PARTE II – ESTUDO EMPÍRICO
2. A REALIDADE DO DOENTE PSICÓTICO
2.2 TRANSTORNOS DO PENSAMENTO E ATIVIDADE PSICOMOTORA
O doente psicótico vivencia experiências peculiares relacionadas com a desintegração do Eu, em que ocorre um sério transtorno de pensamento, apresentando o indivíduo alterações na forma de pensar, de sentir e na maneira de se relacionar com o mundo exterior. Assim, o psicótico experimenta graves processos de desintegração da personalidade, com consequente desajustamento em relação ao meio social em que se insere, acabando por se sentir incompreendido e até marginalizado (Chartier, 2004).
As opiniões obtidas durante as entrevistas vieram confirmar estes conhecimentos anteriormente adquiridos:
“Apresentam ainda sinais e sintomas, a nível do pensamento, da perceção e da emoção inapropriados. Situações típicas destes casos são os delírios e perturbações formais do pensamento, ou seja, o discurso ilógico, por vezes também falam com voz monótona e podem apresentar comentários bizarros durante uma conversa.” (entrevista 1)
Também Kaplan (1997) afirmava que “a psicose está relacionada com a perda da crítica perante a realidade e com o comprometimento do funcionamento mental, manifestando-se por delírios, alucinações, confusão e perturbação da memória. Falar em comprometimento do teste da realidade significa que o indivíduo avalia erradamente a sutileza das suas perceções e pensamentos, realizando inferências incorretas acerca da realidade externa, ainda que em face a evidências contrárias.”
Muito embora houvesse quem considerasse que estes doentes podem a presentar alguma adequação do pensamento, quando devidamente compensados a nível psicopatológico:
“Existem doentes que apresentam o pensamento desorganizado, mas a grande maioria, quando devidamente compensados têm adequação do pensamento, sendo pessoas capazes.” (entrevista 7)
No que diz respeito às alterações psicomotoras, os inquiridos consideraram que o doente poder-se-á apresentar mais lenificado ou mais inquieto, em virtude da sua condição clínica e da atuação da terapêutica. Mas em geral, pensam haver sempre défices. Seguem-se os exemplos de resposta:
“Quanto às características psicomotoras, são doentes mais lentificados como consequência da medicação e sem o efeito da medicação, são doentes que se encontram mais inquietos, dada a instabilidade emocional e as alterações do pensamento.” (entrevista 7)
“Em termos psicomotores, numa primeira fase, são doentes algo inquietos e à posteriori ficam muito lenificados, por efeito da terapêutica.” (entrevista 9)
Também para John A. (1992), muitos doentes com psicose apresentam vários distúrbios motores e alterações do comportamento social. Pode acontecer ficarem inativos ou desenvolverem atividades repetitivas e sem objetivos quando se encontram sozinhos. Os extremos incluem estupor ou excitação catatónica. (…).
Conclui-se então que, sem dúvida, o doente psicótico apresenta alterações do pensamento e da atividade psicomotora em função das condicionantes que a doença lhes imprime e do cumprimento adequado da terapêutica.
2.3 DEPENDÊNCIA NO AUTOCUIDADO E GESTÃO DO REGIME
TERAPÊUTICO
O êxito do autocuidado está plenamente relacionado com as capacidades e aptidões a nível sensorial, cognitivo e funcional do indivíduo psicótico. Assim, faz todo o sentido verificar que tipo de alterações os doentes apresentam a estes níveis, auspiciando assim de que forma o seu autocuidado poderá vir a estar comprometido. (Wallace e Liberman, 1985; Rabinowitz et al., 2007).
Cerca de 60% dos Enfermeiros inquiridos consideraram que o autocuidado no doente psicótico encontra-se dependente em grau elevado/ negligenciado. Bom exemplo disso são as respostas que se seguem:
“Em relação ao autocuidado, geralmente apresenta-se negligenciado necessitando de supervisão apertada, (…).” (entrevista 1)
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“É muito variável. Mas quase sempre está muito limitada, por défices cognitivos, hábitos de vida deficientes e restrições próprias da doença. (…).” (entrevista 6)
Já os restantes 40% da população inquirida acreditam que o autocuidado destes doentes se encontra antes, dependente apenas em grau reduzido. Testemunho de tal, são as seguintes afirmações:
“(…). Mas, por norma, asseguram o seu autocuidado e muitas vezes preferem ser os próprios a cuidar de si, sem auxílio, pois gostam e fazem questão de ser independentes.” (entrevista 2)
“No início principalmente, ou seja, na fase aguda, está afetada, depois, começa a melhorar, após a atuação da terapêutica. Contudo é um doente que necessita sempre de incentivo.” (entrevista 5)
Mas, é então conclusivo que muitos destes doentes apresentam prejuízos cognitivos significativos, especialmente em relação à memória, à atenção e ao funcionamento executivo. Esses prejuízos têm inevitavelmente um importante impacto sobre a capacidade funcional do doente e consequentemente na aptidão para a execução das atividades de vida diárias. (Bellack et al., 1999).
Quanto à adesão e gestão do regime terapêutico as opiniões foram coincidentes junto de todos os inquiridos, acreditando que existe uma forte negligência e descuido perante esta realidade, determinante no tratamento e progressão da doença:
“Quando o doente está descompensado, geralmente rejeita a medicação e é necessário recorrer a medicação injetável como alternativa.” (entrevista 2)
“Por norma estes doentes, não reconhecem a doença e arranjam perspicazes subterfúgios para conseguir a omissão da medicação. Isto acontece com mais frequência quando os doentes estão descompensados, mas, quando melhoram, também é comum, pois julgam não necessitar da medicação porque já se sentem bem. (…)” (entrevista 4)
Para acrescer à afirmação anterior, Karow et al. (2007) afirmam que: “a referir que a dificuldade em definir o que é adesão vai ao encontro da própria dificuldade para detetá-la. A capacidade do profissional em identificar a não adesão é bastante limitada e uma percentagem razoável de casos de não adesão ou de adesão parcial passa despercebida pelos profissionais.
Antevendo a tendência para a recaída e o reinternamento destes doentes, fruto do não cumprimento da terapêutica, já Kane (1987) dizia: “na verdade no curso dos tratamentos psiquiátricos, a não adesão tende a ser uma constante entre muitos doentes e as suas consequências, como o agravamento da sintomatologia, podem não ser notadas de imediato.”
Perspetivas de intervenção eficazes desejam-se em prole da melhoria deste problema tão comum junto deste tipo de doentes e que os afeta em todas as esferas da vida, desde o seu desempenho pessoal passando pelo social, emocional, relacional e laboral.
Portanto, a medicação tem que ser eficaz; para tal revela-se crucial dar uma grande importância a uma abordagem familiar e deve-se procurar que a relação terapêutica seja positiva e a menos assimétrica possível. Para a não adesão, sobressai a importância dos efeitos colaterais que devem ser cuidadosamente explorados e tratados. A negação da doença (perda do “insight”) é outro fator que merece especial consideração. Por se tratar de um transtorno crónico cuja evolução pode ser muito modificada com o tratamento, avaliar e garantir uma adesão adequada é fundamental para um tratamento eficaz. (Kane, 2003)
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3.QUE INTERVENÇÕES DE ENFERMAGEM PARA MINIMIZAR A