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Transparência Governamental e Accountability

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CAPÍTULO II – COMUNICAÇÃO, DEMOCRACIA E TRANSPARÊNCIA

4. Transparência Governamental e Accountability

A LAI está diretamente relacionada à gestão com transparência do Estado, o que propicia uma comunicação pública aberta e livre, que seja relevante e válida para a sociedade, como já dito anteriormente. Mas até seu advento em diversos países, inclusive no Brasil, houve um longo percurso. De acordo com Abrucio (1997), a crise econômica mundial iniciada a partir da crise do Petróleo (1973) pôs fim a era da prosperidade (Pós- segunda Guerra Mundial -1939-1945). A partir daí foram pensadas, em larga escala,

páginas de veículos da grande mídia brasileira. Eles já contam com mais de 120 mil curtidores no Facebook, em uma conta criada há cerca de quatro meses. Disponível em < https://knightcenter.utexas.edu/pt- br/blog/00-14113-midia-ninja-um-fenomeno-de-jornalismo-alternativo-que-emergiu-dos-protestos-no- rio-de->. Acesso em 13 de jul. 2016.

29 Esse termo foi criado em 1984 pelo escritor norte-americano Wiliam Gibson no seu livro de ficção

científica Neuromance e depois empregado em larga escala pelos criadores e usuários das redes digitais. Para Gibson, o termo designa todo o conjunto de rede de computadores nas quais circulam todo tipo de informação. É o espaço não físico constituído pelas redes digitais. Conforme assinala Lemos, esse conjunto das redes digitais, na obra de Gibson , é povoado pelas mais A palavra ágora provém do grego, se refere as cidades (as chamadas “pólis”) dessa nação, às praças públicas e às assembleias que se celebravam na mesma. Com o tempo, o termo estendeu-se para fazer referência a outros locais de reunião ou de discussão. Disponível em http://conceito.de/agora#ixzz4DT9769n3. Acesso em 04 de jul de 2016.

31 Disponível em http://esic.cgu.gov.br/sistema/site/index.html?ReturnUrl=%2fsistema. Acesso em 08 de

novos padrões gerenciais na Administração Pública, com objetivo de substituir o modelo Weberiano, ao qual cabia ao Estado o papel de manter a neutralidade e a impessoalidade e a racionalidade do aparato governamental.

Ainda segundo Abrucio (1997), o modelo pioneiro destes novos padrões de gestão pública surgiu na Inglaterra, na administração de Margareth Thatcher, mas não durou muito, pois julgava o papel da sociedade no processo de gestão como secundário e cidadãos como meros contribuintes, que não enxergavam uma relação direta entre o acréscimo de recursos governamentais e a melhoria dos serviços públicos. O segundo modelo implementado na Inglaterra foi o cosumerism32 que também fracassou, pois desconsiderava um dos princípios fundamentais da administração pública, a equidade. Matias-Pereira (2002) descreve que somente no terceiro modelo é que foi alcançado o êxito, denominado Public Service Orientation (PSO)33, pois além da equidade buscou incorporar outros elementos como accountability34 e transparência na Administração Pública.

No Brasil, apesar de ter sido pensada pela sociedade civil antes do término da ditadura civil-militar, em 1984, a transparência começou a ter destaque a partir do processo de redemocratização. A Constituição de 1988 foi fundamental também à transparência, estabelecendo, em seu art. 37, o princípio da publicidade a qual preconiza que “o povo tem o direito de conhecer os atos praticados na administração pública para o exercício do controle social” (MATIAS-PEREIRA, 2002).

Para Filgueiras (2011) a publicidade dos atos do governo faz parte do direito à cidadania, seja por meio de instituições, seja pela participação da própria sociedade nos processos de escolhas e decisões públicas. Platt Neto, Cruz, Ensslin & Ensslin (2007) dizem que se o gestor público não prestar contas ao Poder Legislativo e à sociedade, o mesmo pode sofrer sanções por meio de multas e resposta a ação civil de improbidade administrativa.

32 O consumerism introduziu uma importante inovação no campo da gestão: a descentralização, valorizada

como meio de implementação de políticas públicas de qualidade (ABRUCIO, 1997).

33 O Public Service Oriented (PSO) é a mais recente corrente dos modelos gerenciais, tendo seus conceitos

ainda em fase de amadurecimento teórico para atender aos novos desafios gerados pelas demandas da administração gerencial. O PSO busca abrir novos caminhos para a discussão gerencial, explorando suas potencialidades e preenchendo boa parte de suas lacunas, através da introdução dos conceitos de accountability e equidade na prestação de serviço público (ABRUCIO, 1997).

34 O termo Accountability, que não apresenta tradução exata para a língua portuguesa, refere-se ao termo

da língua inglesa Account, oriundo do antigo francês acont ou aconter, traduzido inicialmente para o inglês na forma do antigo verbo reckon (onde a tradução de to reckon para o português significaria "avaliar, calcular, contar, orçar, considerar, computar, concluir"). Este termo será descrito em detalhes a seguir.

As principais características da transparência são informações livres, disponíveis e compreensíveis, diretamente acessíveis aos que serão afetados pelas decisões delas decorrentes, prestadas de forma completa em meios de comunicação adequados (CRUZ et al, 2008, p.154). Os três conceitos a serem considerados na transparência são: publicidade, compreensibilidade das informações e utilidade das informações35. A transparência de informações vai além de divulgar as informações; a transparência reforça o ato dos gestores públicos estarem comprometidos com os bens públicos e se responsabilizarem perante a sociedade pelos mesmos (SANTANA JUNIOR et al., 2009). Uma grande aliada da transparência na gestão pública são as tecnologias da informação e comunicação (TICs). Albertin (2003) ressalta que as TICs são um dos componentes mais importantes tanto no ambiente empresarial quanto no ambiente público, sendo utilizadas ampla e intensamente nos âmbitos estratégico e operacional.

Com relação ao ambiente, a Internet é a rede que propicia o maior acesso entre os meios de comunicação. Por ser um meio digital e amplificar todos os outros tradicionais meios analógicos (TV, rádio, jornal) tem maior alcance para divulgar informações acerca da gestão dos recursos públicos, a exemplo de orçamentos, relatórios de prestação de contas, relatórios de prestação de avaliação de programas e projetos de iniciativa do poder público, entre outros (Cruz et al., 2012).

Assim, a transparência é essencial à comunicação pública, à democracia. É também “elemento central da accountability”, pois:

Desencadeia tanto o processo de julgamento pela cidadania quanto o exercício de autoridade democrática. É impossível pensar a responsabilidade política sem que as instituições sejam transparentes aos cidadãos e que o déficit de informação entre o homem comum e as instituições democráticas seja reduzido. Para sua consolidação como regime político, a democracia pressupõe uma espécie de livre conhecimento por parte do cidadão comum (FILGUEIRAS, 2011, p.70).

A transparência depende de práticas e leis que garantam o acesso à informação. O termo “Transparência Governamental” ganhou força na década de 1990 e está aliada a ampla divulgação de informações do Governo. Portanto o conceito vai além dessa

35 Para saber mais acessar <http://www.congressousp.fipecafi.org/web/artigos152015/89>.pdf. Acesso em

premissa. A este conceito está ligada à promoção da participação popular, o debate e a accountabilty democráticos.

Segundo Medeiros, Crantschaninov e Silva (2013) o conceito de accountability foi criado na década de 1980 em países de língua inglesa. No Brasil, o termo foi empregado pela primeira vez após 1984 (redemocratização do Estado), tendo como marco a Constituição Federal de 1988. De acordo com Campos (1990) a inexistência de tradução para o português e, principalmente, a ausência de significação dessa expressão na realidade brasileira leva a uma dificuldade adicional ao se tentar abordar o tema.

Entende-se em alguns casos como o dever de prestar contas, ser transparente e dever de eficiência daqueles responsáveis pela atividade financeira do Estado (Albuquerque, Andrade, Monteiro & Ribeiro, 2007). Já para Santana Junior, Libonati, Vasconcelos & Slomsk (2009), em outras situações o termo é definido como a responsabilização de todos os atos do gestor público na prestação de contas à sociedade. Seguindo o raciocínio dos autores acima citados, a prestação de contas deve servir como uma ferramenta que permita ao cidadão visualizar as responsabilidades individuais dos gestores públicos, assim, podendo julgar e cobrar por seus atos praticados. Pode-se compreender que a accountability faz parte de uma cidadania organizada e influencia não apenas no processo de identificação de necessidades e canalização de demandas, mas na melhora crescente do desempenho do serviço público.

No hodierno, as mídias digitais, as novas tecnologias da informação e a comunicação na esfera pública facilitam a transparência e a accountability dos atos políticos e administrativos. O’Donnell (1998) define a accountability de forma dicotômica, dividindo-a em vertical e horizontal. A accountability vertical é aquela em que se realiza eleições livres e justas, sendo o voto o meio pelo qual os cidadãos podem premiar ou punir o mandatário na eleição seguinte. A accountability horizontal é caracterizada pela existência estatal de controle dispostas a supervisionar e, até, punir ações de outras agências.

Diante dessas definições, entende-se que na dimensão vertical a accountability visa à prestação de contas dos atores públicos perante a sociedade e, na dimensão horizontal, ao ator público e outros órgãos governamentais, normalmente órgãos de controle, como: Conselhos Gestores, Tribunal de Contas, dentre outros.

A fragilidade na accountability vertical está no fato das eleições ocorrerem somente de tempo em tempo, o que leva a eficácia da

accountability eleitoral tornar-se fragilizada. Na accountability horizontal a fragilidade está relacionada com a possibilidade de sua violação por meio da usurpação ilegal da autoridade de uma agência estatal por outra e da corrupção, que consiste na obtenção de vantagens ilícitas por uma autoridade pública para si ou para aqueles ligados a ela (O’DONNELL, 1998, p. 51).

Em suma, a accountability pode ser entendida como um mecanismo de controle social onde o governante presta contas dos seus atos com suficiente transparência para que a sociedade possa avaliar sua gestão, aquilatando se os resultados atingidos foram condizentes com as propostas efetuadas, podendo estabelecer sanções a comportamentos desviantes. No entanto, vale destacar que para criar condições favoráveis para a accountability a transparência é um elemento prévio e precípuo, uma vez que sem divulgação de informações não há como discernir e responsabilizar os agentes públicos.

No capítulo III e IV vamos apresentar o conceito e aplicabilidade da Lei de Acesso à Informação e como ela se configura no cenário internacional e no Brasil.

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