Para avaliação de mudanças na formação e no desempenho dos estudantes foram utilizadas três formas de coleta de dados: a primeira foi a partir do ―diário de campo‖ (registro sistemático das observações) dos apoiadores responsáveis por cada turma. A segunda forma de coleta de dados se dá pela análise de alguns dos Projetos Terapêuticos e Projetos de Intervenção apresentados pelos estudantes.
A terceira forma de coleta de dados foi composta de dois momentos de avaliação coletiva (metodologia adaptada de grupo focal) para cada uma das turmas. O primeiro momento de avaliação coletiva aconteceu em dezembro de 2009 (dez. 09) (com nove meses de curso) e o segundo momento foi em novembro de 2010 (nov.10) (com dezesseis meses de curso). Para tal avaliação utilizamos o roteiro (ANEXO-C) construído de forma coletiva conforme os objetivos do projeto.
A escolha de fazer um roteiro único, também atendia a possibilidade de ampliarmos o banco de dados do grupo.
Esta pesquisa foi uma das desenvolvida pelo Grupo de Pesquisa Coletivo de Estudos e Apoio Paidéia que já vinha trabalhando com o Método Paidéia e a Avaliação Participativa na formação de trabalhadores em clínica ampliada e compartilhada. Dois outros pesquisadores estavam envolvidos em dois outros cursos que seguiam a mesma Metodologia.
Foi previsto uma primeira rodada dos grupos focais de avaliação simultaneamente em unidades e pesquisadores diferentes, sem a presença dos apoiadores, coerentemente com que é recomendado pela literatura. No entanto, nesta pesquisa, um imprevisto, tornou necessária minha participação como observadora nos dois grupos focais realizados em dezembro de 2009.
A literatura mostra o uso dos grupos focais como uma técnica que favorece e aperfeiçoa o processo nas pesquisas. Normalmente, eles são compostos com pessoas que têm algumas características em comum, alguma aproximação com o tema
76 abordado e que preferencialmente não possuam vínculos prévios. No nosso caso, o grupo focal foi composto com todos os estudantes de cada turma, havendo, portanto vínculo prévio entre eles.
O grupo Focal vem sendo amplamente utilizada nas áreas da saúde e educação para a captação de dados e para a avaliação de programas e serviços, mostrando-se pertinente em processos de avaliação participativa (22). O grupo focal consiste de sessões entre pessoas que compartilham traços comuns, com o objetivo de obter informações a partir de discussões planejadas que facilitam a expressão de características psicossociológicas e culturais. Permite verificar de que modo as pessoas avaliam uma experiência, como definem um problema e como suas opiniões, sentimentos e representações encontram-se associados a determinado fenômeno, além de possibilitar a observação dos diferentes graus de consensos e dissensos existentes (23, 24).
O grupo focal permitiu aos participantes escaparem de respostas do tipo ―sim ou não‖, ―concordo ou discordo‖, o diálogo grupal, gerando uma conversa consigo mesmo e com os demais, permitiu que surgissem elementos para a elucidação de problemas que, de outra forma, não seriam considerados. Mantendo uma correspondência com o Método Paidéia, os grupos focais possibilitaram ainda a emergência de conflitos e pontos de estrangulamento que abriram espaço para um redirecionamento das atividades educativas em direção da autonomia e corresponsabilidade que eventualmente uma avaliação tradicional não permitiria (23).
Nos nossos grupos o proposto foi que os estudantes discutissem sua percepção a respeito dos efeitos produzidos pelos encontros grupais nas práticas profissionais, as potenciais mudanças no enfoque do tratamento oferecido aos usuários e a relação com os profissionais das equipes, assim como as possíveis repercussões dessas mudanças no cotidiano dos serviços.
Consideramos que a amostra de dois grupos focais para cada Turma subsidiou as informações necessárias para contemplar os objetivos deste estudo, refletindo as diferentes percepções sobre as repercussões produzidas pelo curso na forma de abordagem das questões de gestão e psicossociais na prática clínica dos profissionais. Para trabalhar com o material produzido em campo, foi utilizada a construção de
77 narrativas, onde as mesmas são entendidas como histórias (ainda) não narradas, mas que podem ser contadas porque já estão inseridas no mundo pelo agir social e estão simbolicamente mediatizadas. Ao utilizar a narrativa como modo de interpretação, pretendiamos fazer emergir, dos emaranhados dos dados e informações produzidas, um sentido para as histórias vividas, mas ainda não narradas.
Onocko-Campos e Furtado (25, 26) discutem o caráter de mediação das narrativas, pensando-as a partir de várias correntes como a crítica literária, a historiografia, a comunicação e a psicanálise. A narrativa, para os autores, seria um recurso apropriado para realizar mediações entre o que se diz e o que se faz (discurso e ação), entre acontecimentos (eventos ocasionais) e questões estruturadas, entre os sujeitos individuais e os coletivos, entre memória e ação política.
Os autores ainda apontam que o recurso da narrativa na pesquisa qualitativa torna-se mais potente quanto mais explorarmos sua capacidade como dispositivo poroso de comunicação, construindo olhares narrativos junto aos sujeitos da pesquisa, envolvendo a eles próprios em várias retomadas de sua própria narração, e propiciando que cada grupo tenha contato com as narrações de outros grupos.
Uma vez realizado o primeiro grupo com cada turma, o caminho foi colocar a mão na massa, transcrever a falas e dar um ao tratamento respeitando os critérios acima referidos.
Esta foi a hora de respirar fundo antes de seguir em frente.
Entre a execução dos grupos focais e a construção e compartilhamento das narrativas, aconteceu um período de estudos aprofundado no grupo de pesquisa sobre o entendimento dos grupos focais, como construir as narrativas e como torná-las efetivamente um recurso de coautoria com os sujeitos da pesquisa. Este momento foi fundamental e se mostrou produtivo, a ponto de transformar os grupos focais em uma das etapas do próprio curso e influenciando na própria intervenção.
Acredito que o meu alto grau de implicação na pesquisa, levou-me a um conjunto de tarefas intensas: além de ter participado de forma acidental como observadora nos grupos da Turma A e Turma B do CRR, optei por fazer a transcrição dos grupos. Árduo trabalho, mas que mostrou a potência da discussão grupal, e como o grupo se movimentou em direção não só a fazer uma reflexão, mas de gerar ações e que
78 puderam ser visualizadas nos encontros seguintes, antes mesmo das transcrições estarem terminadas. Mais adiante ampliarei este comentário.
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