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CAPÍTULO III REALIDADE EDUCACIONAL BRASILEIRA

3.9 TRANSVERSALIDADE

A discussão a respeito dos Temas Transversais na educação surge de questionamentos, realizados por alguns grupos, politicamente organizados em vários países sobre qual deve ser o papel da escola dentro de uma sociedade plural e globalizada e sobre quais devem ser os conteúdos, abordados nessa escola. Se, por um lado, não se pode cair na leitura ingênua de atribuir à Educação o papel central na reprodução dos valores que interessam às elites, como se a escola fosse a única ou a maior responsável pela preservação da organização dessa sociedade, por outro lado, não podemos negar seu papel institucional e seu potencial de influir significativamente na transformação da sociedade.

Uma das maneiras de influir nesse processo de transformação, sem abrir mão dos conteúdos curriculares tradicionais é por meio da inserção transversal, na estrutura curricular das escolas de temas como saúde, ética, meio ambiente, o respeito às diferenças, os direitos do consumidor, as relações capital-trabalho, a igualdade de oportunidades e a educação de sentimentos.

O país, que mais aprofundou essa proposta até o momento, foi a Espanha. A inclusão de temas transversais, sistematizados em um conjunto de conteúdos, considerados fundamentais para a sociedade, surgiu na reestruturação dos sistema escolar espanhol em 1989, com o objetivo de tentar diminuir a distância, existente entre o desenvolvimento tecnológico e o da cidadania.

As transformações da realidade escolar precisam passar, necessariamente por uma mudança de perspectiva, em que os conteúdos escolares tradicionais deixem de ser encarados como “fim” na Educação. Eles devem ser “meio” para a construção da cidadania e de uma sociedade mais justa. Os conteúdos tradicionais só farão sentido para a sociedade se estiverem integrados em um projeto educacional, que almeje o estabelecimento de relações interpessoais, sociais e éticas de respeito às outras pessoas, à diversidade e ao meio ambiente.(Agenda 21, 1992, Rio de Janeiro)

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No Brasil, os temas transversais propostos pelo MEC nos Parâmetros Curriculares são: Ética, Pluralidade Cultural, Meio Ambiente, Saúde, Orientação Sexual e Trabalho e Consumo.

Segundo NUNES (1999, p. 28):

os critérios para a escolha de temas recorrentes à educação escolar, de acordo com o PCN – Temas Transversais (1998) são: urgência social, que engloba temas que ameaçam a cidadania, a dignidade e a qualidade de vida; abrangência nacional, que inclui a discussão daquilo que é comum ao país e repete-se em diferentes contextos; compreensão da realidade e participação social, para promover uma educação que supere o individualismo e a realidade de classe, educando para o coletivo responsável, emergência do contexto, como é o caso das drogas, trânsito e violência, por exemplo.

A educação escolar é uma prática que tem a função de criar condições para que todos ao alunos desenvolvam suas capacidades e aprendam os conteúdos necessários para construir instrumentos de compreensão da realidade e de participação em relações sociais, políticas e culturais diversificadas e cada vez mais amplas, condições estas fundamentais para o exercício da cidadania na construção de uma sociedade democrática e não excludente. (PCN, MEC, SEF, 1998, p.32).

Todos os temas transversais têm estas características: são temas de abrangência nacional; podem ser compreendidos por crianças na faixa etária proposta; permitem que os alunos desenvolvam a capacidade de se posicionarem perante questões, que interferem na vida coletiva; e podem ser adaptados à realidade das regiões. Da mesma forma, as alternativas, para lidar com tais questões são produzidas pela e na própria sociedade, a cada dia, nas ações de cada um. Para que se possa compreender os problemas ambientais, por exemplo, precisa-se saber coisas que vêm da história, da geografia, da matemática, das ciências físicas, naturais, sociais, etc.

Como se vê, o trabalho com os temas transversais pode ocorrer o tempo todo na escola, seja no momento em que se escolhe os conteúdos a serem trabalhados em determinada turma, seja na definição das atividades que serão propostas na resolução de problemas corriqueiros de convivência, e até na forma como relacionam as pessoas que participam dessa escola.

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os temas transversais voltam-se para o processo de resgate da dignidade e da cidadania e devem ser exercitados, vivenciados para que essa consciência mais ampla permeie o desenvolvimento e a formação do indivíduo que está numa sala de aula e que vai coordenar uma ação muito ampla como adulto, como profissional. Assim a escola passa a ser um ambiente germinador desse cidadão ampliado, que vai ajudar a desenvolver os aspectos aqui sugeridos como temas transversais. Eles são transversais não só na escola – são transversais na vida.

Através desta proposta, o governo aposta na competência das escolas e de seus profissionais na abordagem desses temas, porém cabe ressaltar que a realidade precária, vivida pelos educadores que vai desde o desprestígio social até o

despreparo teórico, causado pela ausência de reflexão, dificuldade de acesso à produção do conhecimento e baixos salários, impede-os de pôr em prática essa mudança tão necessária à educação brasileira.

Segundo NUNES (1999, p. 33):

[...] é prudente salientar que a atual formação dos professores não os habilita a abraçar causa de tal magnitude. Antes disso, é fundamental que os setores responsáveis pela elaboração de políticas públicas educacionais, despendam esforço de igual teor no sentido de viabilizarem a capacitação de professores em serviços, sendo necessário discutir a própria concepção de capacitação, tanto em relação aos conteúdos como à forma de realização, devido ao grande número de profissionais envolvidos.

Sendo assim, nota-se que de nada adianta a boa intenção governamental no que se refere à formação de cidadãos mais conscientes e participativos na sociedade, se não forem disponibilizados aos profissionais que irão colocar em prática essa mudança, cursos de capacitação. Porque os professores em exercício não tiveram uma formação adequada para que transformem a escola em espaço de aprendizagem da cidadania, e se constitua em agente de transformação.

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