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Transporte do acetil-CoA da matriz mitocondrial para o citoplasma

O acetil-CoA forma-se na mitocôndria a partir do piruvato (produto da glicólise) por ação catalítica da desidrogénase do piruvato (ver Equação 1) e pode originar palmitato.

Equação 1 piruvato + CoA + NAD+ → acetil-CoA + NADH + CO2

No entanto, as enzimas envolvidas na conversão da acetil-CoA em palmitato estão no citoplasma e não na mitocôndria. O transporte de acetil-CoA da mitocôndria para o citoplasma envolve a (1º) formação de citrato na mitocôndria (síntase do citrato: ver Equação 2), (2º) o transporte de citrato para o citoplasma (ver Equação 3) e (3º) a regeneração de acetil-CoA no citoplasma (líase do ATP-citrato:

ver Equação 4). O somatório destes processos é descrito pela Equação 5.

Equação 2 acetil-CoA + oxalacetato + H2O → citrato + CoA (reação na mitocôndria) Equação 3 citrato (mitocôndria) ↔ citrato (citoplasma)

Equação 4 citrato + CoA + ATP → oxalacetato + acetil-CoA + ADP + Pi (reação no citoplasma) Equação 5 acetil-CoA (mitocôndria) + oxalacetato (mitocôndria) + ATP + H2O →

acetil-CoA (citoplasma) + oxalacetato (citoplasma) + ADP + Pi 5- A carboxílase de acetil-CoA catalisa a conversão de acetil-CoA em malonil-CoA

O palmitato é um ácido gordo saturado com 16 carbonos e a sua síntese ocorre pela adição sucessiva de unidades de 2 carbonos ao grupo acetilo do acetil-CoA. Estas unidades de 2 carbonos também têm origem no acetil-CoA, mas a sua utilização requer a prévia “ativação” a malonil-CoA.

A carboxílase de acetil-CoA (ver Equação 6) é uma lígase que contém como grupo prostético a biotina e que catalisa a formação de malonil-CoA. A reação pode ser entendida como a acoplagem de um processo exergónico (a hidrólise do ATP) com outro endergónico (a carboxilação da acetil-CoA; o

1 Numa dieta típica na “civilização ocidental”, os hidratos de carbono representam cerca de 50% do valor calórico total, as gorduras cerca de 35% e as proteínas cerca de 15%.

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resíduo malonilo tem 3 carbonos). A síntese de malonil-CoA é o primeiro passo na síntese de palmitato mas, mesmo em células onde esta síntese não é um processo relevante ou não existe (músculos esquelético e cardíaco), a carboxílase de acetil-CoA tem um papel importante pois o malonil-CoA regula (inibe) a oxidação dos ácidos gordos.

Equação 6 ATP + H2O + CO2 + acetil-CoA → ADP + Pi + malonil-CoA

6- A síntase do palmitato é um complexo multienzímico que contém sete atividades catalíticas que operam sequencialmente

A segunda enzima envolvida na síntese do palmitato é a síntase do palmitato (também designada por síntase de ácidos gordos), uma enzima dimérica citoplasmática que contém como grupo prostético a 4’-fosfopanteteína (um derivado do ácido pantoténico).

A síntase do palmitato é um complexo multienzímico que contém 7 atividades catalíticas distintas que operam sequencialmente.

A síntese do palmitato começa com a (1º) transferência de um resíduo acetilo (2C) da acetil-CoA para um grupo tiol de um resíduo de cisteína da síntase e (2º) com a transferência do resíduo malonilo (3C) da malonil-CoA para outro grupo tiol, o grupo tiol da 4’-fosfopanteteína. Seguidamente ocorre (3º) a transferência do resíduo acetilo que estava ligado à cisteína para o carbono 2 do resíduo malonilo libertando-se o carbono 3 na forma de CO2. Isto leva à formação de acetoacetil-enzima (também designado por 3-cetobutiril-enzima), em que o grupo carboxílico do resíduo acetoacetilo (4C) está ligado (ligação tioéster) ao grupo tiol da 4’-fosfopanteteína. Os passos seguintes são (4º) a redução dependente do NADPH do acetoacetil-enzima a D-3-hidroxi-acil-enzima, (5º) a desidratação do D -3-hidroxiacil-enzima a ∆2-enoil-enzima e (6º) a redução também dependente do NADPH do ∆2-enoil-enzima a acil-enzima. Neste primeiro ciclo de reações, após a adição de uma unidade de 2 carbonos (proveniente do malonilo do malonil-CoA) ao grupo acetilo, o acilo formado contém 4 carbonos: assim, o acil-enzima correspondente designa-se por butiril-enzima. Na butiril-enzima os dois primeiros carbonos tiveram origem no resíduo de malonilo cujo carbono carboxílico continua tioesterificado com a 4’-fosfopanteteína e os dois últimos tiveram origem no grupo acetilo da acetil-CoA que originalmente esteve ligado ao grupo tiol da cisteína.

A transferência do resíduo acilo ligado à 4’-fosfopanteteína para a cisteína e de um novo malonilo (do malonil-CoA) para a 4'-fosfopanteteína permite a continuação da síntese em sucessivos ciclos de adição de 2 carbonos. Ao fim de 7 ciclos forma-se o palmitato que está ligado à enzima através de uma ligação tioéster que envolve o seu grupo carboxílico e o grupo tiol da 4’-fosfopanteteína (ver Equação 7).

Equação 7 síntase do palmitato (enzima) + 7 malonil-CoA + acetil-CoA + 14 NADPH → palmitil-enzima + 7 H2O + 14 NADP+ + 7 CO2 + 8 CoA

Na fase de palmitil-enzima (C16) ocorre (7º) a hidrólise da ligação tioéster que liga o resíduo de palmitato ao grupo tiol da 4’-fosfopanteteína, libertando-se palmitato não esterificado (ver Equação 8).

Equação 8 palmitil-enzima + H2O → palmitato + enzima livre

Partindo de acetil-CoA, em cada ciclo catalítico (de 6 passos) são acrescentados 2 carbonos e, ao fim de 7 ciclos, dá-se uma hidrólise que liberta palmitato (C16). Em cada ciclo o dador dos 2 carbonos acrescentados é o malonil-CoA e o carbono 2 do resíduo de malonilo liga-se no carbono carboxílico do ácido gordo saturado intermediário (com sucessivamente 2, 4, 6, 8, 10, 12 e 14 carbonos) que é substrato em cada ciclo. O carbono 1 dos resíduos malonilo acrescentados em cada ciclo passa a ser o grupo carboxílico do intermediário que se vai formando. Ou seja, os carbonos 15 e 16 do palmitato formado derivaram diretamente do acetil-CoA que, no primeiro passo do processo, se ligou ao resíduo da cisteína da enzima; os carbonos 13 e 14 derivaram do malonil-CoA envolvido na síntese do acetoacetil-enzima (1º ciclo) e os carbonos 1 e 2 do malonil-CoA envolvido no último ciclo.

7- Na síntese de uma molécula de palmitato ocorrem reações redox onde se oxidam catorze moléculas de NADPH

A equação soma relativa à atividade da síntase do palmitato é a Equação 9:

Página 4 de 12 Equação 9 7 malonil-CoA + acetil-CoA + 14 NADPH →

palmitato + 6 H2O + 14 NADP+ + 7 CO2 + 8 CoA

Durante o processo catalisado pela síntase do palmitato ocorre a libertação dos CO2 (ver Equação 9) que haviam sido usados na carboxilação do acetil-CoA a malonil-CoA (ver Equação 6). Na atividade da síntase de palmitato, o passo em que ocorre a libertação do CO2 é um passo exergónico que contribui para que o processo reativo global evolua no sentido da formação do palmitato e não em sentido inverso.

Embora todos os carbonos do palmitato sintetizado provenham do resíduo acetilo do acetil-CoA, apenas os carbonos 15 e 16 resultam diretamente do acetil-CoA que não foi previamente (via carboxílase de acetil-CoA) convertido em malonil-CoA.

Nos 7 ciclos catalíticos que levam à formação de uma molécula de palmitato ocorre a oxidação de 14 moléculas de NADPH (duas por ciclo) que reduziram intermediários 3-cetoacil-enzima (como, por exemplo, o 3-cetobutiril-enzima) a D-3-hidroxiacil-enzima e os intermediários ∆2-enoil-enzima a acil-enzima.

8- Um dos processos anapleróticos compensadores da saída de oxalacetato da mitocôndria aquando do transporte do grupo acetilo da acetil-CoA leva à formação de NADPH

Se estritamente descrito pelas reações representadas pelas equações 2-4, o processo de “transporte de acetil-CoA” da mitocôndria para o citoplasma seria, obviamente, insustentável: estas equações representam um processo cataplerótico sem que, simultaneamente, ocorra um outro anaplerótico. O processo descrito levaria ao esgotamento do oxalacetato mitocondrial e à sua acumulação no citoplasma.

Uma via metabólica que poderá ter relevância no processo anaplerótico compensador inclui a ação da enzima málica: o oxalacetato é reduzido a malato no citoplasma (desidrogénase do malato; ver Equação 10); de seguida, o malato é oxidado a piruvato (enzima málica; também designada de desidrogénase do malato dependente do NADP+; ver Equação 11) e, por último, o piruvato entra para a mitocôndria onde é convertido em oxalacetato pela ação da carboxílase do piruvato (Equação 12). Esta via permite, simultaneamente, fornecer parte dos equivalentes redutores (na forma de NADPH) para a atividade da síntase do palmitato e “transportar” oxalacetato do citoplasma para a matriz. A Equação 13 representa o somatório das equações relativas ao processo descrito acima incluindo o transporte de mitocondrial (mas, neste caso, sem haver formação concomitante de NADPH) é a sua redução a malato no citoplasma (ver Equação 10), a entrada do malato para a mitocôndria e a sua subsequente reoxidação a oxalacetato na matriz mitocondrial (ver Equação 10).

9- A via das pentoses-fosfato fornece a maior parte do NADPH que vai ser oxidado durante a síntese de palmitato

Por mole de palmitato sintetizado, 14 moles de NADPH oxidam-se a NADP+ (ver Equação 9). No entanto, mesmo que admitamos que a via metabólica descrita pelas equações 10-12 é a única envolvida no “transporte” de oxalacetato do citoplasma para a mitocôndria, a via permite formar apenas 8 moles de NADPH (uma por cada acetil-CoA “transportado”) por mole de palmitato sintetizado.

No entanto, para além da enzima málica (ver Equação 11) existem outras enzimas citoplasmáticas envolvidas na redução do NADP+ e que têm relevância no processo de síntese de palmitato. Na via das pentoses-fosfato, a redução do NADP+ a NADPH ocorre por ação catalítica da desidrogénase da glicose-6-P e da desidrogénase do 6-fosfogliconato (ver Equação 14 e Equação 15).

Equação 14 glicose-6-fosfato + NADP+ → 6-fosfogliconolactona + NADPH Equação 15 6-fosfogliconato + NADP+ → ribulose-5-fosfato + NADPH + CO2

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Embora tenha menor relevância, a redução do NADP+ a NADPH também pode resultar da ação da desidrogénase do isocitrato citoplasmática (ver Equação 16).

Equação 16 isocitrato + NADP+ → α-cetoglutarato + CO2 + NADPH

Dado que a glicose é o combustível da via das pentoses-fosfato e que, quer o malato, quer o isocitrato (intermediários do ciclo de Krebs) se formam a partir da glicose (via glicólise, carboxílase do piruvato e enzimas do ciclo de Krebs), pode dizer-se que, para além de fornecer o substrato para a síntese de palmitato (acetil-CoA), a glicose é também essencial no processo de formação do agente redutor pertinente no processo: o NADPH.

10- A ativação do palmitato (e de outros ácidos gordos) por ação da sintétase de acil-CoA

Quer o palmitato formado endogenamente, quer os ácidos gordos que entram nas células são imediatamente “ativados”. A expressão “ativação dos ácidos gordos” é usada para referir a sua tioesterificação com a coenzima A e é catalisada pela sintétase de acil-CoA (ver Equação 17).

Equação 17 ácido gordo + CoA + ATP → acil-CoA + AMP + PPi

Com exceção da oxidação em ómega (oxidação em ω; uma via quantitativamente irrelevante), a formação de acis-CoA é sempre o primeiro passo nas diferentes vias que os ácidos gordos podem seguir.

A ativação dos ácidos gordos é sempre o primeiro passo nas vias de dessaturação (introdução de duplas ligações), elongação (aumento do tamanho da cadeia carbonada), esterificação (síntese de triacilgliceróis ou outros lipídeos complexos) e oxidação em β ou oxidação em α.

11- Mecanismos e hormonas envolvidos na regulação da lipogénese de novo

Na regulação da síntese de palmitato estão envolvidos, quer “mecanismos de curto prazo” como a fosforilação inativadora e a ativação e inibição alostéricas da carboxílase de acetil-CoA, quer

“mecanismos de longo prazo” envolvendo a indução e a repressão de genes codificadores das enzimas que participam nestes processos.

A insulina tem ações ativadoras quer de “curto” quer de “longo prazo”. No fígado, a glicagina tem ações inibidoras. A disponibilidade de glicose tem também um papel independente da insulina na ativação do processo.

A pouca relevância da lipogénese de novo nos indivíduos que vivem nos países mais desenvolvidos é uma consequência das dietas típicas nestes países (comparativamente com outras, mais ricas em gorduras e mais pobres em hidratos de carbono) e dos seus efeitos na regulação deste processo.

12- Ativação da conversão da glicose em palmitato via ativação da transcrição de genes e o papel do ChREBP e do SREBP-1c

A lipogénese de novo pode ser ativada se a dieta for rica em glicose (e pobre em lipídeos) durante uma série de dois ou mais dias (regulação a “longo prazo”). Neste efeito estão envolvidos mecanismos que incluem a ativação da transcrição dos genes de enzimas diretamente envolvidas na lipogénese (líase do ATP-citrato, carboxílase da acetil-CoA e síntase do palmitato), de enzimas envolvidas na redução do NADP+ (desidrogénases de glicose-6-fosfato e 6-fosfogliconato e enzima málica) e, no fígado, de enzimas da glicólise (hexocínase IV e cínase do piruvato).

A transcrição de todos estes genes é ativada pela ingestão de glicose.

Um dos mecanismos envolvidos na ativação de alguns destes genes (cínase do piruvato, carboxílase de acetil-CoA e síntase do palmitato) é o aumento da concentração citoplasmática de xilulose-5-fosfato que, alostericamente, ativa uma fosfátase A2 (ver Equação 18) que promove a desfosforilação e a consequente ativação de um fator de transcrição denominado ChREBP (Carbohydrate-responsive element-binding protein; proteína de ligação ao elemento de resposta aos carbohidratos) [2,3]. Quando a glicemia aumenta, a concentração citoplasmática de glicose e de xilulose-5-fosfato também aumentam, o que ativa o ChREBP e a atividade das enzimas acima referidas.

A glicagina tem, no fígado, um efeito inativador do ChREBP porque, via ativação da PKA, promove a fosforilação deste fator de transcrição (ver Equação 19). Por isso, no fígado, a glicagina inibe a lipogénese de novo.

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Equação 18 ChREBP fosforilado (inativo) + H2O → ChREBP desfosforilado (ativo) + Pi Equação 19 ChREBP desfosforilado (ativo) + ATP → ChREBP fosforilado (inativo) + ADP

A insulina também aumenta a síntese de enzimas envolvidas na conversão de glicose em palmitato. Um dos mecanismos que está envolvido nesta ação da insulina é o aumento da síntese de um fator de transcrição denominado SREBP-1c (sterol regulatory element binding protein 1-c; proteína 1c de ligação ao elemento de resposta aos esteroides2). O SREBP-1c aumenta a transcrição dos genes da líase do ATP-citrato, da carboxílase de acetil-CoA e da síntase do palmitato.

Opondo-se à insulina os ácidos gordos poli-insaturados têm o efeito oposto inibindo a síntese do SREBP-1c [2].

A ingestão de frutose em doses elevadas também induz a síntese da cínase do piruvato, da carboxílase da acetil-CoA e da síntase do palmitato, um efeito que poderá ser independente da insulina, mas que envolve os mesmos fatores de transcrição acima referidos (ChREBP e SREBP-1c) [3,4]. Em doses equivalentes a ingestão de frutose é mais potente que a de glicose (ou o amido) na indução da lipogénese de novo.

Como será explicado mais à frente neste texto, a insulina, a glicose e os ácidos gordos poli-insaturados também têm papéis reguladores na lipogénese entendida no seu sentido mais amplo.

13- A regulação da carboxílase da acetil-CoA por mecanismos de curto prazo

A atividade da carboxílase da acetil-CoA fornece malonil-CoA para a síntese de palmitato (e para a elongação) e a sua regulação “de curto prazo” tem sido muito estudada. Para além de regulada ao nível da transcrição (ativação pela ChREBP e pela SREBP-1c), a carboxílase de acetil-CoA também é regulada (i) por fosforilação (inativação) e desfosforilação (ativação) reversíveis (Equação 20 e Equação 21) e (ii) por mecanismos alostéricos (citrato ativador e acis-CoA inibidores).

Quando a glicemia e/ou a insulina estão elevadas, a concentração de citrato (em última análise o precursor citoplasmático da via em análise; ver Equação 4) aumenta ligeiramente no fígado e admite-se que esta variação poderá contribuir para a ativação da carboxílase de acetil-CoA.

Nestas mesmas condições metabólicas as cínases de proteínas que catalisam fosforilações inativadoras da carboxílase de acetil-CoA estão pouco ativas. A enzima com o papel mais importante na inativação da carboxílase de acetil-CoA é a cínase de proteínas ativada pelo AMP (AMPK). A AMPK é uma cínase de proteínas que está mais ativa quando aumenta a concentração intracelular de AMP ou, no caso do fígado, quando a glicagina aumenta no plasma sanguíneo. Possivelmente a ação da glicagina envolve a ativação da PKA (via aumento da concentração do AMP cíclico) que catalisa a fosforilação e a consequente ativação de uma cínase que, por sua vez, catalisa a fosforilação (e ativação) da AMPK. A AMPK catalisa a fosforilação da carboxílase de acetil-CoA em resíduos específicos que levam à sua inibição e, consequentemente, à inibição da síntese de palmitato (ver Equação 20).

A insulina tem o efeito oposto ao da glicagina: quando a insulina aumenta fica ativa uma fosfátase de proteínas que catalisa a desfosforilação e consequente ativação da carboxílase de acetil-CoA e, em última análise, a síntese de palmitato (ver Equação 21).

Equação 20 carboxílase de acetil-CoA desfosforilada (ativa) + ATP →

carboxílase de acetil-CoA fosforilada (inativa) + ADP Equação 21 carboxílase de acetil-CoA fosforilada (inativa) + H2O →

carboxílase de acetil-CoA desfosforilada (ativa) + Pi

O palmitato formado neste processo de síntese é ativado a palmitil-CoA (ver Equação 17) e, tal como outros acis-CoA, o palmitil-CoA é inibidor alostérico da carboxílase de acetil-CoA. Desta forma, via palmitil-CoA, o palmitato inibe a sua própria síntese.

14- A conversão de palmitil-CoA em estearil-CoA e a elongação de ácidos gordos

Os ácidos gordos saturados mais abundantes nos mamíferos são o palmítico (16:0; significa 16 carbonos e zero ligações duplas) e o esteárico (18:0).

2 Embora se denomine “steroid regulatory element binding protein-1c” o SREBP-1c (ao contrário do SREBP-2) não se liga a esteroides.

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O ácido esteárico pode formar-se endogenamente a partir de ácido palmítico por ação de enzimas situadas na face citoplasmática da membrana do retículo endoplasmático que catalisam a adição de dois carbonos (do malonil-CoA) ao palmitil-CoA. Pela adição sucessiva de unidades de dois carbonos no carbono 1 de ácidos gordos (elongação) podem formar-se endogenamente ácidos gordos com um número de carbonos superior a 16 (por exemplo, formação de estearato a partir de palmitato).

O processo de elongação envolve enzimas que, no seu conjunto, catalisam reações cujo somatório equivale ao somatório das atividades da síntase do palmitato. O dador da unidade de dois carbonos é também o malonil-CoA e o agente redutor o NADPH. No entanto, no caso da elongação, existem para cada um dos passos do processo diferentes enzimas e os intermediários libertam-se em cada passo como derivados ligados ao CoA (e não à enzima). O processo parte de um acil-CoA em que o acilo tem n carbonos gerando outro acil-CoA com n+2 carbonos: a equação que descreve a elongação do palmitil-CoA a estearil-palmitil-CoA é a Equação 22.

Equação 22 palmitil-CoA + malonil-CoA + 2 NADPH → estearil-CoA + 2 NADP+ + CoA + H2O + CO2 Tal como no caso da síntase do palmitato, os dois carbonos acrescentados ao resíduo palmitato do palmitil-CoA passam a constituir os carbonos 1 e 2 do resíduo estearato do estearil-CoA formado e o terceiro carbono do malonil-CoA perde-se na forma de CO2.

15- A ação catalítica dos sistemas de dessaturação envolve a transferência de quatro eletrões para o O2

Na face citoplasmática do retículo endoplasmático podem também formar-se ácidos gordos insaturados e a reação é catalisada por sistemas enzímicos genericamente designados por dessatúrases de acil-CoA. O processo de dessaturação envolve uma cadeia de oxiredútases (que inclui o citocromo b5) em que o O2 funciona como oxidante último do acil-CoA e do NADPH (ou do NADH). O somatório dos processos catalisados pelos sistemas das dessatúrases de acil-CoA é a Equação 23. Na formação de uma ligação dupla (oxidação) uma molécula de O2 aceita 4 eletrões reduzindo-se a duas moléculas de H2O: 2 eletrões são cedidos pelo acil-CoA onde se forma a ligação dupla e os outros 2 pelo NADPH ou pelo

A dessatúrase ∆9 (também designada de dessatúrase do estearil-CoA; ver Equação 24) catalisa a conversão do ácido esteárico (18:0) em oleico (18:1;9; significa 18 carbonos e uma ligação dupla no carbono 9) e do palmítico (16:0) em palmitoleico (16:1;9).

Equação 24 estearil-CoA (ou palmitil-CoA) + O2 + NADH ou NADPH →

oleil-CoA (ou palmitoleil-CoA) + 2 H2O + NAD+ ou NADP+ Outras dessatúrases são a dessatúrase ∆∆∆∆6 e a dessatúrase ∆∆∆∆5 que estão envolvidas na introdução de novas duplas ligações em ácidos gordos poli-insaturados. Nos ácidos gordos poli-insaturados entre duas duplas ligações consecutivas há sempre um grupo metileno (…CH=CH-CH2-CH=CH…).

As duplas ligações dos ácidos gordos naturais são sempre de tipo cis.

17- Os ácidos linoleico e α-linolénico são poli-insaturados e nutricionalmente indispensáveis No caso dos mamíferos não é possível a introdução de duplas ligações em carbonos com número superior ao carbono 9. Assim, o ácido linoleico (18:2;9,12) e o ácido α-linolénico (18:3;9,12,15) não são sintetizados nas células dos mamíferos e dizem-se essenciais ou nutricionalmente indispensáveis.

O ácido linoleico é exemplo de um ácido gordo da série ω6 (ómega 6). Nos ácidos gordos ω6 a dupla ligação que está mais distante do grupo carboxílico situa-se entre o 6º e o 7º carbono a contar do fim; no caso do ácido linoleico o carbono ω6 corresponde ao carbono 13 e a dupla ligação mais distante do grupo carboxílico situa-se entre os carbonos 12 e 13. O ácido α-linolénico é exemplo de um ácido

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gordo da série ω3; ou seja, a dupla ligação mais distante do grupo carboxílico situa-se entre o 3º e o 4º carbono a contar do fim.

18- Nos mamíferos, é possível a interconversão de diferentes ácidos gordos ω6 entre si ou de diferentes ω3 entre si, mas não “saltar” de uma série para a outra

Nos mamíferos, é possível interconverter diferentes ácidos gordos ω6 entre si (ou diferentes ω3 entre si), mas não é possível converter ácidos gordos de uma série na outra nem formar ω3 ou ω6 a partir de saturados.

Quando se discutem interconversões envolvendo ácidos gordos insaturados a “nomenclatura ω”

tem vantagens relativamente à que ordena os carbonos considerando o carbono 1 o carbono carboxílico (nomenclatura clássica). Quando ocorre elongação, o número de carbonos de um ácido gordo aumenta 2 carbonos (que se ligam ao carbono que era originalmente o carboxílico) e, na nomenclatura clássica, o número associado aos carbonos onde existiam duplas ligações aumenta de igual modo; os carbonos continuam os mesmos, mas passam a ter um número diferente. No entanto, explicando a preferência pela

“nomenclatura ω” quando se tratam destes temas, a numeração ω não é afetada. Ver Fig. 2.

19- A síntese de ácido araquidónico a partir do ácido linoleico e de eicosapentaenoico a partir do ácido α-linolénico

O ácido araquidónico (20:4;5,8,11,14 ou ω6; 20:4) é um ácido gordo ω6 que, nos mamíferos, se pode formar a partir do linoleico (ω6; 18:2), por ação sequenciada da (1º) dessatúrase ∆∆∆∆6, (2º) de elongação e (3º) da dessatúrase ∆∆∆∆5 (ver Fig. 2). A dessaturação no carbono 6 (ver Equação 25) forma o ácido γ-linolénico (18:3;6,9,12 ou ω6; 18:3), que, elongado em 2 carbonos (ver Equação 26), origina o ácido eicosatrienoico da série ω6 (20:3;8,11,14 ou ω6; 20:3); a dessaturação, agora no carbono 5, origina

O ácido araquidónico (20:4;5,8,11,14 ou ω6; 20:4) é um ácido gordo ω6 que, nos mamíferos, se pode formar a partir do linoleico (ω6; 18:2), por ação sequenciada da (1º) dessatúrase ∆∆∆∆6, (2º) de elongação e (3º) da dessatúrase ∆∆∆∆5 (ver Fig. 2). A dessaturação no carbono 6 (ver Equação 25) forma o ácido γ-linolénico (18:3;6,9,12 ou ω6; 18:3), que, elongado em 2 carbonos (ver Equação 26), origina o ácido eicosatrienoico da série ω6 (20:3;8,11,14 ou ω6; 20:3); a dessaturação, agora no carbono 5, origina

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