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A abrangência deste tema é diversa. Entenderemos como transgressões as violações cometidas no dia-a-dia do mundo do trabalho que ferem a lei, os costumes e a disciplina dos códigos que regem a vida sindical que afloram nas fontes pesquisadas. Neste sentido, os problemas com a embriaguez dos sócios, a quebra da hierarquia, os conflitos internos referentes à gestão do sindicato, as pequenas fraudes e roubos, e as táticas usadas tanto pelo sindicato quanto pelos sócios de burlar a lei para se beneficiar de direitos serão contemplados. Quanto às punições, as mesmas vão desde as advertências verbais, suspensões no trabalho e dos gozos sociais, até as intervenções no sindicato feitas pela autoridade competente. Para isso, a recorrência às atas, processos criminais e depoimentos dos trabalhadores serão as fontes utilizadas.

Um dos problemas que ocupam várias passagens do conteúdo das atas do SEPC é o alcoolismo. Mesmo que não se tenha registro de uma reflexão maior sobre o tema, tratando da questão como um aspecto a ser vencido e que de fato interfere na execução e nas relações de trabalho, não deixa de ser preocupante o relato de vários momentos na vida sindical onde a ingestão de bebidas é descrita como fator perturbador da ordem. Antes de entrarmos nesses relatos, é preciso compreender que o alcoolismo entre os trabalhadores portuários, muitas vezes, é tratado pela historiografia como preconceito, mergulhado em generalizações que o apontam como aspecto próprio de sua cultura. Em algumas descrições, por exemplo, os portuários da cidade de Santos são marcados por

andar descalços ou de tamanco, e muito afeitos ao consumo de álcool. Muitas vezes, essas observações evoluem para se estigmatizar estes trabalhadores como turbulentos e perigosos. 280

Convocada para os domingos, as sessões ordinárias aconteciam às nove horas da manhã. Situada na orla marítima, a sede do Sindicato dos Estivadores fica defronte para o Rio Coreaú e a Pracinha do Amor, a dois quarteirões do Mercado Público e a três do cais do porto. Passar antes pelos botequins e bodegas do mercado ou dos cafés da beira do cais para “matar o bicho” era “de lei” para os estivadores. Na gíria da estiva, era bom “esquentar os couros” antes de uma sessão para dar coragem de falar alguma coisa perante os companheiros. 281 No entanto, não se bebia somente aos domingos. Na sessão de 4 de setembro de 1957, realizada às 19:00h, uma quarta feira, diante da algazarra na platéia o presidente, “verificando que havia vários companheiros alcoolizados, fez sentir aos mesmos que assim estivessem não tivessem a ousadia de pedir a palavra que a

mesma seria cassada”.282 Aqueles que beberam com esse intuito tiveram que somente

ouvir ou voltar para a rua e “completar o tanque”.

O hábito de beber levava a outros contratempos, como o de interferir no ritmo normal da burocracia do sindicato e criar dificuldades para o sócio com a perda de documentos importantes. Neste sentido, o presidente adverte que os mesmos não portassem documentos quando estivessem bebendo para evitar esse inconveniente ou extraviá-los. Cita sem constrangimento o caso do sócio Antonio Ricardo Pereira que “a poucos dias achando-se embriagado e conduzindo sua carteira de saúde perdeu a mesma não encontrou-a, portanto, um fato dessa natureza tanto é prejudicial para o associado, como traz dificuldades ao sindicato”.283

Outras vezes, o alcoolismo no local de trabalho trazia problemas com os capatazes que tinham de explicar pequenos desvios de mercadorias nos porões dos navios. Os pequenos furtos serão abordados mais à frente. O foco aqui é o relacionamento destas pequenas subtrações com os casos de embriaguez. Na sessão de

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SILVA, Fernando Teixeira da. Op. cit, p.129. O terceiro capítulo, “Estado de Natureza” e cultura portuária, analisa mais detidamente os aspectos historiográficos que tratam dessa questão.

281 Percebidas em conversas informais com trabalhadores do porto, estas gírias, contudo, ainda podem ser ouvidas na beira do cais ou no mercado público, onde trabalhadores tomam “umas e outras” enquanto “descolam” algum “bico” para levar o “dicomer” para casa.

282 SEPC/ASO, 4 de setembro de 1957, Livro 1, p.1. Camocim-CE. Grifos nossos. As gírias usadas neste parágrafo não são exclusividades dos estivadores e são bastante correntes entre os bebedores contumazes do Mercado Público e de outros pontos da cidade, assim como de outras cidades e estados.

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13 de dezembro, o sócio Idelfonso Ferreira Lima pede aos encarregados que levassem ao conhecimento do sindicato deste tipo de infração para agir “antes das partes chegassem nas agências”.284 Mesmo reprovando este tipo de comportamento, nota-se que a direção do sindicato, de alguma forma, queria preservar a imagem da categoria estivadora, punindo ela mesma os infratores.

Nem mesmo os presidentes escapavam de serem acusados de relapsos, devido ao consumo de álcool. Verifica-se nas atas que os membros da diretoria do sindicato realizavam freqüentes viagens, duas ou três por ano para regularizarem a documentação e a contabilidade do sindicato nos órgãos competentes em Fortaleza. Numa dessas viagens, o presidente Raimundo Nonato Monteiro deve ter encontrado companheiros no Porto de Fortaleza e tomado “umas e outras” como é de praxe nessas ocasiões. Citado em ata, defende-se dizendo “... que não estava bebendo cana como muitos diziam, pois estava era tratando de fato de suas obrigações, pois brincava, mais era homem responsável para todos os efeitos, pois tinha trazido todos os documentos para provar que não era o que diziam”. 285 De certa maneira, o sócio aludido mostrava que era possível fazer o uso recreativo do álcool sem descuidar de sua responsabilidade administrativa.

A questão do alcoolismo parecia mesmo estar na ordem do dia. Por vezes, a advertência do presidente funcionava como uma sessão de aconselhamento. Diante dos companheiros, o conselho adquiria características paternalistas como a de pedir a um filho que deixasse “por menos” o vício que lhe prejudicava. Desta forma, o presidente Joaquim Paulo da Silva chama o sócio Antônio Nunes e “passou a lhe dar conselhos”, fazendo um apelo “para ele deixar por menos aquela bebida”. 286

Maurício Lacerda Rego (mais conhecido como Maurício Rego) se destacaria no sindicato como um conhecedor das leis e da burocracia sindical. Quando presidente, no período compreendido entre 1961 a 1963, procurou estender ao Fiscal Geral a autoridade de penalizar companheiros que insistiam em trabalhar embriagados. Neste sentido, nomeia por um ano para esta função, o sócio Cândido Simplício de Farias, com “ordem para suspender em nome da Diretoria imediatamente para que haja moralidade no serviço”. 287 Não muito diferente de outros presidentes, deparou-se com a situação de

284 SEPC/ASO, 13 de dezembro de 1959, Livro 1, p.43. Camocim-CE. 285 SEPC/ASO, 21 de fevereiro de 1960, Livro 1, p.62. Camocim-CE. 286 SEPC/ASE, 21 de agosto de 1966, Livro 2. Camocim-CE. 287

aplicar suspensões em companheiros por assistirem às sessões embriagados. Fernando José de Carvalho e João Nunes Chaves são suspensos por quinze dias por estes motivos. Noutra ocasião, segundo registra a ata, a persistência do sócio Raimundo Nonato Monteiro em fazer inúmeras solicitações ao presidente e este pedir que se conservasse calado face ao seu estado de embriaguez, “o Sr. Prezidente, viu-se obrigado suspender de seus gozos sociaes por 15 dias o citado associado e como este achando-se prejudicado, procurou desconsiderar o Sr. Prezidente, a ponto do Sr. Prezidente proclamar mais 15 dias”.288 Intolerâncias à parte, assim seguia a atmosfera das reuniões

do SEPC.

Ao assumir a presidência em 21 de julho de 1968, José Maria de Carvalho se deparava com outro problema que envolvia os adoradores de Baco. Ao receber as contas do tesoureiro anterior, Raimundo Rodrigues Monteiro, constatava um desfalque de NCr$ 146, 91, sendo que destes, Ncr$ 96,00 só de “vales emitidos por meia dúzia de associados e entre estes alguns viciados”. A questão gera uma interpretação dos Estatutos do SEPC na condenação e defesa dos acusados. Segundo o então presidente, o artigo 12 preceitua a pena máxima para essa infração e só não era aplicado integralmente ao companheiro devido seu “espírito humanitário” ou mesmo por causa do pedido de “clemência ao Presidente para os faltosos” feito pelo sócio João Joaquim da Silva.

O ex-tesoureiro se compromete a pagar seu débito amortizando em 50% dos seus proventos no trabalho de estiva, assim como aqueles que emitiram vales. Na defesa do companheiro citado anteriormente, Manuel dos Santos evoca o artigo 10, parágrafo 7, do mesmo estatuto, no que é contraditado pelo sócio Maurício Rego, que afirmou que o artigo 12 “superava a este, dando outras providências na qual achava-se baseado o Sr. Presidente, com o qual estava de acordo”.289

Infelizmente não se pode localizar este estatuto para se fazer uma análise mais detalhada da letra da lei, contudo, depreende-se da ata que a tese defendida por Maurício Rego prepondera na discussão. O aspecto a ser ressaltado nisso tudo é que este tipo de falta cometida por pessoas detentoras de cargos na diretoria e por “alguns viciados” denuncia a extensão do problema do uso lícito da droga. Talvez raciocinando por este ângulo, os companheiros tendem sempre em relativizar ou amenizar as faltas cometidas por causa do uso do álcool.

288 Idem, p. 111 v.

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Nos eventos comemorativos, a ingestão de bebidas também trazia problemas. Numa das comemorações de aniversário do sindicato, o presidente ressalta uma baixa no patrimônio material, dizendo que “vários sócios usaram de uma beberagem e dentre estes um sócio de espírito malino deu fim na bacia do lavatório, e que estava trabalhando para descobrir o autor ou autores”. 290 Aqui se percebe a associação do álcool com atitudes de vandalismo a ponto de dilapidar o próprio patrimônio da categoria. A citação em ata da travessura do sócio ou dos sócios em correlação com o objeto subtraído dá uma dimensão da relevância que estes problemas tinham para o sindicato.

Era mesmo difícil contornar os problemas ocasionados pela ingestão da bebida. Sem entrar por enquanto no mérito dos processos de lesão corporal e homicídios envolvendo trabalhadores, um outro aspecto era a presença de sócios trabalhando embriagados ou mesmo o consumo de álcool nos locais de trabalho. Neste sentido, o presidente José Maria de Carvalho adverte o sócio Sebastião Marques, ressaltando que o mesmo vinha ameaçando dar-lhe uma surra após o seu mandato. 291 Outro presidente, Veridiano Rosendo da Cruz, chama a atenção do capataz nos serviços de salinas dizendo que se encontrar sócios alcoolizados trabalhando, denuncia-os aos agentes das firmas contratantes. O capataz Joaquim Paulo da Silva alegou dizendo “que é vendido bebidas na salina por uma mulher que vende café” e que a ele não era possível proibir.

Os problemas provocados pelo alcoolismo aliados às outras questões de relacionamento interno entre os sócios deixavam os presidentes vulneráveis quanto à sua segurança pessoal. A valentia de alguns sócios foi se consolidando na beira da praia e nos locais de trabalho terminando por se atribuir ao estivador em geral a condição de “valentão”. Isso acaba por respingar nas relações internas do sindicato. Neste sentido, é que presidentes chegaram a pedir garantias de vida aos delegados de polícia, como Thomaz de Aquino Cavalcante diante das pressões que vinha recebendo no ano de 1957. Assim ficou registrado na ata: “... o Snr. Presidente está na eminência (sic!) de pedir garantias ao Delegado para andar armado para melhor garantir sua vida contra a sanha de algum agressor, conforme está sentenciado”. 292

Os problemas com o uso do álcool nos locais de trabalho, registrados na documentação, atravessam todo o período pesquisado. Já no apagar das luzes, em 1978,

290 SEPC/ASE, 11 de agosto de 1968, Livro 2. Camocim-CE. Grifos nossos. 291 SEPC/ASE, 19 de maio de 1969, Livro 2. Camocim-CE.

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vão-se encontrar ainda ofícios enviados à Capitania dos Portos, informando suspensões a sócios faltosos. Não podendo mais contornar os problemas criados pelo sócio Luis Carlos Bernardino em várias ocasiões de trabalho, o presidente Francisco das Chagas Carvalho comunica a decisão de afastá-lo por 4 (quatro) trabalhos de estiva e do rodízio de capataz ao Agente da Capitania dos Portos, circunstanciando-a:

A – No serviço de estiva do dia 05/11/77 à bordo do N/M ALM. SÍLVIO MOTA (...) o associado (...) encontrava-se no mesmo trabalho (...) portando (1) garrafa de bebida alcoólica bebendo e oferecendo aos trabalhadores do terno da estiva.

B - No serviço de estiva do dia 03/04/78 fora de barra à bordo do N/M MIROLIMA, o associado (...) foi ao trabalho e lá chegando limitou-se a procura de um leito para dormir pois estava com muita ressaca e não participou do trabalho, achando ele que os companheiros tinham obrigações de trabalhar por ele.

C - No dia 10/05/78 quando em chamada para o trabalho de estiva à bordo do N/M BARÃO DO RIO BRANCO, o associado (...) tumultuou o ambiente do Sindicato, com especulações em desrespeitos aos atos da diretoria.293

Seria talvez extenso relacionar todos os casos registrados envolvendo sócios alcoolizados nas mais diversas situações. Por outro lado, as várias advertências contidas nas atas, mesmo não se referindo diretamente à embriaguez, podem ter se originado neste aspecto e omitidas pelos secretários. Há casos em que o mesmo sócio é advertido mais de uma vez. As correspondências de outros sindicatos do país aconselhando ou mesmo pedindo que selecionassem melhor os associados para mandar trabalhar em outros portos é uma evidência de que tenham cometido alguns deslizes sob efeito do álcool.

Contudo, um último ponto merece destaque nessa discussão – o ponto de vista dos trabalhadores. Embora o registro de suas falas não tenha aqui o intuito de absolvê- los ou justificar o uso do álcool no ambiente de trabalho, em algumas conversas informais que tivemos e entrevistas que fizemos com estivadores, os mesmos relataram que, às vezes, as condições adversas enfrentadas nos locais de trabalho os levavam a ingerir bebidas. Segundo estes depoentes, os rigores do clima ou a natureza das cargas, sejam em Camocim ou outros portos do país, só dava para encarar o trabalho bebendo. Afora esse aspecto, a maioria era seduzida pelos prazeres da vida noturna das cidades

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portuárias onde trabalhavam, e, entre copos e corpos iam trilhando suas histórias como homens da beira do cais.

Por outro lado, o registro intenso de delitos cometidos pelos estivadores nas atas do sindicato revela uma preocupação do braço sindical em disciplinar o trabalho, talvez sintonizada com a lógica patronal, ou mesmo na defesa de uma imagem ordeira da categoria. Assim, o uso do álcool se tornar incompatível com esses princípios norteadores dessa lógica, que não leva em conta o aspecto recreativo, as relações de sociabilidade encontradas nos ambientes dos cafés e botequins da orla marítima, onde os trabalhadores podiam expressar suas expectativas, negociações e desilusões com o trabalho.

O bar de José Trévia (Dedim Trévia) na Praça da Estação, com seu estoque variado de bebidas e uma grande sinuca, era um ponto de encontro dos chapeados a espera do horário do trem com passageiros e bagagens disputando a féria do dia (como fazia todas as tardes o folclórico poeta-estivador Magalhães Nogueira Neto) dos trabalhadores do porto enquanto aguardavam o chamado para algum serviço no cais, trocando informações ou tramando algo. Nas sombras das tamarineiras e castanholeiras, da mesma forma, uma pausa para um trago de cachaça, um gole de café, uma merenda rápida (tapioca, peixe, espetinhos etc.) eram aperitivos estimulantes para se colocar a labuta diária em discussão, ou jogar conversa fora, movimentando o dia e deixando algum dinheiro para as mulheres que exploravam o negócio, como Benedita Pindá. Na Praça do Mercado (atual Pinto Martins), com clientela mais variada, o Bar Pindorama dominava a cena pela variedade de pessoas que lá freqüentavam. Enfim, lugares onde o consumo de álcool não pressupunha propriamente o cometimento de pequenos delitos, prevalecendo o aspecto recreativo.

Todavia, os problemas de indisciplina no trabalho contidos nas atas não diziam respeito somente ao uso do álcool. Observa-se que a quebra de uma hierarquia está presente tanto no “chão do cais”, como nas reuniões sindicais. Nas atas, pululam as evidências desses pequenos conflitos, sejam relativas às denúncias de insubordinação ao chefe imediato na realização das tarefas nos locais de trabalho, sejam na insatisfação dos sócios com relação ao comando do sindicato. Desde já, fica patente que no SEPC, como já se referiu atrás, havia um grupo identificado com idéias socialistas (talvez não pudessem grafar nas atas o termo “comunistas”, por razões óbvias), que levantava questionamentos e, de alguma forma, era reconhecido como tal pelos demais

companheiros e pelas autoridades constituídas na cidade, principalmente o Capitão dos Portos. Havia também algumas figuras que pareciam não se filiar às filigranas ideológicas, mas que comparecem assiduamente nos registros provocando polêmicas e perturbações na vida sindical.

Não quer se dizer com isso que o simples fato de serem “socialistas” haveria uma associação com a quebra da disciplina por parte destes. Porém, parece que os simples questionamentos colocados na ordem do dia, por integrantes deste grupo, pressupunham a quebra da ordem para quem cuidava zelar pela mesma – a direção do sindicato. Há de se ressaltar de algum modo, a independência desse grupo com relação a ter vida própria dentro do sindicato. Por exemplo, eles sabiam de seus direitos baseados tanto na CLT como nos estatutos do SEPC. Assim, convocavam assembléias para decisão de problemas que lhes afetavam e questionavam a autoridade do Capitão dos Portos algumas vezes. Alguns sócios chegaram mesmo a entrar em confronto direto com esta autoridade. O mesmo parece não acontecer com o Sindicato dos Portuários. Nas atas, não há qualquer discussão nesse sentido, e até fica evidente uma quase completa submissão deste sindicato que entrega a maioria de seus problemas para a decisão da autoridade referida.

Nesta questão da ordem, é emblemática uma passagem da ASO de 4 de setembro de 1957:

Falou então o Snr. Prez. demonstrando aos companheiros a sua autoridade como Prez. do Sindicato, e o apoio que tem das autoridades competentes a quem somos subordinados e nesta parte observou o companheiro Francisco das Chagas Alves, pelo hábito que tem o mesmo de sempre criticar os atos do Prez., e o que assim pratica é considerado um faltoso e então apelou para os companheiros

respeitarem ao menos sua velhice. 294

Neste pequeno trecho, pode-se perceber várias nuances da questão. O presidente busca afirmar sua autoridade baseando-se no apoio que tem das autoridades locais a quem devem subordinação. O hábito do companheiro em criticá-lo, por outro lado, soa como um não reconhecimento completo dessa autoridade, constituindo uma transgressão, portanto, passível de punição por seu caráter faltoso. E, diante da constatação de que mesmo assim essa hierarquia era constantemente quebrada, não só

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pelo sócio citado, mas também outros “que assim praticam”, o presidente usa de um expediente onde a ordem não está mediada pela força da lei numa escala de hierarquia e competência, mas, por um costume bastante convincente na época, respeitar os mais velhos.

As referências às insubordinações chegadas ao conhecimento do presidente do SEPC partem de várias fontes, como, por exemplo, diretamente do empregador: “... foi chamado atenção pelo Snr. Osvaldo Campos alegando aquele empregador que o sócio José Bento, patrão de Alvarengas levara ao seu conhecimento que os Estivadores não estão cumprindo as obrigações que lhes é cabível quando tripulando Alvarengas”. Percebe-se que o presidente questiona a atitude do sócio em passar por cima da sua autoridade, advertindo o mesmo para não mais denunciar seus “companheiros nas Agências e se algum se insubordinar no serviço, a parte deve ser apresentada no Sindicato que este tomará as necessárias providências, pois da maneira que o companheiro praticou, nada mais é que um desrespeito ao Sindicato”. Há na advertência do presidente uma nítida compreensão do espírito corporativista que deveria contrabalançar nas relações de poder, observando-se a hierarquia, isto é, em primeira