Um sistema de comércio de emissões consiste na criação de um mercado compulsório com o objetivo de equacionar um problema externo: a incorporação dos custos sociais, econômicos e ambientais negativos causados pelas emissões de gases de efeito estufa (GEE), os principais causadores do aquecimento global.
A precificação das emissões de gases de efeito estufa é um instrumento que garante eficiência nas ações de mitigação dessas emissões e, portanto, é essencial na transição para uma economia de baixo carbono, principalmente quando as vantagens de mitigação do Brasil forem cada vez menos baseadas em opções do uso do solo (floresta e agropecuária) e mais dependentes das emissões de energia e da indústria.
Nossos maiores parceiros comerciais (União Europeia, China, Chile, Colômbia, México e Argentina) já empregam a precificação de carbono. No caso brasileiro, essa precificação tem evoluído para a adoção de um sistema de comércio de emissões. A recomendação do CEBDS para a implantação desse sistema no Brasil, com base nessas experiências internacionais, prevê a adoção de mecanismos de proteção à
competitividade para os setores expostos ao comércio internacional. Dessa forma, esse instrumento de mercado protege a competitividade maximizando as oportunidades das atividades de baixo carbono, agregando eficiência produtiva e ampliando as vantagens em acordos comerciais e de cooperação internacional.
Para a criação desse mercado, no entanto, é preciso estabelecer todo um arranjo legal e institucional próprio que garanta previsibilidade nos investimentos e a segurança nas transações dos direitos de emissão por meio de contratos com regras simples, claras e estáveis.
A governança do sistema deve garantir a credibilidade das instituições de comércio e registro com autonomia institucional e transparência, além de mecanismos de participação dos regulados. O sistema deve evoluir gradativamente, ampliando o seu escopo de cobertura de setores e gases regulados.
Como analisado detalhadamente nos capítulos anteriores, no sistema nacional de comércio de emissões, a quantidade de direitos oferecida pelo regulador ao mercado é restringida a uma estimativa da emissão daquele ano menos um fator de redução. O regulador decide, primeiramente, uma proporção dessa quantidade restringida a ser alocada gratuitamente, e o restante é vendido em leilões. A instalação regulada pode comprar direitos de outra. Anualmente a instalação regulada tem que conciliar suas emissões com o equivalente em direitos de emissão. É possível também que a regulamentação permita que uma parte das emissões de uma fonte regulada seja compensada com créditos de carbono de fontes não reguladas, ou seja, com os chamados offsets (mecanismos de compensação).
Os sistemas de comércio de emissões são implantados em fases com trajetória de metas, em um formato que visa dar maior consistência intertemporal (em períodos de tempos distintos) às decisões de investimentos e comércio.
As recomendações aqui apresentadas para a elaboração de um Sistema Brasileiro de
Comércio de Emissões (SBCE) foram pensadas de forma a respeitar a contribuição do setor nas emissões totais, as condições de competitividade e a criação de mecanismos de participação e transparência.
A implantação de um sistema de comércio de emissões para o setor industrial brasileiro vai possibilitar a consolidação dos incentivos para que a trajetória de baixo carbono do setor seja reconhecida, promovendo e protegendo a competitividade internacional do setor e eliminando potenciais barreiras comerciais de cunho climático, bem como ampliando as oportunidades de participação em acordos de comércio multilaterais e com organismos multilaterais de cooperação econômica.
Os capítulos anteriores procuraram analisar e detalhar as opções de regulamentação de cada diretriz acima para apresentar uma proposta para o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões. O quadro abaixo sintetiza as principais recomendações para o SBCE:
SUMÁRIO
Jurisdição nacional
Marco regulatório em discussão no Congresso Nacional
Propostas desenvolvidas pelo Projeto PMR Brasil do Ministério da Eco-nomia e Banco Mundial, discutidas no Fórum Brasileiro de Mudança do Clima e detalhadas nos Webinares Técnicos coordenados pelo Conselho Empresarial Brasileiro (CEBDS) para o Desenvolvimento Sustentável
DIRETRIZES
• Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE) compulsório • Implantado gradualmente com mecanismos de proteção à
com-petitividade e de estabilidade de preços
• Com uma primeira fase focada no aprendizado dos agentes, de-senvolvimento de instituições e aprimoramento de dados e infor-mações, inclusive com a implantação do sistema de relato nacional de emissões
GOVERNANÇA
Comitê Interministerial, secretariado pelo Ministério do Meio Ambien-te, para implantação, acompanhamento e revisão
Instância executiva para gestão com atribuições definidas na lei regu-ladora na forma de uma agência de estado
Instância externa de assessoramento para organizar as sugestões dos regulados, academia e sociedade civil na implantação, acompanha-mento e revisão
ESCOPO
Emissões industriais
Fase 1: emissões de CO2 do processo de combustão de atividades ma-nufatureiras de alta intensidade de carbono
Fases seguintes: ampliação para outros setores e gases
CICLO DE IMPLEMENTAÇÃO
Fase 1: três anos para aprendizado
Fase 2: até cumprimento da NDC brasileira em 2030
Fases seguintes: alinhadas temporalmente com as metas nacionais de neutralização
PONTO DE
REGULAÇÃO A jusante - fonte final de emissão LIMIAR DE
PARTICIPAÇÃO MANDATÓRIA
Fase 1: fontes emitindo acima de 50 ktCO2e
Fases seguintes: reavaliação desse limiar quando da consolidação do sistema de relato de emissões
SISTEMA DE REGISTRO
Contas separadas para cada instalação regulada ou entidade não regula-da participantes dos leilões e do mercado secundário para contabiliregula-dade dos direitos de emissão recebidos gratuitamente, comprados em leilões e transacionados no mercado secundário e das compras de offsets
ALOCAÇÃO DOS DIREITOS DE
EMISSÃO
Fase 1: gratuidade máxima de até 90% aos setores intensivos em emis-sões e expostos ao comércio internacional por grandparenting
Fases seguintes: calibrar nível de alocação gratuita com indicadores de intensidade de carbono, de custos adicionais de mitigação e de co-mércio internacional por benchmarking
USO DE OFFSETS
Limite de até 20% por instalação regulada
Créditos de atividades de remoção e redução de fontes florestais e agrícolas e do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo
Protocolos e padrões de certificação específicos e credenciados
Focalização por requisitos ambientais e sociais por espacialização ou característica do agente econômico gerador do offset
MECANISMOS DE ESTABILIDADE DE
PREÇOS
Intervalo (banda) de preço mínimo e máximo
Preço reserva de leilão com referência de preço mínimo
Reserva de contenção de custos com percentual do orçamento de car-bono anual para leilões, quando o preço ultrapassar o limite máximo da banda de preços
Leilões com preços máximos fixos crescentes acima do limite máximo da banda
Reserva de emissões com retirada de direitos de emissão até um per-centual, quando os preços caírem até o limite mínimo da banda de preços
BANKING Aceito com limites
BORROWING Não aceito nas fases iniciais
SISTEMA DE RELATO
Limiares de emissão menores do que aqueles de participação no SBCE para que outras fontes que ainda não participam dele possam estar se preparando para fases futuras do SBCE
Exigência de verificação por entidade externa e os critérios para elegi-bilidade e credenciamento desses verificadores
PENALIZAÇÕES
Fase 1: três unidades adicionais para cada uma não conciliada com um limite superior de valor monetário
Fases seguintes: três unidades adicionais para cada uma não concilia-da sem limite superior
CONEXÃO INTERNACIONAL
Conexão internacional deve ser evitada até que o SBCE atinja maturi-dade e estabilimaturi-dade de regra e preços ou, pelo menos, durante a fase inicial.
PLATAFORMAS DE COMERCIALIZAÇÃO
Leiloeiro privado e único com experiência comprovada
Credenciamento de mais de uma plataforma no mercado secundário e a participação do leiloeiro sujeita a procedimentos para evitar confli-tos de interesse
Credenciamento de participantes nos leilões e no mercado secundário Participação de entidades não reguladas que não representem insta-lações reguladas nos leilões e no mercado secundário deve ser evitada na fase inicial e autorizada nas fases seguintes com limites crescentes na medida em que o nível de gratuidade dos direitos de emissão é reduzido.
ALOCAÇÃO DAS RECEITAS DE
LEILÕES
Preferencialmente em investimentos de tecnologias de baixo carbono nos setores regulados