais, porém é importante observar que em termos absolutos a região da Ásia e do Pacífico tem uma quantidade de crianças economicamente ativas duas vezes e meia superior que a própria África. Importante relembrar que dentre os países que compõem este bloco da Ásia e do Pacífico inclui-se a Índia, que é um país que não ratificou nenhuma das duas principais convenções internacionais que protegem a criança (Convenção nº 138 e 182 da OIT).
Como aponta Ashagrie (apud KASSOUF, 2002a, p. 19) todos estes números apresentados são uma “(...) subestimativa do valor verdadeiro, uma vez que muitos países não têm dados sobre o trabalho infantil, e, especificamente, sobre crianças trabalhadoras com menos de 10 anos de idade”.
Os números globais apresentados, ao mesmo tempo em que apresentam uma perspectiva otimista no sentido de estarem se reduzindo gradativamente, são também preocupantes, visto que dentre as atividades que as crianças estão desenvolvendo se encontram aquelas chamadas de piores formas de trabalho e exploração infantil, como as atividades relacionadas com o tráfico de entorpecentes, prostituição, conflitos armados, dentre outros. Segundo relatório da Unicef (2005, p. 51) existia em 2000 aproximadamente 1,8 milhões de crianças envolvidas em atividades ilícitas como tráficos de drogas, 1,8 milhões envolvidas com exploração sexual, 300 mil em conflitos armados e 5,7 milhões em trabalhos forçado e escravo.
Resumidamente, os dados apresentados nesta seção servem como introdução para o desenvolvimento do próximo tópico que se preocupará em analisar as características gerais do trabalho infantil no Brasil nos anos de 1995 e 2004. Grosso modo, as informações apresentadas nesta seção, mesmo subestimadas, indicam que existe uma tendência decrescente da utilização da mão-de-obra de crianças e que este problema ocorre com maior incidência em regiões agrícolas, entre os meninos e especialmente nas regiões mais pobres do mundo.