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Na tentativa de compreender o MTG como movimento social, pudemos aferir alguns aspectos que o introduzem no contexto global de mundialização de mercados e mediatização da existência. As considerações acerca do tradicionalismo gaúcho apresentadas aqui, sejam elas desdobramentos ou conseqüências das posturas adotadas pelo movimento (em consonância com seus interesses e com disputas de poder político regional) ou considerações analíticas formuladas a partir de suas características, parecem-nos relevantes para tornar clara a compreensão do MTG nesta pesquisa, bem como destacar a ênfase no caráter mediatizado e mediático da quase totalidade das mensagens do tradicionalismo.

O MTG pode ser considerado um movimento social de resistência à desvalorização de princípios que lhe são caros e às mudanças sociais que abalam os valores de família e de vizinhança. Ele resiste a padrões culturais globais na medida em que mantém seus padrões regionalistas. Essa característica se expressa na defesa do poder local de decisão sobre quais comportamentos devem ser aceitos no âmbito familiar e nos centros de convivência, o que significa sempre a defesa do poder de estabelecer a moral e os valores que devem prevalecer. Isso demonstra o caráter conservador do MTG.

O núcleo de sua argumentação é a família tradicional – baseada no casamento heterosexual e nos moldes patriarcalistas. Embora pregue a tolerância e a participação de todos os indivíduos interessados em promover a cultura gaúcha, o papel relegado à família gaúcha como base dos valores e tradições desloca as famílias não- tradicionais para uma posição periférica, de modo que se subentenda que estas não são o exemplo ideal. A ênfase na tolerância aparece como uma característica além do movimento, introduzindo-o nos debates globais como a luta contra o preconceito e o respeito às diferenças. A atenção a temas de interesse geral, muitos dos quais presentes na agenda mediática, pode ser vista como outra característica do MTG – o que se confirma com o lema anual de 2007 do MTG/RS: “Tradição é preservar, MTG e você em defesa do meio ambiente” (MTG-RS, 2007).

O MTG não é reacionário. Embora resista a transformações sociais em grande parte potencializadas pelo capitalismo, o movimento não se posiciona contra esse regime de produção de riquezas. A mobilização da temática regional como incentivo ao desenvolvimento comercial, a formação de empresas especializadas nos produtos tradicionalistas e a utilização do regionalismo como estratégia publicitária nos oferecem indícios suficientemente fortes de que o MTG corrobora com as lógicas de mercado e o sistema que as regula.

O MTG é um movimento baseado numa identidade regional – o gaúcho. A beleza da Campanha, o apego à terra, o destaque dado às guerras, ao churrasco ou ao cavalo são temáticas que giram em torno da imagem do gaúcho e de seus traços distintivos. A identidade regional serve como epicentro, que amarra os demais objetos simbólicos do tradicionalismo a partir de sua personalidade (apresentada como forte, guerreira, desbravadora e valorosa). Essa identidade representa a resistência local aos valores veiculados mediaticamente.

O MTG divulga um estereótipo do gaúcho conforme pretende fazê-lo reconhecido socialmente, e este estereótipo esteve (e está) presente nos media regionais. Os

mass media (especialmente a televisão) nacionais recentemente têm abordado a temática regional nos moldes defendidos pelo tradicionalismo, mas geralmente a representação do gaúcho nesses meios não encontra ressonância naquela que compõe o imaginário sulista – os gaúchos, portanto, não se identificam com ela.

O MTG é completamente glocalizado. Ciente da importância da visibilidade, o movimento está presente no ambiente mediático e utiliza-se das inserções nos jornais, dos programas temáticos e da web como fonte de divulgação e legitimação social. Sua

participação nos media foi fundamental para seu estabelecimento nas décadas de 50 e 60, e são constantes os programas de rádio e televisão com temática regionalista. Sua manifestação na web é ainda mais diversificada, contando com veículos oficiais, informativos e incontáveis páginas pessoais, além de disponibilizações em áudio e vídeo. Com efeito, se o MTG comparece nos media – com destaque para o mundo virtual – nem por isso se resume a um movimento mediático. Sua mediatização potencializa o alcance de sua mensagem, facilita o contato entre seus membros, divulga a agenda de eventos das diversas entidades, mas não diminui a relevância das participações presenciais: a freqüência nos CTGs, os festivais, o convívio com outros tradicionalistas são fatores essenciais ao movimento. Isso também não quer dizer que a interação mediática não tenha efeitos: ao fazer parte não só da dinâmica de organização e sociabilidade entre os participantes do movimento, mas também do cotidiano dessas mesmas pessoas quando cumprem outros papéis sociais que não o de tradicionalistas (especialmente no mercado de trabalho e no âmbito escolar), a interação mediática provoca mudanças na forma como o próprio tradicionalismo é vivido. Se há 50 anos os gaúchos faziam churrasco em seus CTGs nos fins de semana, o mesmo fazem hoje, com a diferença de poderem distribuir tarefas, marcar horário em conversas virtuais, e fotografar o encontro com suas máquinas digitais para depois “postar no blog”.

Abro a porteira e me aparto do campo verde e estancieiro Só pra estender meu baixeiro no capão dos corredores Sou desses que os cantadores batizaram nas guitarras No peito de um malacara vivo empurrando horizontes Minha bíblia é um "martin fierro", sempre esbarro numa china, E a imagem que me domina é um parador de rodeio Já tive um rancho, senhores, e tardes de primaveras Onde eu lavava a erva sentindo o cheiro das flores (Luiz Marenco - Andarilho)

Milhares de gaúchos se espalham pelo Brasil. Reconhecem-se ou são reconhecidos pelo linguajar e pelos costumes. Formam grupo heterogêneo de pessoas representadas por identidade cultural comum, aceita em maior ou menor grau por cada indivíduo, mas capaz de formar uma imagem mental compartilhada no imaginário nacional:

Gaúchos estão espalhados por todo país, dos ministérios palaciais às fazendas matogrossenses, dos gramados futebolísticos às redações de jornais. Espalhados não, espraiados. E se perguntarmos a você o que é ser gaúcho, provavelmente você responderá sem dificuldades que é andar a cavalo pelos pampas verdejantes, comer churrasco com a família, tomar chimarrão numa roda de amigos, dançar ao som da gaita e do violão com bota e bombacha, ainda que sete entre dez gaúchos não conheçam o pampa senão de carro, nunca tenham galopado, não dancem senão de tênis e jeans, além daqueles tantos que não gostam de chimarrão e os outros não tantos vegetarianos. (SPALDING, 2006).

Entre o estereótipo mediático e o personagem mítico, buscamos compreender o gaúcho e a importância de sua representação para que o Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG) mantenha seu núcleo institucional e ganhe adeptos; e também qual é seu potencial atrativo numa época em que o conceito de identidade está sendo questionado. Retomaremos a origem do termo (gaúcho), sua romantização e mitificação, pois creditamos a essa identidade cultural papel relevante no fortalecimento do tradicionalismo nas últimas décadas.

No contexto de mundialização de mercados, redes internacionais de telecomunicações e embaralhamento de fronteiras, o MTG se revigora e se expande demonstrando como o regionalismo pode ser uma vertente congregadora numa época de

incertezas; como a interconexão universal não suplanta, necessariamente, a força das comunidades locais; e como as transformações na relação entre indivíduo, tempo e espaço não diminuem a necessidade da fixação de territórios – ambientes cujas regras são dominadas pelo indivíduo – para possibilitar a interação social, seja ela real ou virtual.

Apresentando-se como fenômeno instigante à reflexão científica, a retomada de discursos regionais e tradicionais merece atenção do ponto de vista político, pois pode se revelar tanto como ponto de apoio num mundo de relações cada vez mais inconstantes, uma retomada de ideais de comunidade com força política para a defesa de direitos de cidadania, quanto como base ideológica para difusão de posturas fundamentalistas, xenófobas ou separatistas. Antes, porém, de refletir sobre seus aspectos políticos e/ou ideológicos, interessa-nos perceber de que forma conceitos aparentemente desconexos, como tradição e mundialização, podem ser atados de maneira tão eficiente e sedutora para grande número de pessoas; e também identificar qual o papel do gaúcho como identidade cultural nesse processo.