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Transplante de órgãos e tecidos inter vivos

No documento Direito e o transplante de cabeça (páginas 55-57)

CAPÍTULO I FILOSOFIA, TECNOLOGIA E JUSTIÇA

3. SOBRE O BIODIREITO

3.4 Biodireito no início da vida, durante a vida e no fim da vida

3.4.2 Biodireito durante a vida

3.4.2.3 Transplantações

3.4.2.3.3 Transplante de órgãos e tecidos inter vivos

Como já mencionado, o direito subjetivo que tem o indivíduo pelo seu próprio corpo, face ao direito da personalidade, se dará à medida que este direito seja suficiente de per si. Assim, “il soggetto non sarà titolare di un potere pieno ed assoluto di godere e dispore del

próprio corpo.”125 Desta forma, o ser humano têm um poder relativo, e não pleno, quanto a

desfrutar e dispor do seu próprio corpo.

Portanto, em praticamente todas as leis relativas a transplantes de órgãos e tecidos, haverá o critério da admissibilidade como verificador das condições necessárias à cirurgia transplantativa no sentido de evitar danos irreparáveis e/ou irreversíveis ao doador e ao receptor. Estes critérios de admissibilidade resguardam a integridade física, psíquica e moral de doadores e receptores, assim como de suas famílias, ao mesmo tempo em que preserva o direito da

123 LIMA, Walber Cunha - Op Cit. p.167.

124 BORGES, Roxana Cardoso Brasileiro Apud. LIMA, Walber Cunha - Os Direitos da Personalidade e o transplante de órgãos humanos no Brasil. Revista da FARN. Natal. v. 8, n. 1/2, 2009. p.161-179. p.168.

125 BALDINI, Gianni – Riflessionni di Biodiritto. Casa Editrice Dott. Antonio Milani, 2012. 251 p. ISBN 13- 33318-8. p. 134.

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personalidade dos sujeitos envolvidos a respeitar sobremaneira o princípio da dignidade da pessoa humana.

A lei portuguesa sobre colheita e transplante de órgãos e tecidos de origem humana, Lei n.º 12/1993 de 22 de Abril, prevê critérios de admissibilidade para as transplantações inter

vivos, como segue:

“Artigo 6º

Da colheita em vida

1 - Sem prejuízo do disposto nos números seguintes, são admissíveis a dádiva e colheita em vida de órgãos, tecidos ou células para fins terapêuticos ou de transplante.

2 - A colheita de órgãos e tecidos de uma pessoa viva só pode ser feita no interesse terapêutico do receptor e desde que não esteja disponível qualquer órgão ou tecido adequado colhido de dador post mortem e não exista outro método terapêutico alternativo de eficácia comparável.

3 - No caso de dádiva e colheita de órgãos ou tecidos não regeneráveis, a respectiva admissibilidade fica dependente de parecer favorável, emitido pela Entidade de Verificação da Admissibilidade da Colheita para Transplante (EVA).

4 - São sempre proibidas a dádiva e a colheita de órgãos ou de tecidos não regeneráveis quando envolvam menores ou outros incapazes.

5 - A dádiva e a colheita de órgãos, de tecidos ou de células regeneráveis que envolvam menores ou outros incapazes só podem ser efectuadas quando se verifiquem os seguintes requisitos cumulativos:

a) Inexistência de dador capaz compatível; b) O receptor ser irmão ou irmã do dador;

c) A dádiva ser necessária à preservação da vida do receptor.

6 - A dádiva e a colheita de órgãos ou tecidos não regeneráveis, que envolvam estrangeiros sem residência permanente em Portugal, só podem ser feitas mediante autorização judicial.

7 - São sempre proibidas a dádiva e a colheita de órgãos, de tecidos ou de células quando, com elevado grau de probabilidade, envolvam a diminuição grave e permanente da integridade física ou da saúde do dador.”126

Do mesmo modo, a lei brasileira sobre os transplantes de órgãos e tecidos humanos, Lei nº 9.434/1997, de 4 de fevereiro, resguarda todo o seu capítulo III aos critérios de admissibilidade no sentido da preservação do direito da personalidade dos sujeitos envolvidos em tempo que respeita o princípio da dignidade da pessoa humana, como segue:

“CAPÍTULO III

DA DISPOSIÇÃO DE TECIDOS, ÓRGÃOS E PARTES DO CORPO HUMANO VIVO PARA FINS DE TRANSPLANTE OU TRATAMENTO

126LEI n.º 12/1993, de 22 de Abril [Em Linha]. Procuradoria Geral Distrital de Lisboa. Colheita e transplante de órgãos e tecidos de origem humana. [Consult. 07 Set. 2016]. Disponível em: http://www.pgdlisboa.pt/leis/lei_mostra_articulado.php?nid=236&tabela=leis

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Art. 9o É permitida à pessoa juridicamente capaz dispor gratuitamente de tecidos, órgãos e partes do próprio corpo vivo, para fins terapêuticos ou para transplantes em cônjuge ou parentes consanguíneos até o quarto grau, inclusive, na forma do § 4o deste artigo, ou em qualquer outra pessoa, mediante autorização judicial, dispensada esta em relação à medula óssea. (Redação dada pela Lei nº 10.211, de 23.3.2001)

§ 1º (VETADO) § 2º (VETADO)

§ 3º Só é permitida a doação referida neste artigo quando se tratar de órgãos duplos, de partes de órgãos, tecidos ou partes do corpo cuja retirada não impeça o organismo do doador de continuar vivendo sem risco para a sua integridade e não represente grave comprometimento de suas aptidões vitais e saúde mental e não cause mutilação ou deformação inaceitável, e corresponda a uma necessidade terapêutica comprovadamente indispensável à pessoa receptora.

§ 4º O doador deverá autorizar, preferencialmente por escrito e diante de testemunhas, especificamente o tecido, órgão ou parte do corpo objeto da retirada.

§ 5º A doação poderá ser revogada pelo doador ou pelos responsáveis legais a qualquer momento antes de sua concretização.

§ 6º O indivíduo juridicamente incapaz, com compatibilidade imunológica comprovada, poderá fazer doação nos casos de transplante de medula óssea, desde que haja consentimento de ambos os pais ou seus responsáveis legais e autorização judicial e o ato não oferecer risco para a sua saúde.

§ 7º É vedado à gestante dispor de tecidos, órgãos ou partes de seu corpo vivo, exceto quando se tratar de doação de tecido para ser utilizado em transplante de medula óssea e o ato não oferecer risco à sua saúde ou ao feto.

§ 8º O auto-transplante depende apenas do consentimento do próprio indivíduo, registrado em seu prontuário médico ou, se ele for juridicamente incapaz, de um de seus pais ou responsáveis legais.

Art. 9o-A É garantido a toda mulher o acesso a informações sobre as possibilidades e os benefícios da doação voluntária de sangue do cordão umbilical e placentário durante o período de consultas pré-natais e no momento da realização do parto. (Incluído pela Lei nº 11.633, de 2007).”127

Os critérios de admissibilidade, relativas a transplantes de órgãos e tecidos, como verificados, são condição necessária, neste tipo de cirurgia, pois, resguardam o doador, receptor e familiar(es) ao tempo de evitar danos irreparáveis e/ou irreversíveis. Resguardar a integridade física, psíquica e moral de doadores e receptores, assim como de suas famílias, implica respeitar o princípio da dignidade da pessoa humana.

No documento Direito e o transplante de cabeça (páginas 55-57)