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2 O TRABALHO E A CLASSE QUE VIVE DO TRABALHO

2.1 O TRABALHO QUE ESCRAVIZA E DIGNIFICA

Maldito é o solo por causa de ti! Com sofrimentos dele te nutrirás todos os dias de tua vida [...]. Com o suor do teu rosto comerás teu pão, até que retornes ao solo, pois dele foste tirado. Pois tu és pó e ao pó tornarás.

Gênesis, 3:17-19

Com essas intimidadoras palavras, Adão e Eva foram obrigados a substituírem a doce ociosidade pela amargura do trabalho, a pena divina aplicada por terem infringido as leis do paraíso. Eis a origem do trabalho no contexto do discurso bíblico. Passados os tempos, a religião santificou aquilo que o próprio Deus teria imposto como maldição. E, em contrapartida, o ócio, com o surgimento das sociedades capitalistas, tornou-se um pecado capital.

A fim de se conferir uma ampla compreensão dos processos de significação do objeto de estudo trabalho é importante que se apreenda suas várias concepções de conceituação a partir de uma perspectiva discursiva, na qual as diferentes instâncias e abordagens revelam as condições de produção dos discursos sobre os processos dialéticos e dinâmicos da atividade humana de trabalho.

Do ponto de vista teleológico, em conformidade com o que defende Antunes (2002) na esteira de Karl Marx, o trabalho se configura como uma experiência elementar da vida cotidiana, o que o tornaria um componente inseparável dos seres sociais; seria, pois, “protoforma do ser social” na medida em que, em sua cotidianidade, o trabalho faz do indivíduo um ser social, distinguindo-o de todas as formas não humanas”. Nessa ótica, o trabalho é ato consciente, pois pressupõe conhecimento concreto de determinadas finalidades e de determinados meios, remetendo a uma dimensão fundamental da subjetividade do ser; subjetividade que, a propósito, desempenha papel determinante nas mutações e rupturas relevantes da história da humanidade.

Essa perspectiva mostra o trabalho como momento fundante de realização do ser social, vale dizer, uma condição taxativa para a existência do ser social e o propulsor para o processo de humanização do homem. In verbis:

Não foi outro o significado dado por Marx ao enfatizar que: “Como criador de valores de uso, como trabalho útil, é o trabalho, por isso, uma condição de existência do homem, independentemente de todas as formas de sociedade, eterna necessidade natural de mediação do metabolismo entre homem e natureza e, portanto, vida humana”. Esta formulação permite entender o trabalho como a única lei objetiva e ultra-universal do ser social, que é tão eterna quanto o próprio ser social; ou seja, trata-se também de uma lei histórica, à medida que nasce simultaneamente com o ser social, mas que permanece ativa apenas enquanto esse existir (ANTUNES, 2002, p. 125).

Michel Foucault (2005, p. 124-125) dissente que o trabalho possa ser considerado a essência concreta do indivíduo, nos termos como foi enunciado por Hegel e Marx. No prisma foucaultiano, o trabalho não é a existência do homem em sua forma concreta porque para que os homens sejam efetivamente colocados no trabalho, ligados ao trabalho, é preciso uma operação, ou uma série de operações complexas pelas quais os homens se encontram efetivamente, não de uma maneira analítica, mas sintética, ligados ao aparelho de produção para o qual trabalham. Seria preciso “a operação ou a síntese operada por um poder político para que a essência do homem possa aparecer como sendo a do trabalho”. Portanto, diz Foucault, não é possível “admitir pura e simplesmente a análise tradicionalmente marxista que supõe que, sendo o trabalho a essência concreta do homem, o sistema capitalista é quem transforma este trabalho em lucro, em sobrelucro ou em mais-valia.”

Nesse sentido, igualmente argumenta Postone (2014, p. 37), preconizando que, na crítica de Marx ao capitalismo, as categorias fundamentais da vida social nesse sistema de produção são categorias do trabalho, “o que não é de forma alguma evidente, por si só, e não pode ser justificado apenas indicando a óbvia importância do trabalho para a vida humana em geral”.

Com base nos posicionamentos postos em diálogo, entende-se que a premissa foucaultiana não descarta ou contradiz a proposição marxista, mas a complementa ao passo que o trabalho, sendo uma condição de existência do homem em sociedade, requer uma operação que liga os indivíduos ao aparelho de produção para o qual trabalham. O trabalho está interligado, portanto, a um poder político que possibilita a realização do ser social.

Ainda sob o prisma teleológico, através do trabalho teria lugar uma dupla transformação: por um lado, o próprio ser que trabalha é transformado pelo seu trabalho; ele atua sobre a natureza; desenvolve as potências nela ocultas e subordina as forças da natureza ao seu próprio poder; por outro lado, os objetos e as forças da natureza são transformados em meios, em objetos de trabalho, em matérias-primas etc. Nesse sentido, o ser humano utiliza as propriedades mecânicas, físicas e químicas das coisas, a fim de fazê-las atuar como meios

para poder exercer seu poder sobre outras coisas, de acordo com sua finalidade (LUKÁCS apud ANTUNES, 2002, p. 125).

Em consonância com o Dicionário Etimológico online, a origem da palavra trabalho decorre da terminologia em latim tripalium, formada pela junção dos elementos tri, que significa três, e palum, que quer dizer madeira. Esse seria o nome de um instrumento de tortura constituído de três estacas de madeira e que, usualmente, prendia os bois pelo pescoço e os ligava ao carro e ao arado. Do prisma etimológico para a concepção histórica e discursiva de trabalho, diz-se que também sofreriam torturas no tripalium os escravos e pobres impossibilitados de pagar os impostos. Nessa conjuntura em que trabalhar seria ser torturado ou sofrer uma espécie de castigo, os nobres se eximiam de sua prática, cabendo apenas aos despossuídos exercerem atividades produtivas nas quais se despendia força física à exaustão. Também o discurso bíblico, como já dito, corrobora essa significação do trabalho como tortura e punição. Na polis grega, o trabalho, especialmente o manual, teria sido considerado indigno e, portanto, exercido por mulheres e escravos alheios às relações políticas e sociais. Lado oposto seria ocupado por homens que se dedicavam à meditação, prática associada à concepção de liberdade e autonomia.

À luz da história, diz-se que o indivíduo, nos primórdios dos tempos, trabalhava para alimentar-se, defender-se, abrigar-se e para fins de construção de instrumentos. A fome, a sede e o instinto de conservação teriam sido estímulos para a busca de meios de subsistência. A partir do momento em que o homem teria percebido sua capacidade de planejar e colher onde estava, passaria a se fixar na terra a fim de se extrair dela a subsistência por meio da pastagem e da plantação. Daí teria surgido, de forma embrionária, a concepção de divisão técnica do trabalho. A propósito, em apertada síntese, o relato de Carlos Alberto Chiarelli (apud ÁVILA, 2009, p. 22) ilustra esse discurso:

A clava, instrumento que até então era utilizado para o homem defender-se dos animais ferozes, era a mesma que era utilizada para a extração de frutos das árvores. [...] O passo subsequente foi o arado. Tal diversificação dos instrumentos denotou a primeira ideia de divisão do trabalho. Com isso, o grupo se estabeleceu em um local, cessaram as migrações constantes, e se estabeleceram os rudimentos de uma organização política, socioeconômica e do trabalho que acompanharia o homem ao longo de sua história.

Discurso outro igualmente expressivo retrata que a formação de tribos teria propiciado o início das lutas pelo poder e domínio. Nas palavras de Sussekind (2002, p. 3), “os perdedores tornavam-se prisioneiros e, como tais, eram mortos e comidos. Alguns passavam à condição de escravos para execução de serviços mais penosos”. Consoante Reis

(2012), os vencedores que faziam maior número de prisioneiros, passaram a vendê-los, trocá- los ou alugá-los:

A existência da escravidão nos tempos medievais era marcada pelo grande número de prisioneiros, especialmente entre os bárbaros e infiéis [...]. Sob vários pretextos e títulos, a escravidão dos povos mais fracos prosseguiu por vários séculos; em 1452 o Papa Nicolau autorizava o rei de Portugal a combater e reduzir à escravidão todos os muçulmanos, e em 1488 o rei Fernando, o Católico, oferecia dez escravos ao Papa Inocêncio VIII, que os distribuía entre cardeais. Mesmo com a queda de Constantinopla em 1453, a escravidão continuou e tomou incremento com o descobrimento da América. Os espanhóis escravizavam os indígenas das terras descobertas e os portugueses não só aqueles, como também faziam incursões na costa africana, conquistando escravos para trazer para as terras do Novo Continente.

Nessa condição, tão antigo quanto o próprio ser humano como ser social, o trabalho, ao longo da história da humanidade, sofreu mudanças axiológicas e pragmáticas conforme o estágio evolutivo dos povos e dos diversos grupos de uma sociedade. As incessantes transformações nas práticas discursivas e não discursivas refletiram no modo de significar o trabalho, posto que, de meio de segregação de grupos desvalidos e de distanciamento entre classes sociais, o trabalho teria passado a ser tido como meio de inclusão social e de qualificar pessoas. Essa ressignificação do trabalho como fonte de riqueza e de dignidade da pessoa humana, ainda que relativa e não raro meramente formal, teria sido impulsionada por lutas que engendraram alterações substanciais nas concepções discursivas acerca da atividade humana de trabalho.

Se em um momento, a escravização teria sido o alicerce das relações de trabalho subordinado em favor de terceiros, em outro posterior, as Revoluções Francesa e Industrial teriam dado base para a constituição de uma nova sociedade, pautada nos ideais da liberdade, igualdade e fraternidade, valores que não raramente se confrontariam com o capital, a produção e o lucro. A ascendente economia de mercado e o capitalismo em rápida expansão teriam propiciado uma revalorização do trabalho, de forma que, estrategicamente, houve a construção de uma ideologia do trabalho que o apresentou como a mais nobre atividade exercida pelo ser humano e como a única forma legítima de aquisição de riqueza e de acesso aos meios de vida. Essa estratégia do capital, no discurso marxista, converte o sujeito em meio para a satisfação dos fins privados e da avidez de outro sujeito.

Em meados do século XIX, Lafargue (apud CHAUI, 1999, P. 27), enfurecido com a “paixão” da classe operária francesa pelo trabalho assalariado, registra:

E dizer que os filhos dos heróis do Terror18 se deixaram degradar pela religião do

trabalho a ponto de aceitar, após 1848, como uma conquista revolucionária, a lei que limitava a doze horas o trabalho nas fábricas; eles proclamavam, como sendo um princípio revolucionário, o direito ao trabalho. Envergonhe-se o proletariado francês! [...] Somente escravos seriam capazes de tamanha baixeza! [...] E se as dores do trabalho forçado, se as torturas da fome se abateram sobre o proletariado em número maior que os gafanhotos da Bíblia, foi ele que as invocou. O trabalho que, em junho de 1848, os operários exigiam, armas nas mãos, foi por eles imposto a suas famílias; entregaram, aos barões da indústria, suas mulheres e seus filhos. Com suas próprias mãos, demoliram seus lares; com suas próprias mãos, secaram o leite de suas mulheres; as infelizes, grávidas que amamentavam seus filhos, tiveram de ir para as minas e manufaturas curvar a espinha e esgotar os nervos; com suas próprias mãos, estragaram a vida e o vigor de seus filhos. Envergonhem-se os proletariados!

Logo, em contraposição ao estado negativo do trabalho que, historicamente, era tido como escravo na visão grega, e como forma de punição e expiação pelos pecados cometidos na visão católica, a ideologia dominante passaria a difundir a ideia de que o trabalho enobrece, feito que teria garantido ao capitalismo um terreno fértil para exigir um maior controle sobre o processo e a aceleração dos ritmos de trabalho. Nessa ótica, o discurso que diz enaltecer o trabalho e enobrecer quem o realiza oculta ver o trabalhador como tão somente meio de produção. Ainda longe da formação discursiva que constitui a dignidade do operário enquanto pessoa humana, o discurso capitalista do século XIX valorava a duração do trabalho levada além do máximo da resistência normal do indivíduo. Segundo Ferreira (2004, p. 25), o antagonismo entre esses valores e discursos resultou em quase a totalidade daquele século em revoluções sanguinárias por toda a Europa e locais isolados na Ásia e no continente americano.

Ávila (2009, p. 26-27) destaca que a desordem sucedida dessas guerras entre capital e trabalho ascendeu a preocupação da Igreja, o que teria feito com que, em 15 de maio de 1891, o Papa Leão XIII publicasse a Carta Encíclica Rerum Novarum, que proclamava a união das classes capitalista e trabalhadora:

[...] o erro capital na questão presente é crer que as duas classes são inimigas natas uma da outra, como se a natureza tivesse armado os ricos e os pobres para se combaterem mutuamente num duelo obstinado. Isto é uma aberração tal, que é necessário colocar a verdade numa doutrina contrariamente oposta, porque, assim como no corpo humano os membros, apesar da sua diversidade, se adaptam maravilhosamente uns aos outros, de modo que formam um todo exactamente proporcionado e que se poderá chamar simétrico, assim também, na sociedade, as duas classes estão destinadas pela natureza a unirem-se harmoniosamente e a conservarem-se mutuamente em perfeito equilíbrio. Elas têm imperiosa necessidade uma da outra: não pode haver capital sem trabalho, nem trabalho sem capital. A concórdia traz consigo a ordem e a beleza; ao contrário, dum conflito perpétuo só

18 Segundo Marilena Chaui, que introduz O direito à preguiça, obra de Paul Lafargue, o autor estaria se

referindo ao período jacobino da Revolução Francesa, a partir de 1793, considerado o período popular radical da Revolução.

podem resultar confusão e lutas selvagens. Ora, para dirimir este conflito e cortar o mal na sua raiz, as Instituições possuem uma virtude admirável e múltipla. E, primeiramente, toda a economia das verdades religiosas, de que a Igreja é guarda e intérprete, é de natureza a aproximar e reconciliar os ricos e os pobres, lembrando às duas classes os seus deveres mútuos e, primeiro que todos os outros, os que derivam da justiça.

Esse discurso sobre classes distintas e antagônicas, evocado na Carta, remete à discussão de Pêcheux (1990, p. 16) sobre a existência das ideologias dominadas concebidas como germes reprimidos e abafados pela ideologia dominante. Ao reverso dessa concepção, Pêcheux defende que toda dominação ideológica é antes de tudo uma dominação interna, uma dominação que se exerce primeiramente na organização interna das próprias ideologias dominadas. As ideologias dominadas, para o filósofo, “se formam sob a dominação ideológica e contra elas, e não em um outro mundo, anterior, exterior ou independente”. Daí que toda genealogia das formas do discurso revolucionário supõe, primeiramente, que se faça retorno aos pontos de resistência e de revolta que se incubam sob a dominação ideológica.

O porta-voz da Igreja católica, falando em nome da paz e da ordem a partir de uma posição que traz para si o predicado de imparcialidade e o dom do julgamento do que é certo ou errado, do que é justo ou injusto, evoca um discurso que, efetivamente, intensifica as diferenças sociais, em que pese fazê-lo em nome da concórdia entre ricos e pobres. Nesse ponto, o questionamento desse discurso acaba por se tornar discurso de resistência, de insurreição, discurso que, por sinal, também passa a ter porta-voz. Esse era o cenário que se intensificava nas práticas discursivas de modo geral.

Os efeitos da globalização e do avanço tecnológico, estimulando a mundialização dos meios de comunicação e a aceleração da mobilidade do capital, cujo deslocamento passou a se produzir velozmente por vias eletrônicas, descortinam uma nova alteração dos valores sociais. A intensificação da competição capitalista induziu o capital a procurar novas fontes de trabalho mais baratas e mais flexíveis. Segundo Valdir Florindo (apud ÁVILA, 2009, p. 28), uma visão sistêmica faz ver que o processo de globalização da economia cria para a sociedade um regime perverso, eivado de deslealdade e exploração, iniquidades que além de repercutirem no ambiente de trabalho, geram grave desnível social.

Nessa circunstância, ao passo em que o trabalho é, na formulação marxista, o ponto de partida do processo de humanização do ser social, é também, na sociedade capitalista, aviltado e degradado, tornando-se, portanto, a desrealização do ser social. Verte-se em efeito estranhado na medida em que o resultado do processo de trabalho aparece junto ao trabalhador como algo alheio e estranho. Daí advém, aliás, as ideias de Marx sobre o trabalho

alienado, aquele que impossibilita ao sujeito reconhecer-se como produtor de suas obras. Isso ocorre porque a divisão social do trabalho imposta pelo capitalismo impede que o trabalhador reconheça sua obra na mercadoria posta em comercialização. Na lição de Chaui (1999, p. 35):

Produzidos por ordem de outros, os produtos são enviados ao mercado de consumo e cada trabalhador, ignorando o trabalho de todos os que produziram as mercadorias, vê os produtos do trabalho como coisas prontas que parecem existir por si mesmas. Em suma, não as percebe como objetivação de sua subjetividade humana, mas como algo que parece não depender de trabalho algum para existir – o produto aparece como “outro”19 que o produtor.

Nessa ótica marxista, o processo de trabalho se converte em meio de subsistência, torna-se uma mercadoria destinada a produzir mercadorias. O que deveria ser a forma humana de realização do indivíduo reduz-se à única possibilidade de subsistência do despossuído. Por conseguinte, o trabalho não é a satisfação de uma necessidade, mas somente um meio para satisfazer necessidades fora dele.

Segundo Antunes (2002, p. 128-129), a atividade produtiva dominada pela fragmentação e isolamento capitalista, na qual os trabalhadores são atomizados, não pode realizar adequadamente a função de mediação entre o ser humano e a natureza, porque reifica o primeiro e suas relações e o reduz ao estado de um animal natural. Em lugar da consciência de ser social tem-se o culto da privacidade, a idealização do indivíduo tomado abstratamente; tem-se, na sociedade regida pelo capital, uma forma de objetivação do trabalho, na qual as relações sociais estabelecidas entre os produtores assumem a forma de relação entre os produtos do trabalho. A relação social estabelecida entre os atores sociais adquire a forma de uma relação entre coisas.

Nessa direção, acentuam-se, na sociedade regida pelo valor, as dicotomias riqueza/miséria, acumulação/privação, possuidor/despossuído, dominante/dominado, que se expressam explicitamente na formação de classes sociais. No Brasil, salienta Guedes (2008, p. 105), que a herança de 400 anos de escravidão propiciou o desenvolvimento de uma ideologia de apartheid, na qual a classe dominante objetiva os trabalhadores como classe inferior,

19Marilena Chaui (1999, p. 33) parte da derivação das palavras “alienação” e “alienado” para desenvolver o

raciocínio a respeito da terminologia trabalho alienado, consoante utilizadas por Marx e Lafargue. Segundo a filósofa brasileira, os termos são derivados de um pronome da língua latina, alienus, aliena, alienum, que significa “outro, outra” no sentido de “alheio, alheia”: “Quando se diz que um doente mental é um alienado, o que se quer dizer é: 1) ou que ele se tornou um outro para si mesmo, tornou-se alheio a si mesmo, não se reconhece tal como é, mas se imagina como um outro (por exemplo, aquele que imagina que é Cristo, Napoleão, Hitler etc.); 2) ou que ele imagina a existência de um outro superpoderoso ou uma existência alheia à sua que pode dominá-lo, força-lo a fazer o que não quer, mata-lo etc. A paranoia é um dos casos clínicos da primeira forma da alienação, e a esquizofrenia é um dos casos clínicos da segunda. Não será por acaso que Lafargue se refira à ‘paixão pelo trabalho’ como um caso de loucura. O trabalho de que ele fala é o trabalho alienado.”

tratando-os com desprezo social e aversão cultural. Na organização empresarial, a receita da administração por estresse recebe ainda o aditivo do singular traço da formação cultural brasileira e é encarado com normalidade pela sociedade.

Marx idealizou, em uma sociedade futura, que o trabalho pudesse ser estruturado de forma a ser satisfatório e agradável: não alienado, livre de relações de dominação social direta ou abstrata, uma atividade de autorrealização. Essa liberdade da dominação não implica, consoante Postone (2014, p. 50), liberdade de todas as restrições, pois, para sobreviver, toda sociedade humana exige alguma forma de trabalho. Contudo, que o trabalho nunca seja uma esfera de liberdade absoluta não significa que o trabalho não alienado seja sem liberdade da mesma maneira e no mesmo grau que o trabalho restringido pelas