• Nenhum resultado encontrado

Tradição perdida? O que se ganha e o que se transforma nas “perdas”

No documento andiarabarbosaneder (páginas 110-113)

FOTO 39 Palhaço MJ se arrastando até à bandeira para pedir o seu perdão

3.1 Tradição perdida? O que se ganha e o que se transforma nas “perdas”

Sendo a única Folia abordada na qual se pode observar a experimentação de um impacto tão expressivo como a mudança de um espaço para outro, sendo obrigada a criar novos laços sociais e solidificá-los para que pudesse prosseguir com seus giros, foi necessário refletir sobre alguns aspectos. Compreender os aspectos dinâmicos da tradição, na cidade ou

55 Entrevista realizada com Seu Geraldo no dia 7 de janeiro de 2011, na Praça da Bandeira, em Leopoldina. 56 Igreja localizada no bairro Nossa Senhora de Fátima, próximo ao centro da cidade.

no campo, e do Catolicismo Santorial, enquanto religiosidade plástica passível de mudanças, é fundamental. Ao

contrário da concepção de que o catolicismo popular é passivo e estático, há uma flexibilidade nos gestos, uma articulação social e cultural. O povo vai, a seu modo, construindo sua história nas cidades, no campo, no interior. No seio de suas práticas irrompem a palavra e várias formas de manifestação articuladas com a vida e a história (PASSOS, 2002, p. 179).

É importante ressaltar que a tradição oral, tão cara às sociedades africanas, mostra-se como via legítima de continuidade da tradição das Folias de Reis (MONTEIRO, 2005). O ritual passado de geração para geração, de pai para filho, num processo hereditário, mantém seus traços essenciais por meio da tradição oral. Não há um roteiro escrito a ser seguido, mas uma ritualística experienciada por esses foliões desde cedo e que acaba sendo interiorizada, a partir do vivido. Também não há outro modo de se transmitir a performance do palhaço senão pelas palavras esclarecedoras dos mais antigos e pela observação e participação mesmo como plateia, do momento da chula.

A tradição oral é forte e viva em Leopoldina e através dela a tradição continua sua trajetória rumo à posteridade, não sem as ressignificações ricas e necessárias. Para se compreender o processo pelo qual a Folia se mantém com vigor no município, é preciso considerar a tradição oral como ponto importante do processo de continuidade cultural, como parte significativa de um todo.

A longevidade da tradição não encontra um forte aliado apenas na oralidade, mas também no processo de ressignificação, o que pode ser definida como a capacidade de adaptação a novas situações. Importa-me compreender então a relação que os foliões mantêm com as festas religiosas no sentido de manter e construir sua tradição, como atores da sua própria história.

Nesse contexto, convém explicitar que essa tradição não corresponde a um tradicionalismo estático, estagnado no tempo e no espaço como uma mera repetição de práticas e rituais obrigatórios. Capone (2004, p. 255) afirma que tradicionalidade é diferente de tradicionalismo. Este é entendido como um comportamento ligado à perpetuação da tradição, já a tradicionalidade é uma qualidade inerente ao tradicional, configurando-se como os traços essenciais de uma prática ou de um grupo.

A tradição não está imune às transformações que operam no seio da sociedade na qual está inserida. As mudanças estão presentes na tradição e, nesse sentido, ela passa por “uma arrumação constante e inconsciente do passado operado pelo presente” (CAPONE, 2004, p.

256). Se há algo de perpétuo, preservado de maneira imutável, é a capacidade de readaptação da tradição, através de sua ressignificação, o que impede sua “falência”. A tradição não é um dado pronto e acabado, mas é continuamente reinventada e construída a partir da interação social. Além disso, esse processo interacional conduz a construção da identidade do grupo (CAPONE, 2004). Dessa forma

Não se pode pensar a tradição como um simples reservatório de ideias ou elementos culturais: ela é antes de tudo um modelo de interação social. E, por isso, torna-se um dos principais instrumentos de construção da identidade, por meio da seleção de um número determinado de características que ajudam a estabelecer as fronteiras entre nós e os outros (CAPONE, 2004, p. 257).

Portanto, a tradição é elemento vivo, em constante ressignificação, que trilha um caminho coerente com a modernidade e não em oposição a ela. Nesse sentido, não estabeleço como horizonte a defesa de um estado de pureza que legitime uma possível verdade para a Folia de Reis. Isso poderia inclusive definir rigidamente uma fronteira intransponível do que é certo e errado em uma dada tradição de um determinado grupo.

Tendo a tradição um caráter eminentemente interacional, construída coletivamente e notoriamente plástica, é possível perceber variações em cada grupo. A Folia da Maú, por exemplo, segue encerrando seu compromisso com os Santos Reis somente no dia 20 de Janeiro, dia de São Sebastião. Já os Colodinos só saem em jornada depois do dia 1º de janeiro. Essas remodelagens afirmam que a tradição não é algo dado, “mas continuamente reinventado, sempre investido por novas significações” (CAPONE, 2004, p. 257).

Quando determinada tradição perde sua plausibilidade para um grupo, deixando de fazer sentido, as pessoas não se identificam mais, perdendo assim aderência. Como aconteceu com a ideia dos integrantes terem de cumprir os sete anos no grupo, já abortada pelos Colodinos, entendida como arcaica, mas ainda presente na Folia da Serra e na da Maú. Ou com a prática dos Encontros de Folias, que foram se tornando cada vez mais perigosos e, por isso, quase extintos em sua totalidade. Sobre esses Encontros, os foliões relatam que muitas vezes o duelo não ficava apenas no universo das Profecias, saía do controle e partia para a agressão física. Maú contou que por vezes o óbito de foliões era o resultado dos Encontros. Por isso eles são tão temidos e evitados atualmente. Diante disso, é possível compreender a necessidade de proteção da Bandeira, reiterada pelos foliões, ou da reza de pais ou mães de santo, patuás e guias usadas durante os giros. Qualquer elemento que possa repelir o mal,

tanto no plano espiritual como físico, conferir proteção ao folião durante a peregrinação, são bem vindos. Até mesmo o cajado do palhaço se torna uma arma nessas situações perigosas.

Portanto, essas transformações impulsionadas pelas alterações sociais e de outras naturezas diversas devem ser encaradas como participativas de um processo de permanência e não de perda. A plasticidade da tradição é o que a mantém viva como um elemento de interação social, tornando a identificação permanente, o que faz parte do processo de construção da identidade daquele grupo de pessoas.

Assim, a tradicionalidade da Folia de Reis não pode ser entendida como uma essência que se extingue e, por isso, ser necessário o seu resgate, como uma sobrevivente, ainda protegida dos solavancos do mundo atual em um pequeno lugarejo. Também não é plausível analisar Leopoldina como um lugar perdido no caos da modernidade, que resiste a ela e se torna um reduto que abriga a tradição. Essa oposição binária entre tradição e modernidade, já problematizada por Capone (2004, p. 256), não se aplica na perspectiva desta pesquisa. Pretendo seguir o caminho contrário, o que não propõe uma visão de puro versus impuro, que não legitime uma posição de pureza em uma manifestação que em sua gênese já se encontra “degenerada”, permeada por influências outras incontestáveis. Portanto, não há perda de tradição. Nesse sistema há soma, transformações e ressemantizações, próprias do contexto do Catolicismo Santorial no qual se insere o folguedo de Reis.

Permeando a tradição, adentrando o território plástico do Catolicismo Santorial e enfatizando toda a dinâmica da Folia de Reis enquanto um conjunto de crenças múltiplas, operadas por pessoas simples em um campo complexo, encontram-se as narrativas vividas, criadas ou construídas por essas pessoas. Nesse campo interacional, estabelecido coletivamente, as vivências se expressam e são carregadas de significados rizomáticos que apontam a riqueza da Folia enquanto manifestação religiosa. E para conhecer essas narrativas densas em conceitos e significados próprios dessa festa e coerentes com o contexto em que ela se insere, é preciso recorrer aos mais velhos, àqueles que detêm o conhecimento ritual e das histórias que perpassam esse ambiente.

No documento andiarabarbosaneder (páginas 110-113)