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TRAJETÓRIA DO MOVIMENTO ESTUDANTIL BRASILEIRO

1 GESTÃO DEMOCRÁTICA ESCOLAR: UMA PRÁTICA PARA FORMAR

2.1 TRAJETÓRIA DO MOVIMENTO ESTUDANTIL BRASILEIRO

Ao fazer um resgate histórico do movimento estudantil brasileiro, percebe-se que este é marcado por lutas e diferentes fases que acompanharam a movimentação do país, sempre no sentido de questionar e de propor alternativas para a realidade posta, seja no âmbito acadêmico ou socioeconômico. Pode-se falar que o movimento estudantil enquanto um espaço específico de luta política poder ser considerado um movimento social (GOHN, 2011). Compreendido de tal forma, não deixa de ser um processo educativo, de articulação, desenvolvido pelos estudantes em benefício dos demais, assumindo importância dentro da instituição escolar devido à capacidade de organização e confiança entre os membros. Poerner (2004, p. 53) fala que o

movimento estudantil é a forma mais adiantada e organizada que a rebelião da juventude assume no Brasil. Tal como o entendemos e conhecemos, esse movimento existe somente a partir da criação da União Nacional dos Estudantes, em 1937, quando alcança a centralização. É com a centralização, na UNE, das lutas estudantis, que elas vão adquirir, progressivamente, caráter organizado e de emancipação nacional. Isso não significa, no entanto, que tenha começado somente em 1937 a participação estudantil na vida política brasileira.

Poerner (2004) afirma também que a primeira manifestação estudantil no Brasil aconteceu ainda no período colonial, em setembro de 1710, quando houve uma invasão no Rio de Janeiro por soldados franceses, e estes foram surpreendidos por estudantes, que “estudavam em conventos e colégios religiosos, pois, à época, ainda não havia ensino universitário no Brasil” (POERNER, 2004, p. 54). Percebe-se, então, que a força da militância estudantil existe há muito tempo.

Sua atuação, porém, dá-se de forma mais visível durante o período da ditadura militar, Bringel (2009) atesta que a década de 1960 estava polarizada entre os estudantes e o Estado governado pelos militares. Depois do golpe de 1964, houve grande repressão por parte do governo. O pior marco é o Ato Institucional nº 5, do ano de 1968, que dificultou a organização do movimento estudantil, com a existência de Órgãos de Informações para fazer investigações das atividades julgadas subversivas pelo regime no meio acadêmico. O princípio adotado pelo governo era o de fazer o estudante dedicar-se somente aos estudos, um patriota que não atuasse na política, porém os estudantes resistiram e lutaram mesmo na clandestinidade2, diante de toda repressão e discriminação, rebelaram-se ainda mais e foram protagonistas nas lutas, superando as situações adversas; lidavam com o julgo da população e com o discurso pejorativo promovido contra eles. Somente em 1979, houve o congresso de reestruturação da UNE, quando aconteceu a primeira reunião nacional aberta após a dissolução da entidade, constituindo-se como base para ações reivindicativas do movimento (RIBEIRO, 2017; NASCIMENTO, 2015).

Simão (2015), ao discorrer sobre o movimento entre os anos 1979 e 2014, mostra a união das pautas específicas estudantis com as questões sociais de contextos diversos, mediante novas formas de intervenção, o que auxilia na formação política dos jovens, aproximando-se dos partidos políticos no esforço de conseguir influência no espaço político.

Nesta mesma direção, de analisar a relação do movimento estudantil com os partidos políticos, compreendendo a necessidade de atuação destes para poder conseguir atingir os resultados, Souza (2016) examina, entre os anos de 2007 a 2014, como o lulismo3 propiciou condições para participação nos espaços institucionalizados por meio da representação e da participação nas políticas, fazendo com que o movimento estudantil se mobilizasse internamente nas instituições (cobrando não apenas melhorias, mas indagando sobre as relações de poder nas decisões administrativas) e saísse das ruas, visto a manutenção de apoio político e diálogo crítico com o governo, evitando o embate. Para poder responder as pautas externas, articulava-se a outros movimentos sociais, nas suas palavras:

2 Ao versar sobre a questão da clandestinidade, Lucena (2016) aborda a comunicação clandestina usada pelos

estudantes para continuarem atuando contra o regime, já que os discursos contrários ao governo não tinham espaço nos jornais de maiores propagação, assim, os estudantes utilizavam-se de mecanismos como pichações e colagem para mostrarem oposição, bem como de panfletos, bandeirolas, mensagens codificadas nos programas radiofônicos e nos classificados nos jornais impressos, dentre outros, para defenderem suas posições e fazerem suas denúncias.

3 Para Souza (2016) foi o período compreendido entre os anos de 2006-2014, no qual os governos petistas

potencializaram a participação e a influência dos representantes dos movimentos sociais nos espaços institucionais, atuando na construção de diferentes políticas públicas, foi uma Estrutura de Oportunidades Políticas (EOP).

as transformações do movimento estudantil recentemente referem-se à criação de um novo ciclo de mobilizações predominantemente fora das ruas, com ênfase nas questões internas (endógenas) e de rearticulação de interesses junto aos movimentos sociais externos (gênero, reforma agrária, combate à homofobia, igualdade racial etc.), além da atuação em espaços participativos fincados na política institucional, destacando-se as políticas públicas de juventude, que em todas as esferas de governo levaram o movimento estudantil a participar ativamente dos processos em torno do fortalecimento de conselhos e de conferências (SOUZA, 2016, p. 20-21).

Por fim, Souza (2016) esclarece que para afirmar-se no lulismo, considerando o contato com o governo, há um reorientação, um redesenho do movimento estudantil em relação a seus projetos, pautas e formas de mobilização, articulando lutas específicas com as gerais e respeitando a diversidade do perfil do estudante atual4.

Mesmo com as organizações partidárias refletindo em seus rumos, ainda assim, a representação nas lutas é muito forte, não houve desmobilização, mas ergueram-se os protestos internos nas universidades, levando às ocupações das reitorias. Simão (2015) aponta o REUNI5 e o PROUNI6 como as causas desta mobilização, pois os alunos acreditavam que tais programas ocasionariam queda na qualidade da educação pública. Nota-se, portanto, como as ações das do governo refletem nos rumos do movimento estudantil.

Ao tratar das ocupações das reitorias, Bringel (2009, p. 112) revela novas características do movimento estudantil na atualidade, mostrando que as mobilizações estão marcadas por indagações referentes à organização do próprio movimento:

• Maior democratização da informação e da comunicação: os blogs foram utilizados pela primeira vez nas ações coletivas estudantis, durante as ocupações das reitorias, servindo não somente de ferramenta mais aberta e direta de comunicação, em razão de seu caráter mais interativo, mas também de via para a formação (como base para debates e “arquivo” de textos e documentos relevantes) e para a mobilização (referente para divulgar ações futuras e linhas a seguir);

• Maior horizontalidade na deliberação: maior protagonismo das assembleias em detrimento dos comitês fechados e órgãos de representação;

4 Mesquita (2006) fala de um movimento em contínua transformação, diversificando sua atuação por necessidade

das realidades que afloram na sociedade e suas novas configurações. No presente, há uma reorganização do movimento estudantil por meio da incrementação de novas bandeiras e da união com os novos movimentos sociais, ampliando as formas de intervenção na prática política, tornando-se um movimento plural, preocupado em posicionar-se, por exemplo, sobre assuntos raciais e de gênero. Constitui, portanto, um interlocutor privilegiado dos anseios dos estudantes e da sociedade.

5 Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais, que tem como principal

objetivo ampliar o acesso e a permanência na educação superior. Disponível em: http://reuni.mec.gov.br/o-que-e- o-reuni. Acesso em: 23 nov. 2018.

6 Programa Universidade para Todos, que tem como finalidade a concessão de bolsas em instituições de ensino

superior privadas, oferecendo a estas isenções de tributos. Disponível em: http://prouniportal.mec.gov.br/o- programa. Acesso em: 23 nov. 2018.

• Ausência de um líder definido: não há um líder responsável ou um porta-voz único nas recentes ocupações das reitorias, mas, sim, uma liderança difusa. Os estudantes alternavam-se nessa função. A falta de um interlocutor definido causou certo espanto nos poderes e meios mais tradicionais, por não poderem apontar um responsável concreto ou encontrar uma figura-líder com quem negociar.

A ocupação foi a principal forma de contestação das políticas e reformas indesejadas que se desenharam na contemporaneidade, elas enfatizaram as inquietudes dos estudantes (BRINGEL, 2009).

Em suma, as leituras realizadas dos estudos de Nascimento (2015), Mesquita (2006) e Simão (2015) fazem compreender que os estudantes organizados coletivamente sempre estiveram presentes nas lutas dos marcos considerados importantes para a história brasileira. Atualmente, o movimento estudantil alia-se a outros movimentos sociais para tornarem-se resistência a projetos contrários, a ação mobilizadora tem sua preocupação voltada para as demandas da coletividade.

Continuando com a discussão teórica, no próximo tópico serão abordadas as ocupações realizadas nas instituições escolares no Brasil, no segundo semestre do ano de 2016, que entre as possibilidades e as limitações de sua vivência, contribuíram para a formação política dos alunos.

Ressalta-se a relevância de esclarecer esta nova forma de luta desempenhada pelos estudantes, vinculada ao cenário vivido, no qual, mesmo estando em uma democracia, os atores escolares foram excluídos das decisões.

Souza (2016), ao analisar o momento político atual, de políticas neoliberais, alerta para a necessidade dos movimentos repensarem seus projetos e práticas. Fazendo esta reflexão, ao considerar a conjuntura nacional de retirada de direitos sociais, somada à necessidade de ampliação e melhoria dos espaços democráticos nas instituições de ensino, os estudantes, como atitude extrema, ocuparam o espaço físico destas, buscando estabelecer o diálogo e, consequentemente, mostrando a capacidade de participar da gestão dos projetos da escola e da construção das políticas e reformas nacionais.

2.2 OCUPAÇÕES ESCOLARES: LUTA DOS ESTUDANTES CONTRA IMPOSIÇÕES DO