2.3. Dificuldades na aprendizagem da escrita
3.3.4. Tratamento de dados
Os dados recolhidos, a que já nos referimos, foram objeto de dois tipos de análise: quantitativa e qualitativa.
Em cada um dos textos contabilizou-se o número total de erros de cada uma das variáveis, definidas a partir das unidades temáticas, e elaboraram-se tabelas. Seguidamente, os dados recolhidos foram também objeto de uma análise qualitativa, tendo como objetivo complementar e esclarecer, tanto quanto possível, a análise quantitativa.
Cruzamos o meio familiar com cada uma das unidades temáticas e repetimos o mesmo processo em relação às quatro turmas.
A idade dos alunos é uma variável constante em todo o grupo amostral, todos têm 10 anos.
O meio ambiente é que varia, sendo esta a nossa variável dependente, que foi alvo de estudo, como a sua influência na produção escrita.
23 As incorreções ortográficas têm sido objeto de análise em numerosos estudos e propostas. Enunciamos os seguintes: Mateus (1962), Pinto (1998), Gomes (1987, 1989), Pereira (1995), Rio- Torto (1998), Zorzi (2003). As várias definições destes autores foram revistas na vertente teórica deste trabalho.
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3.3.5- Análise e interpretação de dados
Apresentamos os resultados do estudo que foi descrito, atendendo a cada uma das suas variáveis.
Unidade temática – Vocabulário
Gráfico 22-Vocabulário
Verificou-se que a turma D utiliza um vocabulário muito mais diversificado. Utiliza o vocabulário da história, mas altera-o, introduzindo vocábulos próprios de uma linguagem mais culta. Nota-se que este grupo tem hábitos de leitura e vive em meios culturalmente favorecidos. Na caracterização das personagens utilizaram termos como assombro, espirituosa, jovial,
risonha, farsante, galhofeiro, airosa, gentil, afável, aprazível, polida, amigável. Quando se
referiam ao espaço onde decorre a narrativa, utilizaram brisa, ameno, ténue, brando, aragem. Os outros grupos limitaram-se a utilizar o vocabulário que tinham retido da história.
O grupo da turma A (este grupo a nível sócio-económico e cultural também é um grupo muito favorecido) não utilizou um vocabulário tão elaborado como o da turma D; no entanto, também diversificou o seu vocabulário, não se limitando apenas ao vocabulário da história ouvida.
Os outros dois grupos restringiram-se ao vocabulário específico da história, não o utilizaram todo e, em alguns casos, fizeram-no inadequadamente.
Gráfico 23 – Vocabulário- Total das turmas
Pelo gráfico circular, podemos concluir que predominou nesta amostra um tipo de vocabulário muito diversificado (42,25%), mais saliente nas turma D e A. A turma D pertence ao
colégio da “Rainha Santa” em Coimbra, a turma A pertence à escola privada “Escola Regional Dr. José Dinis da Fonseca” na localidade da Cerdeira.
Em contrapartida, verificou-se que a turma G, de Vila Nova de Tazem, apresenta um vocabulário diversificado, muito próximo do pouco diversificado. Este último é mais relevante na turma C (Gouveia), em que os alunos utilizaram um vocabulário mais pobre, e nem sempre utilizavam o vocabulário específico da história.
Unidade temática- Ocorrências de informação no desenvolvimento do tema
No desenvolvimento do tema, constata-se pelo gráfico n.º24 que as turmas A e D foram as que apresentaram menos irregularidades e respeitaram a ordem da narrativa: introdução, com apresentação das personagens; identificação do espaço e do tempo; desenvolvimento da ação, relatando os acontecimentos da história; e conclusão.
Gráfico 24 - Ocorrências de informação no desenvolvimento do tema.
No entanto, na turma A, alguns alunos utilizaram o diálogo para recontarem a história, não utilizaram a 3.ª pessoa, como é exigido num reconto.
Nas turmas A e D verificaram-se algumas omissões, mais notórias na turma A. Nota-se que, na globalidade, as ocorrências menos notadas foram a repetição de ideias. Deve-se salientar que estes grupos tiveram como suporte um plano estruturado da história.
Gráfico 25-Ocorrências de informação no desenvolvimento do tema em termos percentuais. Tendo como referência a análise do gráfico n.º25, em termos percentuais, 39,44% do grupo amostral não apresenta irregularidades na informação.
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Quanto à pontuação, pelo gráfico n.º26 podemos observar que as maiores falhas sentidas foram na utilização correta da vírgula. Devemos notar que não foi pedido a estes alunos uma tarefa de autocorreção (revisão textual), através da qual estas falhas talvez tivessem sido minimizadas.
Notou-se que, em algumas produções escritas, a utilização da vírgula acontece muitas vezes por exclusão de partes, e não por os alunos terem consciência da necessidade do seu uso, porque nem sempre é utilizada corretamente.
Gráfico n.º26- Ocorrência do uso correto da vírgula.
Concluiu-se que a turma que apresenta menos irregularidades é a turma D. O uso da vírgula separando ações coordenadas e complementos circunstanciais é onde se notam menos falhas, enquanto na utilização do aposto apenas uma pequena parte dos alunos a aplica adequadamente. Como nas outras unidades temáticas, a turma D continua apresentar resultados excelentes.
Gráfico n.º27- Ocorrência do uso correto da vírgula em termos percentuais.
Podemos inferir que, de uma forma global, o grupo amostral aplica a vírgula de forma percentual idêntica nos três itens observados. Apenas 22,54% é que a utiliza de forma incorreta.
Unidade temática - Incorreções por falhas de transcrição entre o sistema fonológico
e o sistema ortográfico.
A passagem da forma fonológica para a forma ortográfica (transcrição ou representação da forma fonológica por meio da escrita de uma língua) exige que se domine ambos os sistemas, o sistema fonológico e o sistema ortográfico. As incorreções que surgem podem ser devidas ao processamento dos fonemas (segmentação, identificação e ordenação) ou à utilização de grafemas que não representem o som em causa. Por exemplo: peto em vez de perto, peda em vez de pedra,
Gráfico 28- Incorreções por falhas de transcrição entre o sistema fonológico e o sistema ortográfico.
Neste grupo amostral estas incorreções não são muito patentes, sendo mais visíveis na turma C.
Gráfico n.º29- Incorreções por falhas de transcrição entre o sistema fonológico e o sistema ortográfico em termos percentuais.
Perante os valores apresentados neste gráfico, na globalidade da amostra, 49,3% dos alunos não apresenta incorreções.
Unidade temática- Incorreções por transcrição da oralidade.
Neste caso, o aluno revela capacidades de transcrever, mas transcreve as formas que usa na oralidade corrente, as quais se afastam muitas vezes da norma ortográfica, por exemplo, pode escrever auga por água, ronião por reunião, expriência por experiência. É habitual utilizar-se a expressão “escreve como fala”, pois estas incorreções, provenientes de grupos dialetais ou socioletais, são características da oralidade corrente. Notam-se nesta área mais irregularidades na turma C, talvez devido a incorreções provenientes de grupos dialetais (crianças de etnia cigana).
Deve-se salientar o que acontece na turma D, pois a exigência da utilização de um registo cuidado do vocabulário constitui também uma referência para a ortografia.
Nos outros dois grupos não há diferenças significativas, na turma A nota-se que há menos incorreções do que na turma C, em que esta ocorrência é frequente.
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Gráfico n.º30- Incorreções por transcrição da oralidade.
Gráfico 31- Incorreções por transcrição da oralidade em termos percentuais
No geral, pelo gráfico n.º31, podemos verificar que, 42,25% da amostra não apresentam incorreções; no entanto, 26,76% apresentam estas incorreções com muita frequência.
Unidade temática- Incorreções por inobservância das regras ortográficas de base
fonológica.
Aqui estão representadas algumas regras ortográficas que podem ter na sua base aspetos contextuais, ou seja, relativos à combinação com outros sons (letras) que precedem ou seguem, ou acentuais, relativos fundamentalmente à posição tónica ou átona em que se encontram.
Por exemplo, a utilização do som [k] por (qu), e do som [g] quando a seguir se encontram as vogais (e) ou (i); a regra do som [r] e [s] pelo dígrafo (rr), (ss); a utilização do [m] para nasalar a vogal, antes de (p) ou (b); a regra da utilização de escrita com (x) para o som [∑], a seguir aos ditongos ai, ei, oi (caixa, queixo, rouxinol); a regra da escrita com (am) ou com (ão), nas terminações verbais da terceira pessoa do plural.
na turma C. A turma D é a que apresenta menos ocorrências.
Gráfico- N.º 33- Incorreções por inobservância das regras ortográficas de base fonológica em termos percentuais.
Na totalidade da amostra, 39,44% não apresenta incorreções, enquanto que em 35,21% é frequente e em 25,35% é muito frequente.
Unidade temática - Incorreções por inobservância de regras de base morfológica. As regularidades da representação dos morfemas podem contribuir para a aprendizagem da ortografia. Complementando a informação fonológica com a informação morfológica, os alunos poderão selecionar a forma ortográfica correta para escrever a palavra, se tiverem associada uma determinada forma ortográfica ao morfema em causa.Tomemos alguns exemplos de casos em que as incorreções ortográficas dos alunos podem beneficiar da mobilização da informação morfológica:
-Masculino: Um dos casos com que os alunos se deparam desde muito cedo, devido à sua frequência, corresponde à escrita do morfema /o/, foneticamente [u], mas representado na grafia por ‹o› ( o gato, o coelho, o muro, etc);
- Primeira pessoa do singular do presente do indicativo: compro/compru, foneticamente [u] é representado por <o>;
-Primeira pessoa do singular do pretérito perfeito dos verbos da 1.ª conjugação: Poderá ocorrer confusão na pronúncia da terminação <ei>, comprai/ comprei, fico/ ficou, etc;
- Terceira pessoa do singular do pretérito perfeito dos verbos da 1.ª conjugação: Confusão na terminação <ou>, que pode corresponder à pronúncia [o], sem ditongo, compro/comprou,
fico/ficou, etc;
-Primeira pessoa do plural- Esta incorreção consiste na grafia com <u>, em vez de <o>,
vamus/vamos, fomus/fomos;
Terceira pessoa do plural- É uma das incorreções mais comuns e difíceis de se combater, a troca entre o <am>/ <ão>, ou seja, entre as formas do pretérito perfeito do indicativo( falaram,
jogaram) e as do futuro do indicativo( falarão, jogarão);
Terceira pessoa do singular do pretérito imperfeito do conjuntivo- neste grupo encontram-se as terminações <asse>, <esse>,<isse>. Verifica-se com uma ocorrência muito frequente, a troca
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entre comprasse/ compra-se; comesse/ come-se; partisse/ parti-se. Este problema surge entre a forma do imperfeito do conjuntivo e a forma pronominal do presente do indicativo.
Gráfico- N.º34- Incorreções por inobservância de regras de base morfológica.
Talvez devido à associação da informação morfológica à ortografia, que permite resolver algumas dúvidas quanto à representação dos sons, nesta categoria não se notaram muitas ocorrências em nenhum grupo, sendo mais frequente na turma C.
Gráfico-N.º35- Incorreções por inobservância de regras de base morfológica em termos percentuais.
Em termos gerais foi a incorreção menos observada, sendo que 70,47 % da amostra não apresenta dificuldades. Posso afirmar, baseando-me na minha experiência profissional, que é uma das ocorrências mais reforçadas no ensino básico.
Unidade temática- Incorreções quanto à forma ortográfica específica das palavras.
Há muitos casos em que não é possível recorrer a uma regra para decidir qual a grafia da palavra. Nesses casos, a forma ortográfica da palavra em causa deve ser aprendida por si, ou seja, por via direta ou lexical, de forma a ser fixada e passar a fazer parte do léxico ortográfico do aluno.
Gráfico- N.º36- Incorreções quanto à forma ortográfica específica das palavras
Nesta unidade temática verificou-se que as turmas C e G continuam apresentar muitas incorreções, contrastando com a turma D e A.
Gráfico-N.º37-Incorreções quanto à forma ortográfica específica das palavras em termos percentuais.
Na globalidade da amostra, 52,11% não apresenta incorreções, enquanto que em 21,13% é muito frequente.
Unidade temática- Incorreções ao nível da acentuação gráfica.
Os alunos tendem a desvalorizar a acentuação gráfica ou colocam o acento (agudo/ grave) de forma indistinguível.
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Gráfico- N.º38- Incorreções ao nível da acentuação gráfica
O nível de incorreções é idêntico ao verificado nas outras temáticas. As turmas C e G apresentam um nível de incorreções mais acentuado.
Gráfico- N.º39- Incorreções ao nível da acentuação gráfica em termos percentuais.
Tendo em atenção as irregularidades sentidas no terreno nesta temática, 42,25% não apresentaram incorreções, contudo, em 28,17% é muito frequente.
Unidade temática-Incorreções por inobservância da unidade gráfica da palavra. Quando falamos, dizemos as palavras por grupos, de maior ou menor extensão, sem efetuar uma pausa entre cada uma delas. Pelo contrário, na escrita, as palavras constituem uma unidade visual autónoma, pois estão separadas entre si por espaços em branco. A transcrição da oralidade para a escrita não é, por conseguinte, automática. Como exemplo, mencionamos as seguintes palavras: porisso/ por isso, asseguir/ a seguir; derrepente/de repente, de pois/depois,
de vagar/ devagar.
Além deste aspeto, há o facto de o sistema ortográfico do Português incluir a utilização do hífen, como acontece em palavras compostas, em palavras derivadas com determinados prefixos e na conjugação pronominal.
Gráfico- n.º40- Incorreções por inobservância da unidade gráfica da palavra.
Nesta unidade temática há uma certa igualdade entre as turmas, podemos verificar pelo gráfico de barras n.º 40, que os valores respeitantes à turma D, no aspeto considerado raro são mais relevantes.
Gráfico- n.º41- Incorreções por inobservância da unidade gráfica da palavra em termos percentuais.
Em termos percentuais, os valores apresentados do frequente (35,21%) e do raro (36,62%) têm valores aproximados.