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Sumário

Capítulo 1: Análise setorial apreciativa

1.2. Trajetória histórica do setor de internet

Antes da análise setorial propriamente dita, será apresentado um breve histórico da trajetória do SSIP, como forma de contextualização. Esse relato não pretende, entretanto, ser exaustivo ou detalhado.

As redes eletroeletrônicas para transmissão de informações à distância tiveram origem no telégrafo, em meados do século XIX. Desde então, as tecnologias utilizadas para a construção de redes de telecomunicações desenvolveram-se e multiplicaram-se, ganhando substancial impulso a partir dos anos 1950, com a revolução da microeletrônica. O rápido desenvolvimento das tecnologias de informação e comunicação (TIC) se deu dentro do complexo de novas indústrias que foram estimuladas pelos volumosos gastos em pesquisa e desenvolvimento (P&D) do governo norte-americano no pós-guerra (MOWERY; SIMCOE, 2002). A gradual convergência entre as TIC produziu a base tecnológica que geraria, entre diversos subprodutos, a “rede das redes” de computadores, ou “internet”.20

A internet originou-se, ainda nos anos 1960, de pesquisas patrocinadas pela área de defesa norte-americana e que criaram a primeira rede de comutação de pacotes, a Defense Advanced Research Projects Agency Network (Arpanet), a sua tecnologia básica (CERF et al., 2000). Essa tecnologia revolucionária, posteriormente aprimorada por meio do Internet Protocol (IP), alterou profundamente os paradigmas das telecomunicações e da informática, até então baseados na comutação de circuitos,21 e permitiu substancial aumen- to da capacidade e das possibilidades dos sistemas de comunicação e de computação.

A comutação de pacotes tornou-se possível (e necessária) a partir da difusão do computador digital,22 mas sua aplicação, durante os primeiros vinte anos, concentrou-se nas

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Redes de telecomunicações podem ser classificadas em diferentes níveis e conforme diferentes critérios. Para os efeitos deste trabalho, uma rede é entendida como um artefato físico (hardware e software), sob qual- quer tecnologia, que realiza a conexão entre usuários distintos da rede ou entre usuários e serviços disponibi- lizados através da rede, permitindo o transporte de informação codificada entre eles.

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De forma extremamente simplificada, a comutação de circuitos opera por meio do estabelecimento de ca- nais de transmissão dedicados durante todo o período de comunicação, independentemente de sua efetiva utilização durante o transporte das mensagens (áudio, vídeo ou dados). A comutação de pacotes parte do prin- cípio de compartilhamento dos canais de transmissão entre múltiplos processos de comunicação simultâneos, através do fracionamento, e posterior remontagem, das mensagens em pequenos “pacotes” de informação.

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A comunicação de dados entre computadores, através de longas distâncias, existia antes da invenção das redes de pacotes. Entretanto, elas tornaram possível, pela primeira vez, o estabelecimento de redes complexas e não hierárquicas entre múltiplos computadores, de forma equivalente às redes de telefonia entre pessoas.

comunidades militar e científica (GREENSTEIN, 2010). Apenas ao longo dos anos 1980 desenvolveu-se a internet como é conhecida hoje – após a popularização dos microcompu- tadores e o desenvolvimento dos protocolos que são a sua “face visível” 23. No início dos 1990 ela se transformou em uma plataforma economicamente importante (SHY, 2001).

A primeira conexão brasileira à internet, já sob protocolo IP, foi estabelecida pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), em 1991, conec- tando um pequeno número de instituições acadêmicas no Brasil. A administração do domí- nio “.br” e dos endereços IP no Brasil também foi responsabilidade da Fapesp, até a criação do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), em 1995 (GUIZZO, 2007).

As redes de comunicação de dados entre computadores, como a internet, nasce- ram como extensões da rede de telefonia, compartilhando parcelas da infraestrutura física – cabos e sistemas de rádio. Apenas a partir dos anos 1990, redes especializadas para o trans- porte de dados – empregando exclusivamente comutação de pacotes – tornaram-se comuns, absorvendo gradativamente o tráfego de telefonia, que se transformou em mais uma aplica- ção das redes de dados24 (DALUM; VILLUMSEN, 2003).

A evolução técnica das redes que suportam a internet, e em particular das tecno- logias utilizadas pelos usuários para acessar a rede, foi contínua desde a oferta dos primei- ros serviços comerciais. Durante os vinte anos iniciais da internet comercial, pelo menos quatro gerações tecnológicas mais importantes podem ser elencadas: (i) o acesso discado (dial-up) “banda estreita”, utilizando o sistema telefônico legado; (ii) o acesso “banda lar- ga” fixo (ADSL, DOCSIS/cabo), sobre as redes de cabeamento metálico e óptico existentes (telefonia e televisão a cabo); (iii) o acesso banda larga móvel (UMTS/3G), com redes de radiofrequência sem fio híbridas (voz e dados); e (iv) o acesso banda larga em altíssima velocidade fixa, com cabeamento óptico fim a fim (FTTH), e móvel (LTE/4G), com redes de radiofrequência de dados apenas. Outras tecnologias também foram disponibilizadas

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Apesar de o “núcleo tecnológico” da internet, o protocolo IP e os demais protocolos de transporte de dados terem sido desenvolvidos ao longo dos anos 1970 e 1980, foi apenas com a criação dos protocolos de interfa- ce amistosa da família world wide web (HTTP e HTML), no início dos anos 1990, que a internet se tornou uma ferramenta acessível ao usuário comum e com interesse comercial para sua implantação em larga escala.

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O processo de convergência tecnológica, para sistemas de transmissão digital, permitiu que as diversas aplicações das redes (dados, voz, imagem) compartilhassem a mesma infraestrutura física.

nesse período, como o acesso por satélite e o acesso sem fio fixo, porém com penetração muito inferior àquela das quatro gerações principais.25

A popularização das gerações tecnológicas se deu de modo cada vez mais veloz nos países avançados. Entre o lançamento do primeiro serviço de acesso discado à internet (nos Estados Unidos), em 1990, e a sua popularização, em 1995, verificou-se um período de cinco anos (ZAKON, 2010). Da oferta inicial de acesso banda larga fixa em 1996, no Canadá, até sua disponibilização em escala ampla na América do Norte, em 2000, foram necessários quatro anos (FCC, 2004). Já a utilização em massa do acesso móvel tomou me- nos de três anos da operação da primeira rede 3G em 2001, no Japão (POSSI, 2006). A quarta geração levou ainda menos tempo, dois anos, entre o lançamento piloto em 2009 na Escandinávia e a sua massificação na América do Norte e Europa (WIKIPEDIA, 2014).

Desde o início de sua adoção pelo público em geral, no começo dos anos 1990, a internet gradualmente migrou de redes mantidas pela comunidade acadêmica – em geral públicas – para um conjunto de redes conservadas e operadas por firmas majoritariamente privadas (ZAKON, 2010). Sua disseminação, exceto nos Estados Unidos, se deu de forma concomitante com o rápido processo de privatização dos antigos monopólios de serviços de telefonia ao redor do mundo e a abertura para a competição (GREEN; TEECE, 1998; LI; XU, 2004). Na maioria dos países, as empresas privatizadas foram as “herdeiras” das redes físicas (cabeamento, equipamentos e sistemas) dos monopólios estatais. Apesar da frequen- te inexistência de restrições à entrada de novos competidores, as redes privatizadas repre- sentaram a maior parcela da infraestrutura da internet até meados dos anos 2000, especial- mente fora dos Estados Unidos (ibid.).

Em 1992, surgiu o primeiro provedor de acesso à internet brasileiro fora da área acadêmica (Ibase), ainda em caráter não comercial (CARVALHO, 2006). No fim de 1994, a Embratel, parte do monopólio estatal na época (sistema Telebrás), lançou o primeiro ser- viço comercial de acesso, em modo experimental. Em meados de 1995, ele entrou em ope- ração definitiva (GUIZZO, 2007). Em paralelo, a Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP), até então a principal estrutura da rede internet no Brasil, passou a oferecer acesso

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Autores como Lehr e Chapin (2010) argumentam que as diversas tecnologias são apenas parcialmente subs- titutas, como é usualmente o caso de sucedâneos tecnológicos, por causa de diferenças importantes entre elas, o que estimula o seu desenvolvimento continuado, reduzindo a probabilidade de convergência.

para setores fora da área acadêmica. Simultaneamente, surgiram os primeiros provedores de acesso privados, estimulados pela decisão do Ministério das Comunicações de abrir o mer- cado de provimento de acesso à competição, com a criação de 21 novos provedores em 1995 (ibid.). A partir de 1996-1997, o mercado doméstico consolidou-se e iniciou seu cres- cimento em larga escala, com a entrada de grandes grupos de mídia (Abril, Folha, RBS).

No entanto, a oferta de cada geração de tecnologias de acesso no Brasil se deu de progressivamente mais atrasada em relação aos centros mundiais de inovação. Enquanto o acesso discado começou a se difundir com cinco anos de atraso (GUIZZO, 2007), a banda larga fixa tomou impulso com seis anos de retardo, em 2002 (TELEBRASIL, 2014). Já o acesso móvel passou a ser ofertado, em 2009, oito anos depois do lançamento pioneiro no Japão (ibid.). Contudo, essa tendência parece ter se revertido no caso do acesso móvel de quarta geração (4G/LTE), disponível no Brasil menos de cinco anos após o início da opera- ção das primeiras redes comerciais na Europa (WIKIPEDIA, 2014).

Ao longo da trajetória do setor de internet, a produção de equipamentos físicos e a provisão de serviços intangíveis (acesso, conteúdo e software) foram sempre comple- mentares. Fornecedores de produtos inovadores – incluídos aí muitos serviços – foram gra- dualmente se integrando ao “ecossistema”, atraindo parcelas crescentes da população para a utilização da rede. A migração da interface humana direta para a interface mediada por computadores tornou indispensável, além dos microcomputadores e outros dispositivos, a criação de uma grande quantidade de programas para a interação dos usuários, estimulando o desenvolvimento de um segmento de software pujante. Não obstante, a maior oportunida- de criada com a internet foi a virtual emergência de uma indústria de informação eletrônica – ou de “conteúdo”. Diferentemente da telefonia, a rede do tipo web criou um espaço to- talmente novo para a troca de informações, não apenas entre usuários, mas principalmente entre estes e a florescente comunidade de firmas provedoras de conteúdo para a nova mídia. Em curto período de tempo – menos de trinta anos –, a ampla difusão e a pro- funda penetração da “rede das redes” atingiram a maioria dos sistemas econômicos do pla- neta (CORROCHER, 2001). As mudanças no ambiente institucional, com a introdução da competição para as operadoras de telecomunicações, o movimento na direção dos sistemas

abertos26 e o crescimento da importância dos serviços de comunicação de dados foram cru- ciais para isso (DALUM; VILLUMSEN, 2003). Uma série de setores tornou-se obsoleta. Vários outros foram significativamente transformados ou simplesmente destruídos, enquan- to um grupo crescente de novos setores foi viabilizado tão somente graças à internet. Em paralelo, nos seus precursores imediatos – as telecomunicações e a informática –, a diferen- ciação funcional e a diversidade organizacional aumentaram expressivamente (EDQUIST, 2004).