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2.3 Social Network Analysis (SNA)

2.3.2 Mecanismos para formação de redes no contexto do empreendedorismo

2.3.2.3 Transformando redes interpessoais para redes interorganizacionais

Um dos problemas ainda sem resolução, como apontado por Stam et al (2013) é em explicar como o capital social individual se transfere para o nível organizacional, visto que é comum empregar redes sociais pessoais para se explicar fenômenos no escopo das organizações. A transição das redes interpessoais para redes interorganizacionais, entretanto, foi explicada por Larson e Starr (1993) no contexto da formação de novos empreendimentos. As autoras apresentam um modelo socioeconômico evolucionário para a constituição de uma nova organização, donde um conjunto de relações de troca, inicialmente simples e unidimensionais, são transformadas num conjunto mais denso e complexo de relações – ou redes – estáveis e multidimensionais25. A formação de uma nova organização resultaria então da cristalização de relações de troca estáveis, ou seja, da estabilização das ligações que conectam os diversos agentes constituintes da rede.

Diferentemente de outros modelos, focados em explicar os elos formados somente entre empresas/organizações maduras, o apresentado aqui parte de etapas muito anteriores e por muitas vezes negligenciadas na literatura sobre empreendedorismo, o período denominado pré-organizacional (LARSON e SATARR, 1993). A sintetização do processo é ilustrada na Figura 2.

Esse modelo apresenta três estágios distintos, donde o primeiro estágio seria marcado pela predominância de relações interpessoais unidimensionais. Nesse estágio o

empreendedor buscaria os recursos iniciais em suas relações preexistentes, i.e., com ex- colegas de trabalhos e o seu círculo de pessoas próximas de parentes e amigos. Nos estágios posteriores, entretanto, os relacionamentos vão se tornando mais complexos e estáveis. Relacionamentos a priori unidimensionais vão se tornando bidimensionais, ou seja, aqueles contatos que o empreendedor inicialmente estabeleceu com amigos ou parentes vão gradativamente acrescentando um caráter econômico. O processo inverso também é observado: os primeiros clientes, fornecedores ou investidores também passam a criar laços afetivos com o empreendedor. A estabilidade da rede vai se desenvolvendo ao passo que cada elemento vai conhecendo os demais em um processo iterativo. A cada rodada de iterações são criadas normas, senso de confiança e reciprocidade. Durante esse período de exploração e aprendizado, as partes constroem, testam e aprimoram contratos sociais e econômicos cada vez mais complexos (LARSON e STARR, 1993).

Figura 2: Modelo em rede para formação de novos empreendimentos

i.: rede formada pelo empreendedor e outros indivíduos;

ii.: rede formada entre o empreendedor, a nova organização e demais indivíduos e organizações.

Fonte: LARSON e STARR (1993)

Depois dos estágios descritos acima ocorre a “cristalização da rede” 26

e isso significa a constituição de um novo empreendimento. Essa cristalização depende do estabelecimento de uma massa crítica de elos diádicos que serão a base para a formação do novo empreendimento, marcado por um maior nível de estabilidade e previsibilidade. A partir desse estágio aumenta a importância e ocorrência das redes feitas entre organizações, ou seja,

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Network Crystallizaton, no original. Analogias com esse processo podem ser encontradas nos conceitos de closure (BURT, 2010) e clusterization.

redes ampliadas por relacionamento interorganizacionais que vão além da rede formada inicialmente pelo empreendedor individual e sua rede pessoal (LARSON e STARR, 1993).

No início os elos importantes eram feitos entre o empreendedor e demais indivíduos, ao passo que com a cristalização da rede essa passa a ser formada também por relacionamentos entre o novo empreendimento e demais organizações. Importante pontuar, que durante essa transição, a estrutura formada serve como base para a conduta esperada dos agentes formadores da rede, ou seja, cria certas normas internas para a firma nascente. Nas palavras das autoras

Enquanto os indivíduos continuam a gerenciar e moldar os processos de troca e o empreendedor ainda pode estar pessoalmente envolvido, o caráter das díades de troca muda de ênfase de trocas pessoais para mais organizacionais. […] [As ligações] são cada vez mais independentes do empreendedor-fundador. O gerenciamento desses relacionamentos pode ser delegado aos subordinados. Esse processo de reorganizar as relações entre organizações a partir dos relacionamentos da rede pessoal do empreendedor é facilitado pelo contexto social que já foi estabelecido. As normas e expectativas que agora estruturam os processos de troca tornaram-se a maneira aceita de fazer negócios dentro da rede. Essas interações formalizadas substituem as relações idiossincráticas e personalizadas anteriores, gerenciadas exclusivamente pelo empreendedor. (LARSON e STARR, 1993)27

O processo descrito acimo se assemelha ao proposto por Sarasvasthy, como é possível verificar no trecho

Finalmente, à medida que o conceito do negócio e a estratégia de implementação se tornam mais refinados, o empreendedor seleciona a ampla gama de fontes de recursos possíveis para uma massa crítica de díades necessárias que fornecerão recursos suficientes para o lançamento do empreendimento. Assim, nesse primeiro estágio, certos relacionamentos são selecionados, outros são descartados, outros continuam a evoluir e novos são adicionados. (Sarasvathy, 2003, p. 8)28

27 Tradução nossa para: “While individuals continue to manage and shape the exchange processes and the entrepreneur still may be personally involved, the character of the exchange dyads shifts in emphasis from a personal to a more organizational exchange. […] [The linkages] are increasingly independent of the entrepreneurial founder. The management of these relationships can be delegated to subordinates. This process of layering the organization-to-organization relationships onto the entrepreneur's personal network relationships is facilitated by the social context that already has been established. The norms and expectations that now structure the processes of exchange have become the accepted way of doing business within the network. These formalized interactions replace the earlier idiosyncratic and personalized relationships that were managed solely by the entrepreneur.”

28 Tradução nossa para: “Finally, as the business concept and strategy for implementation become more refined, the entrepreneur culls the wide range of possible resource sources to a critical mass of necessary dyads which will supply sufficient resources to launch the venture. Thus, in this first stage, certain relationships are selected, others are dropped, others continue to evolve, and new ones are added.”