CAPÍTULO 3 – TRABALHO E INFÂNCIA: O ESTADO DA ARTE
3.1 O PERCURSO DO ESTADO DA ARTE
3.1.2 Trabalho Infantil (TI)
A palavra-chave “adolescência” e “cultura infantil”, também citadas em 8 (oito) das 50 (cinquenta) teses e dissertações consultadas, são palavras significativas e que indicam um discurso voltado para a descrição das metodologias e técnicas de pesquisa presentes na maior parte dos trabalhos.
A importância da reflexão e da comunicação no momento da escolha das palavras-chave é um ponto onde o pesquisador deverá estar atento, devido a aproximação entre o conteúdo pesquisado e a discussão metódica que tais palavras-chave possam se direcionar.
precisos quanto à categoria em questão, foram selecionados somente 22 trabalhos entre teses e dissertações, como demonstrado no Gráfico anterior, os quais tratam na sua íntegra o tema em questão. Observa-se também, que, entre os anos de 2011 e 2012, muito mais dissertações do que teses foram produzidas. Dos 22 trabalhos analisados, 73% são dissertações (16 trabalhos) e 27% (6 trabalhos) são teses. Isto sugere a incidência de um interesse maior pelo tema, por parte dos pesquisadores, nos cursos de Mestrado Acadêmico e Profissional e nas áreas da Psicologia, da Economia e Sociais e Humanidades, como demonstra o Gráfico 12, mais a frente, referente às áreas do conhecimento que se destinam os 22 trabalhos consultados.
GRÁFICO 7 – CATEGORIA TRABALHO INFANTIL: NÚMERO DE TESES E DISSERTAÇÕES POR ESTADO (2011/ 2012)
FONTE: Banco de Teses e Dissertações da CAPES. Dados da pesquisadora (2015).
Quanto ao número de trabalhos por Estado, evidencia-se um maior número no Estado do Paraná e Santa Catarina (Região Sul) e no Estado de São Paulo (Região Sudeste); paralelamente com o Estado da Bahia (Região Nordeste), totalizando uma produção científica de 64% nesta temática entre os anos de 2011 e 2012. Cabe notar que é um percentual elevado de produções para este tema tão impactantes na realidade dos quatro estados em evidência. Os dados se justificam no sentido de os estados serem polos de incentivo à pesquisa e apresentarem
índices elevados de crianças e adolescentes nos diversos tipos trabalho. Este fato da realidade impulsiona à investigação de uma forma mais intensa.
Entre as explicações em relação ao ingresso precoce de crianças no trabalho formal ou informal, a pobreza familiar, o nível educacional, o tipo de inserção e o grau de integração social definem uma estrutura social que favorece maiores ou menores condições de proteção, assistência, oferta de educação e saúde à população infantil nos estados brasileiros.
Entretanto, as teses apresentadas evidenciam um equilibrado número de trabalhos por Estado entre São Paulo, Rio de Janeiro, Santa Catarina, Bahia e Pernambuco, sendo o destaque para o Estado de Santa Catarina, com 2 produções, uma em 2011 outra em 2012.
QUADRO 5 – CATEGORIA TRABALHO INFANTIL: LINHAS DE PESQUISA NAS DISSERTAÇÕES
LINHAS DE PESQUISAS ANO QUANT.
Cognição e Interação Social 2011 1
Economia, Planejamento e Desenvolvimento 2011 1
Educação e Trabalho 2011 1
Emprego, Salário e Condições de Vida Do Trabalhador 2011 1
Estado, Direito e Políticas Públicas 2011 1
Sociedade e Desenvolvimento Regional 2011 1
Vigilância de Alimentos E Saúde 2011 1
Aspectos Jurídicos da Família 2012 1
Desenvolvimento Econômico 2012 1
Economia Social 2012 1
Estado, Sociedade e Desenvolvimento no Território 2012 1
Estudo de Cultura e Mundo 2012 1
Indisponível 2012 1
Práticas e Processos Formativos em Educação 2012 1
Questão Social, Direitos Sociais e Serviço Social 2012 1
Trabalho, Política e Sociedade 2012 1
FONTE: Banco de Teses e Dissertações da CAPES. Dados da pesquisadora (2015).
QUADRO 6 – CATEGORIA TRABALHO INFANTIL: LINHAS DE PESQUISA NAS TESES 2011/2012
LINHAS DE PESQUISAS ANO QUANT.
Cognição Social e Representações 2011 1
Economia do Trabalho 2011 1
Trabalho Infantil 2011 1
Enfermagem em Saúde da Criança 2012 1
Epistemologia e Psicologia: a Relação Sujeito-Objeto 2012 1
Trabalho e Educação 2012 1
FONTE: Banco de Teses e Dissertações da CAPES. Dados da pesquisadora (2015).
As linhas de pesquisas apresentadas nas teses e dissertações demonstram uma variedade significativa de trabalhos voltados para as áreas da Economia, da Psicologia e da Saúde. Pesquisar sobre as crianças e os adolescentes que trabalham hoje no Brasil e no mundo movimenta e define a própria linha de pesquisa e o tipo de trabalho de campo. Por esta evidência, pode-se afirmar que na passagem de uma fase na qual o fenômeno – trabalho infantil – envolve crianças no seu contexto global, outra, se evidencia, paralelamente, como a fase da exclusão.
Exclusão dessa faixa etária como desenvolvimento de uma infância plena. A leitura interpretativa a ser feita é entender que a exclusão das crianças trabalhadoras se configura como certa modalidade de dizer o real e a necessidade de nele intervir.
Este enfoque (teoricamente) emerge o interesse de pesquisadores das áreas citadas em se debruçarem nos debates e investigações que envolvam o desvelamento das desigualdades sociais, da forma de distribuição de renda, das questões de desenvolvimento econômico e social, dos direitos para a infância e dos aspectos jurídicos da família. A existência do trabalho infantil, demonstrada por índices ainda alarmantes em pleno século XXI, traz à tona a carência de maiores estudos configurados por meio das Linhas de Pesquisas nos cursos de mestrado e doutorado ofertados pelas diversas instituições de pós-graduação do país.
GRÁFICO 8 – CATEGORIA TRABALHO INFANTIL: ÁREAS DO CONHECIMENTO QUE SE DESTINAM AS TESES E DISSERTAÇÕES (2011/2012)
FONTE: Banco de Teses e Dissertações da CAPES. Dados da pesquisadora (2015).
Um número maior de trabalhos está voltado para “Sociais e Humanidades”, acompanhada das Áreas da Economia, Educação e Planejamento Urbano e Social.
Assim, a evidência do tema nas pesquisas demonstra que as áreas para as quais se destinam os trabalhos têm sofrido aumento considerável no meio acadêmico brasileiro e em outros países nos últimos quinze anos, pois a concentração dessas áreas do conhecimento trazem à tona os balanços realizados em torno das políticas educacionais, dos direitos humanos, da proteção à infância, da distribuição de renda e da importância da educação para a fiscalização, combate e eliminação do trabalho infantil no contexto mundial.
Analisa-se que as áreas do conhecimento direcionam ao entendimento de uma categoria de base – trabalho, pois o trabalho, na sua essência, é uma invariante da natureza humana. Neste sentido, a categoria trabalho infantil está inserida numa categoria de maior complexidade – a categoria trabalho. Esta, por sua vez, configura-se como uma atividade essencial ao ser humano e, sobretudo, centro e fundamento do laço social. Do mesmo modo, ou melhor, nesta perspectiva, é que as metodologias da pesquisa nas teses e dissertações se apresentam a seguir.
GRÁFICO 9 – TRABALHO INFANTIL: METODOLOGIAS ENCONTRADAS NAS TESES E DISSERTAÇÕES (2011/2012)
FONTE: Banco de Teses e Dissertações da CAPES. Dados da pesquisadora (2015).
De acordo com os dados levantados, nota-se que a metodologia mais aplicada pelos pesquisadores na categoria trabalho infantil é a “Pesquisa Qualitativa”, a qual aparece em maior número. Esta evidência fez buscar o real significado dessa escolha em Ghedin e Franco (2011), quando afirmam que na pesquisa em educação, por exemplo, muitos pesquisadores procuram estabelecer a metodologia que conduzirá seus trabalhos científicos apegando-se à sua representação apenas como instrumento de coleta de dados. Tal procedimento deve ser evitado para que o percurso do método não se torne apenas um “acessório” à pesquisa científica, mas, ao contrário, seja o método, o elemento fundador e organizador das reflexões construtoras do conhecimento pretendido.
Este conhecimento deve promover, cientificamente, todo o movimento reflexivo do objeto que está sendo investigado. Todavia, esta metodologia não parece conceituada e tampouco expressa a concepção em que se alicerçam as pesquisas. Também há que se examinar que, por tradição ou indicação metodológica de manuais de Metodologia Científica ou livros escritos por Metodólogos, ou, ainda, pela fertilidade intelectual dos pesquisadores de dar nomes e adjetivos, abundam metodologias que, por não estarem definidas ou por até estarem, muitas delas querem dizer a mesma coisa. Portanto, a metodologia necessita ser concebida como um processo que organiza cientificamente a reflexão dos elementos científicos a partir do sujeito empírico e deste ao concreto, de forma tal que se abra um campo para uma nova leitura, para uma ampla compreensão e interpretação do empírico inicial.
Ou, ainda, prefere-se seguir o que Marx escreve sobre o método dialético, o qual considera ser o verdadeiro método:
É mister, sem dúvida, distinguir, formalmente, o método de exposição do método de pesquisa. A investigação tem de apoderar-se da matéria, em seus pormenores, de analisar suas diferentes formas de desenvolvimento, e de perquirir a conexão que existe entre elas. Só depois de concluído este trabalho, é que se pode descrever, adequadamente, o movimento real. Se isto se consegue, ficará espelhada, no plano ideal, a vida da realidade pesquisada, o que pode dar a impressão de uma construção a priori. Meu método dialético, por seu fundamento, difere do método hegeliano, sendo a ele inteiramente oposto. Para Hegel, o processo do pensamento – que ele transforma em sujeito autônomo sob o nome de ideia, - é o criador do real, e o real é apenas a sua manifestação externa. Para mim, ao contrário, o ideal não é mais que o material transposto para a cabeça do ser humano e por ela interpretado (MARX, 2006, p. 28).
Por essas razões, é difícil considerar as expressões relatadas nas teses como metodologia trabalhada. Numa investigação em que realmente se quer
“descobrir a substância racional dentro do invólucro místico” (expressão marxiana) (MARX, 2006, p. 29), necessário se faz, como refere a citação acima, apoderar-se da matéria em seus pormenores, analisando as diversas formas de desenvolvimento, e, ainda, de perquirir a conexão que há entre elas. Só depois de concluído este trabalho é que se pode descrever, adequadamente, o movimento real, e isto só pode ser feito utilizando-se de todas as formas metodológicas ou técnicas, sejam quantitativas ou qualitativas (termo difícil de ser delimitado).
Entende-se que o procedimento metodológico empregado num trabalho científico demanda uma atitude decisiva por parte do pesquisador, qual seja – ao tratar de metodologia da ciência, a mais profunda das modificações consiste em fazer aparecer os modos pelos quais a consciência se apodera racionalmente da realidade pesquisada.
Assim,
O problema da metodologia não só está ligado ao da consciência, mas faz parte integrante deste. Por isso, nossa reflexão tem de realizar-se instalando-se no processo mais amplo da formação e das modalidades da consciência em geral, se quiser descobrir os fundamentos dos procedimentos metodológicos válidos para o trabalho científico (VIEIRA PINTO, 1969, p. 360).
O que o autor aponta é a afirmação de que a ciência é um produto da consciência humana, ou seja, é o resultado da necessidade de representação coerente do mundo e do papel do sujeito na realidade, no sentido de desvendar e vencer os obstáculos que, do contrário, o “exterminaria” como ser humano. Neste sentido, a pesquisa que se denomina qualitativa necessita ser compreendida e praticada na perspectiva da modificação qualitativa, àquela que, segundo Vieira Pinto (1969), conduz igualmente a descobrir a função normal e comum a toda espécie de saber. É ele (o saber) que vai determinar a consciência do pesquisador sobre o objeto investigado, lhe permitindo, contudo, penetrar no ainda desconhecido do mundo.
GRÁFICO 10 - TRABALHO INFANTIL: INSTRUMENTOS DE PESQUISA UTILIZADOS NAS TESES E DISSERTAÇÕES (2011/2012)
FONTE: Banco de Teses e Dissertações da CAPES. Dados da pesquisadora (2015).
Chama a atenção o fato de 27% dos instrumentos elencados se voltarem para “documentos”, ou seja, “análise documental”, e somente 4% para a utilização de “relatórios de fiscalização do trabalho infantil”. Nesta evidência, um questionamento pode ser feito: Não estaria o relatório (como “instrumento de pesquisa”) atrelado aos documentos consultados para se chegar à apreensão da coleta dos dados? Tudo indica que sim. Sendo 11% do total de 22 trabalhos consultados na categoria “trabalho infantil” se direcionam para “entrevistas semiestruturadas”, juntamente com uma porcentagem que varia entre 8%, 7% e 4%
para os demais instrumentos elencados, como se pode observar abaixo.
Os instrumentos de pesquisas estão atrelados à metodologia e são as estratégias de apreensão dos objetos das pesquisas nas teses e dissertações consultadas. A escolha do(s) instrumento(s) de pesquisa, na concepção de Ludke e André (1986), implica na existência de um planejamento cuidadoso do trabalho e uma preparação rigorosa do pesquisador em relação a esta escolha. Definir claramente o foco da investigação e sua configuração espaço-temporal evidencia quais aspectos do problema serão cobertos pelo instrumento a ser utilizado.
QUADRO 7 – CATEGORIA TRABALHO INFANTIL: PALAVRAS-CHAVE ENCONTRADAS NAS TESES E DISSERTAÇÕES 2011/2012
PALAVRA-CHAVE QUANT. PALAVRA-CHAVE QUANT.
Adolescência 3 Mercado de trabalho 1
Agricultura familiar 1 Migração Familiar 1
Armadilha de pobreza 1 Moralidades 1
Brasil urbano 1 Políticas Públicas 2
Colonização 1 Produção cooperada 1
Comportamento 1 Proficiência escolar 1
Crianças 3 Representações sociais profissionais 1
Cultura 1 Saúde da criança 1
Educação 2 Saúde mental 1
Educação do campo 1 SEEDPR 1
Enfermagem pediátrica 1 Segurança alimentar 1
Escola 1 Significados 1
Exploração do trabalho infantil 2 Sociedade 1
Infância 1 Trabalho 2
Informalidade 1 Trabalho infantil 17
FONTE: Banco de Teses e Dissertações da CAPES. Dados da pesquisadora (2015).
Uma grande diversidade de palavras-chave está apresentada nos trabalhos analisados, com destaque da palavra-chave “trabalho infantil”, que apareceu em 17 trabalhos, evidenciada como categoria fundamental nas teses e dissertações analisadas. As palavras-chave restantes, ligadas a esta categoria, demonstram o significativo grau de interligação com tema principal.
Nas palavras-chave, a preocupação com as categorias “trabalho infantil”,
“infância” e “adolescente” ficam evidentes, até mesmo porque o debate no campo do conhecimento sobre os estudos da infância ao longo da história da humanidade, nas áreas da Sociologia, da Educação, da Psicologia e da área Jurídica, orientou o foco dos estudos e da mudança de concepção sobre crianças e adolescentes como atores sociais, e não mais como categoria estrutural subordinada aos ditames da sociedade. A infância, portanto, deixa de ser vista somente como fenômeno biológico, natural e universal, para ser entendida como construção social, variável de uma cultura para outra, reitera Prado (2013).
Cabe ressaltar o trabalho que evidencia a palavra-chave “armadilha de pobreza”, de autoria de Gonçalves (2011) intitulado “Persistência Intergeracional de Trabalho Infantil e de Educação: Ensaios para o Brasil Metropolitano nas Décadas de 1990 a 2000”, que traz no conjunto do seu resumo um dos principais resultados
da investigação, a comprovação de que o trabalho infantil está fortemente vinculado à história laboral dos pais durante suas infâncias, bem como a existência de uma diferenciação regional de persistência intergeracional de trabalho infantil no Brasil como ciclo de pobreza.
Tal comprovação remete ao questionamento: a pobreza é um fator determinante da existência do trabalho infantil? Embora a questão do trabalho infantil tenha se tornado um problema internacional de peso nos últimos quinze anos, poucas pesquisas detalhadas têm sido realizadas sobre suas causas, afirma a OIT (BRASIL-OIT, 2013), por meio do Guia I – Introdução ao problema do trabalho infantil20.