Em 2019 passei o feriado prolongado de 20 a 23 de junho, Corpus Christ, na comunidade Ecovila Bom Lugar. Mais uma estadia nesta comunidade que acompanho desde seu surgimento, quando ainda o único espaço coberto que se tinha além das barracas, era a casinha do caçador, que depois foi sendo readaptada se tornando o lugar de acolhimento principal, a cozinha central, até que caiu. Foi um feriado pacato, com apenas três pessoas na ecovila, uma dinâmica diferente de quando há uma turma envolvida em atividades, oficinas e
mutirões coletivos. Acompanhei a rotina de um dos voluntários daquele período, um argentino, Agustín Emmanuel García de 28 anos, que já tem experiência de passagem por algumas outras comunidades e que estava fazendo a zeladoria do Casom naquele período – é uma zeladoria rotativa. A zeladoria é necessária porque o espaço não pode ficar sozinho, em outras ocasiões foram roubadas ferramentas, botijão de gás e eles acreditam que se tratam dos caçadores que ainda transitam pela região.
A rotina do responsável pela zeladoria do espaço inclui uma série de atividades, desde acordar cedo, preparar as refeições, manejo das agroflorestas, transferências de mudas já crescidas para plantar novas, limpeza dos resíduos das composteiras, colher lenha para se for fazer fogueira ao final do dia, dentre outras. E sem energia elétrica – mas com celular e carregador móvel para se comunicar com os outros integrantes que fazem a zeladoria da Escola da Terra – não se dorme muito tarde. Alguma atividade pra ocupar a cabeça à noite, como uma leitura, desenhar, ou algo do gênero. Quando não está uma turma reunida dificilmente acontecem as cantorias em volta do fogo. Permanece o silêncio, os animais ao fundo – como a coruja que ri como bruxa, os sapos como uma sinfonia, e outros sons noturnos – e quando o céu está aberto, o infinito tapete de estrelas.
Entrevistei o Richard Frank dia 22, penúltimo dia por lá, já no sítio da Escola da Terra, vizinho da comunidade Bom Lugar, local que os integrantes da ecovila utilizam como estrutura de apoio, transitando entre este espaço e a comunidade nas montanhas. E assim também zelam o local, conforme acordado com o Daniel curupira, quem criou a Escola da Terra, RPPN Encantos da Juréia. O entrevistado tem 33 anos de idade e segundo conta “já trabalhou com um tanto de coisa na vida”, pet shop, indústria metalúrgica, restaurante, feira e hoje trabalha com bioconstrução, de onde tira uma renda. O pessoal da comunidade realiza trabalhos de bioconstrução para algumas pessoas que conheceram o trabalho realizado na ecovila, e são contratados para bioconstruírem para particulares. E ele continua falando sobre os trabalhos na comunidade, “trabalho pra todo lado né, na roça, plantando, manejando, fazendo nascente de água, não param os trabalhos aqui, intensos”.
Ao perguntar sobre o surgimento da comunidade ele conta que ela surge de um grupo de pessoas que se juntaram para viver de forma mais natural, sentindo a natureza, estar no meio dela. Assim fecharam um grupo de pessoas que juntou uma grana e compraram a terra e então começaram os trabalhos na terra. Falando sobre esse início, ele conta que vinham de vez em quando pra terra, faziam uns eventos. E que foi a uns três anos - 2016 - que foi
morar na terra e construíram uma casa, que não foi a primeira casa, pois já havia um chalé que haviam bioconstruído antes, que serviu de apoio para a bioconstrução deste chalé maior. Hoje o chalé construído por Richard, Luiz Alberto, Lucas Volpolino (filho da Miriam) e outros que ajudaram é o apoio central da comunidade, chamado de Casom. Aproveito então a deixa do entrevistado sobre as primeiras bioconstruções para trazer um pouco do que observei em diário de campo e também do que venho conversando com os integrantes da comunidade para trazer um panorama geral sobre os espaços físicos da comunidade.
Do início, quando se chega a terra há uma placa que indica “Bom Lugar” e abaixo outra placa “Propriedade particular zelamos a natureza. Não caçar, nem desmatar. Por gentileza, gratidão”. Seguindo a estrada, a direita fica a trilha pra cachoeira, e adiante na trilha em 5 minutos se chega à ponte e logo a seguir à porteira. Mais 5 a 8 minutos caminhando se chega ao vale onde ficava a antiga casinha do caçador, que caiu espontaneamente em 2017, agora se encontra a bioconstrução que eles chamam de Nave Fênix, uma espécie de galpão aberto que passou por algumas reformas até chegar ao resultado atual com sua base bioconstruída na técnica de superadobe e com artes esculpidas em barro nesta base. Nesta técnica utilizaram sacos de ráfia com terra umedecida e com o auxílio de um socador manual moldaram uma espécie de “grande tijolo” que quando estava na altura desejada recebeu uma estrutura de arame e bambu em toda a lateral, que foi rebocada com uma espessa camada de barro. As paredes do galpão são de uma estrutura de bambu. Próximo à nave fênix há também o primeiro banheiro seco que foi bioconstruído com quando ainda havia a casinha do caçador.
Deste vale sobe uma trilha principal que vai em direção às outras estruturas existentes.
Subindo um pouco da trilha, logo à esquerda se encontra a agrofloresta 3 a última a ser realizada em abril de 2019 em que estive presente. Mais adiante um pouco, também à esquerda está uma pequena trilha de entrada pro primeiro chalé construído e uma área para barracas. Seguindo mais acima na trilha principal, se sobe uma escada de terra, e ao fim dela se encontra à direita a agrofloresta 1 e à esquerda a agrofloresta 2. Continuando pela trilha, em 5 minutos se chegará ao fim dela e à esquerda há jardim bem cuidado com plantas, flores e algumas ervas ao pé de um Santo Cruzeiro. Acima deste jardim há uma área aberta, com espaço para fogueira ao meio, com algumas goiabeiras próximas e também mais algumas ervas e flores – é nesta área aberta onde também faziam rituais espirituais, antes da finalização da Nave Fênix. Ao lado desta área aberta se encontra o Casom junto com a cozinha geral.
Da área da fogueira, olhando em direção à trilha que subimos, se vê à frente a agro 2 (como são chamadas as agroflorestas, em que os números indicam a ordem que foram realizadas) e ao olhando ao fundo da agro 2 se vê um horizonte com florestas e montanhas que ficam azuladas, onde é possível também observar ao fundo no vale, o galpão Nave Fênix.
Ao lado do Casom há uma estrutura sendo projetada, a bioconstrução de um banheiro cuja proposta é realizar um chuveiro com água que esquente através de serpentinas de cobre173 no fogão à lenha. Mais a baixo há outro banheiro seco, ao lado dele um viveiro de mudas, e mais a baixo ainda um chuveiro com água natural puxada diretamente da nascente, como é também a água da cozinha. Pegando uma trilha próxima ao banheiro seco e a ducha se chega a uma área onde estão trabalhando com a apicultura.
Todo o encaminhamento das águas é manejado de forma ecológica. Os resíduos sólidos do banheiro seco são direcionados para uma composteira de longo prazo, que posteriormente se tornará adubo orgânico. E os resíduos orgânicos que vem da cozinha vão para uma outra composteira, que tem um tempo próprio até se tornar adubo orgânico também.
Os resíduos de plásticos e afins são separados para serem posteriormente levados para a reciclagem.
Retornando para a entrevista especificamente, Richard ainda sobre os primórdios da estruturação da ecovila disse que já havia dois integrantes da comunidade se mudaram antes dele, porém moravam em uma casa em Pedro de Toledo, em bairro próximo, a caminho para a terra do bom lugar. Conta que foi a partir deste movimento de ter mais pessoas próximas e até mesmo morando na terra da comunidade que começaram a realizar os cursos, vivências, bem como um trabalho mais amplo pró-natureza. Até então, os trabalhos se realizavam com mais mãos em ocasiões de feriados ou finais de semana quando uma turma de São Paulo descia a serra e acampava na própria terra.
Perguntei então sobre o funcionamento da ecovila, se seguem algum tipo de administração própria, e sobre como são tomadas as decisões enquanto corpo comunitário, comum-unitário. E ele explica que as decisões são tomadas conjuntamente, fazendo votações pra colocar questões em pauta. E sobre administração diz que estão aprendendo esse jeito novo de administrar as coisas coletivamente, que é bem trabalhoso porque geralmente um cuida de uma coisa, outro cuida de outra, e lá na comunidade eles estão propondo, o seguinte:
173 Canos de cobre que exercem a função de aquecedor ou resfriador.
“aqui a gente tá querendo que todo mundo de aposse de tudo, participe de tudo, então sempre conversando, sempre planejando, sempre tentando melhorar e devagarzinho a gente ta indo”.
Foi perguntado em seguida qual o objetivo deles enquanto comunidade e se há algo que pretendem alcançar ou realizar enquanto grupo. Richard disse que o maior objetivo deles é a preservação da natureza, uma área em que eles tomem conta, que não haja desmatamento, que a água seja cuidada, como também as nascentes d’água. E sobre o que pretendem, diz que eles têm uma ONG e que pretendem trabalhar com ela, trazendo crianças para também ensinar um pouco sobre o que sabem e o que vem aprendendo com a educação ambiental. Perguntei se ele poderia falar um pouco mais sobre a ONG, ele disse que o Edmar que começou a história com esta ONG e que ela já existe há um tempo, mas que estava parada, então eles a colocaram em dia. Eles estão trabalhando pra tentar um edital, fazer um projeto que envolva tanto a permacultura como a educação ambiental e juntar as coisas de uma forma legal, “pra passar pra criançada esse estilo de vida, os primórdios, voltar a destruir menos a floresta, consumir menos, ter uma vida mais tranquila”.
Perguntei então como estava isso, se eles já tinham alguma coisa específica em mente, e ele contou que já tem algum trabalho com as crianças através dos acampamentos que são realizados, e nos acampamentos vão passando pras crianças estes conhecimentos de alguma forma. E com o edital ele acredita que conseguirão ter um alcance de crianças maior, trazendo escolas mesmo, ou ainda grupos maiores de crianças, “e com isso semear né”, completa ele.
E acredito que quando Richard diz “passar pras crianças os primórdios”, fala sobre a retomada de um contato com a natureza, e também uma retomada de como era a infância antigamente quando as crianças construíam seus próprios brinquedos por exemplo. E assim trazer novos olhares para a educação da criança, de que nem tudo precisa ser comprado já pronto no shopping, e de que também faz parte da brincadeira construir e descobrir junto com os colegas.
Dando sequência, perguntei sobre como é o meio ambiente e a natureza pra ele. E ele disse que se não está na natureza fica meio doido, que vai pra São Paulo e volta estressado, cansado, e lá na comunidade parece que só de andar na floresta, fazer uma trilha, ficar um pouquinho na cachoeira, ele sente a força da natureza e é isso que eles gostam de preservar e cuidar pra que não acabe. Por fim, deixei um espaço aberto para expressar algo livremente.
Richard diz que acredita que a ecovila bom lugar é um espaço que tá começando, iniciando,
mas que já tiveram bastante coisa legal, bastante gente já passou por lá e mudou o estilo de vida de algumas pessoas com a experiência. Acredita que as pessoas entenderam algo do que foi vivenciado. E que ele acredita que se trate disso, trabalhar com calma e com zelo, pensando direitinho, pois como comentou trabalhar em grupo também não é simples, é preciso de uma boa estrutura, se não, não vai pra frente.
Pedi pra ele falar um pouco mais sobre ter passado bastante gente por lá. Então ele falou sobre os cursos, que vem bastante gente por conta deles, algumas vezes vem pessoas que já conhecem sobre bioconstrução, agrofloresta, manejo de agro. Mas outras vezes tem um pessoal que chega e não sabe de nada e não acredita que as coisas possam funcionar dessa forma também, com banheiro seco, ou tomando água sem cloro vindo direto da nascente, e isso dá uma transformada em como as pessoas enxergarem algumas coisas. Comenta também que já tiveram mochileiros que passaram por lá, como um espanhol Nikos que voltou pra Espanha levando os conhecimentos da agroecologia pra lá que ele não tinha antes. Ele conta que o rapaz saiu pra se encontrar e acabou indo parar na ecovila e quando chegou lá realmente encontrou algo. E Richard conclui dizendo que passar um conhecimento que pode transformar a vida de uma pessoa é bem prazeroso, e continua: “você poder passar o conhecimento e vê que a pessoa gostou daquilo, e vai em frente, é mais uma sementinha plantada”. Agradeci pela disponibilidade em compartilhar sua experiência e seu tempo. Ele agradeceu também pela troca. E então encerramos nossa conversa.