1.2 Juventude e o trabalho
1.2.2 Trabalho juvenil despadronizado
Durante os anos 1970, o fordismo apresentou seu esgotamento de prover crescimento econômico sustentado no consumo e na produção em massa de produtos padronizados com crescente produtividade do trabalho. Havia problemas de rigidez
no sistema, tanto nos mercados, na alocação dos recursos e nos contratos de trabalho. A produção em massa requeria equipamentos rígidos, um processo produtivo muito estanque e investimentos de capital fixo de larga escala e de longo prazo. Tudo isso não permitia flexibilidade no planejamento e havia o risco de crise de realização de lucros em caso de consumo declinante (HARVEY, 2001). Fatores como o acirramento da competição internacional; maior afluência e exigência do consumidor por produtos mais customizáveis, políticas econômicas monetárias e fiscalistas com efeitos pífios e causadores de inflação e dívida pública crescente levaram a suplantação do regime fordista por um novo, usando o termo de David Harvey (2001), pela chamada “acumulação flexível”.
Antunes e Alves (2004) resumem essa nova fase do capitalismo com os seguintes elementos: 1) redução do proletariado industrial com contrato estável, sendo substituído mais que proporcionalmente, em contrapartida, por relações mais frágeis e flexíveis (terceirizados e subcontratados, grande parte no setor de serviços);
2) aumento da participação feminina na força de trabalho, até ultrapassando a masculina, porém com tendência inversa na massa de salários; 3) expansão do setor de serviços, como resultado do amplo processo de reestruturação produtiva, das políticas neoliberais e do cenário de desindustrialização e privatização; 4) capitalismo mundializado, com intensa transnacionalização do capital e de seu sistema produtivo, a configuração do mundo do trabalho é cada vez mais transnacional, assim, novas regiões industriais emergem e muitas desaparecem, além de se inserirem cada vez mais no mercado mundial; e 5) crescente supressão dos idosos e jovens do mundo do trabalho, que acabam engrossando as fileiras dos trabalhos precários, informais, e dos desempregados sem perspectiva de trabalho.
De fato, durante esse período de reestruturação produtiva, foram os jovens que mais sofreram com o aumento das taxas de desemprego. O desemprego juvenil adquire então características estruturais e tem persistido em níveis elevados, tanto em épocas de crise quanto nas etapas de crescimento econômico sustentado, assumindo taxas duas ou três vezes superiores ao desemprego adulto (WERTHEIN;
DA CUNHA, 2004). Adicionalmente, foram os jovens as maiores vítimas do encolhimento de postos da base da pirâmide ocupacional que serviam de entrada (tais como auxiliares do comércio e serviços, office-boys, aprendizes e meio-oficiais da indústria, dentre outros postos que a tecnologia poderia substituir) e da mudança de
perfil dos postos disponíveis, para os quais se elevaram os requisitos de entrada (como idade, experiência e escolaridade) (GUIMARÃES, 2005).
A desestruturação do trabalho advinda da flexibilização do mercado laboral trouxe maior caos e incerteza à trilha profissional dos jovens trabalhadores em comparação à vida do jovem trabalhador fordista (CASTEL, 2010). Os jovens que a partir dessa época terminam a formação escolar deixam de vivenciar a segurança da
“passagem pré-programada” e enfrentam uma situação de “inserção aleatória” no trabalho, a qual carece de rumo predeterminado, “com intensas transições entre situações ocupacionais, já que as trajetórias profissionais não são mais previsíveis a partir de mecanismos de regulação socialmente institucionalizados”, adquirindo um sentido caótico (GUIMARÃES, 2006, p. 175-6). A juventude “poderosa” de então ficou mais dependente da família e do Estado (SPENCE, 2005).
Castel (1997) assevera que como o desemprego recorrente é uma dimensão importante do mercado de trabalho, considerável parte da população, inclusos os jovens, parece relativamente empregável apenas para serviços de curta duração e facilmente dispensáveis. O autor utiliza o termo de “interino permanente” para alcunhar a condição desse contingente populacional que vive à procura de oportunidades sem certeza do amanhã.
Contudo, há um senso comum sobre as transições ocupacionais dos jovens não serem apenas devidas aos ciclos econômicos, mas também por conta das próprias características exploratórias da juventude. Pois como vivem uma fase de experimentação e de amadurecimento, em uma espécie de ensaio e de erro na procura do “emprego certo” enquanto não tem a responsabilidade de chefia do grupo familiar, os jovens acabam vivenciando uma rotatividade maior e sendo mais facilmente captados pelo desemprego. Sendo assim, a alta rotatividade poderia ajudar a explicar as elevadas taxas de desemprego juvenil não só como um atributo da dificuldade de encontrar um emprego (REZENDE; TAFNER, 2005; CAMARANO et al., 2006; GUIMARÃES, 2006).
No entanto, vale ressaltar que essas “trajetórias nômades” são efetuadas de forma diferenciada, dependendo da classe social do jovem. Os jovens de famílias com mais alto rendimento médio exploram o mercado, entrando ou se mantendo convenientemente, tendo os estudos como mais importantes que o trabalho. Já no outro polo há compulsão à inserção laboral devido à pobreza familiar, e não apenas quando estão na condição de chefe de família, os jovens tendem a se manter
duradouramente no mercado de trabalho (enquanto isso for possível), independente dos estudos (GUIMARÃES, 2006).
Para entrada no mercado de trabalho os jovens têm se deparado com problemas de requisitos prévios. Requisitada corriqueiramente nos postos mais bem remunerados, a experiência profissional anterior é apontada como sinalizador da produtividade do trabalhador. Isso acaba criando um círculo vicioso, pois a empresa evita contratar jovens e eles, por sua vez, ficam impossibilitados de acumular experiência e fadados a ingressarem em postos precários que pouco agregam em sua qualificação e experiência (REZENDE; TAFNER, 2005; CORROCHANO et al., 2008).
De maneira diversa, os requisitos também acabam causando uma depreciação das formações e de qualificações, elevando o nível mínimo de qualificação sem correspondência com os imperativos técnicos de dada função. Pois as empresas tendem a se precaver perante mudanças tecnológicas contratando jovens com qualificação superior àquela necessária. Tal prática só aumenta a rotatividade desses jovens por conta da frustração de suas expectativas e acaba gerando um problema maior para os desempregados não qualificados que não encontram postos de trabalho, pois são ocupados por outros mais qualificados (CASTEL, 1997).