1. Tensões no corpo contemporâneo nas artes e nas ciências
1.1. O corpo na contemporaneidade
1.1.1. Transformações corporais
Mesmo diante do discurso do risco e da culpa surgem práticas desafiadoras, nas quais os indivíduos assumem condutas „perigosas‟ em nome do bem estar, do ser feliz ou pelo simples prazer do risco e da oposição aos padrões impostos pela sociedade, pelos discursos da saúde pública e da promoção da saúde (LUPTON, 2000; ORTEGA, 2008a). Adeptos dessas práticas (conscientes ou não delas) convivem lado a lado com os praticantes de healthism.
A obsessão pelo corpo perfeito, que atenda aos padrões vigentes – corpo modelado, saudável, autoproduzido, autocontrolado, aperfeiçoado e sem sinais da idade -, tem movimentado “uma megaindústria que conjuga a tríade saúde, estética e bem-estar e se vincula a outras indústrias como aquelas do lazer e do turismo, da alimentação e do conforto” (SANT'ANA, 2004). Isso se evidencia por um mercado cada vez
maior de medicamentos, suplementos alimentares, produtos
light/diet33, cosméticos, salões de beleza, academias e, ainda, de serviços especializados como personal-trainers, nutricionistas, médicos, terapeutas, entre outros. Poder-se-ia dizer que a busca pelo ideal de beleza e performance corporal “é eterna e tem um preço”, pois requer, além do investimento financeiro, muita disciplina e dedicação. Edvaldo Couto (2004) aponta para a busca individual da perfeição como sendo a “celebração do hedonismo”, em que o corpo estaria sempre em construção (motivada pelo prazer), cujos resultados nunca seriam satisfatórios, pois o surgimento de novos padrões e tecnologias mais avançadas demandariam novas intervenções sobre o corpo: uma obsessão que pode gerar sofrimento ao invés da felicidade anunciada - o que podemos perceber através das recorrentes notícias sobre erros médicos e intervenções cirúrgicas mal sucedidas.
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Ver Tatiana Camargo (2008) Você é o que você come? Os cuidados com a alimentação: implicações na
constituição dos corpo. A autora faz uma análise do conteúdo discursivo dos rótulos de produtos diet e light. A preocupação com o corpo e com os hábitos alimentares (envolvendo saúde e estética), atinge,
também, a infância - a autora aponta para o índice de insatisfação corporal de 82%, em crianças entre oito a onze anos (Estudo de Pinheiro e Giugliani (2006) com alunos de escolas de Porto Alegre -RS).
Algumas das ações que visam a obtenção do corpo perfeito podem produzir efeitos opostos, alguns considerados „nocivos‟ à saúde como, por exemplo, alergias, artrites, deformações, cicatrizes, bulimia e anorexia, sem falar do sofrimento relacionado aos processos de intervenção cirúrgica e implantes. Curiosamente, alguns desses efeitos são provocados intencionalmente pelos indivíduos, o que, para Ortega (2008a), representa uma forma de singularização e de resistência à norma e à ditadura da aparência. Segundo ele, os sujeitos utilizariam as modificações corporais – tatuagem, piercing, implantes, amputações, escarificações, cirurgias, entre outros34 – como forma de personalização do corpo. As marcas corporais são apontadas pelo autor – sugestivamente e diferentemente de outros autores35 – como um modo de contraposição à objetivação do corpo pelas tecnologias médicas e pela cultura do fitness; os processos de transformação corporal apresentar-se-iam como resistência ao império da visão (que, para o autor, representa o menos corporal dos sentidos), e à “anestesia sensorial da cultura contemporânea” (p.64). A dor, assim como o medo e o sofrimento, tornaram-se impossíveis na cultura contemporânea, em que tudo deve ser medicalizado (LE BRETON, 2003; ORTEGA, 2008a; COUTO, 2009). Beatriz Pires (2005) ressalta que, para os(as) adeptos(as) do modern primitives36 a dor é inexistente, pois eles(elas) teriam uma “capacidade de atingir um estado alterado de consciência” (p.107), possibilitando o controle da dor, ao ponto de apenas “percebê-la como um registro de algo que acontece no corpo” (p.108), como uma forma de resgate da experiência sensorial do corpo, a qual se refere Ortega
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Nos anos 70 os punks londrinos manifestavam sua rebeldia através do corpo. “O ódio do social converte-se em ódio do corpo, que justamente simboliza a relação forçada com o outro”. (LE BRETON, 2003, p.34). O visual – tatuagens, piercing - mais tarde foi recuperado pelo sistema de consumo, tornando-se “moda” e difundindo-se (e diluindo-se) pelo mundo. Sobre marcas corporais também ver CANEVACCI, M. Culturas eXtremas. Mutações juvenis nos corpos das metrópoles. Rio de Janeiro: DP&A, 2005. O autor atribui à prática como uma forma de dissolver o poder fetichista do corpo transformado em mercadoria – mercadorias-sujeito, como no exemplo das tatuagens de código de barras.
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Ortega discorda das abordagens consideram as modificações corporais como elemento constitutivo da sociedade de consumo, do espetáculo e da moda; de outras abordagens que as consideram como um problema de saúde mental, que deve ser medicado.
36 Termo criado por Fakir Musafar, em 1930, em Dakota do Sul, para denominar os praticantes de transformações corporais.
(2008a).
Algumas dessas práticas de modificação corporal são utilizadas por artistas contemporâneos como Orlan e Stelarc, que trabalham o corpo como espaço para intervenção artística através do uso de implantes, intervenções cirúrgicas e o escaneamento do corpo. Em performances que envolvem teatralização e espetáculo, Orlan se submete à cirurgia plástica como forma de problematização dos aspectos relacionados à ditadura da beleza, como a dor e o sofrimento37
(fig.2). A artista salienta que seu trabalho não é contra a cirurgia plástica, mas contra os padrões de beleza, ditados pela “ideologia dominante” e que são impressos cada vez mais na carne feminina e masculina38.
O artista Stelarc utiliza os recursos da informática e da robótica conectados ao corpo para questionar a sua obsolescência. “Stelarc radicaliza a obsolescência do corpo, sua despedida da espécie e sua insignificância diante das tecnologias atuais” (LE BRETON, 2003, p.50). Em entrevista a Donguy (apud Jeudy 2002) o artista diz que
o corpo é sofrivelmente obsoleto. É obsoleto porque não pode mais experimentar a informação que acumulou... A tecnologia invasora marca o fim da evolução darwiniana como a conhecemos; ela é o começo da hibridação do biológico pelo artificial (p.152)39.
Conforme Sibilia (2002), no contexto atual em que as novas tecnologias apontam para possibilidade de existência de um mundo digitalizado, o corpo em sua configuração biológica estaria se tornando obsoleto e um novo imperativo passa a ser internalizado pelos indivíduos: “o desejo de atingir a compatibilidade total com o tecnocosmos digitalizado” (p.13) – sonho que, para ser atingido, exige atualizações constantes – referidas pela autora como tiranias do upgrade.
37
Ver Peggy Phelan. Art and Feminism. Phaidon, 2001. A artista disponibiliza de sua própria equipe médica para a realização de suas performances.
38
ORLAN, Intervention, (1995). In: Ibidem, 2001.
39 Entrevista com Jacques Donguy. L’Art au corps. Paris. Flamarion. 1996, p.219. Citada por Henri-Pierre Jeudy, O corpo como objeto de arte. São Paulo. Estação Liberdade. 2002.
Em sua performance Stomach Sculpture40, Stelarc engole uma cápsula contendo uma câmera/escultura, com a intenção de transformar seu estômago em galeria. O trabalho funciona como um sistema de vigilância interna do corpo, sendo que as imagens do interior de seu estômago são assistidas pelo público presente no espaço expositivo. Essa obra segue na direção dos questionamentos sobre a espetacularização do corpo e o fascínio exercido pela visibilidade de suas estruturas internas. Segundo Henry Pierre Jeudy41 (2002), por meio dos rituais de suspensão42 (fig.3), Stelarc retoma a questão formulada por Spinoza sobre o que pode o corpo. Questões que “os artistas respondem pela exacerbação dos possíveis” (p.109). Segundo o autor, “toda a ideologia de uma „liberação do corpo‟, dos anos 1960-1970, é significativa dessa revolta contra a autoridade das representações e das referências morais daí dedutíveis” (p.110). Por exemplo, nas ações corporais da Body Art, em performances que levavam o corpo aos limites físicos, como as realizadas por Dennis Oppenheim, Chris Burden, Marina Abramovic (fig.4), Gina Pane, entre outros43; e nas cerimônias praticadas pelos Acionistas Vienenses44, envolvendo violência, sexo, mutilação e destruição do próprio corpo, que, segundo os(as) artistas, teriam a capacidade de purificar e redimir. “Para os artistas o corpo era um meio novo e uma garantia de autenticidade. Era o lugar onde devia transformar a condição do indivíduo alienado em um homem livre, autêntico e autônomo”
(COCCHIARALE; MATESCO, 2005)45.
40
<http://www.stelarc.va.com.au/stomach/stomach.html> Acesso em: 27 de set. 2008.
41 Sociólogo do Centre National de la Recherche Scientifique e professor de Estética na Escola de Arquitetura de Paris-Villemin.
42
Série de performances, iniciadas nos anos 70, em que o artista permanecia suspenso por cordas presas a vários ganchos cravados na pele. Em “Seaside suspension: event for wind and waves” em Jogashima, Miura, 1981, suspensão entre rochas à beira mar, com a maré subindo, com duração de aproximadamente 20 minutos. Ver site do artista <http://www.stelarc.va.com.au/cards/index.html> Os rituais de suspensão ainda são realizados pelos modern primitives. Ver Pires (2005). Acesso em: 27 set. 2008.
43
Ver ARCHER, M. Arte Contemporânea: uma história concisa. São Paulo: Martins Fontes, 2001. 44 Grupo formado pelos artistas Otto Muehl, Gunter Brüs, Rudolph Schwarzkogler, Hermann Nitsch. 45 Texto do catálogo da exposição Corpo. Itaú Cultural, São Paulo, 2005.
Fig.2. Omnipresence46. Orlan.
Fig.3. Ritual de suspensão. Stelarc. Tóquio, 1980.47
Fig.4. Performance. Marina Abramovic, 1975. 48
46
Performance realizada em 1993. Fonte: Ibidem, 2001.
47 <http://www.stelarc.va.com.au/stomach/stomach.html> Acesso: 27 de set. 2008. 48
<http://www.fundacion.telefonica.com/en/arteytecnologia/images/fotografia/abramovic/artista01a.j pg> Acesso em: 07 jan. 2009. Os registros das performances da artista estão disponíveis em <http://catalogue.montevideo.nl/artist.php?id=4498>.