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Mapa 2. Sergipe: Cidades e Vilas – 1889

3.3. Trabalho, Instrumento de Salvação

A Ordem Capuchinha surgiu com o objetivo de atuar conforme o fundador da Ordem Franciscana, São Francisco de Assis. Daí a necessidade de compreender a visão do trabalho para os capuchinhos, a partir das constituições da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos com a Regra e o Testamento de São Francisco. A Regra definitiva com doze capítulos foi aprovada em 1223, pelo Papa Honório III. O primeiro capítulo esclarece que os frades devem seguir os preceitos do Evangelho, obedecer ao Papa e ao testamento deixado pelo fundador da Ordem Franciscana, não possuir propriedade e viver em castidade. Trata também do modo de se vestir e agir, inclusive, em relação ao trabalho.313 Entender a visão do trabalho para os capuchinhos, desde São Francisco, ajuda a compreender a contribuição de frei João Evangelista no processo de valorização do trabalho. De acordo com a Regra,

312

Carta Pastoral de D. Romualdo Antônio Seixas, op. cit., p.9.

313 PEDROSO, Frei José Carlos Corrêa (tradutor). Constituições da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos

com a Regra e Testamento de São Francisco. Edição da CCB- Conferência dos Capuchinhos do Brasil.

Piracicaba/SP. 1997, p. 9. O Papa Inocêncio III, a pedido de São Francisco de Assis, autorizou a fundação da Ordem Franciscana em 1210. Mas a aprovação da Regra definitiva se deu em 1223, com o Papa Honório III.

114 Os frades a quem o Senhor deu a graça de trabalhar trabalhem com fidelidade e devoção, de tal maneira que, afastando o ócio inimigo da alma, não extingam o espírito da santa oração e devoção, ao qual todas as outras coisas temporais devem servir. Como recompensa do trabalho, recebam para si e para seus irmãos as coisas necessárias para o corpo, menos dinheiro ou pecúnia, e isso humildemente, como convém aos servos de Deus e seguidores da santíssima pobreza.314

Esse trecho retirado do quinto capítulo da Regra de São Francisco, intitulado “modo de trabalhar” mostra que o trabalho, uma “graça” de Deus, tem a função de afastar o ócio. São Francisco, exemplo para franciscanos e capuchinhos, em seu Testamento também reforçou a valorização do trabalho. “Eu trabalhava com minhas mãos, e quero [...] firmemente que também os outros frades trabalhem em ofícios compatíveis com a honestidade. Os que não sabem aprendam, não pela cobiça do preço do trabalho, mas para dar bom exemplo e para repelir a ociosidade”. 315

Figura 3. Capuchinho trabalhando com o arado. 316

Na imagem acima, verifica-se o missionário capuchinho usando o arado. Essa atitude representa a participação do missionário no trabalho servindo de exemplo para

314 Idem, p. 12. 315 Ibidem, p. 17. 316

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população conforme a Regra. A atualização da Regra e do Testamento de São Francisco, através das “Constituições da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos”, no sexto artigo, intitulado: “A formação especializada”, também se refere ao trabalho.

Escreve São Francisco no Testamento: os que não sabem trabalhar, aprendam. Essa advertência tem para nós um sentido sempre renovado e cada vez mais urgente. Pois não se pode dar conta do trabalho convenientemente sem ter adquirido uma formação especializada e adequada. É dever da Ordem ajudar todos os frades a desenvolverem sua graça especial de trabalhar. Pois é trabalhando que os frades se animam uns aos outros na vocação e fazem crescer a harmonia da vida fraterna. Cada frade seja formado de acordo com seus dons para os diversos encargos. Por isso, aprendam uns artes e ofícios, enquanto outros se dediquem a estudos pastorais ou científicos, principalmente sagrados. [...] Cuidem por isso os frades que, tornando-se hábeis em suas mãos e solidamente instruídos em suas mentes, façam-se ao mesmo tempo competentes e santos na graça

especial do trabalho. Entreguem-se à formação especializada com espírito

de abnegação e disciplina, na medida de suas capacidades, para contribuírem com o desenvolvimento pessoal e cultural para o bem comum da Ordem, da Igreja e da sociedade humana. [...] a formação para qualquer tipo de trabalho é parte integrante de nossa vida religiosa. 317 [grifo nosso]

Os frades deveriam acompanhar as mudanças na maneira de trabalhar, especializando-se em determinados ofícios conforme a necessidade da época. Ao aprender novas maneiras de trabalhar, contribuíam para o desenvolvimento da sociedade. Assim como demonstra, o quinto capítulo das Constituições que relata “o modo de trabalhar”.

Jesus Cristo conferiu uma nova dignidade ao trabalho e fez dele um instrumento de salvação para todos, tanto trabalhando com as próprias

mãos, como aliviando a miséria humana e pregando a mensagem do Pai. São Francisco exortou seus frades a trabalhar fiel e devotamente e deu testemunho de dignidade do trabalho por seu exemplo, participando também nisso da condição de vida das pessoas. Como fiéis seguidores seus, de acordo com a tradição primitiva dos capuchinhos, igualados como verdadeiros menores à condição de numerosos operários, dediquemo-nos com alegria ao trabalho cotidiano para o louvor de Deus, fugindo do ócio e prestando serviço aos frades e às outras pessoas, em espírito de solidariedade.318 [grifo nosso]

Para os capuchinhos, Jesus Cristo conferiu ao trabalho um novo significado: instrumento de salvação para a humanidade. Os capuchinhos organizavam e trabalhavam nas obras comunitárias, servindo de exemplo para as comunidades. Esse trabalho expiatório

317 PEDROSO, op. cit., p. 45. 318

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também objetivava contribuir para “promover o progresso” conforme determina as Constituições: “vivamos em consciente solidariedade com os inumeráveis pobres de toda a terra, e, através de nosso trabalho apostólico, levemos o povo, principalmente cristão, a obras de justiça e de caridade para promover o progresso dos povos”. 319

Sendo assim, a atuação dos capuchinhos em Sergipe também auxiliaram as autoridades que afirmaram não possuir recursos financeiros para realização das obras necessárias a “civilização” de muitas das localidades sergipanas, inclusive a nova capital, Aracaju, que como vimos no segundo capítulo necessitava de muitas melhorias. Os capuchinhos italianos além de valorizarem o trabalho, traziam a experiência de um povo considerado superior, que havia alcançado maior nível de desenvolvimento. Eles agiam de acordo com a Regra, e assim, à medida que, induziam a população a realizarem importantes obras, também mostravam o valor positivo do trabalho.