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3 PT EM DISPUTA: DO “SOCIALISMO” À ESTRATÉGIA DEMOCRÁTICO POPULAR ELEITORAL

4.2 O transformismo petista: governar para mudar ou mudar para governar?

A transformação do PT numa máquina de administração capitalista jamais poderia ser demonstrada apenas pelas movimentações da direção do partido, ainda que isto tenha tido um peso importante. Apesar da intenção da Articulação em transformar o PT num partido eleitoral e em que pese toda a operação que foi feita para concretizar isso, jamais se pode dizer que tudo dependeu da simples vontade da ala reformista. Como tudo na realidade, a história de um partido é a história das suas posições, mas também da sua prática, da conjuntura que atravessou o seu desenvolvimento, de como se sustenta materialmente, sua relação com o movimento das classes, sua composição social, etc. Foi, portanto, a dinâmica do conjunto desses componentes que fez o PT ser o que é hoje.

Inclusive, todo o conjunto dos movimentos realizados pela Articulação – a mudança das posições políticas, o enquadramento das tendências, a supressão dos núcleos de base, a existência de uma luta teórica para fazer crer que o giro à direita do partido era necessário e condizente com uma proposta de “socialismo”, etc. – relacionou com os momentos históricos, as mudanças na conjuntura e o estabelecimento de vínculos na realidade. Basta dizer que durante a década de 1980, a opção dos reformistas foi de tentar frear as posições claramente ligadas à idéia de revolução, mas, no entanto, incorporando um programa de ruptura, afirmando a importância do classismo e defendendo uma idéia – ainda que vaga – de “socialismo”. Naquela circunstância, marcada por um forte ascenso da classe trabalhadora e por uma fase de consolidação do PT, a realidade impedia uma inflexão mais aguda.

Já após as eleições de 1989, a Articulação muda a postura até então adotada e intensifica a sua inflexão em direção à conciliação de classes e ao reformismo de maneira explícita, além dar início a um duro processo de disciplinamento das tendências. Mas isto só foi possível porque a quase vitória eleitoral de Lula contra Collor, o processo de adaptação pelo qual passava o partido à frente das prefeituras, o fim do chamado “socialismo real” e o início de uma conjuntura de refluxo davam base de sustentação para que a política da ala majoritária concretizasse definitivamente, naquele momento, a transformação definitiva do PT. Por outro lado, apesar da forte inflexão, pouco tempo depois do I Congresso Nacional do partido (1991), com a expulsão da Convergência e a ruptura de dissidências no seio da Articulação – que havia girado demais à direita e, por isso, perdeu momentaneamente a direção do PT –, a ala hegemônica se sentiu obrigada a qualificar o seu debate e sustentar suas posições em base a teses supostamente “marxistas” e de “defesa do socialismo”, para tentar re-aglutinar ao redor de si os setores vacilantes.

No mesmo sentido, o aprofundamento do processo de transformação do PT após as eleições gerais de 1994 também foi resultado não apenas da crescente ânsia da ala reformista do PT em chegar ao governo. Essa intenção já existia desde a década de 1980 e isso foi demonstrado à exaustão, no entanto, era o desenvolvimento da conjuntura e da dinâmica da luta de classes que empurrava aqueles que já tinham claro qual a sua visão estratégica para assumir cada vez mais essas posições na realidade.

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Conforme assegura SINGER (Ibidem, p. 64), “o impeachment de Fernando Collor, em setembro de 1992, parecia prenunciar o melhor dos mundos para o PT na eleição presidencial de 1994. O partido, embalado pelas pesquisas que apontavam Lula com mais de 40% das intenções de voto”, estava confiante na vitória. O país atravessava uma crise profunda de governo, com a confiança no Executivo abalada pelas denúncias de corrupção e devido às massivas mobilizações populares que exigiram a queda de Collor – contrariando a conjuntura aberta pela queda dos estados operários do Leste Europeu, ao explodir como um pico de ascenso em meio a uma tendência geral de refluxo que se desenvolvia. Além disso, o país vivia uma escalada inflacionária violenta, variando entre taxas de 30% e 40% ao mês. Com a confirmação do impeachment e a chegada de Itamar à Presidência da República, apesar da vacilação inicial da Articulação – que dialogava com o PSDB e cogitava a possibilidade de não se opor ao novo governo –, o PT acaba assumindo seu papel de oposição e capitalizando eleitoralmente boa parte da insatisfação popular.

Em maio de 1993, Fernando Henrique Cardoso (FHC) assume o Ministério da Fazenda do governo Itamar Franco, com o compromisso de acabar com a inflação. FHC e sua equipe implantaram o Plano Real, um plano de estabilização da economia que, dentre outras coisas, estabelecia a abertura econômica para facilitar uma maior oferta de produtos (e assim baixar os preços), a desindexação da economia41, a valorização do câmbio e o aumento da taxa de juros. Embora a política de FHC no ministério seja marcada também por uma forte contenção de despesas públicas (o que pavimentou o terreno para as privatizações e os planos de demissão dos trabalhadores nas estatais mais adiante), o Plano Real conseguiu, nos poucos meses que antecederam das eleições, reduzir e estabilizar a inflação (seu objetivo principal), gerando uma sensação de alívio para o povo. O êxito inicial do plano tornou FHC o homem mais poderoso do governo Itamar, além de seu candidato natural à sua sucessão. Assim, FHC elegeu-se Presidente do Brasil em outubro do mesmo ano, contrariando as aspirações do PT.

41 Após anos de inflação recorrente, os agentes econômicos passaram a indexar os preços aos índices de

inflação. Assim, os preços iam aumentando conforme o índice da inflação, com repercussão na moeda, que também precisava ser constantemente “valorizada” para que o poder aquisitivo da população não caísse bruscamente. A principal ação da desindexação promovida por FHC no governo Itamar foi a adoção da URV (Unidade Real de Valor), que era definida diariamente através de um cálculo, usando como base uma média diária de inflação envolvendo uma cesta de índices inflacionários, cuja conversão era obrigatória. Desse modo, os preços deixaram de ser corrigidos automaticamente pela inflação e em poucos meses os índices inflacionários caíram de patamares que chegavam a quase 50% ao mês, para uma média que variava entre 4% e 7%.

A derrota eleitoral e a força do governo recém eleito deram mais espaço para Articulação e demais setores reformistas reclamarem por uma política ainda mais moderada, a ponto de membros da direção do partido se sentirem à vontade para expressar suas similaridades com o PSDB, como demonstra o artigo de WEFFORT (1994, grifos e comentário nossos), publicado no dia seguinte após o resultado das eleições na Folha de São Paulo, com elogios explícitos a FHC:

Se sua obra [de FHC] permite alguma previsão sobre a sua conduta futura, esta será a de um chefe de Estado empenhado na modernização e na

democratização da sociedade brasileira. Ele desejará que o país

continue crescendo mas que seja menos injusto – esse é o ponto. Significa dizer, desde logo, que quem quiser fazer oposição ao novo governo,

supondo que seu presidente é um conservador, estará tomando o caminho errado.

Na verdade, a imensa maioria do PT foi surpreendida pelo Plano Real (que deslanchou num momento muito próximo das eleições) e pela força da candidatura FHC, que havia conquistado a vitória em primeiro turno. Mas, no momento do balanço, durante o X Encontro Nacional do partido (1995), a fatura pela derrota foi cobrada da maioria da esquerda petista que havia ganhado a direção do partido no encontro anterior. Este balanço foi utilizado de forma muito incisiva não apenas em função da disputa pela direção do partido, mas sobretudo para sinalizar a necessidade de mais inflexões à direita:

... A vitória de Fernando Henrique Cardoso, no primeiro turno das

eleições de 1994, constituiu-se em um duro golpe para o Partido dos Trabalhadores, para as esquerdas e para as forças populares no Brasil.

[...]

[...] A avaliação dos resultados das eleições deve ser feita no marco mais geral de uma análise profunda de suas causas, que seja capaz de determinar o peso de fatores conjunturais, as responsabilidades da

Direção Nacional, em particular da Coordenação da Campanha, mas

também os fatores estruturais que existiam há muito tempo, bem antes das eleições. Esta avaliação, já iniciada, deve ser dura, descarnada, não

deixando espaço para atitudes auto-complacentes por parte do Partido.

Não pode ser, no entanto, a ocasião para mesquinhos ajustes de conta. [...]

[...] A despeito dos avanços de nosso Programa de Governo, que buscou construir uma alternativa ao neoliberalismo e ao nacional- desenvolvimentismo, não tivemos condições de levar nosso programa

às grandes massas e perdemos a batalha no campo das idéias. Esta

derrota viu-se fortalecida pelo peso que passou a ter o plano antiinflação, cuja eficácia subestimamos, ainda que pouco pudéssemos fazer em direção contrária.

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[...] A derrota de 1994, entre outras lições, convida a uma reflexão mais

crua sobre nossa imagem na sociedade, sobre o efeito exterior de nossas lutas internas, sobre as ambigüidades políticas e ideológicas que

temos, sobre nossas dificuldades em realizar um ajuste de contas mais

severo com as duas heranças socialistas deste século: o comunismo e a

social-democracia. (FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO, 1995a,

grifos nossos)

Mais uma vez, a realidade oferecia as condições para a concretização de mudanças no PT. O único ponto positivo avaliado pelo partido no X Encontro Nacional foi justamente o fato do PT ter conseguido “aumentar sua representação no Congresso para 50 deputados e cinco senadores” (Idem, ibidem), além de pela primeira vez eleger “dois dos seus militantes para governar estados” (Idem, ibidem). Com isso, as pressões institucionais aumentavam e o aprofundamento das condições externas e internas reconduziria a hegemonia ao chamado Campo Majoritário – uma composição da Articulação com a tendência Democracia Radical, oriunda da antiga Nova Esquerda, esta por sua vez uma das alas que se constituiu após a dissolução do PRC42 – já neste X Encontro Nacional. E a partir daí, o Campo Majoritário demonstraria que sua mão seria muito firme na centralização do partido:

... não se deve transformar a avaliação do último período num ajuste de contas revanchista. Apontar os limites e erros cuja evidência, de resto, dispensam comentários, deve constituir-se em um gesto construtivo, visando sua superação. Embora a responsabilidade maior pelos erros e

acertos de direção caiba à atual maioria, as minorias não podem deixar

de assumir sua parte.

[...] Transcorridos dois anos, verifica-se enorme distância entre a

proposta vitoriosa no 8º Encontro e a realidade efetiva do Partido.

[...] A nova direção, marcada pela falta de um projeto coerente e pela carência de solidariedade interna, foi incapaz de elaborar e viabilizar políticas que permitissem ao Partido superar os seus impasses organizativos e políticos. A situação, que em 93 já era preocupante, agravou-se.

[...] A tendência à burocratização, à primazia da luta interna sobre a luta política e social contra nossos adversários, a desconfiança e suspeição generalizadas, afastaram ainda mais o Partido da vida e da agenda real de nosso povo.

[...]

42 A Nova Esquerda surgiu do PRC (Partido Revolucionário Comunista), que em 1989 definiu sua dissolução em

função da evolução de posições que defendiam a ruptura com o marxismo, impactados pelo fim da União Soviética e a queda dos estados operários do Leste Europeu. No início dos anos 1990, a Nova Esquerda segue aprofundando sua crítica ao marxismo e se alinha às posições da Articulação, agora sob o nome de Democracia

Radical (DR). Tendo José Genoíno como seu principal quadro, a DR define em 2001 se dissolver na Articulação.

Uma análise da evolução do PRC até se transformar em Democracia Radical pode ser encontrada na obra Uma

A governabilidade do Partido depende da constituição de uma direção

que tenha legitimidade e autoridade políticas e seja capaz de formar maiorias para tomar decisões e executá-las. Esta governabilidade só

será legítima se a minoria acatar e implementar as decisões tomadas pelas instâncias partidárias e a maioria respeitar os direitos das minorias.

(Idem, 1995b, grifos nossos)

Com o Campo Majoritário no controle, o PT consegue mais avanços eleitorais em 1996. Apesar das perdas das prefeituras em Belo Horizonte, Goiânia, Rio Branco, Santos e Diadema, “com a maior influência no interior, o número de prefeituras governadas pelo PT crescerá em 100% no pleito de 1996, indo para 115 dentre os 5.378 municípios” (SINGER, 2001, p. 62).

O crescimento eleitoral de 1996 aumentou as expectativas para as próximas eleições presidenciais em 1998. Apesar de duras medidas neoliberais como a venda da mineradora estatal Vale do Rio Doce e a quebra do monopólio estatal das telecomunicações (privatização da Telebrás) e do petróleo, a popularidade de FHC era muito alta, devido à estabilização da inflação com o Plano Real.

O governo de fato tinha o apoio da população, a ponto de se sentir à vontade para encaminhar uma proposta de lei que dava direito a FHC se reeleger mais uma vez. Contudo, há um ano antes das eleições, durante o XI Encontro Nacional, o PT avaliava que esse quadro estava se alterando e que derrotar FHC era possível: “A despeito da atual correlação de forças, que começa a mudar, vamos disputar as eleições para vencer” (FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO, 1997). Por outro lado, pressionado pelo prestígio de FHC, o PT aprofundava a sua capitulação às necessidades eleitorais. Apesar de dizer que era necessário “dar continuidade à construção de proposta programática e candidatura única, que expressem alternativa ao neoliberalismo” (Idem, ibidem), o PT cedia ao apelo do “Estado mínimo” ao afirmar que “o governo lança mão de privatizações, destruindo o patrimônio nacional, [mas] sem que se formule uma estratégia de política

industrial e desenvolvimento alternativo” (Idem, ibidem, grifo e comentário

nossos); ou seja, o problema não era mais privatizar, e sim, se havia alguma alternativa administrativa possível frente às políticas neoliberais.

A consolidação dessa adaptação da proposta programática ao senso comum seria selada no ano seguinte (1998), durante o Encontro Nacional Extraordinário, que foi chamando para homologar a chapa Lula-Brizola nas eleições:

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O Programa Lula-98 não é um Plano de Governo, ainda que reúna suas diretrizes fundamentais. [...] Deve ter um texto coerente, sólido teoricamente, realista e que leve em conta a correlação de forças

sociais e políticas do País. Para cumprir sua função mobilizadora, deve

propor alterar essa correlação de forças. É bom lembrar a reflexão de Lula

após a derrota de 1994: “para mudar o País não basta ganhar as eleições; para ganhar as eleições é necessário mudar o País.” O Programa deve perseguir esse objetivo de mudar a relação de forças. O Programa não se confunde com o programa socialista do PT ou com

os dos outros partidos da Frente. Suas reivindicações se inserem em uma transformação de longo prazo e refletem o Brasil e o mundo que queremos, ainda que esses objetivos não sejam alcançados no prazo de um governo. [...]

[...]

O Programa deve ser de fácil entendimento, breve, sintético e centrado

nas questões fundamentais. [...]

O Programa deve ser concreto, com objetivos e metas, se possível quantificadas. Deve mostrar de onde virão os recursos, que obstáculos

jurídicos e políticos existem e como serão superados.

O resultado deve ser um documento que tenha credibilidade e aponte para soluções originais. ... (Idem, 1998, grifos nossos)

Apesar das palavras de “oposição ao neoliberalismo”, das promessas de fazer política “sem subordinar-se aos humores do eleitorado” (Idem, ibidem), a prática do PT já não tinha mais nenhuma correspondência com esse discurso. O partido, que nas eleições de 1994 adotou o slogan “Feliz 94” para evitar ser relacionado com qualquer perfil radical, na prática se curvava política e programaticamente a uma conjuntura que havia girado à direita.

A avaliação de que a “candidatura FHC tem densidade eleitoral, está articulada com o grande empresariado, tem apoio internacional, recursos, tempo de TV e rádio e uma ampla coligação de partidos” (Idem, ibidem) significava, portanto, a busca por superar o adversário eleitoral no mesmo terreno e com os mesmos métodos, buscando mais votos e financiamento, articulando com a burguesia e ampliando o arco de alianças. Além da continuidade da “Frente com o PSB e PCdoB, ampliando-a para o PDT, sem descartar alianças com personalidades do PMDB que se opõem ao neoliberalismo e ao governo FHC” (Idem, ibidem), o próprio acordo do PT com o PDT (candidatura de Brizola a vice-presidente) pressupunha que “em troca o PT deveria apoiar a candidatura de Anthony Garotinho [...] no estado do Rio de Janeiro” (GARCIA, 2011, p. 99). A ampliação das bases eleitorais da candidatura de Lula era o objetivo a ser perseguido, valendo para conquistar isso fazer qualquer negócio.

Mas, apesar de todo o esforço em tornar o PT cada vez mais aceitável aos olhos de um eleitorado conservador e simpático a FHC, numa conjuntura de refluxo, a eleição de 1998 foi praticamente uma reedição de 1994, com mais uma vitória do PSDB no primeiro turno.

“A chapa Lula-Brizola obtém 31,7% dos votos válidos, o que equivale à soma do que os dois haviam tido, separados, em 1994” (SINGER, 2001, p. 66) e apesar de um avanço considerável na conquista de postos institucionais (o PT elege três governadores de estado, 58 deputados federais e mais 3 senadores), a terceira derrota eleitoral de Lula abatia o PT e empurrava-o mais à direita. Prova disso é que no ano seguinte, quando realizou seu II Congresso Nacional e aprovou o Programa da Revolução Democrática para a construção de um Brasil livre, justo e solidário, o PT já se posicionava abertamente pela sua integração à lógica capitalista no mundo, resgatando o velho projeto nacional-desenvolvimentista defendido pelos partidos comunistas que até então era rejeitado em palavras nas resoluções do partido:

Para realizar esse ambicioso programa de transformações sociais e políticas é fundamental que o Brasil ocupe outro lugar no mundo.

A compreensão teórico-política dos processos de globalização, acentuados nos últimos anos, coloca a necessidade de conviver com a economia

mundial desde uma perspectiva soberana. Isso significa que para vincular-

se à economia mundial é necessário, ao mesmo tempo, construir um

projeto nacional de desenvolvimento. (FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO, 1999, grifos nossos)

Além do abandono de qualquer traço anticapitalista em seu programa, era visível que ali o PT já estava totalmente contrário a “desrespeitar a institucionalidade” burguesa e que o partido já havia alterado qualitativamente a relação com os movimentos sociais e com qualquer espécie de manifestação mais radical. As posições do PT durante o declínio do governo FHC confirmam isto.

Já no primeiro ano do segundo mandato (1999), FHC via sua popularidade cair vertiginosamente. Os resultados do Plano Real não se mostravam mais consistentes, o efeito efêmero da estabilidade havia chegado ao fim junto com uma forte crise na economia internacional. Apesar do controle inflacionário inicial bem sucedido, a implementação das medidas econômicas de juros elevados e baixo investimento estatal, associadas a um câmbio sobrevalorizado, gerou, ao longo dos anos, um acúmulo de problemas econômicos estruturais.

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Com o real sobrevalorizado em relação às demais moedas, o déficit comercial e o enfraquecimento da indústria nacional foram inevitáveis. Os setores importadores da economia foram fortalecidos diante da facilidade para a compra de produtos em dólar em detrimento dos setores exportadores, cujos produtos ficavam mais caros e cujas vendas no exterior caíam. Como conseqüência disso, se avolumou o saldo negativo na balança comercial e um baixo crescimento do PIB, associados a um processo de desindustrialização. Os juros elevados, por sua vez, era a política adotada pelo governo para manter o fluxo de capitais estrangeiros no país, para tentar equilibrar a balança de pagamentos.

Manter o funcionamento dessa política significava, portanto, injetar recursos na manutenção do câmbio e seguir com altas taxas de juros, cujas fontes de custeio eram o aumento do endividamento público e os recursos obtidos pelos processos de privatização das empresas estatais. Quando desatou a crise econômica na Ásia (1997), seguida da crise russa (1998), o preço das commodities exportadas pelo Brasil caiu vertiginosamente e o crédito externo foi reduzindo, dificultando a captação recursos no exterior. Como os recursos oriundos das privatizações já não eram mais suficientes para manter o câmbio sobrevalorizado estável, o choque de preços no exterior fez esse desequilíbrio se tornar ainda maior, começando um ciclo de desvalorização da moeda brasileira a partir de 1999.

Essa desvalorização da moeda, combinada com o conjunto de medidas neoliberais de FHC instalaram uma recessão no país, impondo o aumento do desemprego, dos impostos, dos cortes nos investimentos sociais e do arrocho dos salários dos trabalhadores. Isto faz com que a popularidade de FHC despenque e as possibilidades de construção de uma alternativa de governo encabeçada por Lula se abram, com um amplo setor de classe média se posicionando contra a política