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Trajetórias de empoderamento: peregrino e turista

As categorias peregrino e turista são utilizadas, nesta dissertação, para referir-se aos passantes/transeuntes/visitantes. Uma vez que se baseiam em “um olhar meu”, deverão ser então relativizadas. Como é mister do historiador, que imprime um olhar à realidade passada ou presente, devemos também levar em consideração o modo como os sujeitos da história pensam acerca de si mesmos.

Em termos etimológicos, peregrino vem do substantivo latino peregrinatio – viagem em terra estrangeira – uma prática devocional que consiste em se dirigir coletivamente ou individualmente a um lugar sacro com o intuito de realizar atos

200

ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano: a essência das religiões. São Paulo: Martins Fontes, 2001. p. 17.

penitenciais202. Já turismo significa, segundo Trigo, “um meio um pouco mais ‘real’ de desfrutar o mundo. Pode-se viajar, ver coisas especialmente produzidas para causar instante de prazer aos sentidos hiperexcitados por milhares de impulsos cotidianos”203.

O peregrino católico, por sua vez, mantém uma relação de respeito com a tradição. Por ela se entende o catolicismo tradicional, no qual a Igreja baseia todo o seu magistério, tanto que, de certa maneira, tenta alavancar-se a partir da sua construção de religiosidade popular, que perpassa pelo seu íntimo, provendo e dando sustentamento espiritual aos seus fiéis como, por exemplo, faz o pelicano na falta de alimento, dando para os seus filhotes o seu próprio sangue para mantê-los vivos. Entretanto, Dom Murilo comenta que a

Nossa vida é marcada por modelos, a quem seguimos consciente ou inconscientemente. Tais modelos podem ser nosso pai, nossa mãe, um vizinho ou um conhecido qualquer. A verdade é que, com suas palavras ou com o testemunho de sua vida, iluminam nossa própria vida. Tal ou tais pessoas se tornam paradigmas para nós: nós as admitimos; queremos conhecê-las sempre mais; e vibramos com cada nova descoberta que fazemos a seu respeito. Para muitos, essa pessoa tem sido Santa Paulina. Após terem lido um livro sobre ela; um depoimento que deixou; uma carta que escreveu; ou depois de ouvir falar de sua dedicação, orientação geral de sua vida ou de um determinado comportamento numa situação concreta, acabam dizendo para si mesmos: “Gostaria de ser como ela; de fazer o que ela fez; de imitá-la já que, certamente, muito agradou a Deus”. Assim, muitas jovens entram para a Congregação que fundou; outras, a imitam nos mais variados estados de vida204.

Muitos desses visitantes admitem serem católicos não-praticantes, dando-se até mesmo outras denominações. E corre em suas trajetórias de vida a religião dos seus ancestrais, resistindo às intempéries de qualquer natureza, colocando-se como ser religioso, fazendo parte do contexto socioeconômico do meio que eles estão e levando consigo certas esperanças.

Para melhor compreender os fenômenos de peregrinação e de turismo, é necessário explanar uma breve definição dos termos, na qual se estabelece um diálogo entre ambos, justamente porque a peregrinação é um ato devocional não imposto, mas para o qual se é convidado a fazê-lo (como, por exemplo, no islamismo) ou auto-imposto (como, por exemplo, no catolicismo). Assim, a peregrinação aos santuários acontece “como uma

202 CORTELAZZO, Manilo; ZOLLI, Paolo. Dizionario etimologico della lingua italiana. Vol.V: P-S. Bologna:

Zanichelli, 1979. p. 27.

203 TRIGO, Luiz Gonzaga Godoi. Turismo e qualidade: tendências contemporâneas. 8ª ed. Campinas: Papirus,

2002. p. 58.

obrigação auto-imposta”, quer dizer, acontece quando a pessoa está em desespero ou em dificuldades e procura uma ajuda divina para o seu problema; ou quando a pessoa fez uma promessa na esperança de um milagre ou na resolução de um problema e, após “recebida a graça”, sente-se na obrigação de agradecer (pagar a promessa); ou quando a pessoa está de bem com a vida e sente a necessidade de demonstrar agradecimento pelo “dom de possuir a vida”, de possuir saúde e tudo o mais sobre o que a pessoa religiosa acredita que deva dar uma satisfação a Deus, ou à Mãe de Deus, ou a um santo de sua devoção.

Nos dois últimos casos, a pessoa teme que Deus a abandone, caso não agradeça. No primeiro, a pessoa tem esperança de que ele não irá abandoná-la, se ela implorar. Em todos os casos, há uma crença, uma fé e uma lealdade indiscutíveis, que fazem com que a pessoa se sinta “ligada ao sobrenatural”, e que a fazem pensar que ela pode intervir na vontade divina e esta possa interferir na sua vida pessoal.

Quanto ao turismo, é uma atividade de lazer e de conhecimento. Na fala de Merleau–Ponty, no livro A dúvida de Cézanne, o autor comenta que a natureza é já perfeita e queria retratá-la como ela é em sua origem, “como ocorre na visão natural, para dar a impressão de uma ordem nascente, de um objeto que surge a se aglomerar sob o olhar” 205. Assim, pode-se dizer que o turismo é uma busca pelo belo, um apelo humano aos sentidos – especialmente à visão, mas não só – para partilhar de modo mais aproximadamente possível da beleza estética, ou do exótico. O turismo é uma procura pelo prazer. Ele está para o hedonismo assim como a peregrinação está para a fé. Ambos não são mensuráveis, posto que são subjetivos. Ambos são importantes, porque embora de maneira diferente, produzem um efeito benéfico, um efeito de satisfação pessoal.

Entendendo o turismo como a atividade do tempo livre que consiste em visitar lugares diversos daqueles da residência habitual, a fim de instrução ou deleite, distinguimos diversos tipos de turismo, como o sexual, o religioso, de estudo e tantos outros. Ou seja, é um movimento temporário de pessoas por locais de destino externos e diferentes dos seus lugares de trabalho, de estudo e de habitação. Esse ato de viajar, afastando-se do local de origem – resistência, estado ou País – é uma expressão de bem- estar, uma forma agradável de ocupar o tempo livre206.

205 MERLEAU-PONTY, Maurice. A dúvida de Cézanne. (Trad. e notas Marilena de Souza Chauí e Pedro e

Souza Moraes). São Paulo: Os pensadores, Nova Cutural, 1989. p. 307.

Mas o turismo relaciona o indivíduo à exterioridade. Joga-o para algo exterior ao turista. Ele se vê numa paisagem: ele sai de si e se transforma para a paisagem e a paisagem o devora; ele visita uma pinacoteca: ele se transporta para a tela e esta o engole; ele experimenta uma comida diferente que lhe cativa o paladar ou o repugna: neste momento ela o possui; o turista vai a um concerto ou a uma ópera: e ele é atraído pelos sons e entra na música e/ou no drama, dominando-lhe os sentidos; o turista vai ao

shopping: e logo é sugado por esta ou por aquela mercadoria; ele vai à praia: e é tomado

pelo mar que o chama; ele assiste a um ritual religioso exótico: e este o seduz. Acredita Merleau-Ponty que o “objeto visitado não fica mais coberto de reflexos, perdido em seu intercâmbio com o ar com os outros objetos, é como que iluminado surdamente do interior, emana a luz e disso resulta uma impressão de solidez e materialidade”207.

Mesmo quando não se deslumbra com o que vê, sente ou escuta, mesmo quando detesta o que vê, sente ou escuta, o turista é sempre levado a pensar o mundo do outro. De muitos outros ele leva consigo; afinal de contas, o outro está presente com ele através das lembranças e situações vividas no passado. Ele é inserido no mundo do outro e vice-versa, pois, evidentemente, ninguém vive absolutamente só. E quando retorna à sua casa ele traz lembranças, fotografias, postais, vestuários e um monte de souvenirs que o fazem recordar, pelo maior espaço de tempo possível, que o outro esteve coabitando o seu espaço, o que se pode verificar e vem a se confirmar com a entrevista de Regina Aparecida, que conta que “quando eu venho pra cá a gente compra algumas lembrancinhas, mas o que eu compro sempre são rosários, que o pessoal pediu lá, [...]”208. Outra entrevistada diz que “[...] comprei, pra mãe e pro meus filhos. Pouca coisa, porque a gente também não tem muito pra gastar”209.

A peregrinação é uma manifestação relacionada à interioridade do indivíduo. O espaço do sagrado não é um mundo do outro, não do outro humano. O espaço do sagrado é o seu próprio mundo; a paisagem do sagrado é considerada como sua própria. Com isto, peregrinar, para o crente, é vivenciar uma experiência não compartilhada, uma experiência solitária, mesmo quando feita em grupo. O peregrino engole a paisagem, devora a imagem

207 MERLEAU-PONTY, Maurice. Op. cit. p. 305.

208 MARCON, Regina Aparecida C. Entrevista citada, p. 3. 209

CANDIDO, Marli. 45 anos. Rio do Campo-SC. Entrevista concedida a Karine Simoni. Nova Trento, 04/06/2005.

e se abastece e se fortifica porque “as pessoas não se guiam mais por prescrições dogmáticas. Elas querem interagir livremente entre si”210.

O peregrino fortalece-se. O turista esvai-se211. Assim, estar empoderado significa

estar em posição de exercer a capacidade de escolher de acordo com seu próprio livre- arbítrio, o que requer uma política democrática, todavia, para que as pessoas possam usufruir das decisões sobre suas próprias vidas. O enfoque é centrado na força e na determinação das pessoas em descobrir e desenvolver suas capacidades para vencer e superar seus anseios tanto individuais como coletivos. Assim, por exemplo, pode-se constatar em Cézanne, quando pintava a natureza de forma a nos levar à sensação de estarmos “passeando”, que o artista acreditava que os objetos não deviam ser representados sob um único ponto de vista, mas como se o observador estivesse passeando em redor deles. Com essa concepção, Cézanne provocava uma alteração profunda na realidade, criando uma orientação completamente nova para toda a arte futura212.

2.4 Os passantes

Ficamos a imaginar como se dão conta os transeuntes nos novos tempos, depois do questionamento de Nietzsche sobre “para onde foi Deus”. “Nós o matamos – vós e eu. Deus está morto...!” Respondera ele mesmo213. Assim, o filósofo alemão anunciara ao

mundo a morte de Deus e, conseqüentemente, o fim da religião. Como Nietzsche, outros filósofos e estudiosos da chamada era moderna previam o fim dessa instituição chamada Igreja e, principalmente, da Igreja Católica. Freud ligou o problema religioso à sexualidade, culpando a religião pelos diversos desvios sexuais, pelas neuroses e psicoses humanas. Estes e outros pensadores anunciaram o fim da religião e da Igreja. Porém, ela continua, e continua nos mais diversos meios. E surgem “ilhas” de fé esparsas por todos os continentes e no Brasil. Assim se tem o santuário de Nossa Senhora Aparecida em São Paulo e de Madre Paulina em Vígolo de Nova Trento, e tantos outros.

210 DREWERMANN, Eugem. Op. cit. p. 127.

211 ALVES. Elza Daufenbach. Entrevista citada. p. 6-10.

212 CÉZANNE, Paul. Cartas e citações. In.: BARNES, Rachel (org.). Os artistas falam de si próprios:

Cézanne. (Trad. Maria Celeste Guerra Nogueira). Lisboa: Dina livro. 1993. p. 19.

213

NIETZSCHE, Friedrich. A gaia ciência. (Trad., notas, posfácio de Paulo César de Souza). São Paulo: Companhia das Letras, 2004. § 108, §125 e § 343.

É essa a resposta diante do questionamento niilista de Nietzsche, onde a realidade é fluida e oscilante 214 , em perscrutar as alamedas da religião que implicava o desmoronamento dos valores morais, isto é, no seu slogan, “a morte de Deus”. Transplantando esta discussão para o contexto da pós-modernidade215, podemos se discutir sobre a morte de Deus no fenômeno Nova Era, conhecido também como New Age (onde não se tem a certeza de nada), detentora do fazer e do agir dos novos grupos religiosos, como redes de muitas doutrinas, crenças, magias, esoterismos e outros princípios que agregam elementos míticos e místicos que têm encantado a muitos.

A proliferação dessas formas de oferta religiosa responde manifestadamente à demanda que está para se tornar dominante, configurando-se como um pipocar de religião, um pot-pourri de idéias, que mais parece um entrelaçar humano no qual as pessoas voam de flores em flores para absorver o seu néctar, um pouco de lá e daqui, no seu afã religioso, usando a religiosidade do tipo utilitária, sincretista, emocional e tantas outras formas psicológicas para o seu agrado, buscando um mercado multicolorido de denominações religiosas em busca de vibração e energia, como nos diz a senhora Veroni Silva Campos, “uma coisa muito linda, muito boa. Uma vibração muito boa, principalmente quando eu entrei aqui dentro [do território do Santuário]. Tranqüilidade”216.

Desta forma, a religião está sendo vivenciada para o bem estar físico, mental e espiritual sem pertencer a uma única denominação religiosa. Com isto vem outro fator, “uma vibração”, palavra que nos remete a um campo não da espiritualidade católica, mas a uma conotação espiritualista kardecista. Também a senhora Gregória nos relata que “pela curiosidade, falavam muito na santa aí eu fui ver de perto, realmente senti uma vibração. Realmente, ela tem assim uma graça. [...], quando se fala nela a gente sente que toca, que

214 LYOTARD, Jean-François. A condição da pós-modernidade. Rio de Janeiro: José Olympio, 1986. p. 77. 215 O termo pós-modernidade já discutido por Jean-François Lyotard quando publicou, em 1979, a sua obra A

condição pós-moderna. (Lisboa: Gradiva, 1985). Considerando a sua chegada e fazendo uma ponte com o aparecimento de uma sociedade pós-industrial com base numa globalização econômica, ele o define “como incredulidade com relação às metanarrativas”. Pós-modernidade tem muitos significados e é um conceito multifacetado, tendo em si mudanças sociais e culturais profundas. Outros autores, geralmente franceses, foram associados a essa tendência, durante a década de 80, como Jean Baudrillard, Jacques Derrida e Michel Foucault. Não esqueçamos que alguns deles rejeitaram, negaram ou se distanciaram do termo. Ver: LYON, David. Pós-modernidade. 2ª ed. São Paulo. Paulus, 2005. p.7 e 24.

216

CAMPOS, Veroni Silva. 65 anos. Sapucaia do Sul-RG. Entrevista concedida a José do Nascimento. Nova Trento, 19/03/2005. p. 3.

ela tem assim algum... milagre, parece ser milagroso mesmo, ela tem assim uma energia, a gente sente uma energia boa”217.

Panorama de Vígolo, descrito pelos entrevistados como um local de tranqüilidade e paz. Fonte. Arquivo particular de José do Nascimento

Tanto a Senhora Veroni quanto a senhora Gregória falam de vibração e paz, vocábulos comuns para as duas entrevistadas que, como pessoas que praticam o catolicismo, navegam em outras águas. Dessa maneira, elas têm uma nova espécie de concepção religiosa na qual emana, transforma e acontece a separação entre o visível e o indivisível. Aqui, somos levados a um passeio dentro da territorialidade do sagrado e do profano, com a apreciação do Santuário, a sua arquitetura, os entalhes na madeira do altar, o trabalhado de um cálice e dos paramentos, que ficam dentro do espaço da emanação de Deus. “O que sustenta a religião não é a religiosidade, autenticidade existencial, não é a coragem de arriscar a liberdade, não é a individualidade ou a existência profética, mas o coletivo em forma de clube e de folclore tradicional”218.

217 SILVA, Gregória da. 48 anos. Palhoça. Entrevista concedida a José do Nascimento. Florianópolis,

19/03/2005. p. 1.

E podemos ver, na fala da nossa entrevistada Luciene do Nascimento, outros elementos concretos, embora esta não seja praticante ou participante de qualquer religião:

Sou católica ... não praticante, nasci católica e fiz a primeira comunhão e a crisma, mas não participo da Igreja Católica, não pratico o catolicismo, mas tenho as imagens dos santos como São Sebastião e Nossa Senhora Aparecida em minha casa. Não que eu seja devota deles, mas são os meus preferidos, às vezes eu penso neles, assim num momento de apuro.

[...], procuro conhecer um pouquinho da Assembléia de Deus. Já fui também no espiritismo kardecista. Mas já fui também na Deus é Amor porque lá, tem o Dom da cura, da revelação e às vezes eu vou em terreiro de Umbanda por curiosidade.

[...] Ah, quem não gosta de saber um pouquinho do futuro? Todo mundo gosta, e fui em busca disso, e por ajuda também, não fui para prejudicar ninguém, e também não pra sair prejudicada, eu vou com certo medo, não sei o que vou encontrar. Mas gosto, assim, de saber sobre a saúde, sobre o emprego, sobre a vida do marido, sobre a intimidade do casal. Às vezes eles [guias] falam, não sei se é verdade, mas às vezes fecha alguma coisa. Mas também não é uma coisa que eu vá freqüentemente, porque tudo tem o seu limite 219.

Na fala de Luciene, vemos nitidamente esse pipocar de religião em busca do imediato, do desenraizamento consubstancial do catolicismo, na medida em que ela procura lugares sacralizados que possam responder a qualquer dos seus anseios, fornecer- lhe soluções fáceis, cômodas e rápidas para as situações difíceis nas quais ela se encontra ou pensa que esteja envolvida, para, enfim, dar sentido ao seu dia-a-dia. Na sua ida a esses lugares, ela rompe com valores medievais, como a teocentricidade e a dependência aos “presbíteros” que, como diz Grespi, são “funcionários de Deus os quais regeram a vida comunitária cristã por séculos e séculos, e fizeram com que a religião, outrora soberana em toda a existência, se limitasse ao domínio privado e fosse reduzida a um pequeno conjunto de práticas”220. Nascimento continua a nos relatar:

Da Madre Paulina só ouvi falar e por isso mesmo que eu resolvi ir até lá por curiosidade e passeio. E por isso eu busco alguma coisa lá mas também não me pergunte, assim, coisas a fundo, porque eu não sei. O que mais me chamou atenção foi o museu, que tem as fotos de onde ela viajou, tem foto dela, tem foto dela no caixão, essa foi a foto que mais me impressionou. E também... a certidão de óbito, papéis escritos, o que aconteceu com a saúde dela, onde ela viajou, os lugares precários onde ela viajou pra cuidar de pessoas doentes. Ela tinha amor ao que fazia, e me impressionou a maneira

219 NASCIMENTO, Luciene do. 36 anos. Florianópolis. Entrevista concedida a José do Nascimento.

Florianópolis, 19/03/2005. p. 1.

como ela morreu. Adorei também um morro que eu subi, que eu vi uma estátua de bronze, que eu vi a cidade lá de cima, porque no dia que eu fui tinha muita gente, mas só que o pessoal se aglomerava muito na igreja, em restaurante, no museu, em outras coisas lá. E eu fiquei quase que sozinha com a minha família, com o meu marido e com a minha filha, então a gente ficou lá pensando como é bonito, pensando como é comércio lá embaixo [Vígolo], os comerciantes, a rua lá que é só coisas de vender as lembrancinhas de Madre Paulina. Eu achei muito comércio, e lá em cima não tinha isso, lá em cima foi uma coisa mais espiritual. A gente desceu até a metade do morro descalços, sentindo, assim. A gente armou um guarda- chuva lá em cima, porque tem um sol muito quente, foi o melhor lugar221.

No relato acima, a senhora Luciene do Nascimento não se acha nem turista e nem peregrina mas, sim, a passeio222 no santuário de Santa Paulina, como curiosa, tanto quanto no Terreiro, na Assembléia de Deus e na Deus é Amor. O que se observa é uma busca constante por uma fé voltada a fato consciente, ao mesmo tempo em que ligada ao “mundo sensível”. Ela busca o rompimento com o coletivo que simultaneamente zela e acalenta os tesouros do passado, e está latente na busca do seu silêncio presente.

Assim, “o silêncio é que nos permite ouvir outra voz, uma voz que fala outra língua, uma voz que vem de outro lugar [...] Essa língua desconhecida de uma voz desconhecida, essa voz ignota, se ignota qual atrás do silêncio como silêncio se esconde qual atrás dos ruídos superficiais do cotidiano”223. Esse silêncio, mais do que palavras,

serpenteia e se insinua na trama de buscas do seu imediato mundo.

A senhora Luciene encontrou na Colina de Madre Paulina o seu refúgio temporário por não ter muitas pessoas ao seu redor e ao redor dos seus. Lá, eles refletiram sobre o que está acontecendo na sua vida e no que fora ou está acontecendo como processo evolutivo no palco cênico do Santuário, fazendo assim as suas elucubrações. Como afirma Benjamin, um acontecimento vivido é finito, ou pelo menos encerrado na esfera do vivido, ao passo que o acontecimento lembrado é sem limites, porque apenas uma chave para tudo o que veio antes e depois224. E, ainda, Marilena Chauí: “Tomar a experiência como iniciação ao mistério do mundo significa reconhecer que o sair de si é o entrar no mundo”225.

221 NASCIMENTO, Luciene do. Entrevista citada, p. 2.

222 Para o/as entrevistado/as, passear equivale fazer turismo ou até mesmo peregrinar, e se observa que o

termo “turismo religioso” não saiu ainda do âmbito acadêmico e profissionalizante da área.

223 KAVADLOFF, S. O silêncio primordial. Rio de Janeiro: José Olympio editora, 2003. p. 68. 224

BENJAMIN, Walter. Op. cit. p. 37.

Embora a presença do sagrado se encontre em todos os lugares, segundo Rosendahl, “há locais privilegiados em que Deus se manifestou”226. Consideramos aqui