É consensual a afirmação de que não se traduz língua, mas que se traduz discurso. Campos (1986) amplia essa asserção. Para ele, uma tradução é realizada tendo como fonte o discurso de uma cultura e como destino o discurso de outra cultura:
não se traduz afinal de uma língua para outra, e sim de uma cultura para outra; a tradução requer assim, do tradutor qualificado, um repositório de conhecimentos gerais, de cultura geral, que cada profissional irá aos poucos ampliando e aperfeiçoando de acordo com os interesses do setor a que se destine o seu trabalho. (CAMPOS, 1986, pp. 27-28).
Porém, um grande obstáculo a esse respeito é definir o termo discurso, tendo em vista que não há uniformidade de opiniões a respeito do que ele seja. De fato, a língua é um código linguístico formado por uma grande quantidade de signos isolados e descontextualizados. A língua é isenta de ideologia. Por isso, a tradução de um texto no nível da língua não fará sentido.
Vários acadêmicos renomados se envolveram ou têm se envolvido na tarefa de descrevê-lo. Pode-se citar, dentre outros, Benveniste (1966), Lacan (1966), Lefebve (1980), Todorov (1981), Foucault (1989), Maingueneau (1989) e Bakhtin (1992). No entanto, ainda não se chegou a uma definição clara e única para o termo, conforme se pode perceber mais adiante. Tendo em vista ser o discurso o objeto (ou a matéria-prima) da tradução, é importante procurar entendê-lo, ainda que seja de
difícil compreensão.
A perceptível dificuldade para se conceituar e limitar o termo discurso é reconhecida por teóricos de grande consagração, como é o caso de Bakhtin (1992), que afirma ser ele uma palavra imprecisa:
a vaga palavra “discurso” que se refere indiferentemente à língua, ao processo de fala, ao enunciado, a uma sequência (de comprimento variável) de enunciados, a um gênero preciso do discurso, etc., esta palavra, até agora, não foi transformada pelos linguistas num termo rigorosamente definido e de significação restrita [...] (BAKHTIN, 1992, p. 292. Grifos do autor).
Segundo Cordeiro25,
o discurso como prática é essa instância da linguagem em que a língua está relacionada com “outra coisa”, a qual não é linguística. Donde, a relação da língua com “outra coisa” que não é de natureza linguística, relação que se dá no uso da linguagem, essa relação é o discurso. O discurso é uma prática que relaciona a língua com “outra coisa” [...] (grifos do autor).
No entanto, há alguns especialistas que parecem não encontrar a mesma dificuldade para a compreensão do termo discurso, tendo em vista que o definem aparentemente sem maiores problemas. É o caso de Cunha (1976, cf. item 4.1), e também o ponto de vista de Ceia26, por exemplo, para quem o discurso é
qualquer forma de linguagem concretizada num ato de comunicação oral ou escrita. Das possibilidades ilimitadas de exemplificação da tipologia do discurso, podemos falar de discurso político, literário, teatral, filosófico, cinematográfico, etc. Sinônimo de enunciado em termos linguísticos, o discurso constitui-se por um conjunto de frases logicamente ordenadas, de forma a comunicar um sentido. Nesta acepção, a frase é considerada hoje uma unidade do discurso e é susceptível de ser analisada na forma como se combina com outras frases para constituir um discurso [...]
O termo discurso pode ser considerado em níveis diferenciados, conforme as condições de sua produção, podendo ser apreendido no nível gramatical, que se
25
CORDEIRO, Edmundo. Foucault e a existência do discurso. Disponível em:
<http://www.bocc.ubi.pt/pag/cordeiro-edmundo-foucaultd.pdf>. Acesso em: 26 mai. 2011. 26
CEIA, Carlos. E-Dicionário de Termos Literários. Discurso. Disponível em:
<http://www.edtl.com.pt/index.php?option=com_mtree&task=viewlink&link_id=749&Itemid=2>. Acesso em: 01 jun. 2011.
confunde com o escopo estrutural, da fala, em sua realização denotativa e imediata. E quando se menciona o vocábulo discurso no domínio artístico-literário, será ele concebido no nível do dizer. No primeiro nível, o discurso é representado pela fala de um emissor. Normalmente é indicado na linguagem escrita pelo uso de sinais específicos, como é o caso do travessão, que demarca a atuação interlocutiva de cada pessoa que fala. Nesse caso, o produtor do discurso ainda se porta como mero falante. No segundo nível, o emissor deixa de ser apenas falante e passa a ser autor de ideias e seu procedimento será o de emissor que se transforma em criador, demiurgo, chegando assim à condição de voz que almeja o nível conceitual.
Para Bakhtin (1999), todos os discursos são ideológicos, pois sempre expressam uma posição avaliativa, além de se constituírem de signos oriundos de uma das esferas da ideologia. Bakhtin, assim como Pêcheux, defende que a ideologia se concretiza nos discursos.
Pode-se concluir que a utilização da língua num contexto (ideológico, segundo Bakhtin) ou numa determinada situação faz com que ela deixe de ser língua e se transforme em discurso, e é esse produto da transformação que pode ser traduzido. A língua é todo o sistema da linguagem que antecede e torna possível o discurso, que é o uso concreto da língua, os enunciados reais. O discurso é uma manifestação externa da língua. É o uso do sistema (da língua), mas não é o sistema (e nem a língua).
O discurso pode ser subdividido em duas classes principais: o literário e o quotidiano. O primeiro é conotativo, opaco, polissêmico. O segundo é denotativo, transparente, sentido único, conforme se pode observar a seguir.
2.1.1 Discurso literário
Para Borges e Moreira27, o discurso literário
tem uma peculiaridade ímpar. É que ele se constrói e materializa sobre um mundo imaginário (ficcional). O ponto de partida desse discurso é aruptura com o mundo da realidade. Essa ruptura instaura-se a partir da criação de um universo imaginário projetado pelo autor que, para articular o discurso, institui a figura do sujeito-narrador, que passa a conduzir o processo
27
BORGES, Maria Cristina Ramos; MOREIRA, Francisco Ferreira. O percurso da autoria. Disponível em: <http://www3.unisul.br/paginas/ensino/pos/linguagem/0402/10.htm>. Acesso em: 31 mai. 2011.
narrativo. O discurso literário parte de um imaginário e se historiciza ao adquirir sentidos, passando, a partir daí, a ter existência real pela linguagem no mundo da ficção [...] O discurso literário carrega em si a peculiaridade do enunciado poético, que pode se manifestar em sua estrutura fônica, rítmica e sintática [...] É a configuração do mundo imaginário que se deslumbra/vislumbra na mente de quem o imagina [...] É um discurso aberto a múltiplas interpretações. Além dessas peculiaridades, nele estão presentes a estética, o estilo, a poeticidade e uma certa tensão dramática. (Grifos dos autores).
2.1.2 Discurso quotidiano
Teorizando a respeito de discurso quotidiano e discurso literário, Lefebve (1980, pp. 14 e 35) distingue essas duas modalidades e mostra que
o discurso quotidiano aparece como ‘interessado’ (é um instrumento que serve para a informação e a ação), adequado e transparente (isto é, não levantando, em geral, problemas de interpretação; e, nele, o significante apaga-se totalmente face ao significado), veremos que, ao contrário, o discurso literário é sempre, numa certa medida, inadequado, gratuito, dotado de uma espécie de opacidade [...] O discurso usual é necessariamente transparente, perfeito, adequado [...] Mas o discurso literário apresenta caracteres completamente opostos. (Grifo do autor).
Com base em Cunha (1976), e tendo em vista ser difícil a demarcação de uma linha que separe discurso e linguagem, já que ambos são necessariamente imbricados, é que podem ser consideradas intercambiáveis as expressões “discurso quotidiano/discurso literário” e “linguagem cotidiana/linguagem literária”, enfatizando apenas que o termo discurso pode ser aplicado ao ato individual de comunicação realizado por meio da expressão escrita ou oral, enquanto que o termo linguagem tem o sentido de ato coletivo ou social de comunicação.