2 NEOLIBERALISMO DISCIPLINAR E SUPEREXPLORAÇÃO DA
2.2 Superexploração da Força de Trabalho: um histórico da categoria
2.2.1 Transferência de excedente produtivo e troca
A fim de caracterizar o processo de circulação e transferência do excedente produtivo, enfatizando novamente a relação umbilical entre a economia brasileira e o capital externo, destacaremos brevemente no que consiste o excedente produtivo sob a ótica da Teoria do Valor em Marx (1996). Ademais, ao compreendermos como se dá a transferência do excedente, chegaremos a algumas implicações sobre o processo produtivo na economia brasileira, e as formas de exploração da força de trabalho aqui vigentes. Inicialmente, para discorrer sobre o excedente produtivo, abstrairemos as especificidades econômicas da economia brasileira e suas distinções em relação às outras economias capitalistas, retornando posteriormente a elas. Partindo da noção de valor, Marx (Idem) identifica no processo produtivo empregado pela força de trabalho, uma medida de tempo necessária à equivalência do valor da
força de trabalho e do valor correspondente às mercadorias que esta produz. Contudo, ao destrinchar profundamente os aspectos do processo produtivo, Marx (Idem) verifica a possibilidade de que o tempo de trabalho socialmente necessário à produção do valor equivalente à força de trabalho, seja excedido, criando-se assim um “mais-valor”. A obtenção desse mais-valor pode se dar mediante mecanismos absolutos ou relativos, desde o prolongamento da jornada de trabalho, a remuneração da força de trabalho abaixo de seu valor, até a introdução de tecnologias que aumentam a produtividade do trabalho em um determinado tempo do processo produtivo. A partir disso, Marx (Idem) desenvolve a noção de mais-valia, que diz respeito a um incremento ou excedente sobre o valor original, que no processo de circulação varia sua grandeza, se valorizando e, consequentemente, se transformando em capital. Assim, explica a formação do excedente produtivo:
Mediante a atividade da força de trabalho, reproduz-se, portanto, não só seu próprio valor, mas produz-se também valor excedente. Essa mais-valia forma o excedente do valor do produto sobre o valor dos constituintes consumidos do produto, isto é, dos meios de produção e da força de trabalho. (...) O excedente do valor total do produto sobre a soma dos valores de seus elementos constituintes é o excedente do capital valorizado sobre o valor do capital originalmente adiantado. (MARX, 1996, p.325, grifo nosso) Neste sentido, o volume de excedente produtivo está diretamente ligado à massa total de mais-valia de um processo de produção, o que representa uma apropriação de parte do valor da força de trabalho por parte do capitalista. Transcendendo a perspectiva isolada que Marx (Idem) assume momentaneamente para compreender o processo produtivo, o autor passa a considerar os aspectos que se relacionam a este processo, mas que se situam na ‘esfera’ da circulação. Nesta esfera, os diferentes capitais interagem entre si, como um resultado natural da expansão do modo capitalista de produção, assim, esta dinâmica relacional faz com que o excedente produtivo não necessariamente equivalha ao lucro do capitalista, podendo este ser apropriado por outros capitais durante o processo de circulação, considerando a não- equivalência dos termos de troca entre os capitais mais ou menos produtivos.
É partindo desta noção relacional entre os distintos capitais envolvidos no processo que resulta no excedente, que o sistema capitalista de produção passa a ser observado em uma ótica global. Entendido o
processo de formação do excedente, é somente por meio de uma perspectiva relacional que poderemos caracterizar a transferência do excedente e nível global. Com isso, chegamos ao nível de análise necessário para compreender como o Brasil se insere na dinâmica capitalista mundial, considerando que o a relação com o capital externo se apresenta desde sua formação capitalista.
Como argumentamos anteriormente, em sua formação inicial, a economia brasileira se desenvolve em estreita consonância com o capital internacional. A princípio isto se observa com a oferta de bens primários na economia global, contribuindo para o aumento do fluxo de mercadorias e, ao mesmo tempo, para o desenvolvimento das formas bancárias e comerciais de capital na Europa. Assim, a participação das economias dependentes (leia-se economia brasileira) permitiu que o sistema industrial europeu se desenvolvesse também pelo aumento no fluxo de trocas, preenchendo os requerimentos das economias europeias como produtoras de bens primários e absorvendo a produção manufatureira de larga escala já existente na Europa (MARINI, 1973). Esta forma de inserção no capitalismo mundial, à medida que vai sendo reproduzida, consolida dinamicamente uma Divisão Internacional do Trabalho, na qual as economias latino-americanas desempenham a função principal de primário-exportadoras. Esta configuração possui implicações para a acumulação nas economias dependentes, no Brasil:
O aumento mundial da oferta de alimentos e matérias-primas foi acompanhado de um declínio nos preços destes produtos, relativamente ao preço alcançado pelas manufaturas. Como o preço dos produtos industriais se mantém relativamente estável, e em último caso declina lentamente, a deterioração dos termos de troca está refletindo de fato a depreciação dos bens primários (MARINI, 1973, manuscrito online, tradução própria). Assim, o tema da deterioração dos termos de troca foi amplamente discutido no Brasil por distintas vertentes teóricas da economia25. Esta
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Uma importante contribuição a este debate pode ser encontrada em: FURTADO, C. Dialética do desenvolvimento. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1964. Apesar de apresentar reflexões distintas da base teórica adotada no presente trabalho, consideramos que os estudos de Furtado muito acrescentam ao tema do subdesenvolvimento econômico na América Latina, por problematizar as interpretações etapistas (Rostow, 1960) e convencionais do
deterioração se refletiu ao longo do desenvolvimento capitalista no Brasil, tendo esta economia concentrado seus investimentos econômicos na produção para exportação e importando produtos manufaturados para atender ao consumo do mercado interno. Desta forma, o equilíbrio da balança de pagamentos se baseava nestas duas variáveis, estando a economia brasileira vulnerável à variação dos preços não somente dos produtos primários, mas dos produtos manufaturados:
(...) diferente do que ocorre nos países capitalistas centrais, onde a atividade econômica está sujeita à relação existente entre as taxas internas de mais- valia e investimento, nos países dependentes o mecanismo econômico básico deriva da relação importação-exportação: mesmo que obtida no interior da economia, a mais-valia se realiza na esfera do mercado externo mediante a atividade de exportação, e se traduz em rendimentos que se aplicam, em sua maior parte, em importações. A diferença entre o valor da exportação e das importações, ou seja, o excedente passível de ser investido sofre a ação direta de fatores externos na economia nacional (MARINI, 1975, tradução própria).
Neste sentido, o excedente produzido no Brasil tem sua aplicação interna comprometida não somente pelo mecanismo da troca desigual, mas pela especialização majoritariamente exportadora que, ao longo do processo de industrialização brasileira, vai colocando limites ao crescimento do mercado interno e submetendo este à vulnerabilidade da economia global. Durante este período, o excedente produtivo se transferia para as economias centrais mediante o mecanismo da troca desigual, o que já trazia implicações para a acumulação da economia brasileira. Vejamos a seguir outros mecanismos que passam a permitir a transferência de valor, subvertendo as leis de troca e que se expressam na maneira como se fixam os preços de mercado e os preços de produção das mercadorias (MARINI, 1973).
Na medida em que prosseguem os esforços para uma maior autonomia do mercado interno brasileiro (de 1930 até 1950), estabeleceram-se os
desenvolvimento econômico. Para outras contribuições consistentes acerca do tema, ver: Baran, P.; Hobbsbawm, E., 1961)
programas econômicos de substituição de importações26, num esforço macroeconômico de desenvolvimento do mercado interno, feito com mecanismos de restrição e taxação à entrada de produtos, de manipulação cambial e de incentivo ao investimento interno. Entendemos que por um considerável período, o processo de substituição de importações serviu para um desenvolvimento insuficiente da indústria interna baseado principalmente numa alta oferta de mão-de-obra barata27, em estreita integração ao mercado mundial, e voltado ao mercado de bens primários. Este período inicial é denominado por Marini (1975) como industrialização de primeiro grau. Nesta dinâmica de industrialização interna, há o incentivo externo para desenvolvimento de uma indústria de bens de capital no Brasil aos fins da década de 1950, motivado pelo processo de obsolescência tecnológica nas economias centrais:
A integração dos sistemas produtivos é dada pelo grande desenvolvimento do setor de bens de capital nas economias centrais, o qual foi acompanhado de um aceleramento considerável do progresso tecnológico. Isto fez com que, por um lado, o tipo de equipamentos produzidos sempre mais sofisticados, devesse ser aplicado a atividades mais elaboradas de caráter industrial nos países periféricos, existindo o interesse por parte das economias centrais de impulsionar nestes o processo de industrialização. Por outro lado, à medida que o ritmo do progresso técnico reduzia nos países centrais e o prazo de reposição do capital fixo caiu em média de oito para quatro anos, surgiu a necessidade de exportar para a periferia equipamentos e maquinarias que se tornaram obsoletos em pouco tempo, mas que
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Para se aprofundar no tema da substituição de importações, ver: TAVARES, Maria da Conceição et al. Auge e declínio do processo de substituição de importações no Brasil. Copublicaciones, 2000.
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Esta oferta de mão-de-obra barata constitui o exército industrial de reserva, e consiste em um mecanismo de manutenção de condições precárias de trabalho, em detrimento dos lucros do capital. Em uma escala mundial, as economias dependentes ofertam este contingente de trabalhadores desqualificados, tendo em vista a especialização produtiva para a exportação. Para uma escala interna, analisaremos em outras seções como o exército industrial de reserva se relaciona às condições de trabalho, tanto no âmbito da negociação contratual, quanto em relação ao salário e jornada.
ainda não estavam totalmente depreciados (MARINI, 1975, tradução própria).
Nesta medida, o processo de industrialização no Brasil se viu condicionado não somente pela importação de bens de capital, mas pela incorporação de técnicas de menor produtividade em comparação às utilizadas nas economias centrais. Ademais, o capital externo também se fazia presente por meio de empréstimos e financiamentos ao investimento em bens de capital, permitidos por mecanismos normativo- institucionais da economia brasileira28. Estas medidas econômicas trouxeram condicionantes à produtividade do trabalho no Brasil que, como veremos na próxima subseção, por estar em desvantagem produtiva em relação ao centro, encontrará outros mecanismos de barateamento de custos produtivos, como o aumento da exploração absoluta da força de trabalho.
Assim, esta constante presença do capital externo em todo o processo de industrialização brasileira trouxe implicações ao excedente produtivo desta economia que, por um lado aumentava sua concentração orgânica de capital e, por outro lado via seu excedente produtivo ser transferido às economias centrais por meio dos mais diversos mecanismos. Isto é, se diversificavam não apenas as modalidades de ingresso do capital externo no Brasil, mas as formas de transferência de excedente atreladas às formas de capital. Como destaca Marini (1975), uma considerável parte da mais-valia (que configura o excedente) produzida no Brasil foi drenada para as economias centrais, mediante os mecanismos de troca desigual, as práticas financeiras colocadas por estas economias e até mesmo pela ação direta de investidores externos na esfera produtiva. Neste sentido, a transferência do excedente da economia brasileira para as economias centrais se dá mediante diversas formas:
Parte do excedente gerado nestes países [dependentes] é enviada para o centro – na forma de lucros, juros, patentes, royalties, deterioração dos termos de troca, dentre outras –, não sendo, portanto, realizada internamente. Então, os mecanismos de
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Neste caso me refiro à instrução normativa 113, aprovada em 1955 pela autoridade monetária brasileira, que permitiu a importação de bens de capital sem cobertura cambial para o Brasil, como forma de investimento direto, resultando em uma forte presença do capital externo nesta economia, já no período inicial de industrialização. Para referências, ver: CAPUTO, A.C; MELO, H.P. A Industrialização Brasileira nos Anos de 1950: Uma Análise da Instrução 113 da SUMOC. Est. econ., São Paulo, 2009.
transferência de valor provocam, digamos assim, uma interrupção da acumulação interna de capital nos países dependentes que precisa ser completada e, para tanto, mais excedente precisa ser gerado. (AMARAL, M. CARCANHOLO, M. 2009, p. 217)
Com isso, argumentamos que o mecanismo de transferência de excedente implica em esforços industriais que possam compensar esta perda. A partir desta necessidade de compensação, se configuram outras particularidades econômicas no capitalismo brasileiro, forjadas por sua própria condição subordinada na economia mundial. Uma das principais particularidades que se dinamizam neste processo, é a forma e intensidade de exploração da mais-valia no capitalismo dependente, sintetizada na categoria teorizada por Marini (1973) e que será analisada em perspectiva histórica a seguir, na próxima subseção.
2.2.2 Formas de extração da mais-valia e a particularidade da