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A valorização personalidades, como as apresentadas, no ambiente escolar, é fundamental para servir de modelo para as meninas, especialmente as meninas negras, e para estímular a reflexão e a contestação dos processos socioculturais dos quais fazem parte. Ao mesmo tempo, enquanto houver poucas mulheres em posições de destaque, a condição da baixa representatividade diante de um conjunto masculino pode gerar repercussões negativas, criando barreiras e desafios para a igualdade de gênero e raça.
7.4.2 Combate ao assédio e à violência
Conforme o depoimento de um dos professores, as diferenças de comportamento entre meninos e meninas na escola está fundamentada no conceito de violência simbólica, levando os meninos a agirem de forma mais ativa e violenta e as meninas de forma mais reflexiva e submissa. De acordo com Bourdieu (2010), violência simbólica é uma forma de poder que o dominador exerce sobre a(o) dominada(o) de maneira invisível e insidiosa pela manifestação de um ato de conhecimento e comunicação sobre as vítimas. Segundo o professor entrevistado, essa violência simbólica se reflete no comportamento escolar das meninas, com repercussões para as suas vidas.
Mais uma vez, por violência simbólica, estou me referindo ao conceito mesmo do Bourdieu, por violência simbólica eu acho que as meninas são instadas ao longo da vida escolar a um determinado comportamento mais dócil e os meninos são instados a um comportamento mais agressivo (P6masc)
O gênero do(a) professor(a) parece ser levado em consideração para o tipo de comportamento de meninas e meninos em sala de aula. Apesar da figura de autoridade estar no mesmo nível, duas professoras entrevistadas perceberam que pode haver diferenças de posicionamento dos alunos no tratamento em relação aos colegas homens.
As oportunidades são as mesmas [para mulheres e homens], mas nas entrelinhas e no convívio ainda é... por exemplo, no universo escolar, professor e professora, que é um universo mais democrático e que a presença da mulher é melhor aceita, os alunos, sem querer, eles são mais tranquilos com o professor homem do que com a professora, a relação é diferente (P3fem).
Em outro momento, essa mesma professora detalha a interação entre professora e alunos homens.
Eu tenho as vezes o hábito de dizer para eles assim: “Se eu fosse um professor homem vocês iriam ter uma postura mais respeitosa na hora de chamar a atenção, ou se eu fosse uma professora com uma postura mais agressiva, tirando pontos, expulsando de sala”, que é associado a uma postura masculina, “... Vocês iriam respeitar mais as regras do convívio na sala” (P3fem).
Esse padrão identifica o estudante do sexo masculino como mais combativo com as professoras mulheres, exceto se elas adotarem uma conduta autoritária, que a professora já associa ao masculino. Por um ângulo distinto, outra professora tende a não ver diferença de comportamento entre meninos e meninas, atribuindo este fato à formação humanista, à cultura escolar do Pedro II. Mesmo negando a diferença de comportamento, acha que as meninas se sentem mais à vontade para se expressar diante de uma professora mulher.
Eu não sei se a formação humanista do Colégio Pedro II realmente impacta e faz alguma transformação, mas no espaço da sala de aula eu acho que as meninas se colocam tanto quanto os meninos, não vejo, também não sei se por eu ser uma professora mulher eu não sei se elas se sentem mais à vontade, mas eu tendo a não ver tanta diferença assim (P5fem).
Por outro lado, alguns professores do sexo masculino observam que as alunas são mais retraídas, principalmente nas fases finais do Ensino Médio, o que pode indicar a atitude específica diante do professor homem.
Eu faço uma pergunta, de cada cinco alunos que levantam a mão para tentar responder, quatro são homens, mas isso com 17 anos. Você pega a 1ª série do ensino médio, com dois anos antes, a situação já se inverte, as meninas levantam mais a mão para aparecer diante do coletivo (P4masc).
Bell hooks (2017) subsidia a compreensão de que o sentimento de segurança para se expressar em sala de aula faz parte da construção do contexto democrático em uma educação progressista. Segundo ela, a política de dominação do exterior se reproduz no âmbito educacional, pois, em sua análise como professora universitária, os alunos brancos e homens são os que mais falam nas aulas. Ela afirma, ainda, que os alunos negros e algumas mulheres brancas reportaram medo de serem julgados(as) como intelectualmente inferiores ao se expressarem em público, além de carregarem o sentimento de que, ao não se afirmarem, terão menos possibilidades de serem agredidos(as).
As consequências do silenciamento estão sendo mapeadas pela teoria e prática feminista. Uma estudante negra, com visão mais política entre os alunos entrevistados, atribui as diferenças de oportunidades entre homens e mulheres na sociedade ao “saber falar” masculino, refletindo inclusive na questão salarial.
Acho que é por causa mesmo [...] na forma salarial assim, pelo fato que os homens, eles sabem falar bem mais do que as mulheres, eles são mais ativos e isso que diferencia um pouco das mulheres assim. Porque eles [se] acham (E4femn).
A quebra desse silêncio se dá, especialmente, pela transmissão das experiências das mulheres, seja por meio das TIC, seja pela colocação presencial. A maioria das pessoas entrevistadas reconheceu que os assédios cotidianos sofridos pelas mulheres estão sendo salientados nas comunicações habituais. Os alunos do sexo masculino tomam conhecimento dessas situações por relatos de meninas e mulheres de suas redes (físicas ou virtuais). Segundo um aluno: “acompanho a questão no caso da discriminação que as mulheres sofrem no geral na sociedade, os problemas que enfrentam diariamente” (E3mascn). Outro aluno concorda: “Hoje em dia está muito mais forte, estão... um pouco mais visível assim, as pessoas criticam mais essa forma de pensamento [machista], mas ainda assim ela continua presente” (E5mascn).
No ambiente físico do Campus um dos professores entrevistados relatou que participou das reuniões de um grupo de alunas que tinha o intuito de levantar as discriminações de gênero dentro e fora da escola:
Um grupo de meninas, em 2015, iniciou uma série de reuniões só entre elas para discutir a questão de gênero. Foram as formandas da terceira série de 2015 que chamaram alunas desde o oitavo ano para discutir gênero na escola. Aquilo foi muito legal, aquilo abriu a cabeça, e não eram reuniões fechadas aos meninos, eu mesmo participei de uma, depois eu não quis participar mais porque eu achei que aquele era um espaço muito delas, construído por elas, ocupado por elas e eu queria que elas ficassem à vontade.. Mas na reunião que eu participei eu me lembro que elas contaram vários casos de assédio, de problemas delas se sentirem inferiorizadas na sociedade. A maioria deles [os assédios] era fora dos muros da escola, não eram na escola, tinham poucos dentro da escola. Eu acho que a gente aqui no Pedro II Campus Centro vive um ambiente bastante positivo nesse sentido, é a minha percepção (P4masc).
Em seguida, o mesmo professor completa sua declaração dizendo que os casos envolvendo as alunas no espaço escolar estão mais ligados a formas tomadas como sutis de assédio e violência, sugerindo a presença da violência simbólica.
Há casos de preconceito de gênero, de questões ligadas a isso, mas elas são
sutis, não significa que não têm que ser combatidas, porque de serem sutis para se tornarem questões muito graves com algum dano psicológico maior, essa evolução não custa nada (P4masc).
A agressão verbal foi muito citada como atitude discriminatória contra meninas e mulheres dentro do Campus e no ambiente virtual do qual fazem parte. Os homens (professores e alunos) especificaram casos, sem declarar os termos utilizados nos insultos. “já vi assim alguns comentários sarcásticos [...] e tem um caso [...] eu não presenciei, mas eu soube de uma agressão verbal de um aluno com uma aluna” (P1masc). A expressão “piadas machistas” aparece na maioria das falas das pessoas entrevistadas para se referir às discriminações observadas no cotidiano da escola.
No ambiente de trabalho do Campus Centro, a professora da faixa de idade de 30-39 anos mencionou atitudes discriminatórias por parte dos colegas. Em sua equipe, em que ela é a única mulher, relatou dificuldades geradas nesse convívio: “Desde as piadas cotidianas ‘está de TPM hoje’ até um silenciamento [...] ainda [que] cheias de bom humor, ainda com pessoas que me querem bem, mas isso já experimentei muitas vezes. E outras vezes, [...] assédios mais grotescos também” (P5fem).
Quando perguntada sobre conhecimento ou experimentação da discriminação contra mulheres, uma das alunas entrevistadas citou o mesmo tom de piada e humor nos assédios via Internet: “eu vejo mais em algumas páginas assim de humor, aí eu vejo discriminação mesmo das mulheres, tipo fazendo piadas maldosas” (E4femn).
Nesse espectro, o assédio online é uma realidade e um desafio para permanência de mulheres na Internet, conforme se vê pela fala de um dos professores:
O que eu tenho visto mais é cyberbullying [...] é via redes digitais a
comunicação violenta, mais do que pessoalmente […] eu não vejo diretamente, no convívio direto, presencial, tantas situações assim. Mas eu fico sabendo de agressividade na comunicação entre meninos e meninas, inclusive, via redes, via WhatsApp sobretudo [...] e Twitter, quando eu tinha (P4masc).
Nas entrevistas, alguns casos foram lembrados tanto por estudantes como professores em que alunas sofreram ataques gratuitamente, conforme esse relato do aluno sobre uma colega: Eu vi uma vez uma foto de uma amiga minha que ela estava, eu acho que ela estava usando um decote, alguma coisa do tipo, e teve um ataque de pessoas aleatórias, alguém deve ter postado em algum grupo de WhatsApp a foto dessa menina e aí eles foram todos em cima dela nos comentários falando coisas que eu não vou citar aqui, mas, bom [...] comentários ofensivos no sentido sexual (E2mascb).
Nesse relato, entende-se que o ataque sofrido pela aluna se deu pela exposição ter sido por iniciativa própria, visto que a pornografia, que por ser produzida por e para homens não costuma ser objeto de revolta por parte dos homens em nossa sociedade. Segundo o coletivo Não Me Kahlo (2016), a cultura do estupro é uma violência simbólica que se materializa com
efeitos reais sobre as vítimas, em que as mulheres são responsabilizadas por um eventual estupro / assédio. No espaço físico do Campus foram encontradas várias representações que confirmam a contestação dessa forma de assédio / violência. A ideia da cultura do estupro aparece na parede da escola com uma referência ao uniforme obrigatório utilizado pelas meninas (Foto 4).