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Transformação e Transcendência através da Arte

“A arte não reproduz o visível, torna visível (uma visão secreta)”.

PAUL Klee – 1920

29 3.1 - A Arte-terapia

As primeiras iniciativas de utilizar a arte em terapias surgiram na Alemanha, com os psiquiatras Kraepelin, Bleuler e Prinzhorn. Com o nome de Terapia Ocupacional, constituíam-se de uma série de técnicas artísticas e artesanais, destinadas a encorajar a expressão criadora como método auxiliar em terapias.

A arte como um processo de criação intensamente ligado à vida do homem, se caracteriza por expressar as emoções, as vivências, os conflitos e os desejos mais profundos da humanidade em todas as épocas. As terapias que utilizam a arte como um processo que possibilita e facilita o auto-conhecimento não consideram a produção do ponto de vista estético como o mais importante. Elas levam em conta todo o processo e o produto final, considerando essa produção como simbólica, isto é, como sendo a representação da realidade interna de quem a criou.

A arte-terapia tem como método de trabalho possibilitar que o paciente utilize recursos expressivos para facilitar a comunicação, unindo a linguagem não verbal, através das imagens, à linguagem verbal. As imagens serão o veículo da simbolização individual carregada de significados internos, que fazem emergir os conteúdos e conflitos. Estes, vindo à tona, podem ser trabalhados em conjunto com o terapeuta.

A arte-terapia pode ser feita individualmente ou em grupo, com crianças ou adultos, num ambiente descontraído, onde não seja evidente que o processo de criação experimentado pelo paciente está sendo acompanhado atentamente pelo arte-terapeuta. Para que a vivência dessa experiência aconteça de modo seguro e receptivo, é fundamental que haja adequação entre a técnica artística proposta, as possibilidades e disponibilidades internas dos pacientes e os objetivos do terapeuta, ao sugerir cada tipo de atividade. O conhecimento dos diferentes materiais, suas possibilidades expressivas e o encaminhamento da atividade, geralmente acompanhada de música, que propicia o relaxamento das tenções, criam as condições para que as energias psíquicas e as energias criativas vitais possam emergir e transmutar-se em imagens.

30 Recuperando a intuição, a experiência artística e suas potencialidades criadoras, o paciente poderá conseguir relacionar-se com seu inconsciente e suas imagens, que são seus símbolos, recuperando a confiança em sim mesmo, através do diálogo silencioso interno e do diálogo verbal entre ele e o terapeuta.

A arte-terapia considera que as técnicas de desenho, colagem, pintura, modelagem, escultura, e outras, podem ser auto-curativas na medida em que possibilitam revelar o inconsciente. As técnicas artísticas serão os canais para expressar as emoções, os pensamentos mais ocultos, as sensações e a intuição. Organizando o espaço visual, o indivíduo organiza-se externamente e internamente, liberando um processo de auto-regenerativo.

A arte-terapia pode auxiliar as pessoas que possuem distúrbios comportamentais, mentais ou portadoras de deficiências mentais, assim como também pode ajudar àquelas que buscam no processo terapêutico um caminho para o auto-conhecimento.

As imagens reveladas não devem ser interpretadas pelo terapeuta, mas servir como ponte ao diálogo. O processo terapêutico se dá levando-se em conta o conjunto de imagens e não apenas uma isoladamente.

Acompanhando o desdobramento dos trabalhos criados, o terapeuta pode acompanhar os desdobramentos dos processos psíquicos.

Entrar em contato com as imagens, viabilizar o auto-conhecimento, compreender seu processo de transformação e reconhecer os obstáculos que impedem a criação e seu desenvolvimento integral, são objetivos da terapia através da arte.

Com um olhar e uma escuta atentos, o arte-terapeuta pode acompanhar e dialogar com o paciente, ajudando-o na busca da harmonia de conflitos, na expectativa de uma melhor integração com o mundo. Na procura de sua singularidade e de integrar-se na unidade social, o homem pode ser capaz de criar, recriando a si próprio.

31 3.2 - Museu de Imagens do Inconsciente

“Nos sanatórios onde estive não podia contar às pessoas as minhas visões e as vozes que ouvia, porque revelar essas coisas significava ficar mais tempo internado e levar mais eletro-choque. Isso porque minha doença era tratada como sintoma e não como uma revelação de significados.”

Miltom (SILVEIRA, 1992: 13).

Essa declaração é de um dos pacientes tratados pela Dra. Nise da Silveira com terapias que utilizaram a arte como recurso expressivo.

O trabalho da Dra. Nise se baseou nos estudos e experimentos de Jung, que considerava as imagens criadas, os sonhos e as fantasias como expressões dos processos mentais em busca de organização. “Os sintomas de um distúrbio mental refletem a tentativa do organismo de curar-se e atingir um novo nível de integração”. (Id. 1992: 13).

As terapias ocupacionais utilizadas nos hospitais psiquiátricos representavam para a Dra. Nise um sentido maior do que simplesmente ocupar o paciente, entretendo-o com atividades de recreação e artes.

Através da pintura, modelagem, música e trabalhos artesanais, pacientes encontravam um canal para se exprimir livremente, despotencializando a energia intensa que os perturbava.

A arte pode penetrar no mundo dos pensamentos, emoções e sentimentos, que se encontra fora da racionalidade e da palavra.

A pintura e a modelagem eram as técnicas mais utilizadas, pois davam forma aos conflitos, trazendo para a realidade externa as imagens interiores, proporcionando maior esclarecimento para a compreensão do processo psicótico, além de constituírem-se em agentes terapêuticos.

Na Seção de Terapêutica Ocupacional do Centro Psiquiátrico Pedro II, no bairro do Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro, fundada pela Dra.

Nise em 1946, ela acompanhou os inúmeros casos de pacientes esquizofrênicos na criação de seus trabalhos, utilizando a arte e seu valor terapêutico. As atividades ali executadas foram progressivamente

32 ampliadas, chegando a trabalhar com: cestaria, sapataria, carpintaria, jardinagem, encadernação, música, teatro, etc.

Adelina, Egydio, Isaac, Fernando, Octávio, Lúcio, Abelardo, Carlos, são nomes de alguns dos freqüentadores da Seção de Terapêutica Ocupacional do Centro Psiquiátrico Pedro II, que puderam mostrar através de seus trabalhos a grande capacidade de expressão artística.

Artur Bispo do Rosário, que não considerava sua atividade criadora como arte, e não trabalhava em um atelier, foi um dos internos psiquiátricos da Colônia Juliano Moreira. Bispo do Rosário é um dos exemplos de paciente esquizofrênico que, com sua intensa atividade criadora, se tornou mais conhecido no Brasil e no exterior pela característica incomum de seu trabalho. Desfiando o uniforme para bordar lençóis e outros panos, complementando com pintura em diversas camadas de tinta, ele construía seus mantos, com os quais ele dizia que se vestiria no dia do juízo final, e considerava esta uma tarefa como uma missão divina. Seu processo de criação foi espontâneo, uma iniciativa própria de busca de um caminho para dar vazão à sua energia psíquica e materializá-la, mesmo sem se dar conta de que criava uma das mais extraordinárias obras de arte.

Em 1952, a Dra. Nise fundou o Museu de Imagens do Inconsciente, trabalhando com atividades expressivas de pintura, xilogravura e modelagem. O museu guarda todas as obras criadas naquele Instituto, e hoje é responsável pelo atendimento nos ateliers, que têm o objetivo de ajudar a reabilitação de pacientes e o atendimento aos egressos de antigas internações, que precisam de acompanhamento. (SILVEIRA, 1992)

Atualmente o acervo do Museu de Imagens do Inconsciente contém aproximadamente trezentos e cinqüenta mil obras de modelagem, desenho, xilogravura e pintura, sendo um dos maiores do mundo. Permanentemente, mantém uma exposição, cursos, e grupos de estudo, além de montar algumas exposições fora de suas instalações e produzir publicações sobre o trabalho ali desenvolvido.

33 3.3 - Casa das Palmeiras

A Casa das Palmeiras é uma entidade sem fins lucrativos, que foi criada em 1956 com o objetivo de funcionar como ponte entre os pacientes que recebiam alta dos tratamentos em hospitais psiquiátricos e a volta à convivência com suas famílias e a sociedade. A Casa das Palmeiras, que a princípio era considerada como uma experiência-piloto, existe até hoje, prestando um enorme serviço, que significou um grande passo no acompanhamento desses pacientes, evitando as internações que muitas vezes voltavam a acontecer.

Funcionando em regime de externato, os “clientes” (como são chamados) podem freqüentar as oficinas, que funcionam durante os dias úteis. O exercício espontâneo de diversas atividades, especialmente as que envolvam a função criadora, são acompanhados pela equipe técnica, atenta às expressões verbais e não verbais dos clientes durante as atividades.

A Casa das Palmeiras se preocupa em criar um ambiente favorável, onde as portas e janelas estão sempre abertas e os médicos e enfermeiras e outros membros da equipe não usam uniformes nem crachás. Eles participam das atividades ao lado dos clientes, orientando-os apenas quando se faz necessário, procurando estabelecer um relacionamento de afeto, confiança e participação.

O exemplo da Casa das Palmeiras se estendeu e influenciou diversas instituições que lidam com a saúde mental, evitando as internações como único meio de tratar o doente psiquiátrico. Elas funcionam como centro de reabilitação psicossocial, em regime de externato, com incentivo às atividades artísticas, que permitem dar expressão aos sonhos, às visões, do mundo interior.

A linguagem do inconsciente, além de ser uma linguagem pessoal, é considerada uma linguagem universal, onde constantemente encontramos símbolos que são comuns a todos nós, portadores de alguma deficiência mental, algum distúrbio psíquico, ou simplesmente amantes da expressão artística considerados normais na nossa sociedade.

34 Mesmo na condição de esquizofrênico, a atividade criadora permanece intocada como potencial, bastando criar as possibilidades e a confiança dos pacientes para que ela possa fluir livre de qualquer tipo de constrangimento.

A linguagem do inconsciente invade o consciente através da arte tanto quanto as vivências do esquizofrênico invadem sua consciência. A diferença entre o processo criador normal e o de um paciente esquizofrênico é que este não faz distinção, muitas vezes, entre a realidade interna e a realidade externa, tomando uma pela outra sem a consciência deste processo, apenas podendo dar expressão a esse conflito através da arte. A grande maioria de pacientes que utiliza a expressão artística para dar vazão às imagens de seu inconsciente, e a possibilidade de poder falar delas consegue uma melhora significativa.

Muitas obras artísticas de pacientes psiquiátricos já foram expostas em grandes exposições de arte, e quase sempre levam o rótulo de “obras do inconsciente”. Porém, se o público não souber quem as criou, será impossível diferenciar a arte de pacientes da obra de artistas consagrados, pois a arte existe por si mesma e já não possui parâmetros ou normas para classificá-la.

O que mais caracteriza a arte desses criadores é que, para eles, não existe separação entre sua vida e sua obra. Como para o homem primitivo, a arte pode ser apenas a magia da vida.

35 3.4 - Oficina de Criatividade da APAE – OCA (APAE – RIO)

A Oficina de Criatividade da APAE - RIO, (OCA), foi criada em 1996, dentro do Centro de Treinamento Profissional (CTP), situado na rua Prefeito Olímpio de Melo, nº 1540, no bairro de Benfica, no Rio de Janeiro. Hoje, a OCA funciona na Sede da APAE (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais), na rua Bom Pastor 41, 4º andar, no bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro.

Desenvolvendo um trabalho terapêutico através da arte, a OCA tem como principais objetivos aprimorar a organização interna dos participantes e possibilitar o conhecimento e a experimentação de diversas formas de expressão. Dando aos atendimentos o enfoque da terapia, da arte-educação e da psicopedagogia, as atividades na Oficina têm duração de quatro horas semanais, com grupos de oito participantes.

Na OCA, o produto resultante do processo terapêutico é considerado como obra artística, sem que a ela estejam associados os conceitos estéticos como valores fundamentais. Apenas são assim considerados no sentido de valorizar o trabalho, valorizando a produção do participante e sua auto-estima.

A escolha de materiais e técnicas é feita com base no conhecimento do participante e adequado ao que ele precisa desenvolver em busca de resultados positivos. A terapia se faz na organização do próprio sujeito, com algumas interferências através do diálogo, onde é pedido que eles falem sobre seus trabalhos.

O grupo que participa da Oficina é composto de adultos portadores de deficiência mental, em idade acima de 18 anos, que se identificam com atividades artísticas. Eles são encaminhados pelo CINET - Centro Integrado de Educação e Trabalho, onde freqüentam aulas de escolaridade e oficinas de preparação para o trabalho.

O acompanhamento de arte-terapeutas e monitores é feito buscando não só as vivências dentro de atelier, mas através de visitas a exposições de arte e pontos turísticos do Rio de Janeiro. São sempre feitos

36 trabalhos de arte aproveitando essas experiências e encaminhadas muitas rodas de conversa sobre suas vivências.

A percepção do outro, de suas atitudes, como diferenças e não como erros, incentivar a aceitação de suas limitações e reforçar a auto-imagem são também objetivos da OCA.

Anualmente são feitas exposições dos trabalhos desenvolvidos dentro da Oficina de Criatividade da APAE. Essas mostras de arte são sempre em lugares públicos, oferecendo a oportunidade de exibir ao público em geral o trabalho ali realizado.

Os participantes da Oficina de Criação são conscientes da atividade artística como um exercício de lidar com as formas, as linhas, as cores, e com os materiais diversos, que propiciam descobrir a cada dia uma nova experiência. Eles fazem dos encontros semanais um momento de prazer na convivência com os colegas, os instrutores, seus trabalhos e suas possibilidades, que se ampliam sempre numa conquista constante de crescimento e realização.

Com o objetivo de complementar e ampliar os conhecimentos e a formação no curso de Pós Graduação em Arte-terapia, através de estágio de observação e participação, acompanhei e participei das atividades da OCA para conhecer e vivenciar o trabalho terapêutico, aliado a atividades de arte plásticas, feito com portadores de necessidades especiais.

O relatório do estágio encontra no final desta monografia, nos anexos.

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CAPÍTULO IV

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