2 DESVENDANDO AS CIDADES DE NOVA CRUZ, JOÃO CÂMARA E SANTA
3.4 Os aspectos sociais nas novas periferias urbanas
3.4.2 Transformações na vida local e no cotidiano
Os últimos elementos abordados em nossa pesquisa empírica tratam exatamente de realidades próprias do cotidiano da população. Com isso buscamos alcançar um quadro geral das transformações e dos processos correntes no dia-a-dia dos moradores das novas periferias, em meio a todos os elementos característicos desse espaço de moradia deficitário de infraestrutura, composto por uma população heterogênea, que, entretanto, possui traços específicos desse tipo de ocupação do espaço urbano, conforme temos investigado.
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A vida local e o cotidiano são dimensões que nos permitem aferir a realidade concreta vivenciada no lugar, naquele ambiente marcado pela ação dos sujeitos, que nele vive e dele faz parte. Por isso, a proximidade com a vivência dos moradores é o ponto determinante dessa análise, que permiti-nos compartilhar das dificuldades, amenidades e a identidade própria das novas periferias urbanas em Nova Cruz, João Câmara e Santa Cruz.
Devido ao detalhamento dos questionamentos feitos optamos por apresentá-los em grupos temáticos para que nossa análise revele a totalidade do modo de vida estudado. Por isso em nossa investigação escolhemos certas realidades que, entre outras possíveis, ratificassem ou não as características por nós apontadas como marcadamente próprias das novas periferias urbanas das cidades em questão.
O primeiro interesse nosso foi sobre a efetivação ou não das denominadas “relações de vizinhança”, ou seja, da proximidade de convívio e mútua solidariedade entre os moradores das novas periferias. Como aponta Santos (2006) as solidariedades relacionadas as ações próximas ou distantes no espaço urbano podem ser orgânicas ou organizacionais. Nas relações organizacionais as relações que mantêm a cooperação entre os agentes resultam da predominância de ação de fatores externos às áreas de incidência dessas relações. As orgânicas, entretanto, se dão quando “todos os agentes são, de uma forma ou de outra, implicados [...] Em tais circunstâncias pode-se dizer que a partir do espaço geográfico cria-se uma solidariedade orgânica, o conjunto sendo formado pela existência comum dos agentes exercendo-se sobre um território comum” (SANTOS, 2006, p. 109).
Esse tipo de solidariedade é a que representa as relações de proximidade entre a população local, e destacadamente, entre a população do bairro. Nas tabelas abaixo podemos aferir as nuances desse tipo de relação nas áreas que investigamos.
Tabela 6 – Interconhecimento na vizinhança
Nenhum 6,2%
Uma casa 5,3%
Duas casas 16,8%
Três ou mais casas 71,7%
Total 100%
Fonte: Pesquisa de campo. Bruno Luiz Philip de Lima, 2015.
Tabela 7 – Proximidade e relação de confiança
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com o vizinho
Não confiam a chave do
imóvel ao vizinho 75%
Total 100%
Fonte: Pesquisa de campo. Bruno Luiz Philip de Lima, 2015.
Tabela 8 – Comunicação entre vizinhos
Informam quando viajam 50%
Não informam quando viajam 50%
Total 100%
Fonte: Pesquisa de campo. Bruno Luiz Philip de Lima, 2015.
A elevada quantidade de entrevistados que afirmaram que possuem proximidade com 3 ou mais vizinhos demonstra o predominante interconhecimento entre os moradores das novas periferias urbanas, embora que esse interconhecimento não resulte em um convívio constante, como demonstra a baixa frequência com que os vizinhos confiam a chave da casa uns aos outros. Acerca da prática de informar que vai se ausentar da casa, percebemos que a preocupação com o imóvel fechado faz com que a proximidade entre a vizinhança seja reforçada.
Esses três elementos que investigamos são elementos marcadamente típicos de relações de vizinhança com elevada proximidade. Nas novas periferias existe uma perda desse tipo de relação em certas circunstâncias, como por exemplo devido ao grande distanciamento entre as casas, ou, devido à rotina de trabalho que faz com que a família passe o dia ausente da residência, ou também, devido à tendência de uma postura marcada pela impessoalidade como forma de manter uma imparcialidade sobre as problemáticas vivenciadas no lugar.
Embora nas novas periferias exista uma composição variada da população, com pessoas vindas de outras cidades por motivos de trabalho, com casais recém-casados, com famílias maiores que buscavam uma casa mais confortável, e outros grupos, a realidade específica da pequena cidade faz com que a proximidade entre grupos tão diferentes aumente gradativamente. Isso faz com que a população se conheça apesar dos muros altos e portões fechados das casas. Além de que os encontros e reencontros nos espaços da cidade – que em geral são reduzidos, como supermercados, padarias, farmácias – constituem-se em momentos de contato entre os moradores, e assim, fortalecimento dos laços de interconhecimento.
Dois outros costumes que aferimos nas novas periferias foi o horário de dormir das famílias e a participação delas nos aniversários do bairro. Nas pequenas cidades é comum a
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população se recolher cedo da noite, devido à baixa dinamicidade da vida noturna. Em se tratando de cidades com grande vínculo à atividades rurais essa constatação pode ser mais facilmente verificada. Embora alguns elementos da vida moderna, como a televisão, o computador e a internet, exerçam destacada influência no horário de dormir das pessoas, nas pequenas cidades esse efeito é mais suavizado e o padrão “trabalho de dia e descanso à noite” é bastante seguido.
Tabela 9 – Horário de recolhimento da família
Fonte: Pesquisa de
campo. Bruno Luiz Philip de Lima, 2015.
Nas novas periferias, entretanto, a pesquisa apontou que 59,8% das famílias dormem após as 22 horas. Atribuímos esse resultado ao perfil dos moradores dessas áreas, que normalmente estão mais vinculados às atividades urbanas que às atividades rurais. Outro fator que determina o horário de dormir após as 22 horas é a extrema ocupação dessas populações com o trabalho durante o dia, restando apenas a noite para a realização de outras atividades, por vezes de estudo, de organização da casa ou de descontração.
O segundo costume verificado, a participação em aniversários de moradores próximos, apresentou-se como praticamente extinto, onde apenas 6% da população afirmou que é frequentemente convidado para os aniversários da vizinhança. Essa constatação da pesquisa aponta na direção do que acontece nos grandes centros urbanos, tendência que é própria do processo de urbanização. Com a urbanização as relações interpessoais tendem a se tornarem mais escassas e a participação da população na vida uns dos outros também vai desaparecendo, sendo que é a impessoalidade que predomina na dinâmica e frenética vida pautada no processo urbano.
Tabela 10 – Participação em eventos da vizinhança
Dorme antes das 22h 40,2%
Dorme após as 22h 59,8%
Total 100%
Vai frequentemente aos
aniversários na vizinhança
6%
Vai pouco frequentemente aos aniversários na vizinhança
26%
Não é convidado 68%
Total 100%
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Fonte: Pesquisa de campo. Bruno Luiz Philip de Lima, 2015.
O pouco tempo de moradia no lugar também é um fator de considerável interferência na convivência entre os moradores. Por essas áreas de novas periferias serem recentes, acreditamos que a tendência apontada pela pesquisa sobre a participação nos aniversários pode se modificar. Além do que o reduzido número de moradores por residência diminui a ocorrência dos festejos de aniversários e o crescente número de aniversários em casas de festas especializadas tem diminuído o número dos conhecidos aniversários de bairro ou de rua, nos quais os participantes são basicamente os moradores mais próximos.
Após a averiguação das vivências na vizinhança e na rotina das famílias, averiguamos sobre algumas práticas de consumo e a necessidade de deslocamento. Iniciamos por apresentar quatro itens básicos de consumo (pão, medicamento, gás e água) e verificar se eles eram adquiridos no bairro ou fora dele. Em todos os quatro itens a maior parte da população indicou que os adquire fora do bairro, demonstrando a pouca existência de estabelecimentos comerciais e de fornecimento de serviços diversos nas novas periferias urbanas. O medicamento e o pão foram os itens mais comprados fora das novas periferias, respectivamente, 84,8% e 74,6% da população necessita sair do bairro para adquiri-los. O garrafão de água mineral e o botijão de gás foram os itens mais presentes para serem comprados nas novas periferias, respectivamente 35,7% e 29,5%.
Tabela 11 – Compras no próprio bairro
Fonte: Pesquisa de campo. Bruno Luiz Philip de Lima, 2015.
Uma tradicional prática nas pequenas cidades, a feira livre, passa a dividir com os supermercados sua importância para os moradores das novas periferias, pois 43,7% dos entrevistados afirmaram que realizam as compras do mês exclusivamente no supermercado, e apenas 1,8% afirmou que compra exclusivamente na feira livre, contudo ainda foi elevado o
No bairro Fora Total
Pão 21,4% 78,6% 100%
Medicamento 15,2% 84,8% 100%
Botijão de gás 29,5% 70,5% 100%
Garrafão de água 35,7% 64,3% 100%
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quantitativo pesquisado que corroborou com a importância da comercialização realizada na feira livre, pois 54,5% afirmou que realiza as compras tanto nos supermercados quanto na feira livre da cidade.
Tabela 12 – Local de realização das compras mensais
Fonte: Pesquisa de campo. Bruno Luiz Philip de Lima, 2015.
Mas, foi sobretudo a dependência que os moradores das novas periferias urbanas têm do carro que nos chamou a atenção. Considerando que as três cidades não dispõem de serviço de transporte urbano público, o uso do automóvel assume destacada importância para o deslocamento da população. Dos pesquisados 63,4% utilizam o carro para realizarem as compras mensais e 42% também utilizam o automóvel para levar os filhos à escola. Apenas 11,6% e 4,8% da população vão à feira a pé e à escola, respectivamente. A necessidade de poupar tempo, de percorrer as distâncias das áreas de novas periferias até o centro e o receio de ser vítima de alguma violência ou assalto faz com que o automóvel seja a opção mais buscada por essa população.
Tabela 13 – Forma de deslocamento na ausência de transporte público
Fonte: Pesquisa de campo. Bruno Luiz Philip de Lima, 2015.
A infraestrutura em transporte ainda é bastante precária nas novas periferias, isso somado ao isolamento e a pouca acessibilidade de algumas dessas áreas faz com que o uso do carro seja imprescindível para alguns. Outros, porém preferem morar em situação de maior desconforto na habitação, pagando por um custo de vida mais caro, entretanto, permanecer
No supermercado 43,7%
Na feira livre 1,8%
Ambos 54,5%
Total 100%
Especificação Para fazer
compras Para ir à escola A pé 11,6% 4,8% De carro 63,4% 42% De moto 25% 29% Transporte escolar pago - 14,5% Transporte escolar gratuito - 9,7% Total 100% 100%
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nas áreas mais centrais da cidade, sem tanta necessidade de deslocar-se para usufruir de algum serviço ou realizar algum tipo de consumo.
Sendo assim, esse novo momento de expansão urbana tem conjugado a convivência dos moradores locais com os moradores de outras cidades atraídos para as novas periferias urbanas, promovendo uma maior diversidade socioeconômica e até cultural. Entretanto, diante dos elementos de infraestrutura precária que compõem as novas periferias e da caracterização do modo de viver de sua população, constatamos que a representatividade econômica dessas cidades não tem promovido as melhorias em infraestrutura necessárias nas novas periferias, embora seja um dos fatores mais relevantes para o surgimento e expansão de tais áreas de moradia.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Após todo o processo de análise e discussão acerca das novas periferias urbanas nas cidades de Nova Cruz, João Câmara e Santa Cruz cabe-nos elencar os pontos estruturantes
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que ao longo de toda a abordagem aqui realizada nos permitiram caracterizar e compreender seus impactos socioespaciais, a atuação dos agentes sociais envolvidos e, sobretudo, o perfil e a forma de viver das populações nelas residentes.
Ao ressaltarmos, por meio do presente estudo, a realidade das cidades principais da mesorregião Agreste Potiguar, chamamos a atenção para o crescente surgimento de novas áreas de periferia urbana como um processo de dinamização do espaço urbano local, promovendo transformações na infraestrutura urbana, na economia da cidade, no cotidiano da população e nas demandas do poder público, mesmo essas cidades sendo de pequeno porte e tendo enfrentado desde a crise das economias tradicionais – marcadamente a partir da década de 1970 – um longo período de desestruturação e fragilidade econômicas. Assim, a importância de um estudo que leva em consideração a mesorregião Agreste Potiguar, o seu processo de urbanização e o crescimento de suas cidades, se dá, sobretudo, devido a necessidade de investigar e conhecer os recentes fenômenos urbanos como o referido de surgimento de novas áreas periféricas em cidades de tamanho reduzido.
As novas periferias urbanas são, portanto, as recentes áreas de moradia surgidas nas áreas de expansão da cidade, sobretudo através do processo de destinação de grande quantidade de terrenos ou imóveis para a comercialização através da constituição de loteamentos que, por sua vez, despertam o interesse de uma parcela da população que, tendo acesso ao crédito imobiliário ou participando de programas de financiamento habitacional, adquirem a casa própria ou investem na aquisição de terrenos. Notadamente as novas periferias urbanas, aqui investigadas nas três cidades citadas, possuem uma estreita relação com o centro da cidade, a saber, devido à expansão da atividade comercial e dos serviços.
Como uma das principais consequências dessa expansão estão o aumento do preço dos imóveis no centro e o interesse dos proprietários de estabelecimentos comerciais em expandir seu ramo de atividade, necessitando de novos imóveis ou terrenos. A dinamicidade da área central das cidades está atrelada a processos estruturantes para o crescimento econômico das mesmas, como a expansão dos serviços – representada principalmente pela instalação de órgãos públicos – e a presença de novas economias de elevado impacto econômico, como são os casos de Santa Cruz e João Câmara, por meio do turismo religioso e do setor produtivo de energia eólica, respectivamente. Nesse sentido, a constituição das novas periferias urbanas nessas cidades só pode ser entendida em meio ao contexto de centralidade exercida por Nova Cruz, João Câmara e Santa Cruz, nas regiões em que estão inseridas. De modo específico cada um desses fatores, quais sejam, a centralidade urbana, a expansão da atividade comercial, a expansão dos serviços públicos e as novas economias locais, tem contribuído
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para o surgimento das novas áreas de periferia urbana nas cidades investigadas, marcadamente nesta última década.
O caráter distintamente diferente do surgimento das novas periferias urbanas, se comparadas às antigas áreas periféricas das cidades pesquisadas, apontou para a necessidade de composição de um aporte teórico que apresentasse variáveis relevantes para a investigação proposta.
Os diversos processos urbanos internos das cidades, como a expansão, dispersão e parcelamento do solo embasado na especulação imobiliária, aparecem também como os responsáveis pelo modelamento das novas periferias, surgidas em resposta às demandas oriundas das transformações estabelecidas na cidade, sejam elas ligadas a valorização do solo nas áreas centrais, a reserva de área para o mercado imobiliário, ao aquecimento da economia da cidade, ou ao incremento da atividade comercial e de serviços.
Os elementos da dispersão urbana que elencamos como essenciais para a compreensão das novas periferias urbanas são por nós considerados a partir da realização do necessário redimensionamento para a escala das cidades pequenas. Assim, são sobretudo a necessidade mais crescente do automóvel, a baixa densidade populacional e o próprio surgimento das novas periferias urbanas – em função do crescimento urbano da cidade – que permite-nos afirmar que as novas periferias urbanas nas cidades de Nova Cruz, João Câmara e Santa Cruz podem ser compreendidas e caracterizadas tomando-se como chave de análise a composição e estruturação do processo de dispersão urbana. Essa categoria de análise serviu-nos ademais para visualizarmos que a existência das novas periferias não se explica por si só, mas, está vinculada à função de comando que o núcleo urbano, e seu centro sobremaneira, exercem.
A referida categoria de análise tornou possível estabelecermos um elo entre a constatação do aumento da formação de novas periferias e seu processo de surgimento – além de seus consequentes resultados. Isso nos levou para mais duas outras variáveis que contribuíram para a compreensão da presente problemática: a produção social do espaço urbano e a vida cotidiana.
A produção social do espaço urbano nos possibilitou considerar o papel indispensável que a população residente e os atores sociais de produção do espaço urbano desempenham na constituição dessas áreas. A razão da aquisição do imóvel, a forma de viabilizar sua construção, o enfrentamento das precariedades urbanas e os pontos positivos do local de moradia são elementos que torna necessário o enfoque analítico baseado na produção social do espaço urbano, pois sem os sujeitos, suas ações e suas formas de viver, o espaço urbano analisado fica esvaziado, perdendo o sentido que apenas o fazer e o agir lhe atribuem.
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Na mesma medida, as circunstâncias da vida cotidiana possibilitaram a construção do perfil populacional presente nas novas periferias. Além de podermos demonstrar as transformações em curso das relações de vizinhança, de confiança, da forma de consumo, do tipo de mobilidade espacial predominante e da situação econômica, foi possível aferirmos o alcance do modo de vida urbano nessas populações em realidade específica de pequenas cidades centralizadoras de funções.
As pequenas cidades norte-rio-grandenses possuem como uma de suas principais heranças os resquícios de vida tradicionalmente vinculada ao campo e às relações sociais de pequenas localidades, fato este diretamente vinculado ao processo de formação territorial do estado, embora que no momento presente o aumento da urbanização tenha promovido inúmeras modificações nessas diversas cidades. Sendo assim, destacamos a pertinência de termos levado em consideração a vida cotidiana como categoria de análise do presente estudo acerca das novas periferias urbanas.
Adquire relevo, também, na sustentação de todo o processo da constituição das novas periferias a facilitação de obtenção de crédito, com destaque para o crédito imobiliário – sobretudo por meio do PMCMV – oferecido pelo poder público, devido ao alcance de sua importância. Tal constatação é reforçada exatamente pela concomitância da ampliação das políticas nacionais de habitação de interesse social, a partir do ano de 2005, e o rápido surgimento de empreendimentos imobiliários caracteristicamente estabelecidos como novas periferias urbanas nas cidades investigadas.
Na construção de nosso remonte analítico lançamos mão de estabelecermos uma abordagem urbana específica para as cidades investigadas. Por isso, conforme expusemos, o espaço urbano é por nós entendido como a categoria que, de modo privilegiado, sedia as transformações, os conflitos e os desdobramentos dos processos sociais na atualidade. Sendo, portanto, um modo de vida com materialização privilegiada nas cidades, o processo urbano nas pequenas cidades ocorre, sobremaneira, pelo destacado papel que as funções urbanas exercem para aquelas populações – tendo sido, principalmente, a centralidade presente nas cidades de Nova Cruz, João Câmara e Santa Cruz que permitiu o crescimento da importância dessas cidades nas microrregiões em que se encontram.
Diante de todo o exposto podemos atestar que nas novas periferias urbanas apesar do perfil econômico da população não ser baixo, em um primeiro momento a ausência de serviços e infraestrutura urbana é gritante. Isso ocorre devido à associação de diversos fatores como a localização delas no entorno da cidade, a pouca ocupação do solo, a baixa eficiência dos órgãos públicos competentes, entre outros.
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Também é observável que em algumas dessas áreas periféricas a presença desse potencial mercado consumidor faz surgir em um segundo momento estabelecimentos comerciais de pequeno porte, sejam eles supermercados, panificadoras ou lojas de material de construção, e, gradualmente a rotina de mobilidade da população dessas áreas vai sendo modificada. Antes da vinda de qualquer atividade comercial ou de serviços para esses bairros periféricos, a população necessita, diariamente, realizar um considerável deslocamento para usufruir dos serviços da cidade: frequentar escola, realizar compras, utilizar serviços bancários etc.
Apenas em um terceiro momento é que a infraestrutura e os serviços urbanos de responsabilidade da administração pública se fazem mais presentes nas novas localidades periféricas por meio da pavimentação das ruas, da abertura de postos de saúde ou de outro serviço público destinado à essa nova população, por exemplo. Ademais, o poder público em muitos casos é praticamente ausente nessas áreas tornando lenta a valorização imobiliária. A presença ou não do aparelhamento público ou privado nessas áreas periféricas é um elemento definidor na valorização ou desvalorização desses bairros e das regiões no seu entorno, contribuindo significativamente ou entravando a continuidade desse processo de crescimento urbano.