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A partir da escolha da mensuração da transferência como uso, foi selecionada a taxonomia desenvolvida por Yelon, Ford e Bhatia (2014). Esses autores identificaram uma lacuna nos estudos de transferência: a necessidade de um modelo para conceituar e operacionalizar diferentes modos de aplicação ou uso dos conhecimentos e habilidades aprendidos em treinamento. Segundo Yelon, Ford e Bhatia (2014), da mesma forma que a aprendizagem, a transferência também era tratada como um construto unidimensional.

Diferentemente da tradição na literatura, onde predominam pesquisas quantitativas com testes de hipóteses, Yelon, Ford e Bhatia (2014) adotaram uma abordagem indutiva para desenvolver a taxonomia de uso. Os autores selecionaram como objeto de investigação, o programa educacional de média duração denominado “The Michigan State University Primary Care Medical Fellowship”. Trata-se de um curso de um ano de duração voltado para médicos, que desejam atuar como docentes. Os objetivos de aprendizagem deste curso são: técnicas de ensino em sala de aula, utilização de tecnologia no ensino e aprendizagem, interpretação e condução de pesquisas, gestão de programas educacionais e gestão de carreiras (YELON; FORD; BHATIA, 2014).

O curso anterior já havia sido objeto de três estudos qualitativos (YELON; FORD; GOLDEN, 2013; YELON; REZNICH; SLEIIGHT, 1997; YELON et al., 2004). Yelon, Ford e Bhatia (2014) analisaram esses três estudos e reorganizaram as estórias de aplicações relatadas nas entrevistas com os médicos, egressos do curso.

Como resultados, Yelon, Ford e Bhatia (2014) propuseram o conceito e a taxonomia de transferência como uso. Segundo esses autores, a transferência como uso ocorre quando o aluno emprega algo que ele aprendeu em treinamento para um propósito específico. No contexto de cursos voltados para o desenvolvimento de habilidades abertas, este “algo” é frequentemente intangível: ideias, regras, princípios ou procedimentos para guiar ações. O conceito de uso considera ainda as escolhas pessoais dos profissionais com relativa autonomia, quando decidem quando, o quê e como usar o que eles aprenderam. Esses diferentes usos em diferentes situações ampliam o conceito de transferência para: o uso dos conhecimentos e habilidades adquiridos em treinamento de forma a atender às necessidades do trabalho (YELON; FORD; BHATIA, 2014).

O segundo resultado de Yelon, Ford e Bhatia (2014) é o modelo denominado “Protótipo de taxonomia de uso”, ou ponto de partida para uma taxonomia de uso genérica, conforme Figura 8.

Figura 8: Protótipo da Taxonomia de uso Usar O que é aprendido em treinamento para Executar Ações relativas ao trabalho (como ensinadas ou adaptadas) Avaliar Ações desejadas do próprio indivíduo ou outros Explicar Ideias aprendidas para informar ou persuadir outros Instruir Pessoas individualmente ou em grupos para executar ações desejadas Liderar Outros a aplicar em tarefas em grupo, como líder ou colaborador, a mudar normas e processos

Fonte: Yelon, Ford e Bhatia (2014) – traduzido pela autora.

O desenvolvimento da taxonomia baseou-se em três premissas sobre o conceito de transferência como uso, a saber: (1) O uso é um construto multidimensional; (2) O uso implica em escolhas pessoais; e (3) O uso é complexo, mas pode ser discernível.

Cada tipo é uma aplicação dos conhecimentos e habilidades adquiridos em diferentes tipos de aprendizagem formal, sendo que os mesmos estão inter-relacionados, ou seja, um ou mais tipos de uso levam a outros usos (YELON; FORD; BHATIA, 2014).

Para cada tipo de uso, Yelon, Ford e Bhatia (2014) procuraram estabelecer características claras e distintas, suas condições, propósitos e os destinatários da aplicação. O Quadro 7 apresenta os cinco tipos de uso e suas respectivas definições.

Quadro 7: Definições dos usos Tipo de uso Definição

Executar Quando o indivíduo toma como base procedimentos e princípios aprendidos no curso, para atender suas necessidades de planejamento ou execução de atividades ou tarefas corriqueiras no trabalho, tanto as atribuídas, como as escolhidas.

Avaliar Quando de forma intencional ou não, com base em padrões aprendidos no curso, o indivíduo avalia os resultados do próprio desempenho no trabalho ou do desempenho esperado de colegas ou outros, que fazem atividades similares.

Explicar Quando de forma voluntária, tanto em conversas, como de forma escrita, o indivíduo descreve métodos e princípios aprendidos no curso para colegas e outros que fazem trabalhos similares. Instruir Quando o indivíduo ensina a colegas e a outros que fazem trabalhos similares, como aplicar

métodos e princípios da forma como foram ensinados no curso, ou como já foram adaptados e aplicados em outras situações no trabalho.

Liderar Como membro ou líder designado em tarefas relevantes ou projetos em grupo que envolvam a organização como um todo, orientar colegas ou outros a aplicar métodos e princípios aprendidos no curso e a definir os critérios para avaliação da aplicação.

Fonte: Traduzido pela autora, com base em Yelon, Ford e Bhatia (2014).

O tipo “executar” é avaliado como aplicação direta (YELON; FORD; BHATIA, 2014). Em geral, em cursos de curta duração com objetivos de aprendizagem definidos, os alunos devem aplicar o que aprenderam na execução direta do seu trabalho. O uso é mais abrangente, pois além da aplicação direta, o indivíduo usa o que aprendeu para: avaliar o seu trabalho e o de outras pessoas, influenciar outras pessoas a usarem o aprendido no seu trabalho e em ações que envolvam a organização de uma forma mais abrangente.

Yelon, Ford e Bhatia (2014) sugerem que a taxonomia de uso seja generalizada e, portanto, adotada em outros tipos de aprendizagem formal. Neste contexto, os cursos de especialização em gestão se apresentam como uma oportunidade para avaliar os diferentes usos.

Tomando como base o que foi discutido nas seções 2.5, 2.6 e 2.7, os principais critérios adotados para a compreensão da transferência de aprendizagem como uso em cursos de especialização em gestão são:

 O que é transferido: conhecimentos e habilidades (ideias, regras, princípios e procedimentos para guiar ações).

 Como é transferido: uso dos conhecimentos e habilidades.  Quem transfere: aluno ou egresso.

 Quando transfere: após cursar a maioria ou todas as disciplinas.