3. Revisão Bibliográfica
3.5 Transição nutricional
As principais conseqüências das mudanças no padrão alimentar incluem o consumo inadequado de nutrientes em qualidade e quantidade, resultando em desnutrição ou aumento do peso corporal. Ambas situações são consideradas prejudiciais e podem acarretar problemas à saúde. Esses fatores poderão causar uma diminuição na qualidade de vida e no rendimento das atividades.
A transição nutricional trata das mudanças seculares no padrão nutricional, resultantes de modificações alimentares associadas a variáveis socioeconômicas e demográficas, que refletem no padrão de morbidade e mortalidade (MONTEIRO et al., 1995b). Os resultados da Pesquisa Nacional de Saúde e Nutrição (PNSN de 1989) revelaram que a população brasileira está apresentando um novo perfil nutricional, que está sendo caracterizado como transição nutricional. Essa mudança ocorreu, principalmente, em relação aos dados de desnutrição e obesidade. Por meio de análises dos hábitos alimentares e da situação nutricional, a mudança no estado nutricional também tem sido identificada em adolescentes (SILVA et al. 1999; SALAY, CARVALHO, 1995).
De certa maneira, essas mudanças têm redirecionado as políticas públicas, implementadas pelo Ministério da Saúde, principalmente no tocante às áreas de saúde e nutrição. As principais ações nessa área foram a intensificação no estímulo para que a população siga uma alimentação saudável e passe a realizar atividades físicas, visando prevenir o avanço da obesidade e dos agravos não transmissíveis. Além disso, foram adotadas medidas para a promoção da saúde e o controle dos desvios alimentares e nutricionais.
Segundo Monteiro et al. (1995b), os reflexos da transição nutricional podem ser observados por meio da avaliação do estado nutricional, principalmente adotando-se as medidas antropométricas. Nesse sentido, ressalta-se a necessidade de um monitoramento constante da situação nutricional da população brasileira, principalmente do consumo de alimentos e do estado nutricional. Na década de 70, a proporção de crianças desnutridas em relação às obesas era de mais de quatro desnutridos para um obeso, enquanto que em 1989
foi reduzida para pouco menos de dois desnutridos para um obeso. No caso dos adultos, essa razão foi até mesmo invertida: em 1974 a desnutrição excedia a obesidade em 1,5 vezes, enquanto em 1989 a obesidade excedeu a desnutrição em mais de duas vezes. O autor observou ainda que a prevalência de obesidade entre os adultos de ambos os gêneros e pertencentes a distintos estratos de renda aumentou, sendo esse aumento verificado em 30% entre os mais pobres, 40% entre os grupos com renda intermediária e 30% entre os mais ricos. Fato que mostra que a pobreza deixou de ser fator de limitação para a obesidade.
De acordo com Levine et al. (2003), os fatores ambientais e a exposição precoce e por longo prazo a dietas com expressiva concentração de açúcar e gordura podem gerar conseqüências metabólicas permanentes ao organismo. Em estudos utilizando animais experimentais foi verificado que o açúcar e a gordura atuam como fontes de recompensa neurobiológica. O elevado consumo de alimentos muito calóricos não evidencia hiperfagia, mas tem sido observado que as pessoas, principalmente as mais jovens e muito ativas, apresentam um maior consumo desses alimentos.
Além disso, o terceiro estudo do National Health and Nutrition Examination Survey
- NHANES III, realizado entre 1988 a 1994, definiu a insuficiência de alimentos como “às
vezes” ou “muitas vezes” não ter o suficiente para comer. Os resultados desse estudo mostraram que nem todos os domicílios classificados como “inseguros”, do ponto de vista alimentar, exibiram evidências de que seus moradores passassem fome. A relação entre pobreza, insegurança alimentar e fome é complexa para ser obtida uma definição, pois indivíduos moradores em domicílio classificado com insegurança alimentar foram diagnosticados nessa pesquisa com sobrepeso e obesidade (DREWNOWSKI & SPECTER, 2004).
Segundo os mesmos autores, a transição alimentar e nutricional é um processo que ocorre em todos os estratos econômicos, especialmente entre famílias de baixa renda e parece estar associado, em parte, ao consumo excessivo de energia. Normalmente, a insegurança alimentar e dieta insuficiente em quantidade e qualidade resultam em baixo peso ou desnutrição. Porém, atualmente observa-se que a insegurança alimentar também está associada ao sobrepeso e obesidade, o que torna essa situação de difícil explicação e, de certa forma, pode ser considerada um paradoxo.
Segundo Alaimo et. al (1998) uma das explicações deste paradoxo é o fato de que, normalmente, as famílias expostas à insegurança alimentar são beneficiárias de programas de assistência alimentar. Desse modo pode haver uma relação entre insegurança alimentar, sobrepeso e obesidade. Os alimentos distribuídos pelos programas assistenciais freqüentemente apresentam uma densidade calórica superior e ainda, devido à quantidade menor de nutrientes em sua composição, são classificados como de “baixa qualidade nutricional”. Outra associação que pode ser estabelecida entre pobreza e obesidade é em relação ao custo menor dos alimentos mais energéticos. A relação inversa entre o custo e a densidade calórica sugere que alimentos “promotores de obesidade” geralmente são mais utilizados na dieta, devido ao baixo custo. Também foi verificado que esses alimentos provocam um consumo além do necessário, por serem considerados mais palatáveis e calóricos. O conteúdo maior de açúcar e gordura na dieta está associado com baixa sensação de satisfação, contribuindo, assim, para o aumento do consumo desses alimentos. Em contrapartida, além de outras características, alimentos com maior concentração de água, fibras e classificados como menos calóricos, podem proporcionar um aumento da sensação de plenitude e saciedade.
Sabe-se também que o estado nutricional da população brasileira, assim como o padrão alimentar vem revelando mudanças nos últimos anos, principalmente, entre os grupos populacionais residentes nas áreas urbanas e entre crianças e adolescentes, que são fortemente influenciados por hábitos da sociedade que integram (FISBERG et al. 2000). Porém, há acervo limitado de análises relativas aos hábitos alimentares da população do meio rural brasileiro e das variáveis que os influenciam.