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Transformações Sociais e o Papel do Estado

No documento Capitalismo e desigualdade (páginas 59-72)

Serviços Finais

1.5 Transformações Sociais e o Papel do Estado

Após salientar a importância crescente dos serviços pessoais para a vida urbana, é preciso atentar para a transformação promovida pela introdução dos bens de consumo duráveis nas casas. A despeito da exigência de muitos dos serviços serem providos fora das unidades familiares numa cidade – como o transporte e a alimentação do trabalhador –, em seus primórdios diversos serviços ainda eram

obrigatoriamente realizados em casa. Uma parte significativa da alimentação, a limpeza da casa, das roupas, o cuidado dos filhos pequenos etc. ainda precisavam ser feitas em casa, numa divisão do trabalho familiar em que as mulheres se encarregavam de todos estes84. Isto ocorria em grande medida pelo baixo nível de

renda, que impossibilitava a compra de produtos e serviços e também por estes ainda não terem se disseminado largamente – eram caros e escassos85.

Dessa forma, produzia-se em casa tudo que fosse possível, o que incluía desde a produção dos alimentos e das refeições até a construção da residência e seus reparos, a fabricação de velas, sabonetes, escovas, brinquedos, roupas, móveis e camas. Com a produção industrializada destes a partir de fins do século XIX, a produção artesanal domiciliar foi substituída pela industrial dos grandes conglomerados. Mas este movimento ainda não foi suficiente para liberar as mulheres para o mercado de trabalho. Com as mudanças nos padrões de conforto e com a percepção da necessidade de um padrão de higiene superior, o trabalho doméstico demandou novas exigências para com a limpeza do lar e o cuidado dos filhos – a descoberta dos germes como causadores das doenças teve grande papel aqui86.

Entretanto, tal situação foi radicalmente alterada nos EUA a partir dos anos 1920: com a introdução dos bens de consumo duráveis como a máquina de lavar, o fogão elétrico, o ferro elétrico de passar roupa, a geladeira, a máquina de costura elétrica, o aspirador de pó etc. houve uma verdadeira revolução na produtividade das

84 Sobre o emprego de serviçais domésticas na primeira metade do século XX nos EUA, ver

STIGLER (1946).

85 “Prior to American industrialization, when consumer goods were largely imported and

expensive, families produced most of what they consumed. They raised their own food, processed some for storage, and prepared their daily meals. They built their own homes and produced household goods, such as soap, candles, brooms, toys, furniture, and mattresses. They also produced their own thread, cloth, and apparel. The appearance of inexpensive commercial substitutes for many of these products, along with the advent of American industrialization and improvements in internal transportation, prompted many families to abandon home production and purchase from the market much of what they had formerly produced at home” (CARTER, 2006, p. 2-27).

tarefas do lar (Tabela 2)87. Com a disseminação em massa destes numerosos bens de

consumo duráveis associada à geração de bens públicos (energia elétrica residencial, água encanada, gás, ruas asfaltadas, estradas etc.), a autoprodução de diversos serviços pessoais ganhou grande produtividade, por um lado, e também se ampliou, por outro – o automóvel e as ruas e as estradas permitiram que as pessoas realizassem seu próprio serviço de transporte88. O resultado deste processo foi a

possibilidade de a mulher casada trabalhar fora de casa, posto que foi liberada de diversas tarefas do lar pelo aumento da produtividade.

Tabela 2: Produção de Bens de Consumo Duráveis dos EUA, Produtos Selecionados, 1929

Produto Produção Anual

Máquinas de Lavar Roupa 956.000

Rádios 4.980.000

Refrigeradores 890.000

Carros* 4.455.100

*No caso dos carros, o número se refere às vendas do ano de 1929.

FONTE: CAMBRIDGE UNIVERSITY PRESS (2010). Elaboração própria.

Anteriormente, trabalhar fora de casa se restringia aos anos em que a mulher ainda não havia casado mas já havia completado os seus estudos, e era fenômeno mais intenso nas camadas de renda mais elevadas89. Evidentemente, desde o século

XIX as esposas e filhas de pessoas mais pobres, que eram doentes, deficientes, acidentadas, desaparecidas ou mortas, tinham a obrigação de trabalhar. Isto se refletia na elevada diferença nas taxas de participação entre as mulheres solteiras, que se encontravam disponíveis e precisavam trabalhar fora do lar, e as mulheres

87 Sobre o papel do crédito para a expansão das vendas de bens duráveis, especialmente para

automóveis, ver OLNEY (1987), OLNEY (1989) e OLNEY (1999).

88 “In domestic services, entertainment, and transport, households have been shifting away from

the traditional labour-intensive modes of provision, away from the purchase of final services, and towards the innovative goods-intensive modes. Presumably, we would see even more determined shifts in this direction for the 1950s and 1960s; nevertheless, during the 1970s, people were buying fewer laundry services and more washing machines, fewer cinema tickets and more TVs, and, though less obviously, fewer travel tickets and more cars” (GERSHUNY & MILES, 1983, p. 100).

casadas, o que foi reduzido com grande intensidade desde a década de 1920, o que corrobora a hipótese aqui levantada (Figura 14).

Figura 14: Taxa de Participação das Mulheres no Mercado de Trabalho dos EUA, 1880-1970

FONTE: CAMBRIDGE UNIVERSITY PRESS (2010). Elaboração própria.

Ademais, como boa parte dos novos serviços necessários à vida urbana não podia ser provida em casa, as mulheres precisavam obter alguma renda para poder trocá-la por seguros diversos, planos de saúde, automóveis, educação superior etc. Esta revolução incentivou a ulterior expansão de todo tipo de serviço pessoal mercantil como a lavanderia, a creche, a empresa de limpeza etc. Entretanto, este é apenas um lado da questão, posto que não bastava apenas o aumento da disponibilidade das mulheres para o trabalho fora de casa. Mudanças culturais, sociais e comportamentais, que resultaram de muitas lutas políticas, foram extremamente importantes para que a mulher conquistasse espaço e voz fora do lar. Além disso, o capitalismo monopolista teve importante papel aqui, também ao abrir espaços para a entrada da mulher no mercado de trabalho em dois grandes ramos

66,8 58,3 0 10 20 30 40 50 60 70 80 1880 1900 1910 1920 1940 1950 1960 1970 1980 1990

principais: as ocupações de escritório, fundamentalmente a secretária, e o trabalho do comércio como vendedora.

É importante enfatizar que a entrada no mercado de trabalho urbano dos serviços é diferente do emprego industrial por exigir um patamar mínimo de escolaridade – como o emprego de colarinho-branco foi o que mais se expandiu, isto significou que se exigia “mais capacidade mental e menos esforço físico” (WRIGHT MILLS, 1951, 1979, p. 262) e, portanto, mais educação nos novos postos de trabalho. Muitas das qualificações necessárias como saber ler, escrever, se comunicar adequadamente e fazer contas um pouco mais elaboradas podiam ser aprendidas ao longo do ensino secundário, o que no caso dos EUA, país com alfabetização praticamente universal desde os anos 191090, impulsionou a busca por mais

educação.

A educação fundamental e secundária se disseminou rapidamente ao longo do século XX e praticamente se universalizou nos anos 196091 (Figura 15). Isto ocorria

em meio a um movimento em que a instrução se apresentava como uma possibilidade de ascensão social à grande maioria da população, sendo ao mesmo tempo uma garantia de estabilidade social muito mais firme que a propriedade. A escola pública, portanto, assumiu um papel de grande destaque neste processo de ascensão social ao longo do século, atingindo 81,0% de todos os estudantes em 1960. Ela também abriu novas portas para as mulheres no mercado de trabalho como professoras. Ou seja, ao mesmo tempo em que a escola permitia melhores oportunidades de inserção social aos seus estudantes, ela também criava oportunidades a milhões de mulheres que ansiavam por entrar no mercado de trabalho92.

90 “Among persons 14 years of age and older, the percentage illiterate in 1910 was only 7.7[%]”

(CARTER, 2006, p. 2-20).

91 GOLDIN (2006(2010)), p. 2-394.

92 Em 1970, 5,3 milhões de pessoas trabalhavam na educação pública dos EUA e eram em sua

Figura 15: Porcentagem da População de 5 a 17 Anos Matriculada no Ensino Fundamental e Secundário e Porcentagem das Matrículas do Setor Público no Total

da População, EUA, 1890-1960

FONTE: MACHLUP (1972). Elaboração própria.

O ensino superior se expandia ainda mais velozmente93 e atingia 33,5% da

população de 18 a 21 anos em 1960, sendo 58,9% deles em instituições públicas94.

Este número de universitários era esmagadoramente superior ao de qualquer outro país desenvolvido, inclusive em termos percentuais, a despeito de a qualidade da educação ser significativamente inferior em todos os níveis a de países como o Canadá e a Grã-Bretanha95. Dessa forma, era comum que os mais jovens tivessem

mais anos de educação formal que os seus chefes e patrões. Como havia expansão dos empregos de melhor qualidade, era recompensador estudar o máximo possível, pois isto permitia uma inserção ainda melhor no mercado de trabalho para os mais

93 “Enrollment of undergraduates increased from 231,761 in 1900 to 3,235,000 in 1960, or 14-fold;

of graduate students from 5,831 to 332,000, or 57-fold” (MACHLUP, 1972, p. 77). É importante ressaltar que a principal fonte de fundos para a educação superior sempre foi o Estado, majoritário nas matrículas, e responsável por 44,3% de todos os gastos com ensino superior em 1958 (MACHLUP, 1972, p. 85).

94 Anexos, Figura E.

95 Anexos, Figura F. A porcentagem de universitários nos EUA chegava a ser quase 4 vezes maior

que a do Canadá, segundo colocado entre os países desenvolvidos. No que se refere à qualidade da educação, ver MACHLUP (1972), cap. 04.

0 20 40 60 80 100 120 1870 1880 1890 1900 1910 1920 1930 1940 1950 1960 Matrículas (% do Total) Público (% do Total)

talentosos e competentes. Era certo que os indivíduos mais bem educados obtinham melhores empregos, mas muitas vezes o desenvolvimento intelectual criava dificuldades: trabalhar em escritórios, onde as atividades rotineiras e aborrecedoras eram comuns, era extremamente frustrador.

Mas numa sociedade em movimento, a educação cumpria um papel democratizante ao abrir o acesso a essas novas ocupações de classe média: se ela não igualava plenamente as oportunidades, ao menos reforçava a mobilidade social que era possibilitada pelo crescimento do emprego de colarinho-branco da grande empresa e do Estado. Como a ampliação da educação foi massiva, o sentimento de igualdade social se tornava mais forte, apesar de o caráter da educação ter se modificado: cada vez menos uma escola para formar cidadãos num mundo democrático e cada vez mais uma formadora de vencedores e especialistas num mundo mercantilizado96.

Mesmo sob este rumo, a escola ainda cumpria outro papel importante ao retirar os jovens do mercado de trabalho por diversos anos, o que o tornou mais estreito e mais favorável às pessoas que nele se encontravam.

Este importante papel cumprido pela educação só foi possível porque a intervenção estatal nos Estados Unidos assumiu grande proeminência ao longo do século XX, principalmente a partir do governo de F. D. Roosevelt (1933-1945), eleito 4 vezes seguidas presidente. Com uma intervenção mais pesada na atividade econômica e na geração de emprego97, Franklin Roosevelt combateu a Grande

Depressão, regulou as finanças e tributou fortemente as altas rendas e a propriedade98. De acordo com SAEZ & PIKETTY (2003), a apropriação da renda por

parte dos 10% mais ricos caiu de 49,3% da renda total em 1928 para a faixa de 32-

96 WRIGHT MILLS (1951(1979)), p. 284.

97 Apesar dos grandes avanços sociais obtidos pelos EUA após a eleição de Franklin Roosevelt e

durante todo o pós-guerra, eles são modestos quando comparados aos europeus. Para a situação inglesa e comparações com o que ocorreu na França e Alemanha, ver MARSHALL (1965(1967)) e CASTEL (1995(1998)). No caso de uma visão mais geral sobre os diversos países da Europa e EUA, LASH & URRY (1987), cap. 02 e 03. Sobre a visão de um dos principais formuladores do Estado de Bem-Estar ao longo de sua criação na Suécia, ver MYRDAL (1975).

98 Ver SCHLESINGER JR. (1958(2003)) e SCHLESINGER JR. (1960(2003)). Sobre as

transformações econômicas da economia americana no pós-guerra, ver também GALBRAITH (1967(1997)).

35% do total nos anos 50 (Figura 16). A mudança na correlação de forças políticas na sociedade americana foi profunda e alterou significativamente a estruturação social dos Estados Unidos, o que seria visto com maior clareza nas décadas subsequentes – período conhecido como a Grande Compressão99.

Figura 16: Apropriação da Renda dos EUA por parte dos 10% Mais Ricos e por parte dos 0,01% Mais Ricos, 1917-1970

FONTE: PIKETTY & SAEZ (2010). Elaboração própria.

O New Deal, a partir de 1932, elevou a importância do Estado na geração de empregos e acelerou a tendência de incremento do emprego público presente desde os anos 10; mas as reformas implementadas por F. D. Roosevelt100 só chegariam à sua

plenitude com o crescimento econômico e o aumento progressivo da carga tributária ocorrido no pós-guerra101. O emprego público ajudou a minorar o grande desemprego

99 GOLDIN & MARGO (1992).

100 Sobre o governo Roosevelt e sobre a vida de F. D. Roosevelt, ver SCHLESINGER JR.

(1957(2003)), SCHLESINGER JR. (1958(2003)) e SCHLESINGER JR. (1960(2003)). Sobre o New Deal, ver MAZZUCCHELLI (2009), cap. 07 e SHONFIELD (1965(1969)), cap. 13.

101 “O New Deal criou um Estado de Bem-Estar, porém inferior aos criados em outros países ricos,

especialmente no que diz respeito à saúde. Os sindicatos tiveram que lutar por benefícios do setor privado para preencher as lacunas” (KRUGMAN, 2007, 2010, p. 137).

49,3 32,6 5,0 1,3 0,0 1,0 2,0 3,0 4,0 5,0 6,0 0,0 10,0 20,0 30,0 40,0 50,0 60,0 1913 1918 1923 1928 1933 1938 1943 1948 1953 1958 1963

que assolou o país após a crise de 29 e que atingia 15,3% da população trabalhadora em 1940, gerando empregos de classe média e com obrigatoriedade de formação universitária – a proporção de trabalhadores com esse nível educacional no serviço público era de 31,0% em 1970, o dobro da do setor privado102. Com as bases

proporcionadas pelo New Deal, o Estado americano no pós-guerra gerou empregos em larga escala, principalmente no setor educacional, ultrapassando os 13,0 milhões de empregos, o que perfez uma participação de 15,6% no total da ocupação, praticamente dobrando seu peso ao longo do período 1940-1970 e se tornando o segundo setor mais importante para o emprego dos Estados Unidos103. Isto não por

uma necessidade técnica, mas como resultado da luta política por um melhor mercado de trabalho, por mais educação e por maior igualdade social104.

Esta ação política intensa, profunda e duradoura não encontra correspondência na ideia de Sociedade Industrial, dado que ela não é fruto do desenvolvimento técnico, mas sim da disputa política, não só de um governo progressista e preocupado em transformar um país imerso no caos e desespero em uma nação mais civilizada e próspera, mas também de movimentos sociais e sindicatos que apoiavam e eram apoiados pelo Estado. Se após a Revolução Russa, a Grande Depressão e as duas Guerras Mundiais a pressão dos sindicatos e o medo do comunismo105 tornaram o capitalismo mais civilizado na Europa Ocidental, nos

Estados Unidos foram os liberais106 apoiados nos movimentos sindicais e civis, na

tradição do excepcionalismo americano, que promoveram reformas e colocaram travas no funcionamento destrutivo e desregulado da economia.

102 PETERS (1985), p. 247

103 “Voltando ao quadro mais amplo, a área de crescimento mais relevante entre os empregos, de

1947 para cá, foi a do governo. De cada seis trabalhadores americanos de hoje, um está empregado em uma das 80000 entidades, aproximadamente, responsáveis pelo governo dos Estados Unidos em nossos dias” (BELL, 1973, 1977, p. 153).

104 Ver SCHLESINGER JR. (1958(2003)) e SCHLESINGER JR. (1960(2003)).

105 “Masterman disse da classe alta, ou ‘conquistadores’, que ‘o medo dela, hoje em dia, é o

socialismo; socialismo que ela não entende, mas que apresenta como uma revolta dos ignorantes invadindo, subitamente, suas casas’” (MARSHALL, 1965, 1967, p. 196).

Deste modo, no pós-guerra, o movimento de estruturação social e ocupacional do desenvolvimento capitalista apresentado nos itens anteriores foi acelerado pela rápida expansão econômica, ao mesmo tempo em que foi também bastante alterado pela participação do Estado, que gerou grandes burocracias de controle e passou a prover nova gama de serviços ao público. Sem o peso do Estado e dos movimentos sociais e sindicais em seu apoio, a poupança de trabalho característica do capitalismo teria redundado em grandes excedentes de pessoas sem perspectivas de emprego, o que aumentaria a desigualdade e as possibilidades dos mais ricos viverem do trabalho barato desta massa sobrante.

Como o Estado regulou a economia e gerou emprego em grande escala, diversas conquistas sociais foram obtidas ao longo do pós-guerra. Por exemplo, o aumento do tempo obrigatório de estudo para os mais jovens e a ampliação da previdência social para os mais velhos também fizeram as oportunidades de emprego se tornarem melhores para as pessoas. Isto significou melhores salários, condições de vida e trabalho, além de perspectivas de ascensão profissional e de aposentadoria digna na velhice – o Estado americano provia renda para 26,3 milhões de pessoas em 1972, equivalente a um terço da força de trabalho107. Outro indicador

desta evolução é o número de desempregados nos EUA, que caiu de 8,1 milhões em 1940 (15,4% do total da força de trabalho) para 4,7 milhões em 1970 (5,6%)108. E um

dos pontos principais foi a redução da jornada de trabalho, que caiu de 58,5 horas semanais para 42,0 ao longo dos anos 1900-1970 (Figura 17)109. Em termos anuais,

este processo de redução da jornada é mais significativo, pois os trabalhadores progressivamente se beneficiaram de férias remuneradas e licenças por motivos de saúde, gravidez etc.110

107 PETERS (1985), p. 256. 108 Anexos, Tabela E.

109 A este respeito, ver CAMBRIDGE UNIVERSITY PRESS (2010). 110 A este respeito, ver SUNDSTROM (2006).

Figura 17: Jornada de Trabalho Semanal dos EUA, 1900-1970

FONTE: CAMBRIDGE UNIVERSITY PRESS (2010). Elaboração própria.

Sintetizando a discussão, o desenvolvimento capitalista ao longo do período tratado levou a tal desenvolvimento da divisão social do trabalho que o emprego necessário à produção da vida material declinou com vigor no campo e mudou de natureza na indústria, reduzindo consideravelmente o trabalho produtivo e braçal. Com o crescimento da renda urbana, o emprego se espraiou para os serviços finais devido ao aumento das necessidades pessoais num mundo de cidades cada vez maiores, unidades familiares menores e tarefas mais divididas. Consequências destes processos foram a grande diminuição do desemprego e a sensível melhora nas condições de vida e trabalho da grande maioria da população estadunidense.

A estruturação do emprego nos EUA no pós-guerra seria significativamente diferente se o Estado não tivesse impulsionado o crescimento econômico e não tivesse assumido grande e crescente peso na economia e no emprego, criando grandes burocracias de controle e provendo serviços como educação. Ao mesmo tempo, ao também retirar grandes parcelas da população do mercado de trabalho através da ampliação da educação obrigatória e da previdência social, criou uma nova e mais civilizada estrutura ocupacional, social e urbana. Os novos empregos agora eram limpos, bem vistos, urbanos e muito melhores que os da vida rural e que os do chão da fábrica. Mas ainda assim a labuta diária era monótona, tormentosa,

58,5 40,6 42,0 30 35 40 45 50 55 60 1900 1910 1920 1930 1940 1950 1960

cansativa e embotadora – era melhor que o trabalho de antanho, apesar de ainda estar muito longe de representar uma expressão criativa e rica da vida humana, dado que era fruto de uma necessidade exterior, a de sobrevivência.

Dessa forma, constituiu-se um novo mundo econômico e social nas cidades americanas. Se o trabalho ainda era proceloso, o movimento que levava à ascensão social e o progresso geral prometiam um mundo cada vez melhor: com melhores empregos, maior renda, mais e melhores bens de consumo e muitos novos serviços à disposição. Esse parecia ser o paraíso: um mundo dos serviços em que o progressivo domínio da natureza parecia encaminhar a sociedade à liberdade, à igualdade e à fraternidade buscadas por séculos. O mundo vislumbrado pelos movimentos socialistas e comunistas parecia se concretizar dentro dos marcos do capitalismo, mas este momento único na história humana sofreu uma interrupção abrupta e desde então o que se viu foi uma contínua degradação da situação social e o abandono dos sonhos de um mundo melhor para a grande maioria da população – o que será o objeto de análise do próximo capítulo.

Capítulo 2: Crise do Capitalismo Regulado e o Novo

No documento Capitalismo e desigualdade (páginas 59-72)