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Tradução

No documento j ul - dez , 2019 (páginas 167-193)

paciente Griselda, aquela que concede, foi substituído pelo da fêmea do louva-a-deus, que explora. Os presentes que a primeira derrama sobre ele são um fardo; e a segunda sucede em obter benefício do macho apenas por meio de sua submissão a ele; ambas são parasitas que camuflam, cada qual à sua própria maneira, sua dependência. Não é possível conceber um novo tipo de amor no qual ambos os parceiros sejam iguais – em que não se busque a submissão do outro? Ou na sociedade do futuro somente haverá espaço, como muitos afirmam, para um relacionamento no qual o sexo só acontece em caso de absoluta necessidade?

Parece-me que o papel privilegiado do amor não depende dessa ou daquela estrutura superficial da sociedade. Uma explicação muito mais fundamental pode ser encontrada na ambiguidade da natureza humana. Todo ser humano tem uma dupla natureza. Uma ele compartilha com seus iguais. É aquela que o impulsiona; que olha para o futuro, que define suas ambições, construções, atos. Aquele que corre atrás (go-getter), destaca-se do que outros fizeram por meio dos resultados obtidos. Mas cada um de nós possui também outra, uma natureza singular: está lacrada dentro de um envelope que não pertence a mais ninguém, dentro de uma única vida limitada apenas por uma morte irreparável. A humanidade só tem valor quando junta essas duas naturezas. Desprovido de esforço em massa e de ambição, o homem seria nessa terra não mais do que um animal entre outros, um acidente insignificante. A humanidade, enquanto soma desses zeros, seria ela mesmo igual a zero. Se valoriza-se ainda apenas a ambição e um futuro distante, se não se atribuísse nenhum significado ao individual, o valor do homem como um todo seria anulado. Para acreditar na importância do mundo e em seu próprio lugar nele, cada um deve perceber-se em seu trabalho e em sua individualidade, como uma partícula mínima da humanidade e como um ser insubstituível. É o amor dado e o amor recebido que será a ajuda mais poderosa para a realização dessa síntese paradoxal.

Há um amor denunciado por cada época de ser estéril: aquele que congela os amantes numa absorção mútua. Separado daqueles que estão à sua volta, indiferente ao futuro, o par afunda numa solidão egocêntrica e vazia. Diz a lenda, naturalmente, que seu fim é quase sempre a morte. Pois, se um devora o outro, por sua vez eles são devorados pela inércia, pela imobilidade, pelo tédio: eles já estão mortos. A esta emoção, que revela a estupidez dos amantes que fazem da paixão sua existência completa, está oposto o ideal de companheirismo: companheiros unidos pelos objetivos que perseguem juntos; cada um reconhecendo no outro um tipo de liberdade e atividade.

Eles fundem suas vontades, somente dispensam o que é individual: tudo é nivelado;

suas mortes, como suas vidas, podem ser intercambiadas. Se o sexo como necessidade entra nessa relação de companheirismo entre homem e mulher, ele não altera seu caráter essencialmente impessoal: sem dúvida apenas no ato sexual homem e mulher possuem propriamente um ao outro fisicamente, mas apenas no que é geral. Estimar no indivíduo o que lhe dá sua diferença e ainda colocá-lo em acordo com os direitos universais que são de todos os seres humanos; estar unido com ele por meio de todos os seus impulsos e transições pessoais e ainda ser preenchido pela maravilha do que é único e sem igual em sua natureza: esse é o milagre conquistado pelo amor, sozinho, em sua forma mais elevada.

Homens como Nietzsche, Tolstoy e D.H. Lawrence bem entenderam que um amor verdadeiro e frutífero deveria abarcar simultaneamente a presença física imediata do amado e seus objetivos na vida. Mas apenas para a mulher foi proposto esse ideal, desde que ela não tivesse nenhuma outra proposta; o homem tem apenas que encontrar nela seu reflexo complacente. Acredito que, em um amor igualitário, ela não renunciará a esse belo papel como aliada, mas o homem também desejará assumi-lo. Entende-se que essa reciprocidade seja possível apenas quando os dois compartilham os mesmos objetivos na vida ou conseguem conciliá-los: o amor que descrevemos aqui pressupõe amizade; mas quão mais frutífero ele seria do que uma devoção unilateral. A mulher seria então capaz de confiar no homem – o apoio que ele reclama tão concretamente – e ainda, ela se entregaria a um esforço capaz de colocá-los lado a lado: do contrário, sua docilidade é cega e servil. O homem, ao invés de buscar um tipo de exaltação narcisista em seu par, descobriria no amor um modo de sair de si mesmo, de lidar com problemas além dos seus próprios. Com todas as tolices que tem sido escritas sobre o esplendor de tal generosidade, por que não dar ao homem sua chance de participar de tal devoção, da autonegação que é considerada invejável a muitas mulheres? Deixe cada parceiro pensar no outro e em si simultaneamente: a mulher será salva da timidez que frequentemente a segura e o homem será curado de seu orgulho egocêntrico. Cada um se beneficiará do gosto de virtudes que até o momento foram reservadas para o sexo oposto.

Entretanto, essa cordialidade harmoniosa ainda não constitui o amor. O amor coloca cada um para o outro como um aliado, um ser igual, no seio da comunidade humana, assim como separa completamente e incomparavelmente cada um do outro. Juntos, os amantes encaram o mundo e o futuro, mas cada um está também surpreso ao ver um olhar cúmplice daqueles estimados olhos; não pode haver ninguém como o ser amado na vida, nem substituto na morte. É este amor que é a relação mais completa possível com outra pessoa: ver o outro em sua atividade impessoal e em sua realidade insubstituível; como construtor e como objeto; como tudo o que transcende a si mesmo e como criatura finita. Se a mulher se torna para o homem seu verdadeiro igual, ela não sentirá menos necessidade de estar deste modo maravilhosamente confirmada e confirmar com seu amor aquele cujo amor a coroa.

Como definimos aqui, tanto o amor pode ser platônico quanto sexual: é suficiente que a presença do amado seja revelada no que é único, contingente e pateticamente perecível; essa revelação pode acontecer de mais de um modo. No entanto, permanece o fato de que a atração sexual é o instrumento mais comum. É o desejo que mais frequentemente dá à presença física do amado seu valor sem igual. Por isso, seria perigoso para o futuro do amor se as mulheres, conforme progridem em sua situação, estivessem por perder seu atrativo aos olhos dos homens. A essa altura os profetas da confusão gemem ainda mais alto: “A feminilidade se perderá, a feminilidade se perderá!”. Essa catástrofe tem sido anunciada como iminente por tanto tempo que nosso ceticismo é permitido: pode ser que a atração de um sexo pelo outro tenha causas mais profundas do que o farfalhar de uma anágua, do que a forma de uma bota.

Eu acredito que o que há de fascinante no outro para cada um é a descoberta de um mundo humano como o seu próprio, mas diferente: o outro sexo tem a fascinação de um país exótico; ele é um tesouro, um Éden, simplesmente porque é diferente. E mais

uma vez neste ponto, os homens persistem em considerar essa diferença como outro aspecto da desigualdade; mas nada prova que isso não seja capaz de mudar. Os dois sexos podem se tornar iguais, aliados, sem abolir a distância entre eles que faz com que cada um seja desejável ao outro. Para dizer a verdade, não posso conceber como essa desejabilidade pode ser destruída, uma vez que o corpo e a sexualidade do homem e da mulher são diferentes, e portanto, diferentes em sua sensualidade, sua sensibilidade, sua relação com o mundo; e uma vez que a necessidade física que um tem pelo outro manterá sua mágica. Que consciência e liberdade devem encontrar encarnação em uma carne que é meu destino biológico – isso será sempre para mim, seja homem ou mulher, um milagre esmagador: talvez todo o mais admirável, do contrário, para todos os poderes espirituais – o pensamento, a vontade – que afirmam-se com brilho maior. O homem que manifesta essas virtudes entre a humanidade, parece nos olhos das mulheres estar contemplado com suas qualidades viris; pode ser que um dia as virtudes humanas das mulheres realçarão sua feminilidade aos olhos dos homens.

Opiniões seriam descuidadas neste ponto: o futuro não nos pertence. E é por isso que ninguém tem o direito de condenar o futuro em nome do presente. Em cada época houve aqueles que lamentassem o mundo do futuro simplesmente porque ele prometeu ser diferente do passado. Devemos evitar cair nessa armadilha: nossa falta de imaginação descredita, despovoa esses tempos que estão além de nosso conhecimento;

mas há outros para os quais esses tempos serão um dia reais e certamente mais ricos do que desejamos supor. Sem dúvida há formas de sensibilidade que estão limitadas a desaparecer como acontecera a tantas outras antes delas: mas outras nascerão. Ao invés de nos agarrarmos ao futuro ou repudiá-lo, não seria melhor ajudarmos a inventá-lo? Hoje, muitas mulheres rechaçam o amor porque ele evoca escravidões antigas e muitos homens recusam acreditar nisso porque não conhecem a antiga cara do amor. Deixemos homens e mulheres superarem sua desconfiança e eles encontrarão a possibilidade de restabelecer, na liberdade e na igualdade, o par humano.

Recebido em: 31/Out/2019 - Aceito em: 01/Dez/2019.

Tradução

Amor e política

1 BEAUVOIR, S. Love and Politics. In: SIMONS, M. A.; TIMMERMANN, M. (ed.). Simone de Beauvoir: Feminist Writings.

Urbana, Chicago, and Springfield: University of Illinois Press, 2015, pp. 103-105.

2 BEAUVOIR, S. Amour et politique. Le nouvel observateur 222, Fevereiro 10-16, 1969, 23; © Sylvie Le Bon de Beauvoir. O artigo da revista foi precedido pela seguinte introdução editorial: “Muitos dos que leem a admirável

‘Confissão’ de Artur London (um dos quatorze acusados no julgamento em Slansky que ocorreu em Praga em 1951), se perguntaram como sua esposa Lise pôde acreditar, por um único instante, que seu marido era culpado.

Ela o conhecia desde que ela tinha quinze anos como um homem e como um ativista no Partido Comunista. Artur London, ex combatente na Guerra Civil da Espanha e herói da Resistência Francesa, foi preso pela Gestapo, torturado e então deportado; ele resistiu a tudo. Quando foi preso em 1951 – desta vez por seus ‘amigos’ – ele era Vice-ministro das Relações Internacionais na Tchecoslováquia. Denunciado como um traidor, ele terminou o admitindo. Primeiro, consumida por dúvidas, sua esposa Lise London acabou por fim acreditando que a acusação era fundamentada. O que a levou àquela conclusão? Entrevistada por Jean Carlier da Rádio Luxemburgo, Simone de Beauvoir responde a essa e a outras perguntas”.

3 Lise London (1916–2012), uma militante comunista por toda a sua vida, era a viúva de Artur Gerard London (1915–86), oficial de alta-patente da Tchecoslováquia Comunista. Em 1951, ele foi injustamente acusado de trair seu país e se tornou uma das vítimas no julgamento público (show trial) em Slansky, que era parte de uma purificação de elementos “desleais”, inspirada em Joseph Stalin, nos Partidos Comunistas nacionais na Europa Central, bem como uma purificação de judeus da liderança de Partidos Comunistas. Depois de sua libertação e reabilitação, Artur, em colaboração com Lise, escreveu um poderoso relato autobiográfico de sua provação. Cf. L’aveu (Paris: Gallimard, 1968), e Le nouvel observateur 217 (January 6, 1969). L’aveu foi traduzido como The Confession por Alastair Hamilton (New York: Morrow, 1970).

Juliana Oliva

Doutora em Filosofia pela UNIFESP [email protected]

Rafaela Ferreira Marques

Doutoranda em Filosofia pela UFSCar Bolsista CAPES

[email protected]

A versão do artigo aqui publicada, com a autorização de Sylvie Le Bon de Beauvoir e de Margaret A. Simons, é uma tradução do texto original, publicado em inglês na coletânea Simone de Beauvoir: Feminist Writings1. Mantivemos as notas de Marybeth Timmermann que acompanham a publicação.

Simone de Beauvoir

2

Penso que Lise London não pode ser compreendida se não entendermos também o que é o comunismo e o que é ter uma fé absoluta nele3. Lise London é uma mulher heroica. Ela é quem, durante a Ocupação, subiu no balcão em uma loja na esquina da rua Daguerre com a avenida de la Porte-d’Orleans e lançou um apelo a todas

as mulheres da França, dizendo-lhes que deveriam resistir e ajudar seus maridos a resistir de toda maneira possível. A propósito, era uma demonstração organizada:

elas cantaram La Marseillaise, e havia o FTP ali para defender Lise London4. Quando os alemães chegaram, eles foram atacados pelos FTP e houve mortes nos dois lados.

Lise London conseguiu escapar, mas mais tarde, ela foi presa, torturada e deportada.

Antes da guerra, ela lutara na Espanha, e, por toda sua vida, foi uma ativista.

O comunismo era sua fé, sua crença incondicional na União Soviética e em Stalin.

Depois da vitória, ela manteve sua fé absolutamente intacta. Acreditou em duas coisas que se fundiram em uma: seu marido e o comunismo. Ela mesma havia imaginado como seria, para uma militante, perceber que seu marido era um traidor já que, durante o julgamento de Rajik5, ela disse a ele “deve ser terrível ser a esposa de um militante comunista a quem você ama e admira, e perceber que ele era um traidor e que suas crianças tem um traidor como pai”.

[...]6 Quando seu marido foi preso, ela pensou que ela estava naquela situação.

Então ela lutou o quanto pôde para se recusar a acreditar nisso, mas o que finalmente era mais convincente do que a sua convicção era que ela ouvira seu marido admiti-lo. Então, na mesma medida em que ela confiava nele – o que é exatamente a razão para o dilema ser terrível – ela acreditava em sua confissão. Até que ele não tivesse confessado, ela dizia “Não, isso não é possível”, mesmo quando seus camaradas, ou quando alguém mais estivesse murmurando “Alguma coisa não está muito certa”.

Quando ela o ouviu confessar, ela pensou: “Ele nunca disse nada à Gestapo; ele nunca teve uma fraqueza em seu caráter; ele é um homem sincero e honesto; portanto, se ele confessa, deve ser verdade!”.

“Portanto, ele é culpado”

Foi um pouco como uma tentação religiosa. Ela pensou: “É meu amor por ele que me previne de acreditar que ele seja culpado, mas eu devo ser uma boa comunista e dominar o que vem do meu amor por ele. Portanto, ele é culpado”.

Penso que foi para resistir àquilo para o qual o seu amor a empurrava a acreditar, que ela fez o que era talvez um pouco mais do que era necessário, e escreveu aquela carta na qual ela dissociava-se completamente dele.

Mas o que é tocante também, é que na primeira vez em que ela pôde vê-lo sozinho, na prisão, e suas crianças distraíam a atenção do guarda, London contou-lhe: “Eu não sou culpado; tudo está armado; tudo é falso. Esse julgamento é uma fabricação completa!”. E ela imediatamente acreditou nele, retirando seu pedido pelo divórcio naquele mesmo dia.

4 La Marseillaise é o hino nacional francês, que tece sua origem na Revolução Francesa, e cuja letra é um chamado para a batalha contra opressores invasores; the Francs Tireurs et Partisans (FTP) era a ala militar do Partido Comunista Francês e tornou-se uma organização militar ativa da Resistência.

5 Lánszló Rajik era um comunista e político húngaro, que servia como Ministro do Interior e Ministro das Relações Internacionais. Em 1949, ele foi injustamente acusado e torturado a confessar traição em seu julgamento público em Busapeste. Rajik, junto com Dr. Tibor Szönyi e András Szalai, foi sentenciado à morte.

6 Essas reticências entre colchetes aparecem no artigo original; Le nouvel observateur aparentemente imprimiu apenas excertos da entrevista mais longa que foi transmitida na Rádio Luxemburgo. Isso acontece uma outra vez, no segundo para o último parágrafo.

E depois daquilo, ela lutou incessantemente por ele com toda convicção, energia e também, devo acrescentar, eficiência possíveis. Tanto que, imediatamente, London encontrou-se intimamente unido a ela e viveram juntos durante todo período em que ele esteve preso, do modo mais harmônico, e desde então eles continuam a viver em absoluta harmonia. [...] Não sinto, absolutamente, que tenho direito de criticar essa mulher. Eu mesma nunca tive uma convicção política tão incondicional quanto à dela.

Não a entendo completamente por dentro – não posso me colocar exatamente em seu lugar – mas eu posso entender, de fora, que dada a sua fé política e dado que nem ela ou seu marido nunca duvidaram da legalidade dos julgamentos, ela estava chateada e acreditou por um momento que seu marido era culpado.

Deve-se entender que eles se amavam por meio da política e que para eles não era verdade, não é verdade que “o amor perdoa tudo” – uma expressão que, a propósito, é um clichê sem muito sentido.

Recebido em: 31/Out/2019 - Aceito em: 01/Dez/2019.

Tradução

A crise do ensino filosófico

Fábio Roberto Lucas

Pós-doutorando em Estudos Literários pela UFPR Bolsista CAPES

[email protected]

Gabriel Salvi Philipson

Doutorando em Teoria Literária pela UNICAMP em estágio sanduíche na Frei Universität Berlin Bolsista FAPESP e DAAD

[email protected]

Jacques Derrida

Apresentação da tradução

Parece sempre se renovar o ataque à universidade, ao saber e, especificamente, à filosofia no espaço demarcado que geralmente se chama Brasil. Diante dessas ameaças, o que se faz no mais das vezes é defender aquilo que se considera importante ou valioso. Nada mais natural, então, do que, em resposta a ataques e crises, o elogio à universidade, à sua instituição, e à filosofia.

Importante na história da defesa do valor da filosofia foi a pergunta retórica e provocante “para que filósofo?” postulada por J. A. Giannotti na década de 1970, em outro momento no qual a filosofia e a universidade estavam em questão ou em crise por aqui, embora ao mesmo tempo mais consolidadas do que nunca. A pergunta seria retórica por mal dissimular um elogio, que, no fim das contas, não deixava de limitar o questionamento proposto.

É no âmbito de uma procura por responder a essa provocação encenada por Giannotti, “para que filósofo?”, que Bento Prado Jr. realiza a conferência “profissão: filósofo”

em 1976, publicada posteriormente, em 1980. Ao comentar esse texto, Paulo Arantes (1996, p. 158) afirma que, “em grande forma”, Prado Jr. encena uma hesitação que dá corda “aos ataques de Nietzsche à filosofia universitária […] sem precisar arredar pé de sua fausse position, aliás confortável”. Os sentidos do conforto, da “fausse position” e da não necessidade de arredar pé ficarão claros a seguir. Este ensaio é talvez a primeira vez em que os textos derridianos sobre as instituições da filosofia e da universidade foram abordados pela instituição filosófica paulistana. Mas aparecem ali apenas para que “nosso herói [pudesse] se dar ao luxo de fazer graça com a gigantomaquia de um Derrida” (ARANTES, 1996, p. 159).

Por um lado, o luxo seria caçoar daquelas autoridades europeias que criticavam a instituição filosofia, as mesmas pelas quais as autoridades institucionais tupiniquins

recebiam seu caráter de auctoritas. Em outras palavras, tratava-se assim de caçoar autoritariamente da autoridade daquela autoridade que critica a autoridade.

Por outro lado, o luxo ocorreria pela sugestão de um “efeito cômico da fala de Derrida sobre as relações perigosas entre pensamento e instituição, quando em nosso meio devíamos tudo ao artifício do transplante que produzira a instituição esperando que o tempo se encarregasse de fornecer-lhe o recheio” (ARANTES, 1996, p. 159). Ou seja, o “efeito cômico” das reflexões de Derrida sobre instituição e filosofia se daria no Brasil porque, transferindo para a filosofia institucional as discussões de uma teoria literária e literatura colonizadas por uma reflexão de teor sociológico sobre o local e o universal, sobre as ideias e seus lugares, aqui a “forma” ou a instituição da filosofia teria precedido o “conteúdo” filosófico. Mas só isso não dá conta de todo o luxo que a filosofia institucional se dava nesse momento e que Bento Prado Jr. compartilhava de bom grado com seus ouvintes.

É que não parece tão correta a tese, que Paulo Arantes repete, não sem ironia, a respeito da suposta precedência da forma sobre o conteúdo no que diz respeito à filosofia por estas bandas. Pois, a julgar pela metáfora da área da saúde empregada por Bento Prado Jr. em seu texto, teria havido algum conteúdo filosófico “antes” da filosofia institucionalizada em terras paulistanas. Afinal, esse afirma que institucionalizar a filosofia teria sido bom até mesmo quando gerou uma “cauterização de feridas do pensamento, que prometiam virulência maior” (PRADO JR., 1980, p. 24). Não só havia, portanto, algum pensamento antes, como Bento Prado Jr. faz um juízo moral acerca da validade da institucionalização da filosofia no Brasil, já que mesmo o que ela causou de ruim – a eliminação ou purificação de conteúdos que de todo modo pode ser que fossem virulentos – foi um mal que veio para o bem, se quisermos lembrar a expressão de Mefistófeles para definir a si mesmo.

Assim, a instituição e a institucionalização da filosofia em terras paulistanas teriam aniquilado a virulência de um pensamento anterior à implantação da forma ou da instituição, deixando um vazio “conteudístico” que só seria preenchido posteriormente no corpo brasileiro que se tornava saudável graças à ação efetiva de médicos do pensamento importados de ultramar. Fugindo, então, do elogio antifilosófico da filosofia contido na pergunta disparadora de Giannotti, Bento Prado Jr. se enreda nas armadilhas de outro elogio – o da instituição.

Faz isso, contudo, nem por acaso, nem por ingenuidade, mas como uma encenação anti-institucional hesitante, como uma demonstração de força e de poder da filosofia institucional, capaz de fazer troça das denúncias e ataques à instituição, feitos por filósofos “em seus lugares”, como seria o caso de Nietzsche e Derrida, ao menos do ponto de vista de uma autoridade institucional da filosofia no Brasil. Não é fruto do mero acaso, assim, sua última citação ser de Oswald de Andrade, aquele que, por estas bandas, talvez tenha sido a principal promessa virulenta do pensamento, indistintamente relegada dentre as que foram publicamente cauterizadas pelos bons samaritanos.

Sem pôr em discussão a falta de mediação de tal diferenciação entre forma e conteúdo – se forma já não é um conteúdo e vice-versa, se não haveria, em outras palavras, um ruído branco da forma, da instituição ou da mídia que fala, produz e é seu próprio conteúdo –, o problema dessa cauterização de uma promessa de virulência

No documento j ul - dez , 2019 (páginas 167-193)

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