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4 PRINCIPAIS ANÁLISES DISPONÍVEIS NA LITERATURA PARA AS

4.1 Estruturas subordinadas

4.1.1 Tradição gramatical: subordinadas adverbiais

Na definição das subordinadas, é usual referir-se que estão integradas na oração matriz e que desempenham nela uma função sintática (sujeito, complemento ou adjunto) e uma função temática (tema, adjunto de fim, de causa, de tempo, etc.):

As orações sem autonomia gramatical, isto é, as orações que funcionam como termos essenciais, integrantes ou acessórios de outra oração chamam-se SUBORDINADAS. O período constituído de orações subordinadas e uma oração principal denomina-se composto por subordinação. (CUNHA & CINTRA, 1984, p. 590).

Desde a segunda metade do século XIX14 que se distinguem três tipos de orações subordinadas na tradição gramatical portuguesa e brasileira (cf.

14 Anteriormente a esse período, as gramáticas filosóficas (cf. Barbosa, 1822) distinguiam-se

“proposições totais” de “proposições parciais”, e “conjunções de nexo” de “conjunções de nexo e ordem”. Curiosamente, nas proposições totais estavam incluídas quer as coordenadas, quer as adverbiais.

Said Ali, 1931; Cunha & Cintra, 1984; Bechara, 1999): as substantivas (ou completivas), as adjetivas (ou relativas) e as adverbiais (ou circunstanciais).

Essa distinção baseia-se em critérios de natureza distribucional e funcional, estabelecendo-se um paralelismo entre os três tipos de orações e as funções desempenhadas por substantivos, adjetivos e advérbios.

Said Ali (1931) também privilegia a distribuição sintática das orações, comparando-a à de determinadas classes de palavras: as “orações substantivas” teriam uma distribuição próxima dos substantivos; as “orações adjetivas” teriam uma distribuição semelhante à dos adjetivos; as “orações adverbiais” teriam uma distribuição semelhante à dos advérbios:

As subordinadas são orações substantivas se fazem as vêzes de um substantivo, funcionando por exemplo como sujeito ou complemento;

chamam-se orações adjetivas se têm o valor de determinante atributivo, e adverbiais se modificam o sentido do verbo como os advérbios. (SAID ALI, 1931, p. 272).

A gramática tradicional brasileira estabelece distinções de natureza semântica dentro do grupo das subordinadas adverbiais, tal como acontece com os complementos circunstanciais, estabelecendo nove subgrupos semânticos de adverbiais: temporais, causais, finais, concessivas, condicionais, consecutivas, comparativas, conformativas e proporcionais.

Não há critérios sintáticos explícitos de forma sistemática nas gramáticas consultadas de modo a permitir estabelecer distinções de natureza sintática no grupo das orações adverbiais. Há apenas a distinção entre adverbiais finitas e não finitas (infinitivas, gerundivas e participiais) e a referência pontual de aspectos relativos à posição ocupada pela adverbial, muitas vezes em capítulos dedicados a “aspectos estilísticos” ou à “colocação das palavras na frase”.

Conforme Alarcos Llorach (1994), na tradição gramatical espanhola é usual estabelecer-se uma distinção que as gramáticas do português ignoram:

distingue-se entre “adverbiais próprias” (as que podem ser substituídas por um advérbio) e “adverbiais impróprias” (as que só podem ser substituídas por um grupo preposicional). Assim, enquanto as “adverbiais próprias” incluem as

temporais, as locativas e as orações de modo, as “adverbiais impróprias”

incluem as finais, as causais, as condicionais e as concessivas.

Como podemos observar em Alarcos Llorach, essa distinção reflete até certo ponto propriedades semânticas e estruturais da oração adjunta, pois as

“adverbiais próprias” funcionam normalmente como adjuntos circunstanciais, as

“adverbiais impróprias” causais e finais funcionam como adjuntos circunstanciais ou como adjuntos oracionais e as condicionais e concessivas apenas como adjuntos oracionais.

A arbitrariedade no grupo das orações adverbiais fica clara quando confrontamos a nomenclatura da tradição gramatical portuguesa (muito próxima da francesa e da italiana) com a de outras tradições gramaticais. Veja-se, por exemplo, que só a tradição gramatical brasileira identifica estruturas adverbiais conformativas e proporcionais. As gramáticas espanholas, por sua vez, consideram as locativas e as modais, ausentes na maioria das gramáticas do português. Para além das classificações semânticas usuais, Quirk et al.

(1985) consideram outras ausentes na maioria das gramáticas tradicionais:

“clauses of time”, “clauses of contingency”, “clauses of place”, “conditional clauses”, “clauses of concession”, “clauses of contrast”, “clauses of exception”,

“reason clauses”, “clauses of purpose”, “clauses of result”, “clauses of similarity and comparison”, “clauses of proportion”, “clauses of preference” e “comment clauses”.

Quanto ao critério de classificação das diferentes adverbiais, a base tradicional é o conectivo que as introduz, havendo por vezes remissão a critérios semânticos. Assim, qualquer tentativa de tipologia semântica dessas estruturas parece ter um carácter subjetivo, pois é possível interpretar a realidade e esquematizá-la sob diferentes perspectivas, o que reflete naturalmente diferentes formas de ver o mundo.

Na tradição gramatical, as subordinadas adverbiais funcionam como um constituinte da oração matriz ou nuclear, isto é, podem ser vistas simplesmente como um “adjunto” de sua “oração principal”. Esse tipo de classificação vem sendo questionado, indicando-se, por meio de diversos testes, que sentenças

desse tipo são mais bem caracterizadas por meio de outras propriedades, especialmente seu modo de articulação com a oração principal e sua forma.

É comum as gramáticas tradicionais caracterizarem as estruturas subordinadas pela função sintática e semântica desempenhada na oração principal e as estruturas coordenadas, pelo contrário, não desempenhando qualquer tipo de função sintática ou semântica na oração dita coordenante.

No entanto, como podemos ver nos exemplos a seguir, algumas relações semânticas encontradas nas subordinadas adverbiais tradicionais (cf.

(153)) são muito próximas das que podemos encontrar nas estruturas coordenadas (cf. (154)).

(153) a. O João veio fazer o exame, embora estivesse doente.

b. Embora tivesse lido o livro, a Maria não viu o filme.

(154) a. O João estava doente, mas veio fazer o exame.

b. A Maria leu o livro, mas não viu o filme.

Além disso, embora se possa identificar uma função “acessória” ou de argumento “não nuclear” para muitas subordinadas adverbiais (temporais, por exemplo), para a maioria delas, não é tarefa simples identificar se desempenham ou não uma função sintática e semântica na oração principal, e, se desempenham, qual é exatamente essa função.

Bechara (1999) distingue as orações comparativas (e consecutivas) das restantes estruturas de subordinação adverbial pelo fato de não poderem ser antepostas, por estarem mais encaixadas na estrutura da frase e por envolverem estruturas quantificacionais.

O autor classifica-as em subordinadas adverbiais do 2º grupo porque apresentam semelhanças com as orações adjetivas ou relativas, dependendo de um antecedente de natureza quantificadora e só desempenhando uma função gramatical na matriz juntamente com o seu antecedente:

As subordinadas adverbiais do 2º grupo, integradas pelas comparativas e consecutivas, guardam certa analogia com as adjetivas porque dependem de um antecedente, de natureza quantificadora ou de unidade quantificada (adjetivo ou advérbio) e só

mantêm relação direta com o núcleo verbal da oração junto com seu antecedente. (BECHARA, 1999, p. 473).

A atribuição de um estatuto diferente a essas estruturas constitui uma posição inovadora na tradição gramatical portuguesa e brasileira.