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6. Estudo de caso

6.3 Tratamento contabilístico

Neste ponto vamos tentar explicar de uma forma simples o que acontece na contabilidade da empresa se decidirmos aplicar, aos ajustamentos de justo valor, o normativo NCRF 27 em detrimento da IAS 39 e vice-versa. Os cenários vão ser deixados agora um pouco de parte, uma vez que não apresentam diferenças quanto ao tratamento contabilístico que dão às participações que os compõem, variando apenas significativamente nos saldos que apresentam por não representarem a mesma carteira de títulos.

Para os exemplos seguintes, as participações foram escolhidas consoante o tipo de movimentos contabilísticos que originaram, independentemente de fazerem parte do cenário 1 ou do cenário 2, com o objetivo de que seja abrangida toda a modalidade contabilística que possa ocorrer.

A contabilidade ao estar organizada segundo o método das partidas dobradas obriga a que por cada transação sejam efetuados pelo menos dois movimentos na contabilidade. Assim sendo, e no caso particular das participações financeiras inferiores a 5% podemos ter:

i) Participação na Corticeira Amorim - Comum a ambos os cenários, relativo ao ano de 2010.

Lançamento Conta Valor Descrição

Lançamento 1 12 -8.550 Crédito Custo Aquisição Corticeira Amorim Lançamento 1 1421 8.550 Débito Custo Aquisição Corticeira Amorim Lançamento 2 1421 2.470 Débito Aumento Justo Valor 2010 Lançamento 2 5721 2.470 Crédito Aumento Justo Valor 2010 Lançamento 3 1421 2.470 Débito Aumento Justo Valor 2010 Lançamento 3 771 2.470 Crédito Aumento Justo Valor 2010

IAS 39

50 Como pode ser observado no esquema, para o ano de 2010 são necessários dois lançamentos distintos na contabilidade. Um lançamento inicial que reflete a compra das ações, aumentando assim a participação nesse montante por contrapartida de saída de dinheiro. E outro lançamento no final do ano que tem como missão reajustar o valor da participação em causa. Porque o ajustamento é positivo, o montante é colocado a débito na conta do ativo “1421 – Instrumentos financeiros detidos para negociação”, aumentando assim a participação para um valor de Euros 11 020. A contrapartida depende agora, do normativo que estiver a ser aplicado. Se utilizarmos as IAS/IFRS, e ao considerarmos que toda a carteira de ações ao abrigo da IAS 39 se inclui na categoria de detidos para negociação, a contrapartida passa pela utilização de uma conta de capital próprio, a “5721 – Ajustamentos em ativos financeiros” (Justo Valor) que por ter natureza credora e estarmos perante um aumento de Euros 2 470, é creditada. Por outro lado se usarmos a norma do SNC, NCRF 27, a contrapartida passa por resultados. No caso de o ajustamento ser positivo é incluído a crédito na conta “771 – Ganhos por aumento de justo valor em instrumentos financeiros”, e no caso de ser negativo a débito na conta “661 – Perdas por redução de justo valor em instrumentos financeiros”.

Ainda que sejam descritos como aplicação da IAS 39 e da NCRF 27, como referido no capítulo 1 do presente trabalho, os normativos têm de ser aplicados na íntegra, o que significa que quando se aplica a IAS 39 estão a ser aplicadas todas as IAS/IFRS e quando se aplica a NCRF 27 está a ser aplicado todo o normativo português.

ii) Participação no Espirito Santo Financial Group – Cenários 1, relativo ao ano de 2010.

Por opção estratégica, a participação pode ser registada na conta de investimentos financeiros, como referido anteriormente. O comportamento a ter no momento da compra é similar ao dos instrumentos financeiros (exemplo da Corticeira Amorim), com a diferença de que em vez de se debitar a conta “1421 - Instrumentos financeiros detidos

Lançamento Conta Valor Descrição

Lançamento 1 12 -10.000.000 Crédito Custo Aquisição ESFG Lançamento 1 4141 -10.000.000 Débito Custo Aquisição ESFG Lançamento 2 4141 -440.830 Crédito Perda Justo Valor 2010 Lançamento 2 5721 -440.830 Débito Perda Justo Valor 2010 Lançamento 3 4141 -440.830 Crédito Perda Justo Valor 2010 Lançamento 3 662 440.830 Débito Perda Justo Valor 2010

IAS 39

51 para negociação”, debita-se a conta “414 – Investimentos noutras empresas”. Este facto não altera a classificação como instrumentos financeiros detidos para venda da IAS 39, quando aplicadas as IAS/IFRS.

Findo o exercício de 2010, e visto que o ajustamento tem sinal contrário ao do exemplo anterior, será lançado de forma inversa. Ou seja, a crédito na conta “414 – Investimentos noutras empresas”, por diminuir o valor da participação no ESFG. A contrapartida depende, uma vez mais, do normativo que se estiver a utilizar. Caso se aplique a IAS 39, a conta “5721 – Ajustamentos em ativos financeiros” (Justo Valor) é debitada porque para além de ter natureza credora, estamos perante um ajustamento negativo. Se, pelo contrário, se aplicar a NCRF 27, a conta “662 – Perdas por redução de justo valor em investimentos financeiros” aumentará.

A lógica previamente apresentada foi aplicada no tratamento de todas as participações quer do cenário 1 quer do cenário 2. A ideia introduzida no início deste subtópico quanto à diferença entre os cenários ser abordada com uma maior profundidade a nível fiscal e não a nível contabilístico mantém-se. De seguida, a análise de parte das demonstrações financeiras será realizada apenas para o cenário 1, embora se encontre em anexo também para o cenário 2, pela replicação de conclusões.

Depois de uma análise cuidada do quadro de diferenças entre o SNC e as IAS/IFRS construído no capítulo 2, concluímos que neste caso de estudo em específico, as únicas diferenças entre a aplicação das IAS/IFRS e do SNC são as participações financeiras inferiores a 5% dado que as restantes não se aplicam nesta realidade empresarial. Por esta ordem de ideias nas demonstrações financeiras apresentadas em seguida só serão percebidas diferenças entre os normativos a este nível.

52 As rubricas de “Participações financeiras – outros métodos”, “Ativos financeiros detidos para negociação”, e “Caixa e depósitos bancários” não apresentam alterações entre normativos como seria espectável. De facto, apenas nos lançamentos de contrapartida dos ajustamentos de justo valor é que as diferenças entre normativos se fazem notar.

Já a rubrica de “Ajustamentos em ativos financeiros” que engloba todas as contas 57 apresenta uma variação bastante significativa entre normativos, quer para o exercício de 2010 quer para o de 2011. De igual forma, a rubrica “Aumentos/reduções de justo valor” apresenta discrepâncias entre os normativos, sendo formada pelas contas 66 e 77.

Cenário 1

2011 2010 2011 2010

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