1 INTRODUÇÃO
1.5 Tradutor de que mensagens? Traidor de que valores?
As complexas relações entre narração, focalização e história na obra de João Guimarães Rosa, trabalhadas de forma peculiar e extremamente coesa pelo autor, dão margem ao surgimento de efeitos de sentido os mais diversos, conforme pudemos verificar em nosso estudo anterior. Esses efeitos muito freqüentemente abrem-se para a polissemia,
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caracterizando o discurso narrativo pelo não-fechamento em um sentido único, pela abertura a uma multiplicidade de leituras – pelo menos no que tange ao leitor que a ela tem acesso em primeira mão, em seu idioma original.
Essa característica traz o enunciado narrativo, em Tutaméia, a uma posição-limite; o leitor, muitas vezes, é colocado em situações nas quais, mais além de se encontrar entre dois sentidos possíveis e ter de se decidir por um, é preciso contentar-se apenas com uma impressão ou uma sensação, com a impossibilidade mesmo de se decidir; momentos em que até a paráfrase se torna arriscada, senão impossível, como acontece, principalmente, com a poesia.
A questão de base que nos move a este trabalho relaciona-se a essa característica, na medida em que tais efeitos são gerados graças ao minucioso, exato, filigranado, consciente e incansável trabalho com a matéria-prima da obra literária, a palavra, empreendido pelo autor; todo esse esforço dá origem a uma linguagem única, ímpar, marca do inconfundível estilo rosiano, e investigar a transposição dessa linguagem a outro sistema lingüístico abre uma ampla gama de possibilidades, tão diversas quanto desafiadoras.
Em primeiro lugar, no rol de nossas motivações, encontra-se o desejo de avançarmos um pouco mais na compreensão da obra de Guimarães Rosa. A via escolhida, neste trabalho, foi investigar a transposição de sua linguagem tão particular a outro idioma: o que isso teria significado para o tradutor, antes de tudo também leitor, e para o leitor do texto traduzido, a partir da narrativa que ganha vida no trânsito entre eles. A hipótese que funda a pesquisa baseia-se na idéia de que eventuais alterações nas relações entre narração, focalização e história promovidas pelas contingências do trabalho de transposição para outro idioma acarretariam mudanças profundas nas possibilidades de leitura e interpretação criadas pelo discurso narrativo, ou diferentes efeitos de sentido.
O problema da tradução começou a ganhar importância a nossos olhos já no decorrer do trabalho do Mestrado, quando investigávamos as narrativas de Sagarana, sem nos preocuparmos ainda com a questão da transposição a outros idiomas. Guimarães Rosa, em carta a Harriet de Onís, que foi a tradutora de parte de sua obra para o inglês, comenta a versão de “Minha gente” e, referindo-se também a “Sarapalha”, avisa: “Importante: nunca mudar os tempos dos verbos. (Retocar, neste particular, o ‘THE STRAW SPINNERS’)”.19
Nesse momento, começou a germinar a questão de base desta pesquisa, alertados que fomos para a relevância desse aspecto particular da enunciação narrativa e para o risco de,
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Disponível no Instituto de Estudos Brasileiros (USP), no Arquivo João Guimarães Rosa, Série Correspondência com Tradutores, pasta CT2C, carta de 04 nov. 1964.
com a tradução, sucederem alterações significativas aí; se havia até mesmo certa liberalidade quanto a outros aspectos da tradução, este, na opinião do autor, merecia grande cuidado. E ele toca questões já não mais afeitas apenas ao léxico, aos neologismos ou regionalismos, as quais, à primeira vista, parecem ser as que exigiriam maior atenção e esforços do tradutor. Foi um alerta.
Destaque-se do posfácio à edição alemã de Tutaméia a seguinte observação de Meyer- Clason:
Wenn ich den beschreibenden Satz “O sol a tombar, o rio brilhando que qual
enxada nova, destacavam-se as cabeças no resplandecer” mit “Die Sonne
sank, der Fluß glänzte wie eine neue Hacke, die Köpfe im Widerschein hoben sich ab” übersetze, so wähle ich notgedrungen drei Imperfektformen staat Rosas Wechselspiel zwischen Infinitiv, Gerundium und Imperfekt
(MEYER-CLASON, 1994, p. 263).20
O tradutor, nesse trecho, explica que, forçosamente, premido pela necessidade (notgedrungen), escolhe três formas do passado (sank, glänzte, hoben sich ab) para traduzir o jogo entre infinitivo, gerúndio e imperfeito do original. Não se pode negar que o leitor da tradução consegue visualizar uma cena que guarda realmente muita semelhança com aquela que o leitor do texto original visualiza: o sol que se põe, o rio que reflete a luminosidade, as silhuetas que se destacam na contra-luz; entretanto, perde a oportunidade de tomar parte no jogo dos tempos verbais proposto pelo autor.21 O cenário é o mesmo; a seqüência das ações é a mesma; mas será o sentido também o mesmo?
O que nos intriga é pensar nas conseqüências de alterações como essa para a narrativa em questão – principalmente se se leva em consideração que é grande a probabilidade de que não seja a única passagem em que tal tipo de fenômeno ocorre; ela é tão exemplar que como tal foi eleita pelo próprio tradutor. Pequenas alterações dessa ordem são aparentemente inócuas para a história; tanto é assim que o tradutor, sem grandes escrúpulos, as torna públicas, mas as toma já como exemplo das dificuldades que enfrentou ao lidar com a linguagem rosiana. A nosso ver, são emblemáticas; somadas, darão origem a um enunciado cujo efeito é completamente distinto daquele de que partiram.
Muito já se discutiu acerca do conhecido ditado italiano que condena o tradutor a uma posição marginal, transgressora: Traduttore traditore. Com efeito, não é fácil fugir à tendência
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“Se traduzo a frase descritiva ‘O sol a tombar, o rio brilhando que qual enxada nova, destacavam-se as cabeças no resplandecer’ por Die Sonne sank, der Fluß glänzte wie eine neue Hacke, die Köpfe im Widerschein
hoben sich ab, escolho forçosamente três formas do Imperfeito, em vez do jogo da alternância entre infinitivo,
gerúndio e imperfeito de Rosa.” 21
O trabalho com os tempos verbais constitui um importantíssimo recurso na escritura do autor, conforme verificamos em nosso estudo anterior (SEIDINGER, 2004).
de ver a tradução, de modo geral, como traição às intenções do autor, à pureza e à transparência de sua escritura, sobretudo no caso de uma escritura tão particular como a rosiana – caso em que seria mais adequado, na verdade, dizermos “opacidade”, ao invés de “transparência”.
Todavia, é preciso ir além; com Jakobson, é mister perguntar: se o tradutor é traidor, “[...] tradutor de que mensagens? traidor de que valores?” (JAKOBSON, 1970, p. 72). Qual seria, então, a “mensagem” de Tutaméia, aquela que a crítica, de modo geral, tem vislumbrado na obra? Quais seriam os valores a que a obra se vincula, que valores ela faz circular? Assim, para discutir sua tradução, é preciso pensar nessas questões preliminares. E também levar em conta o leitor, a leitura da tradução: quais os valores que se consubstanciarão para ele, diante desse Tutaméia outro?
Em geral, se o tradutor logra escapar à invisibilidade e deixa sua marca, o risco que se corre é o de que sua presença seja vista como um escolho, um fator de ruído e perturbação na comunicação narrativa. O que parece estar implícito aí é que não lhe restaria outra saída: ou trai ou desaparece. Assim, nesse beco, perguntamo-nos se não haveria outras saídas possíveis.
Quanto às bases teóricas sobre as quais este trabalho se organiza, a justificativa repousa na constatação de que as relações entre a história e o discurso que a conforma nem sempre são levadas em conta por leituras críticas da tradução, que entre nós pouco têm se servido, pelo menos dentro do que pudemos constatar, do referencial da narratologia ao abordar o texto literário em tradução. Assim, um dos pontos cegos da pesquisa, em seus momentos iniciais, era encontrar referências que justificassem e embasassem a leitura que pretendíamos realizar. E um dos frutos que este trabalho pôde colher foi exatamente fazer-nos perceber que a interface entre esses dois campos, o da narratologia e o da tradução literária, já vem sendo explorada, sobretudo por estudos oriundos do continente europeu; não era, então, de todo despropositada nem irrealizável nossa idéia inicial. Esperamos que este trabalho possa também contribuir no sentido de chamar a atenção para o fértil campo que aí se desenha, campo este em que, sem dúvida, muito há a ser investigado.
Queremos crer ainda que o próprio tradutor, em sua tarefa, poderia se beneficiar bastante de uma leitura que, baseada nas contribuições da narratologia, focalizasse as relações entre o discurso e a história, as duas faces da narrativa. Assim, ao procurar inserir-se nesses dois campos, o da narratologia e o dos estudos da tradução, este trabalho também espera poder contribuir para ressaltar a utilidade do referencial da narratologia para a formação teórica do tradutor, referencial que, cremos, pode instrumentalizá-lo com bastante eficiência para o trato com o discurso narrativo a ser traduzido.