O título deste tópico retrata com próxima exatidão as relações das depoentes com os grupos sociais que cativaram melhor suas aptidões e inclinações idealistas a ponto de, correspondentemente à dedicação e integração de cada uma nesses núcleos sociais e políticos, resultarem nas performances particulares que contribuíram direta ou indiretamente com a sua projeção na condução da bandeira pela luta da igualdade de gênero.
É possível classificar-se as trajetórias das depoentes em relação às formas de liderança e ativismo em dois tipos de atuação: 1) atuação política engajada, e 2) atuação política caritativa. A primeira tem a ver com àquelas iniciativas constantes de, em associação com partidos políticos, ONGs e outras agremiações correlatas, levar adiante as idéias de igualdade de gênero como um complemento de uma agenda partidária e institucional mais ampla com uma diretriz interna e privada de uma organização sem fins lucrativos. Nos depoimentos acima, a princípio, a difusão das idéias democratizantes relativas ao gênero participaram de um plano maior de resgate da independência do país, através de estratégias bélicas e conscientização da comunidade timorense subjugada na ocasião do referendo que determinaria a opção geral na emancipação política ou anexação na parte leste da ilha de Timor ao território indonésio. Em incontáveis oportunidades, a opção ideológica e prática converteram-se, obviamente, tornando a luta armada e as ações de espionagem e sabotagem contra os inimigos mais prioritárias que propriamente difundir-se o ideal do equilíbrio social de gênero. No exemplo da Sagrada Família mostra-se como experiência e disciplina adquiridas nos campos de batalha, junto às tropas de resistência nacional, se converteram em subsídio organizacional para, no presente, se conduzir a instituição.
. Eis o testemunho da tia Maria José da Costa a esse respeito:
Ganhei muita experiência nessa organização de massa, tais como a luta duradoira para a independência de Timor-Leste, a unidade, a disciplina, etc., e essas experiências dissemino para as outras pessoas, e as convenço a entrar na organização levando-as a Rede Feto para a conhecerem. Procuro ser um espelho e imagem às minhas companheiras e também a família, da 1ª idade até a 3ª idade. Ajudo as minhas conterrâneas jovens a competirem e entrarem no PNTL e FFDTL.
A atuação política caritativa foi uma opção de ação social puramente assumida por duas organizações-membros da Rede Feto, quais sejam a Santa Bahkita e ISMAIK. As lideranças que conduziram esses movimentos sociais basearam vitoriosamente seus planos de atuação sobre princípios morais assistencialistas e beneficentes, não exatamente influenciadas por agremiações políticas, mas por iniciativas baseadas em convicções religiosas e pessoais de influencia da igreja católica. As lideranças nessa modalidade de ação enfrentaram grandes perigos na condução de seus programas sociais, pois, em meio aos conflitos armados, prestavam auxilio aos órfãos, desamparados, feridos e vulneráveis. Na consolidação dessas organizações resultante, de gênese tão tempestuosa, tornaram-se essas, no país, reconhecidas de grande utilidade pública pela maioria da sociedade civil timorense e criticada por minorias políticas e tradicionais invejosas e preconceituosas, pois mulheres estavam à frente, na prestação de serviços assistenciais de forma irrestrita a toda a população.
Trajetórias são estradas particulares construídas sob mesmo solo, mesma terra. Essas idiossincrasias guardam elementos próprios que fizeram das depoentes bem sucedidas em seus pontos de vistas pelo simples fato de os desenvolverem e manterem seus ideais como expressão concreta percebida e disposta à população carente de uma sociedade civil adormecida por estar em formação e autoconsciência. As depoentes, de acordo com o seu nível e expressividade ativista, são emblemas vivos, mormente no Timor-Leste, pelo alcance de seus trabalhos, sugerindo um referencial a ser lembrado àqueles de iniciativas semelhantes voltadas à sociedade e aos seus problemas. Esse é o caso daquelas que encabeçaram, desde outrora, o movimento de igualdade de gênero, dentre as quais sublinhamos alguns exemplos:
“Comecei a trabalhar desde os anos de 1999 na Aliança Mulheres Socialistas de Timor (AMST), fui fundadora desta organização de massa. A bem dizer, é uma das organizações partidárias do Partido Socialista de Timor (PST). Entrei como membro do partido político e, através de um encontro, decidiu-se que nós, as mulheres, deveríamos estabelecer um departamento próprio para lidar com assuntos relacionados às mulheres. Em seguida, seis companheiras, incluindo eu, presentes nesse encontro, começaram a reunir-se, traçando as estratégias, os programas, a estrutura e definir um nome que se denominou Aliança Mulheres Socialista de Timor. Partindo de suas necessidades, da luta pela independência do país, as pessoas poderiam se valorizar. Decidi entrar como um dos membros deste partido político e fundadora da AMST, e enfrentar o desafio de obter fundos para organizar e mobilizar a massa, organizar as mulheres para se envolverem e participarem como simpatizantes da AMST. Esta tem como missão lutar pela igualdade de gênero, a discriminações das mulheres em particular e pela valorização da luta, a contribuição, e a capacidade da mulher como um todo na sociedade. A Aliança Mulheres Socialistas de Timor afiliou-se a Rede Feto Timor-Leste nos anos de 2000. [...] Francisca Alves Taolin,
38 anos de idade, mãe solteira, duas filhas; nível médio, Secretária Geral da AMST, funcionária do Programa de Advocacia na Secretaria da Rede Feto.
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“Iniciei a trabalhar na APSC-TL em 2000, estabelecida por seis jovens timorenses que tornou-se membro da Rede Feto em 2002. Neste momento, a organização Mulher de Timor (OMT) fui eleita membro da diretoria para Rede Feto. Passei a trabalhar nessa ONG, em 1999. Naquela época colegas ativistas australianas moravam comigo em casa, e me disseram que gostariam de estabelecer uma ONG denominada Ásia Pacific Support
Collective (APSC), em Timor-Leste, objetivando fortalecer a economia das mulheres e
lutar pela igualdade de gênero. Fui convencida, e comecei a trabalhar com elas. Depois de seis meses eu e as minhas conterrâneas participamos de treinamentos de gestão organizados pelo fórum de ONGs. Recebemos certificados. Desde então, começamos a refletir como estabelecer uma ONG nacional. Conversamos com as amigas internacionais sobre o nosso sonho de manter esse nome, só que acrescentando mais a denominação “Timor-Leste”, para ficar como uma ONG genuinamente nacional. As amigas nos indagaram por que é que queríamos estabelecer uma ONG se estavam a trabalhar com elas. Então lhes respondi dizendo: „já aprendemos muita coisa com vocês e também vocês nos apoiaram muito, desde a luta pela nossa independência, e querem continuar a luta, sempre por nós, os timorenses, especialmente as mulheres. Em nome do grupo, agradecemos muito por tudo que têm ajudado e apoiado, por aquilo que aprendemos e essas experiências e habilidades pretendemos transferir e servir diretamente às nossas mulheres, lutar contra a pobreza e contra a violência‟. As amigas aceitaram a nossa proposta e, escrevemos o nosso estatuto, escolhemos os primeiros membros da diretoria e registramos a ONG denominada APSC- TL no fórum das ONGs. Quando nossas amigas internacionais voltaram para Austrália, nós ficamos a sós e sem fundos para funcionar a ONG. As minhas conterrâneas foram-se depois embora, deixaram a ONG, quatro das quais resolveram fundar outra ONG chamada FKSH e as demais foram à procura de outros trabalhos. Fiquei sozinha na APSC-TL, mas continuei a trabalhar voluntariamente, posteriormente com uma amiga e nós duas passamos a trabalhar juntas desde 2004 até a presente data. Obtivemos apoios das comunidades australianas, particularmente das amigas de Blue Mountains East Timor Sisters (BMETS), que financiam os nossos programas e atividades até agora. [...] Isabel Maria Marçal
Sequeira, aliás, Beba Sequeira, 42 anos, casada, três filhos, formada em Catequética e licenciada em Gestão e Economia, diretora da APSC-TL.
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“Comecei a trabalhar em ONGs nos anos de 2001 e estabeleci a FMF (Fundação Moris
Foun) no dia 1 de março de 2003. Esta, por sua vez, se afiliou a Rede Feto no mesmo ano.
Ganhei renda através das vendas de animais e de pequenos negócios, porque a FMF não paga salários, mas os recebemos através dos projetos que ganhamos e incentivos da Fundação Alola, porque também desempenhava a função de ligação da Alola com os grupos beneficiários e as comunidades de base no distrito onde residia. No ano de 2001 trabalhei junto com a organização internacional denominada HNI que tem programas na área de saúde maternal. Além de trabalhar nesta ONG, também me envolvi nas atividades da igreja, recebendo treinamentos sobre a violência doméstica, violência sexual e gênero até os anos de 2003. Através dessa formação algumas companheiras, incluindo eu, conseguiram realizar este sonho de estabelecer uma ONG denominada Centro Fundação
Fini Naroman (Centro Fundação de Claridade), durante um ano, mesmo que não estivesse
obstáculos era a diretora da instituição, que não desempenhava bem a sua função e servia- se desta posição para usar todo poder e recursos que tinha de forma arbitrária. Então muitos membros saíram desta ONG, permanecendo apenas três mulheres, incluindo eu, e três homens. Protestaram quanto à forma de gestão da diretora até que ela finalmente abandonou o cargo levando consigo todos os recursos financeiros. Então nós reunimos e mudamos logo o nome da ONG para Fundação Moris Foun. Por que é que estabelecemos essa ONG? Porque Timor-Leste teve independência e existem muitos problemas que as comunidades enfrentam, o que me motivou a trabalhar na ONG, já que tinha algumas experiências, compromisso e conhecimento, mesmo que limitados, para lutar contra os problemas enfrentados pela comunidade, principalmente os relacionados com a violação dos direitos humanos, violência de gênero, formas de discriminações contra mulheres e violência sexual. (Graciana da Silva,38 anos, solteira, secundário completo, diretora da FMF).
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Sou ativista da Organização Sagrada Família e Liason (ligação) desta com a Rede Feto. Envolvi-me nesse movimento desde 25 de julho de 1975, até a presente data, e também sou fundadora. A Sagrada Família afiliou-se a Rede Feto nos anos de 2000. Ela é uma organização de massa. O meu esposo trabalha na segurança civil; desempenha a função de guarda. No nosso movimento político, tudo é voluntário; você é que deve contribuir para a organização. Quanto à renda familiar de minha parte, não colaboro porque não possuo, mas solidariamente essa organização contribui, por exemplo, se necessitar, de alguma coisa em urgência caso alguém da família adoeça ou até mesmo de morte com materiais ou em dinheiro para me ajudar. Compus os quadros da resistência armada, arregimentada nas florestas e nas montanhas, juntamente com as Forças de Libertação Nacional de Timor- Leste (FALINTIL), lutando contra a ocupação militar dos indonésios no país, para que o povo fosse libertado das mãos dos invasores, e, obviamente, pela autodeterminação de Timor-Leste como uma nação independente e soberana no Sudeste Asiático. Fui indicada pelo Coordenador Geral em 2000 como Liason da nossa organização com a Rede Feto nos assuntos pertinentes a mulher aqui na Sagrada Família até o presente momento. (Maria
José da Costa nasceu no dia 12 de dezembro de 1962, casada, dois filhos, 4ª classe freqüência da Escola Primária).
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Quando ainda estava a estudar em Jogyakarta, Java-Central, Indonésia, os indonésios falavam mal dos timorenses, alegando que eram sujos, analfabetos e atrasados. Com essas falas, puxei-me a pensar como uma filha timorense que lutava pela independência, por um futuro melhor e duradoiro. Perante esses maus tratos, pensei e refleti muito sobre esse assunto, e, com tantas preocupações, levei tudo isso em oração, dialogando e discutindo com Deus. Em 1984-1985, senti o chamamento do Senhor Altíssimo, com um pensar de que um dia hei de realizar este meu pensamento e dedicar toda a minha vida, tal qual uma boa filha de Timor, servir esse povo pobre principalmente os isolados das montanhas, elevar as dignidades dos pequenos e dos pobres. Isso é um “trabalhão!” Quando regressei a Timor-Leste em 1989 visualizando todos os meus sonhos, senti que o país é pequeno demais, mas, sozinha, não podia fazer nada. Busquei estratégias e decidi aplicá-las junto com as adolescentes e jovens no meu pastoral do dia a dia, para que elas/es se sentissem atraídos com essa missão. Deveriam ser preparadas/os, e me seguirem. Finalmente, poderíamos fazer um único serviço para assegurar aos filhos pobres, desamparados, analfabetos e estabelecer juntos a esta Instituição denominada Instituto Maun Alin Iha
Kristu com as siglas “ISMAIK”, só aprovado pela Diocese de Dili em 1998. É uma
analfabetos e dos sofredores (Hamatan Maluk Kiak, beik no Terus nain). [...] Tudo isso é uma longa caminhada que precisava de várias estratégias e planificação adequada e integrada, para que pudesse resolver essas questões. Atualmente a instituição tem 13 casas: as grandes missões com cinco casas; a de Dare é casa-mãe, como centro do Instituto; casas abertas, para os necessitados nos distritos de Viqueque, Aileu, Dili, e nos sub-distritos de Betano e Tibar. Além disso, temos também casas abertas para educar os filhos de pais analfabetos, crianças e jovens da escola primária até a secundária. No ISMAIK se dá formação aos jovens atraídos a esse mesmo idealismo ajudando-se mutuamente para a sua libertação. Temos também os nossos colaboradores, que são aqueles que já participaram na formação de espiritualidade, mesmo que não escolhessem um caminho consagrado, e pudessem ajudar-se mutuamente na pastoral para o desenvolvimento integrado na vida comunitária, na vida familiar e institucional. As experiências e lições que vejo são riquezas, e agradeço a Deus se hoje em dia o Instituto evoluiu com este modo no qual despontou como uma grande aurora que serviu de exemplo e claridade para todo povo. Agradeço e foi bem que antes sentia como um sofrimento. Quando decidi-me escolher o caminho consagrado, e consagraria a minha pessoa a Deus, significa que entrei numa nova fase de vida, numa nova família, que é família religiosa. A igreja que depositei toda confiança e esperança significa aquela institucional religiosa. Essa igreja pode-me assegurar, como uma das suas irmãs que pensa em completar a missão com muitos sonhos e carisma. Decidi sair do funcionalismo público. Penso que a igreja institucional irá me ajudar. Felizmente só ganhei apoio moral, e mais nada. Os meus pais apoiaram-me em tudo; outros incentivos vieram das famílias dos grupos de jovens, das/os amigas/os leigas/os, que compreenderam as dificuldades que atravesso como fundadora dessa instituição. Elas contribuíram pouco, mas com esse pouco fez-se muito! Junto com todos que colaboraram nesse serviço, mesmo não havendo dinheiro, contudo, havia uma grande força que é à força de um povo. Existe uma grande união de irmãos que queriam contribuir com idéias, com energias, que pudessem fazer segundo as possibilidades como um processo para alcançar essa visão, de que este ano completará os 20 anos de existência da Instituição. Agora estou vendo que tudo está caminhando num processo lento; mas quando visualizava as minhas experiências nas quais soube desenrascar, procurei a vida intensamente, mesmo como mulher, e trabalhar tanto nos afazeres da mulher como nos trabalhos de homem. Tudo se misturava, não havia diferença. [...] (Maria de Lourdes Martins da Cruz, conhecida por ManaLu,
freira, 47 anos, licenciada em Filosofia e Catequética).
A discussão sobre partidos políticos e grupos organizados de índole congênere enriquece as lucubrações já feitas sobre àquelas relativas à luta armada timorense na busca de sua soberania nacional. A excêntrica proposta de igualdade de gênero, principalmente nesses momentos cruciais, encontrou agasalho no seio de partidos políticos que constituíram departamentos especializados, como foi o caso da AMST junto a PST e OPMT a FRETILIN. Ao obter a acolhida necessária, os interesses das mulheres receberam apoio suplementar da própria estrutura partidária maior tornando-se mais organizados e objetivos em seus propósitos. Os interesses do partido coincidiam com os interesses dos grupos de mulheres, fazendo destes um detalhe daqueles. A organização Sagrada Família, com os seus serviços voluntários espalhados pelo país, é um partido político não declarado envolvido em movimentos
humanitários, ligado diretamente a UNDERTIM, sendo por esse influenciado em linhas políticas especificas e localizadas.
A organização e realização do I Congresso Nacional das Mulheres no Timor-Leste, em 2000, foi outro marco importantíssimo de incentivo ao surgimento de novas organizações de mulheres voltadas à discussão de gênero na sociedade. Desde a luta armada até o presente, o país se arrasta para dissipar as conseqüências de sua ruína econômica e social escorando-se na dependência estrangeira para se reabilitar, tornando um terreno fértil para o surgimento de organizações sociais e humanitárias.
O idealismo por si só não se apóia sem os fundos que lhe proporcionem continuidade nos trabalhos que assim definiu. De forma geral, as ONGs nacionais são umbilicalmente dependentes de organizações estrangeiras, estando a elas influenciadas quanto às linhas mestras de atividade. Essa dependência, para o caso da APSC-TL, originou-se desde que ela era uma instituição australiana em solo timorense, e, ao assumir por solicitação de suas colaboradoras nativas a identidade nacional, permanece subordinado aos donativos daquela até o presente momento. Graciana da Silva, responsável pela FMF, ilustrou muito bem essa condição subalterna da organização em relação aos fundos estrangeiros, explicando que...
[...] Os desafios que enfrentamos residiam na ausência de doadores permanentes, falta de recursos para transporte, porque as áreas que executamos os projetos são áreas muito remotas, além das comunidades não compreenderem o que é a questão de gênero, sendo muito difícil às comunidades aplicarem as informações nas suas vidas cotidianas, dado que predominava o sistema patriarcal e a cultura é muito enraizada e forte.
Por outro lado, no caso da FMF, os esforços da ONG, digamos, são terceirizados e subordinados a outra -, Alola, que delega atribuições suas a àquela.
A trajetória da representante da ISMAIK, pelas características de sua atuação social, revela a realização do idealismo em quase sua plenitude, tornando os objetivos caritativos o centro de suas realizações, notabilizando-se pela formação ou recuperação da cidadania de seus freqüentadores, embora o assunto de gênero fosse uma questão social e moral diluída em seus programas sociais.
ManaLu, fundadora da ISMAIK sempre tem em seu raio de vista a noção social de que...
Observamos que o povo pobre não era fruto de uma terra pobre / infértil, e não significava que a natureza também fosse ruim. O povo é pobre porque não tem conhecimento, não tem experiência; o povo é pobre porque não sabe usar bem todas as suas próprias capacidades. [...]
Os percalços de trajetórias tão díspares possuem um ponto comum e crônico: a dependência de fundos de financiamentos. Essa dependência declina para que as linhas internamente definidas na instituição sofram influencia dos doadores, principalmente dos estrangeiros, que fazem das diretrizes já estabelecidas internamente, outras, tanto institucional como do público alvo a ela direcionada, fator de interesses e recursos esses que, se não provindos do Estado timorense, muitas vezes coincidiriam com os objetivos nacionais das ONGs e outras vezes nem tanto.
A concretização do idealismo de servir a comunidade no seio de uma ONG é paralela às preocupações da própria sobrevivência de seu idealizador no âmbito pessoal e grupal. É inegável que, diante de um donativo recebido para fins comunitários, o primeiro justificadamente a ser favorecido com a doação seria o responsável pela instituição e seus auxiliares, se isso for previsto pelo doador.
Um caso extremo é o da própria FMF, que no passado recente, com o nome de
Fundação Fini Naroman, em função da má gestão e desfalques financeiros de sua dirigente,
para adquirir credibilidade diante dos doadores, teve que modificar sua denominação para resgatar a confiança. E mais: por não receber “salários“, para sobreviver, tinha que paralelamente vender animais e fazer pequenos negócios comerciais. A FMF possui uma outra característica a ser destacada: a de que, para lograr doações e conduzir o seu trabalho de conscientização contra violência doméstica e discussões de gênero nas comunidades que alcançava, era “terceirizada” por outra ONG da Rede Feto – a Fundação Alola. A corrupção interna na Fundação Fini Naroman, hoje FMF, reflete as possibilidades que a organização, ao obter donativos, poderia, ao arbítrio e vontade de seu dirigente, conduzir ao extremo aquela