• Nenhum resultado encontrado

Transformar e domesticar: uso de categorias relacionais

3.2 Nossos outros: os napëpë pelos Yanomami

3.2.3 Transformar e domesticar: uso de categorias relacionais

A dificuldade em utilizar as categorias exógenas (“ìndio/branco”) incorporadas no diálogo interétnico indica que os conceitos yanomami que presumivelmente as traduzem (Yanomami/napë) não lhes são equivalentes. Assim como foi destacado para os conceitos sanuma, as noções yanomami de Nós e Outros exprimem posições dentro de uma relação, não

identidades reificadas e previamente definidas. Torna-se, pois, necessário complexificar o esquema do espaço sociopolítico representado como círculos concêntricos que podem visualizar identidades essenciais, não enfatizando suficientemente noções e figuras nativas.

Kelly (2011) mostra a natureza relacional, contextual e dinâmica das categorias yanomami de Nós e Eles, e analisa os processos de contato interétnico à luz da teoria da relacionalidade generalizada, que reflete a forma da sociabilidade amazônica, pela qual, como escreve Viveiros de Castro (2011, cap. 8), a consanguinidade, construída a partir do dado genérico da afinidade e o Outro, é imanente e incorporável ao Eu.

O termo napë, no campo convencional yanomami, indica alteridade, carregando um sentido de inimizade, e pode ser aplicado a um estrangeiro, um não Yanomami ou um inimigo potencial. Com este termo, conforme Lizot (2004), constroem-se expressões que podem ser traduzidas por: demonstrar hostilidade (napëmou), partir para um conflito (napë huu) ou agredir alguém (napë keo). No contexto que envolve o não Yanomami, o termo pode ser usado para se referir aos não indígenas e para compor expressões que – conservando certo sentido de aversão – indicam o conhecimento sobre os estrangeiros ou a imitação de seu comportamento (napëaɨ, napëmou) e o processo de “virar napë” (napëprou).

É importante salientar que, segundo indicado por Kelly (2011), nas categorias de classificação yanomami o conceito napë é estritamente relacional e perspectivacional – se refere à posição que uma pessoa ou um grupo assume em relação a outro –, e que o padrão de relação yanomami/napë, longe de ser equivalente ao binômio “indìgena/branco”, não se restringe apenas à interação entre um Yanomami e um não Yanomami, mas se reproduz entre os próprios indígenas, nas situações em que alguns performam-se napë, enquanto outros performam-se Yanomami.

Com o conceito de napë, ocorre o mesmo que se observa em relação aos termos indígenas de classificação, cujo uso é análogo aquele dos pronomes. Como observado por Elias ([1970] 2005), os pronomes permitem a formulação de conceitos relacionais, superando noções naturalizadas. Ao analisar o uso dos pronomes yanomami, nota-se que o mesmo termo é utilizado para indicar sujeitos distintos, em diferentes redes de relações: o pronome kami yamakɨ pode significar: 1) Nós, corresidentes, 2) Nós, membros do conjunto multicomunitário de aliados, ou 3) Nós, Yanomami, dependendo se a figuração desenhada contrapõe o Nós ao kaho wamakɨ indicante: 1) Vós, aliados, 2) Vós, inimigos, 3) Vós, não Yanomami/napëpë.

O estudo da perspectiva nativa sobre a alteridade – este Outro diferente de Nós – e sobre a relação com o não indígena, deve considerar que este contato desencadeia mudanças em vários níveis de vida das comunidades nativas, contudo, tais transformações não devem ser tomadas em contraposição à existência prévia de uma sociedade indígena supostamente estática. Conforme aponta Perez (2011), a respeito da disposição Yaminawa – povo da família linguística Pano, habitante nos estados de Amazonas e Acre, na Bolívia e no Peru – de se tornar outro, o processo de alteração implicado pelo contato com a sociedade envolvente não é apenas inevitável, porém, em certo sentido, é até desejado e conduzido nos marcos indígenas.

Como destaca Vilaça, o “outro/branco” – mantido como inimigo, apesar de próximo – pode ser o modelo de um processo de transformação dos Wari‟, que lhes permite “„ser Brancos‟ sem abrir mão de ser Wari‟” (2000, p. 58). A autora afirma que para os Wari‟ esta dupla identidade se inscreve no corpo que, sujeito de transubstanciações e metamorfoses, possibilita ter simultaneamente um corpo wari‟ e um corpo “branco”. Nestas metamorfoses, os vestidos são o modo wari‟ de se tornar “branco” e os enfeites são o modo “branco” de se transformar em Wari‟: adereços e roupas são recursos de diferenciação do corpo para transformações metafísicas.

Se por corpo entende-se, com Viveiros de Castro (2011, p. 380), o feixe de afetos e afeções, capacidades e modos de ser, que “é a origem das perspectivas”, a transformação em outro, vivida pelos Wari‟, implica, juntamente com a nova identidade, a assunção de sua própria perspectiva – podendo ser inclusive a adoção do cristianismo e do ponto de vista dos missionários – sem com isso implicar contradição da cultura nativa (VILAÇA, 2008).

Kelly (2005), fundamentado nas descrições do espaço sociopolítico yanomami de Albert e na teoria da alteridade e do parentesco ameríndio de Viveiros de Castro, analisa dois processos mutuamente implicados e realmente indígenas: a “domesticação do branco” e a “transformação em branco” (o virar napë). Conforme o autor, ambos falam de diferenciação, mas enquanto o primeiro acontece no contexto do espaço convencional Yanomami, o outro – inovação e extensão da convenção – acontece num novo espaço, surgido ao lado do primeiro, para conceitualizar as relações com os não indígenas. Este novo espaço se estrutura por níveis diferentes ao longo de um eixo de transformação napë.

A dupla identidade que Vilaça reconhece entre os Wari‟ encontra seu correspondente na hibridação ou dualidade yanomami/napë que permite aos Yanomami assumir uma posição napë em relação a outros Yanomami, ou uma posição yanomami, quando isso for proveitoso, frente aos não indpigenas. A hibridação yanomami, conforme defendido por Kelly

(informação verbal) não corresponde a uma fusão consumptiva das diferenças, mas implica conservação da alteridade – os polos extremos do eixo de transformação: napë yai, napë verdadeiro e Yanomae yai, Yanomami verdadeiro – necessária à produção de pessoas que exibem uma dupla identidade, podendo, as pessoas, ocupar sem contradições as posições de napë ou yanomami em cenários distintos: virar napë sem deixar de ser Yanomami.74

O artifìcio da “domesticação dos brancos” remete, para Kelly (2001), à teoria da relacionalidade generalizada convencional. Sendo as pessoas, na concepção ameríndia, transformáveis, a domesticação consiste em remover artificialmente a alteridade inata – o ser napë: dado como a afinidade potencial ameaçadora e perigosa – e “virar Yanomami” – fruto da agência humana – comportando-se de forma mais humana e moral (KELLY, 2005).

Em nenhum dos casos – quando o yanomami assume a posição de napë ou quando o não indígena é domesticado – é desejável, nem possível, levar a termo o processo de virar outro. Como os Wari‟ escolhem não levar a termo o processo de transformação evitando o casamento com os “brancos” (VILAÇA, 2000), os Yanomami, embora domesticando os napëpë, os mantêm à distância necessária a fim de preservarem a utilidade da posição que ocupam.

Se para os Wari‟ a inimização é reversìvel (VILAÇA, 2000, p. 65), para os Yanomami, os napëpë são “domesticáveis” quando se aproximam voluntariamente das convenções indígenas que regem o comportamento moralmente adequado, sendo – por extensão criativa da convenção yanomami que admite a incorporação do desconhecido – progressivamente incluídos ao reino da humanidade (KELLY, 2005).